Bad Luck
1 A aula de economia doméstica fica interessante
Notas iniciais
Acordo do lado errado da cama, mais exatamente no chão. Não é comum para mim, acordar no chão assim. Mas ontem à noite, eu não consegui dormir por um tempo. Fiquei pesando de talvez a vida na terra não fosse apenas um reality show que as civilizações de Marte assistem, mas é basicamente impossível ter vida em marte, ao menos vida humana (Talvez depois de uns bilhões de anos). Me pergunto todos os dia sobre este tipo de coisa, chega a ser banal com o tempo.
Lembro de ter sonhado que era atriz e que fazia uma novela, bem, não era precisamente uma novela. Para os outros em volta era a vida cotidiana deles, apenas eu sabia que tudo era uma novela falsa. Minha mente cada vez fica mais assustadora com o tempo, eu me sinto vivendo em um lugar sombrio ao alcance da luz. Como se fosse meu Shangri-la pessoal escondido atrás de cada pensamento.
Ir à escola é um processo que a grande maioria dos jovens como eu passam e passaram na vida, e eu não sou exceção neste jogo. Tenho que mover minha bunda da cama as sete da manhã, me arrumar, e na maioria das vezes correr para conseguir tomar um café da manhã decente. Eu já devo ter expressado meu ódio por ônibus escolares muitas vezes apenas com a minha cara quando escuto o “bom dia” educado do motorista enquanto entro na lata gigante com rodas.
Eu não sou nerd. Eu gosto de games? Um pouco. Gosto de rock? Um pouco. Gosto de pop? Um Pouco. Eu sou basicamente o tipo de pessoa que gosta de tudo e não gosta de nada. Isso me enlouquece, pois mal consigo gostar de gente famosa, ou ficar louca e endeusar eles. Sempre me encaixei em algum lugar na escola, mas nunca cheguei a ser popular assim, não que eu goste disso, é claro.
Eu sentei no acento do ônibus enquanto o sentia movendo rapidamente. Como raios eu consigo sobreviver a isso todos os dias? Talvez eu realmente seja uma atriz aqui, mas talvez eu não tenha pego o papel principal nessa vida. Talvez eu seja apenas uma figurante, sentada no ônibus vivendo sua vida ordinária enquanto a atriz principal, entra no ônibus com sua face bonita indo trabalhar e quando ela menos espera... Puff! Ela é uma princesa, tem um marido gostoso e rico e nunca mais precisa pegar um ônibus na vida e isso ainda vira lição de vida.
Minha imaginação ainda voa, mas eu sinto um solavanco que indica que meu ônibus parou. Olho pela janela e percebo que passei três quadras da escola e desço correndo para não chegar atrasada. Quando desço do ônibus noto a ausência de algo. Onde estava minha fucking mochila? Hoje eu amanheci com os meus dois pés esquerdos.
Não sei o que fazer, mas por sorte, eu estava viva no momento, por que até agora não morri de câncer de irresponsabilidade. Essa doença é grave e causa perda de memória, cabeça nas nuvens e em piores casos: ATRASOS.
Tento manter a calma, mas é impossível. Como uma pessoa esquece a mochila dentro do ônibus com dinheiro, celular, livros, estojo e todo o resto da parafernália enquanto pegou a parada errada do ônibus e acordou no chão do quarto? Eu não tenho risco de chegar atrasada por que provavelmente nem vou mais para a aula, e ainda tenho o risco grave (grave mesmo) de tomar um castigo.
Eu decido me levantar, afinal o que ajudaria ficar sentada esperando a mochila cair do céu e o tempo parar para eu chegar sã e salva com tudo necessário pra aula sem atrasos? Suspiro e sigo caminho como uma verdadeira idiota.
De repente, escuto um grito alto de uma voz desesperadamente sexy. Imediatamente olho para trás. Um homem carregava minha mochila dizendo que me viu esquecer e pegou o ônibus no sentido contrário para me devolver.
–Você é nova aqui? –Ele pergunta. – Pois eu sou.
–Não sou nova aqui, mas este tipo de coisa acontece comigo o tempo inteiro. Eu sou uma criatura avoada desse sistema solar... Ou melhor, desta galáxia... Não! Deste universo inteiro! –Eu digo sentindo-me envergonhada por fazer aquele homem perder seu tempo me trazendo a mochila. – Obrigada por trazer a minha mochila, e desculpa mesmo.
