Bad Reputation
7 Dead Memories
Notas iniciais
"We were never alive, and we won't be born again,
but I'll never survive with dead memories in my heart."
É, na época eu também não queria. Lembrei-me de uma voz. Percy. Abri os olhos depressa. Eu estava em uma cama de casal. Sozinha. Uma dor de cabeça tomou conta de mim. Pensei que fosse explodir em mil pedaços. A porta do que julguei ser um banheiro se abriu. Eu iria fingir que estava dormindo para matar depois meu agressor, mas era tarde demais.
Percy saiu do banheiro com uma toalha e pouco molhado. Percy? Que porra eu estava fazendo na cama do Percy? Ele levou seus olhos a mim e sorriu.
— Oi. Como se sente? – disse meio tímido.
— Percy? Que porra eu estou fazendo aqui? – ele pareceu um pouco ofendido.
— Esse é seu jeito de dizer “obrigada, Percy, por me tirar daquela confusão”?
— O quê? Hã? Que confusão? Minha cabeça está latejando.
— É. Isso geralmente acontece quando se ingere uma grande quantidade de bebidas, chama-se ressaca. Seu problema de ressaca só é pior porque é isso que acontece quando se ingere grande quantidade de bebidas alcoólicas, ecstasy, maconha e o pior quando se usa apenas 1g de cristal! Onde você estava com a cabeça, Annabeth? Isso era o que eu dividia com uns seis amigos! – Percy sentou na cama, de frente para mim. – Só porque Thalia disse...
— Thalia... Espera, você usava? – murmurei; ele me repreendeu com o olhar e revirou os olhos, claramente não querendo conversar sobre o assunto.
Dane-se, isso também não me importava agora. Esfreguei meus olhos e apoiei minhas mãos na testa. Thalia. Thalia. Thalia. Alguns flashbacks vieram de uma vez a minha mente. Eu só queria gritar. Thalia, sim. Nico me beijando, Nico e eu dançando, Nico e usando bala, fumando baseado, nos beijando de novo, bebendo incansavelmente, ele pedindo para irmos ao banheiro, minha prima aparecendo, gritando, me xingando, Luke me salva daquela confusão me dando um presente, aquecendo, tragando, triturando, inalando, cortando, caindo, vomitando... Percy.
— Por que você me tirou de lá? – minha voz saiu mais rude do que deveria.
— Sinto muito, princesa. Você ia ser estuprada. Sabe o peso disso?
Acredite, Percy, eu sei.
Percy se dirigiu ao guarda-roupas e pegou algumas peças, voltando-se ao banheiro e deixando a porta um pouco entreaberta. Que merda de situação. Eu necessitava sair dessa casa, apesar de não fazer ideia da onde eu estava.
— Acho uma gracinha você aparecer e me ajudar, sabe? Igual nos filmes? Realmente, aprecio muito, mas obrigada, não precisa. – disse tentando me levantar.
Quando não consegui, finalmente olhei meu pulso. Ele estava enfaixado. Doía muito. Oh, não. Lembrei-me o que fizera. Tentei disfarçar, mas não foi possível. Percy já havia saído do banheiro, trocado, e percebeu que eu estava observando o curativo.
— O que aconteceu? – disse ele encostado no batente da porta com os braços cruzados.
— Como assim, Percy? Eu briguei com a minha prima.
— Eu não me refiro a isso e você sabe. – bufei.
— Não sei não. – disse novamente tentando me levantar.
— Eu me refiro... – disse ele se aproximando e sentando na cama ao meu lado, me impedindo de levantar. – ao seu interior. O que aconteceu aí dentro?
— É... eu realmente acho uma gracinha, Percy, obrigada. – disse me levantando de vez. Senti-me zonza e Percy entendeu, fazendo com que eu me apoiasse em seu ombro. – Mas eu realmente não sei do que você está falando.
— Excelente. Vai agir assim? Você tem quantos anos mesmo? – revirei os olhos.
— Desculpa, querido reizinho. Você me trouxe pra sua casa assim, na maior cara de pau?
— Eu deveria ter largado você sangrando e jogada no próprio vômito. – ele revelou, me olhando com raiva. Apenas o observei seriamente. Sua expressão estava triste, misturada com raiva e remorso. – Sabe, Annabeth, é tudo tão complicado. Essa vida é complicada. Se você quer se matar... Sabe, qual o seu...
— Percy, eu não preciso de mais um leãozinho do Proerd na minha vida, ok? – eu disse caminhando com dificuldade até o que julguei ser a sala principal. – Você mora sozinho aqui? – questionei ao perceber o tamanho daquela casa. As paredes eram em um tom de azul pastel e o piso, branco. Os móveis eram bonitos e pouco vintage, dando um ar rústico à casa.
