Badlands

11 Control


Cabeswater os mandou até lá. Além de tudo que Gansey tinha lhes mostrando o caminho, Adam foi quem disse para aquilo acontecer, e mesmo tendo dúvidas, ele sabia que era o que Gansey queria: encontrar o rei e fazer o pedido. O pedido que o assustava tanto, pois Adam queria salvar Richard Gansey da morte. Aquela imagem o perseguia, “e se eu for o culpado?”, ele se perguntava todos os dias.

Adam conseguia observar Gansey pelo retrovisor, ele mantinha uma expressão séria e os olhos na estrada. Ele faria qualquer coisa por Gansey. Por qualquer um naquele carro, e ele sabia que era recíproco. De todos. Ele esperava não chegar a esse ponto. Afinal, ele e Cabeswater dividiam o mesmo lugar.

Mas ele era maior que isso, muito maior. Mais forte que os demônios que invadiam sua cabeça. Maior que aquele corpo, que há tanto tempo parecia tão pequeno para um rapaz habitar. Maior que aquele quarto pequeno improvisado na St. Agnes. O carro estava abafado, mas ele estava gelado.

Ele não podia fazer Cabeswater ficar quieto, e talvez ele nem quisesse, apreciava a ideia da segurança, mas queria conseguir manter a todos seguros.
Os barulhos no carro não pareciam incomodar ninguém a não ser ele, mas ele sentia que estava seguro. Blue adormecera no banco da frente, Noah estava estranhamente quieto – quase como se não estivesse ali, mas o que denunciava sua presença era sua respiração lenta e desnecessária -, e Ronan ficava pedindo para Gansey colocar alguma música. “Não suporto esse silêncio”, ouviu o garoto rosnar do seu lado no carro, mas não protestou mais quando Gansey educadamente o ignorou.

Isso irritava Adam. O quanto Gansey era educado. E ele tinha motivos para ser assim. Se perguntava se ele só estava ali porque Gansey não conseguia mandar ele ir embora. Seria muita falta de educação da parte de Richard Campbell Gansey III.

Gansey olhou pelo retrovisor e Adam estava o observando, mas sua mente parecia longe. Lembrou-se de quando estavam na Aglionby e Adam estava envolvido em um círculo puro e perfeito, livre de qualquer dano, enquanto tudo a sua volta parecia uma bagunça. Um desastre. Mas ele estava livre daquele desastre. Ele fez o desastre. Gansey às vezes pensava que Adam poderia ter se transformado nesse desastre.

Adam era uma criatura maravilhosa. Mas também muito assustadora. Ele o protegeria de tudo, é claro. Mesmo com as mudanças do garoto, ele moveria mundos para vê-lo feliz. Adam tinha o tipo de sorriso que contagiava a todos, mas ele não sorria muito.

Não via tantos motivos.

Lembrou-se da briga que tiveram. Do quanto foi angustiante para Gansey não saber o que fazer e ele prometeu a si mesmo não encarar mais uma briga com Adam. Tinha medo do garoto sentir que não podia mais confiar nele.

Em um determinado momento da viagem Gansey disse que estava exausto.

— Talvez seja melhor pararmos um pouco. — Ele disse, parando em um acostamento.

— Quanto ainda falta? — Noah perguntou. Quem ouvisse até pensaria que ele havia passado a viagem toda presente e estava tão exausto quanto os outros.

— Ainda falta. — Adam murmurou. Não estava cansado, mas sabia que Gansey precisava descansar. Pig não aguentaria mais tanto tempo, ele sentia, mas não quis dizer a ninguém. Sem motivos para criar mais transtorno e confusão.

— Eu estou com fome. — Ronan disse, saindo do carro para alongar as pernas. Adam o encarou. Ele parecia tão grande. Como ele cabia em qualquer carro? E ainda parecia tão confortável em qualquer lugar. Adam mal conseguia se sentir confortável na própria pele.

— Acho que podemos descansar em algum hotel depois do almoço. — Blue sugeriu. Todos estavam fora do carro, apenas observando enquanto outros carros invadiam a estrada que antes pertencia apenas a eles.