Observo o homem com mais atenção. Ele aparentava ter músculos fortes, ele parecia um destes heróis de quadrinhos que salvam mocinhas indefesas. Ele era lindo, mas não aparentava tão inteligente pelo seu jeito de agir... Ele não era um desleixado como eu, mas você vê se a pessoa é inteligente quando ela não é bonita demais. Mas se beleza indicasse burrice, este homem seria o homem mais burro do planeta.
–Não foi nada. – Ele diz modestamente, mal ele deve saber que salvou meu dia e tirou mais uma casca de banana das minhas costas. –Você vai fazer algo nesta sexta?
Eu deveria ter previsto. Deveria ter previsto. Deveria ter previsto isso! Mas é claro que ninguém faz algo sem segundas intenções! Mas eu fico tentada a dizer um sim apenas para saber o que iria resultar desta sexta feira. Minha curiosidade ainda me mata um dia. Eu já jurei que nunca iria amar, o que poderia dar errado?
–Na verdade, não. – Respondo com um sorriso. Se eu não descobrir o que iria acontecer, quem vai por mim? Pois está claro que ele vai me chamar para um encontro. Eu nem queria mesmo, mas talvez possa ser divertido.
–Você poderia retribuir o favor, não acha? –Ele pergunta, mas assim que ele termina de falar, o telefone dele toca ele pede licença e se afasta por alguns instantes. – Desculpe-me, minha esposa não sai da minha cola vinte quatro horas por dia. Como eu ia dizendo, eu queria que você fosse a baba do meu filho, ele tem apenas um ano de idade e faz um tempo que eu não agrado minha mulher. Eu queria mesmo leva-la para um jantar romântico como nos tempos na faculdade, mas não encontrei em lugar algum. Ninguém disponível.
Então ele era casado e já tinha um filho? E eu ainda esperei para ver, minha vida é uma droga mesmo. Eu tenho que aprender a não criar expectativas demais, ou tenho que aprender a avaliar a situação antes de admitir que não tenho mesmo nada para fazer em uma sexta à noite, afinal, não teria como recusar depois que ele salvou minha vida.
–Mas é claro! –Eu aceito.
O Homem comeu ainda um pouco de tempo falando empolgado sobre os detalhes de seu futuro encontro sem perceber que eu estava atrasada para a escola. Tenho certeza que vou perder a primeira aula inteira. Acertamos detalhes como endereço, hora e por mais que eu tenha recusado, um pagamento. Eu me pergunto... Como o homem viu que eu não cuido nem da minha mochila e quer colocar um bebe de um ano em minhas responsabilidade? Isso que é desespero.
Eu ando as duas quadras para a escola esperando que minha nuvem de ma sorte evapore. A entrada da escola se encontrava vazia, mas não era a primeira vez que eu chegava atrasada a este ponto então já estava acostumada com a falta do barulho e da presença de outros adolescentes conversando, jogando, se beijando, andando de skate como normalmente fazem ali.
Entro na escola esperando que o sinal toque assim que eu entre, mas como eu sou muito sortuda, peguei as coisas no meu armário para a segunda aula e ainda vou esperar quinze minutos na detenção com os alunos expulsos de classe. Meu lugar não era com estes futuros criminosos, mas eu fiz meu único amigo por aqui, o James.
James era um bagunceiro nato. Seus olhos levemente saltados faziam com que parecesse que a qualquer momento ele iria explodir algo com raio lazer. Ele havia piercings no septo, na boca, na sobrancelha e seu cabelo era um espetado feito com gel. Seus olhos eram azuis, o que destacava seus cabelos escuros e suas roupas era normalmente coisas emo/ góticas por que ele gosta de usar preto, ele me disse que faz parte da arte de querer parecer mau.
E como sempre, James se encontrava na sua cadeira, onde nenhum daqueles delinquentes juvenis pensariam em sentar. Não era que James andasse em maior número, ele apenas andava comigo na maioria das vezes, mas James é filho do diretor, e para ele tudo o que ele usa é modinha e na verdade no mundo colorido dele, o filho dele é um cordeirinho que nunca faz mal a uma mosca.
Sentei-me ao lado de James e percebi que ele estava distraído quando ele olha para o lado. Normalmente James não olha, ele já sabe que apenas existe uma pessoa louca o suficiente para sentar ao lado dele.
–O que aconteceu desta vez? – Ele sussurra. – Queimou um carro? Chutou uma velha? Tirou um B- ? Comeu sorvete estragado?
–Nada disso. Hoje a nuvem de azar parece ter ficado maior. –Eu digo.
Eu explico tudo a Jam enquanto ele apenas assentia e na maior parte do tempo sorria, ele gostava de mim pelo meu azar, eu acho, pois ele parece se divertir muito quando eu falo das coisas que acontecem comigo. Ao menos é um ótimo ouvinte e ninguém ousa mexer comigo longe ou perto dele.