— Não. Aqui mora meu pai, minha madrasta e meus irmãos.
— Você tem irmãos? – questionei surpresa. O rabugento Percy Jackson não aparentava o tipo de big brother.
— Tenho dois. – ele respondeu, dando de ombros. – Venha comer um pouco, pelo menos. Tenho uns remédios para te dar também.
Minha barriga pareceu não dar ouvido à minha consciência e demonstrou fome. Decidi que faria tudo bem rápido, visando ir embora logo. Percy me direcionou a uma bancada que tinha na cozinha e pegou a garrafa de café, colocando um pouco na xícara que havia me dado. Instantaneamente quis fumar. Maldito café.
— Hm, por acaso você ficaria bravo se eu te perguntasse onde está o maço de cigarro e meu isqueiro que estavam na minha bolsa?
— Sim, ficarei. – respondeu simplesmente, bebericando seu café quente.
— É isso? Não falará mais nada? – ele me observou.
— Você não consegue mesmo se controlar, não é? – franzi o cenho e o encarei confusa. – Pois trate de se acostumar, porque na minha presença você não fará mais nada.
Fitei-o com ódio. Eu nem o conhecia direito para ele se intrometer tanto na minha vida. Percy estava indo longe demais.
— Você está me irritando. – afirmei tentando me controlar.
— Não é a minha intenção. – respondeu sorrindo.
— Chega! – bati minha mão com força contra a bancada. Pobre bancada.
— O que foi agora? – Percy pareceu controlado diante do meu pequeno surto.
— Quem você pensa que é pra se intrometer tanto na minha vida, Perseu? Me deixe em paz! Chega de tentar ser um gentleman, chega de querer dar uma de certinho, simplesmente chega! Minha vida é problema meu! Não se aproxime de mim novamente.
Direcionei-me até à porta e a abri de uma vez, querendo sair de lá logo e acabar com aquela palhaçada.
— Você só pode estar brincando! – afirmei raivosa ao me localizar, quase na rua já.
— O que foi? – Percy disse sem entender me seguindo à calçada.
— Você mora na mesma porra de condomínio que eu. – disse bufando. Ele riu.
— Você não sabia?
— E você sabia? – ele deu de ombros assentindo.
— Todos conhecem seus avós aqui, Annabeth. Por isso apenas familiares e amigos próximos que moram aqui. – respondeu pondo as mãos nos bolsos, enquanto observava o pequeno lago que havia próximo ao local.
— Vai me dizer o quê? Você é meu primo também? – disse irônica.
— Na verdade... – olhei-o arqueando a sobrancelha – Eu sou primo da Thalia. – surpreendi-me – Por parte de pai, claro.
— Como assim? Hã? – ele riu ao ver minha indignação. Andávamos lado a lado, em direção à casa de Reia. Pelo menos eu estava. O clima pareceu amenizar.
Odiava o fato dele me irritar intensamente e depois me fazer rir. Eu sou uma jumenta mesmo. Foco, Annabeth.
— Meu avô Urano é amigo de infância do seu avô Cronos e, por isso, moramos aqui. Entretanto, meu tio Zeus...
— Que também é meu tio. – acrescentei e ele riu.
— Sim... Meu tio Zeus acabou se casando com a sua tia Hera, irmã da sua mãe. – assenti – E acabou vindo no pacote a família Jackson, Grace e di Ângelo...
— Nico mora aqui? Droga. – fiz uma careta irritada. Percy provavelmente esperava por algum surto meu.
— Annabeth, posso te fazer uma pergunta? – olhei-o; lá vem bomba. – E não me venha com essa de “mas você acabou de fazer”. – eu ri.
— Ok.
— Por que você ficou com todos os meus amigos? – parei de andar instantaneamente. Novamente o odiei.
— Oi?
Até ele me julgaria agora? Que ótimo.
— Um mês mal se passou e nem o Grover você deixou escapar.
— Percy. Vai se foder. – disse brava; ele olhou-me irritado e indignado. Não respondi sua pergunta, apenas fiquei em silêncio enquanto caminhávamos ainda. Eu queria muito que algum meteoro caísse em sua cabeça neste momento.
— Sabe, princesa. – revirei os olhos. Ele sabia que eu odiava que me chamasse de princesa, pois ele me chamava assim ironicamente, me julgando. – Aqui em Bristol não é muito comum a sua... hm, digamos, intimidade com as pessoas.