Alguns com pressa, como se estivessem atrás de algum rei em algum lugar naquela cidade pequena. Nem sabiam onde estavam, só sabiam para onde iriam.

E mesmo isso parecia um mistério. Sim, eles sabiam o destino. Mas o que encontrariam lá era o segredo. A dúvida. A busca.

E Adam Parrish estava cansado de tantos segredos. Estava exausto dessa busca, mas sabia que só seria feliz de verdade quando tudo aquilo acabasse.

Ele queria dizer “vamos logo, o destino nos espera”, mas ele sabia que ninguém ouviria. Nem mesmo Blue, que estava atrás do seu próprio destino.
Tinha medo, na verdade, que o ouvissem.

Quem não escutaria o garoto com a floresta dentro de si? Quem duvidaria do garoto que fez a barganha?

Ele queria continuar. Queria chegar ao destino e finalmente salvar Gansey. E todos eles. Mas, ainda assim, algo maior que ele não deixaria. E ele sabia, mesmo querendo ser teimoso e negar, que era melhor ouvir o lado sábio de dentro dele. O lado que não errava.

Adam reparou em todos ali. Ronan estava encostado no carro. Gansey, com seus óculos, analisava algum mapa no capô do carro. Blue estava encostada no outro lado do carro, mais perto de Gansey. Noah estava ali, mas Adam não conseguia vê-lo.

Ronan e Blue achavam que eram duas faces da mesma moeda, mas para Adam, que os via de longe, eles pareciam a mesma face da moeda. Os dois eram tão parecidos e talvez esse era o motivo de não conseguirem se dar bem. Ronan olhou para Adam e ele sentiu sua face corar. Eles iriam para outro hotel novamente? Não sabia mais do que eles estavam falando, estava perdido em pensamentos, então não ouviu o que havia sido decidido.

— O que faremos? — Resolveu perguntar, para enfim desviar os olhos de Ronan.

— Podemos dormir por algumas quatro horas e pegar a estrada logo depois. — Gansey disse, não tirando os olhos do mapa e anotando algumas coisas no seu caderno de bolso. — Mas temos, com sorte, um dia e meio de viagem.

— E sem sorte? — Noah perguntou, reaparecendo perto de Adam, que se assustou com o garoto.

— Dois dias e algumas horas. — Gansey ajeitou os óculos e encarou os quatro. — Eu tenho um bom pressentimento quanto a isso. — Ele disse, mas não parecia tão convencido quanto gostaria.

Eles estavam viajando há quanto tempo? E quando pareceu que a viagem não faria sentido?

E mesmo assim Gansey não se abalava com as incertezas que circulavam na cabeça de todos. Era impossível dizer o que se passava na mente de cada um deles naquele momento. Nem mesmo Adam sabia o que estava pensando. Algumas vozes diziam que, sim, estava certo: chegariam em breve. E outra, a que Adam escutava mais, dizia que aquilo era sem sentido algum. Não, ele não diria nada a ninguém. Apenas mais um segredo.

Blue se alongava ao lado de Noah enquanto Ronan observava o mapa, mas ele não parecia entender diante de tantos rabiscos que Gansey havia feito pelo mapa.

— Você está bem? — Gansey perguntou, chegando perto de Adam e o assustando.

— Estou. — Adam respondeu, fingindo um bocejo. — E você? — Gansey logo sorriu, tentando mostrar que estava bem. Uma pena que Adam sabia que era mentira, mas seria muito bom se fosse verdade.

Gansey era quem juntava o grupo. Era por ele que todos estavam ali. Era para ele o pedido, mesmo nem todos eles sabendo disso.

— Estou achando que estamos perto, Adam. — Gansey tocou no ombro do rapaz, que logo se encolheu. Gansey não notou, ou fingiu não notar e seguiu em frente, ajeitando os óculos e entrando no pig.

Adam o observou colocar o cinto e esperar todos os outros terminarem o que estavam fazendo para, enfim, entrarem no carro.

— Vamos parar no hotel mais perto e ficarmos por algumas horas. — Gansey disse para Adam, que estava com um semblante confuso observando todos se movendo e permanecendo inerte no acostamento de terra.

Ele se moveu, mas não pareciam seus movimentos, e foi para seu lugar no carro, atrás de Gansey.