–Mas quer dizer que você se ferrou e não vem jogar ovos na casa do Professor Salaminho comigo? –Pergunta um pouco desolado, pois ele queria mesmo que eu estivesse lá. Eu ri do jeito que ele apelidou o nosso Professor de história.
–Nem se você marcasse para outro dia, afinal eu vou tomar um castigo daqueles pelo jeito.–Eu digo em um tom infeliz. Escuto um suspiro aparentemente vindo de James. –Você anda suspirando pelos cantos agora?
–Quando a única pessoa que te aguenta não te ajuda em um plano maligno, é o que se pode fazer. – Ele diz dramaticamente. – A culpa é toda sua, fica pensando em homenzinhos em marte e perde um compromisso desses.
Assim que formulo uma resposta digna como “Não é grande coisa”, o sinal toca indicando que devemos sair desta sala chata em que não fazemos nada para irmos para outra sala chata onde iremos fazer coisas. Grande mudança, eu diria.
Saímos da sala conversando sobre a sexta à noite que o cara doido iria me fazer passar com o filho de um ano dele. James ainda consegue me xingar um pouco de idiota por eu ter esperanças de um cara com mais de 25 anos de vida gostoso me convidar para sair.
Enquanto ando no corredor, eu tropeço e caio em um garoto que aparentava ser do time de basquete. Ele era forte, e consegui cair em cima dele assim, do nada. Todos em volta começam a rir, e eu murmuro –resmungo- “Este não é o meu dia”. O garoto parece ouvir, e rapidamente se levanta, ainda me deixando no chão. Nossa, que gentileza, poderia ao menos esperar eu sair de cima dele.
–Okay, parem de rir. – James diz com uma voz ameaçadora. Todos ficam em silencio imediatamente. Eu poderia jogar uma agulha no chão e ainda ouvir o barulho dela caindo com este silencio sepulcral.
–Você está bem? – Um garoto forte – provavelmente o que eu derrubei — pergunta me estendendo a mão para eu me levantar, mas como eu aprendi com James para sempre culpar a pessoa mais próxima quando tiver a chance, eu o encarei com hostilidade e me levantei sozinha.
Percebi tarde demais que James era o garoto que me estendera a mão. Eu tenho que parar de confundir os garotos fortes na minha vida! Eu olho para James amigavelmente e dou um sorriso como se eu estivesse brincando, mas ele não levou muito na boa e me deu as costas, e assim, continuou andando sem mim. Isso doía mais que uma faca enfiada no meu olho. É como se ele dissesse “Eu te odeio” com todas as letras. Mas é claro, eu o humilhara em público e tirei parte de sua autoridade.
Eu não tentei o seguir, pois sabia mais que ninguém que eu perdera o direito de ficar perto dele. Além disso, eu não posso fazer nada que o faça mudar de ideia pois a cabeça dele é mais dura que telefone Nokia –daqueles que quando cai não quebra a tela, quebra o chão. – A minha vontade era me jogar de novo no chão e ficar ali até ele me oferecer ajuda para me levantar de novo.
Segui para o meu armário cabisbaixa como se tivessem roubado o meu doce. Eu pensava em como conseguir que James voltasse a ser meu “amigo”. Haviam milhões de coisas que eu poderia fazer, mas nada que coincidisse com a realidade. Exemplo: Trazer uma estrela para ele, comprar uma mansão para ele, dividir meu sorvete com ele, comprar um cachorrinho mutante que fala para ele, dar minha virgindade para ele... Coisas assim. Okay, talvez o ultimo fosse meio real, mas eu não faria isso nem se a Hebe Camargo saísse do tumulo para puxar meu pé toda noite com uma voz de zumbi falando “Da para ele”. Sim, eu já sonhei com isso.
Eu imagino se eu tentasse alguma coisa e desse realmente certo. Mas eu cansei de tentar e ver as coisas falharem, mas é inevitável, eu sou tão azarada que as chances de um piano voador cair na minha cabeça devem ser maiores que a chance de pessoas regulares.
Entro em classe apenas para deixar meus livros, era raro ver a porta aberta cinco minutos antes da aula começar, normalmente quando tenho sorte assim algo ruim acontece. Deposito meus matérias em cima da mesa que até então era minha, mas presto atenção no quadro em frente. Trocaram o plano de classe.