— Eu apenas faço o que quero, a hora que quero e com quem eu quero. – ele revirou os olhos. Busquei ficar mais calma e parar de me irritar tanto – Posso te fazer uma pergunta também? – ele arqueou sua sobrancelha, mas assentiu concordando. – Por que seu sotaque é mais forte do que todos os outros?
— Essa é sua pergunta? – ele riu — É sério? – eu bufei.
— Percy, tem umas horas que eu quase não entendo o que você fala, de tão marcante que é. Tenho que adivinhar com base no contexto da conversa. – ele riu.
— Bem, é porque eu não sou britânico.
— Uau. – arregalei os olhos.
— Pois é. Eu sou alemão. – arregalei mais ainda.
— Não brinca! Die Pisse!— exclamei e ele gargalhou.
— Annabeth, você acabou de falar “o mijo”.— eu sorri.
— Eu sei! – ri junto. – Acho incrível a sua cultura. –admiti. Ele sorriu de canto de boca.
— É... eu também. Vim pra cá com uns dez anos. Até tentei me acostumar com o sotaque, mas o meu acaba saindo mais forte mesmo.
— É sexy. – olhei-o divertida.
— Aposto que sim. – ele confirmou – Ei, mas você acabou de dizer que às vezes nem me entende.
— É, eu acabo decifrando.
— Você fala alemão?
— Na verdade eu sei pouquíssimas coisas. Tentei aprender quando era criança, mas desisti. Fora isso falo um pouco de francês e espanhol. E você, reizinho? A educação lá é pesada, então presumo que você fale, fluentemente, vários idiomas. – ele riu.
— Sim, lá a educação é forte. Falo francês, russo, norueguês e holandês.
— Um alemão falando russo? – eu ri e ele também.
— É, é compli...
Senti-me tonta novamente. Minha cabeça doía exageradamente. Senti meu pulso latejando. Ia desfalecendo quando Percy me segurou. Seus olhos, agora em um tom de verde oliva, demonstravam preocupação.
Percy me ajudou a andar, já que eu estava zonza demais para conseguir por conta própria, alegando que minha pressão deveria estar baixa. Senti-me mal, por um segundo apenas, por vê-lo me ajudar e eu agir de forma ingrata.
— Percy. – eu disse me virando para ele e encarando aqueles olhos verdes-mar. – Obrigada por ter me ajudado, de verdade. Eu só... Ninguém nunca me ajudou antes. Mas vou ser sincera. Eu faço essas coisas porque eu quero. Porque é a minha maneira de me sentir bem e preencher algo. Só pare de interferir na minha vida. Eu sei muito bem de cada consequência. Quem sabe eu te conto mais quando você decidir contar as coisas do seu passado?
— Touché. – ele sorriu por fim. – Vem, eu te levo até a sua casa. – assenti sorrindo enquanto ele me ajudava a continuar caminhar pela ruela do condomínio.
***
Ao entrar em meu quarto, saí desesperada em busca de um cigarro. Fazia quanto tempo que não fumava? Umas doze horas aproximadamente. Céus, eu precisava tragar. Dirigi-me à sacada do meu quarto e observei cada casarão daquele estúpido condomínio. Levei o cigarro aos meus lábios entreabertos encarei o céu pouco celeste acima de mim. O dia estava querendo ficar nublado, o gerou uma mudança na cor do céu. Acionei o isqueiro e acendi rapidamente o cigarro com prática, puxando e depois expelindo a fumaça tão conhecida. Fechei meus olhos por um tempo. E encarei por um segundo a minha maior frustração. Aquela que eu nunca admitia, nem mesmo em minha própria consciência.
Eu apenas não sentia nada.
Eu queria sentir. Esforçava-me para tal concretização, contudo o universo não colabora. Sentia apenas dor, raiva, ódio e indiferença. Queria me sentir grata por Percy me ajudar, queria me sentir animada e feliz por ele ter demonstrado preocupação para comigo. Queria poder sentir que ele era uma boa pessoa, que faria o bem para mim e que me ajudaria. Eu desejava que eu pudesse colocar em mente que era necessário deixar essa vida de lado. Ansiava sentir compaixão, remorso ou qualquer outra coisa. Eu queria me sentir arrependida e humilhada pela noite anterior. Queria sentir vergonha por meus atos ou um mísero peso na consciência. Mas não. Eu apenas ignorava cada comportamento meu da noite anterior. Ignorava e não me importava, era tudo indiferente, tudo normal. Eu já estava acostumada. Já sabia, já entendia, já decidira e já não queria. Sorri enquanto encarava meu cigarro quase no filtro. Joguei-o pela sacada e diante de tudo, lembrei-me:
"Você apenas vive uma vez e todos nós nascemos para morrer." Honestamente, eu só almejava pela próxima rodada.
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