O carro estava escuro e gelado. A chuva há muito havia ido embora, deixando seus rastros nas estradas. Ronan se rendeu ao sono, mas diferente de outras vezes, estava calmo. Adam, Gansey e Noah passaram a maior parte do tempo conversando. As perguntas oscilavam entre “o que encontrarão” e “quem encontrarão”. Adam não tinha certeza se a viagem tinha sido uma boa ideia. Noah, embora quieto, compartilhava esse pensamento. Gansey não ignorou a opinião deles, era educado demais para isso, mas estava nervoso. Blue entendia, não poderia acontecer outra frustração. Tantos anos atrás de Glendower tinham de levar a algo.

A pergunta permanecia: o que pediriam? Adam, Noah e Blue queriam a mesma coisa: salvar Gansey. Ronan não sabia, este segredo estava a salvo dele. Blue temia o momento que o garoto descobrisse. O que aconteceria? Quem sairia ferido?

Noah começou a desaparecer. Ninguém se surpreendeu. Para onde eles estavam indo as linhas não os seguiam, tinham seu próprio percurso. E o caminho deles era logo. Ainda tinha muito asfalto pela frente.

Adam juntou-se a Ronan e dormiu no banco de trás do carro, agora livre de Noah.

Blue não conseguia dormir. Como poderia? Gansey estava ali e ela só conseguia pensar na noite anterior. Nada aconteceu. Não poderia. Mas o que ele disse estava ecoando em seus pensamentos. Ela não poderia se apaixonar por ele, mas não saberia dizer se já estava apaixonada.

Ele não disse nada o resto do trajeto. Estava silencioso. A manhã estava distante ainda, apenas aguardando para amanhecer os garotos no banco de trás.

— Sobre o que aconteceu ontem... — Blue começou a dizer, mas logo se interrompeu quando viu os olhos de Gansey. Pareciam implorar para ela não continuar.

— Nós não precisamos falar sobre isso. — Blue não escondeu a irritação. Ela odiava a ideia de ser a única pensando nisso. — Jane, não podemos. — Gansey não conseguia encará-la, seus olhos não desviavam da estrada escura. Blue não sabia se ele estava sendo cuidadoso por causa de Adam ou porque estava com medo.

Blue olhou para trás. Adam estava encostado no ombro de Ronan, que estava escorado na porta. Eles não escutariam e nem se importariam com o que estava sendo dito ali, mas, mesmo assim, Gansey não disse mais nada. Blue continuou olhando para a frente e prestando atenção nos sinais.

Eles pararam em um sinal vermelho e Gansey finalmente teve a coragem de olhá-la. Blue não desviou os olhos, podia notar que ele também estava pensando a mesma coisa: aquele quarto de hotel. Aquelas palavras, ditas com tanta veemência e contrastando com o silêncio frio naquele carro. Seus olhos, entretanto, eram calorosos. Sim, ele também sentia aquilo, mas era simples: não poderia acontecer.

Ela sabia: o mataria. Mas em vários momentos se pegava pensando em alguma brecha em tudo isso. “Será que o mataria se eu não o amasse?” ou “será que o mataria se ele me beijasse?”. Nenhuma dessas considerações pareciam fazer sentido, ela sabia que estava se apaixonando. Não queria, mas parecia impossível fugir disso. Se perguntava todos os dias o porquê de ter o visto naquele dia de abril. Aquele dia caótico de abril. Quando tudo começou. E a resposta parecia a assombrar cada dia mais: você vai matá-lo, pois ele é seu verdadeiro amor. Blue não fugiu, estava decidida em fazer seu próprio destino, mas tinha de poupar a vida dele. Ele não merecia aquilo. “Garotos como ele não morrem”.

Blue sentia-se confortável em Henrietta. Sentia-se bem, mas ali, naquele carro com Gansey, sentia-se em casa. Parecia que todo aquele tempo de sua vida se resumia aos momentos em que os dois estavam juntos, seja em alguma busca ou apenas um do lado do outro, em silêncio.