O professor ainda o escrevia, e eu penso que essa era a coisa ruim que estava para acontecer. Eu não queria sentar ao lado de alguém terrível, nojento ou insuportável. Ele marca o lugar de James, e depois, bem ao lado me marca. Eu não acredito que terei que lidar com James em toda a aula de Economia doméstica pelo resto do ano – Apenas faltavam um mês para o recesso de inverno, faça as contas. Se falta um mês para dezembro. Ou seja, eu teria que dividir mesa com o James pelo resto do ano, até junho do outro ano. – E o pior, temos que interagir pois somos parceiros.
Pego meus cadernos e deposito na nova mesa. Eu ainda estava cabisbaixa, e todo mundo entendia isso, mas ninguém se prontificava para dizer ao menos um: “Sinto muito por seu amigo emo badboy não querer mais falar com você.” Ou uma mentira como: “Você fica melhor sem ele.”. Essa vida na escola este ano vai ser um terrível pesadelo como todas as outras, eu tenho que me habituar.
James entra em classe um olhar mal humorado e assim que vê o quadro, bate dele com força e apaga meu nome. O professor se levanta de sua cadeira impaciente e rescreve o plano como estava alegando que não poderia mudar pois foi feito pelo diretor. O ponto fraco de James, seu pai. Ele não poderia fazer nada para mudar isso, afinal o velho diretor é cabeça dura como o filho.
–Eu não posso sentar com ela, você não entende como isso pode ser complicado para ela? –James diz com os olhos de lazer quase saindo faísca. – Quero dizer... Como pode ser complicado para mim!?
Eu levanto a cabeça e abro os olhos. Ele disse “para ela”? Esta era a hora que eu iria tomar uma atitude, mas deixei rolar. Afinal, eu não queria ver tudo o que eu faço falhar de novo como sempre. É bem assustador não fazer nada, é a mesma agonia que sinto quando estou sentada no chão e alguém fica em pé do meu lado.
–Senhor Geears, pode por favor colaborar apenas desta vez? – O professor basicamente implora, mas parece não fazer efeito em James. James sai da sala batendo a porta como um verdadeiro mimado pronto para tacar fogo no primeiro que aparecer.
A aula começou, mas como eu estava sem parceiro, tive que me juntar a duas garotas que diziam se chamar Barbara e Courtney, mas tinham cara de Marnee e Janice – Talvez esse fosse o real nome delas e elas estivessem escondendo para que eu nunca soubesse por razoes secretas. Ou talvez elas se chamam assim com estes nomes horríveis mesmo.
–Hoje vamos cozinhar biscoitos. – Diz o professor. A classe inteira entra em delírio, pois era o que eles estiveram esperando desde que as aulas começaram, a hora de cozinhar para eles era sagrada, afinal ler receitas e truques para se fazer comida durantes um mês inteiro é irritante. Até eu admito que me senti aliviada por ter um pouco de ação.
–Vamos nessa, alunos! As melhores levadas de biscoitos ganha um A+ automático no boletim e a equipe não vai necessitar de fazer o exame, mas isto é apenas para duas equipes. Deem o melhor de vocês. Vocês tem 40 minutos. – O professor fala animado. Eu sabia que algo iria dar errado, pois isto era um tipo de desafio e eu percebi pelo olhar das garotas ao meu lado que para elas era uma competição.
Eu pego a farinha e sinto ela ser levada da minha mão às pressas. Courtney a havia pego desesperadamente e despejado na vasilha onde iriamos misturar a massa. Então Barbara tira os brincos como se fosse lutar. Ela joga o leite, os ovos e toda a baboseira necessária para fazer um bolo, mas quando ela vai pôr as mãos na massa, Courtney também coloca e tudo cai não chão.
–Sua vaca! – Grita Courtney. Eu acho que já passei por situações mais humilhantes, mas eu inventei um ditado, “A pior falta de sorte é a falta de sorte presente.”
–Quem colocou a mão na massa quando eu ia mexer, huh? Você! Quem é a vaca aqui? – Xinga Barbara se voltando para Courtney. Eu não sei para qual das duas eu estava torcendo, mas uma pipoca cairia bem agora.
–Foi tudo culpa da normalzinha ali! Se ela não estivesse parada fazendo nada, nada disso teria acontecido. Teria? – Courtney joga a culpa em mim.
–Ei! Eu não fiz nada porque vocês simplesmente correram como duas destrambelhadas para fazer isso! – Me defendo, mas é difícil quando não se tem James do lado.
–O que está acontecendo aqui? – Pergunta o professor desesperado. Uma avalanche de palavras começa vinda das duas gralhas. Courtney me xinga, Barbara xinga Courtney e eu fico calada apenas observando no que ia dar. Talvez essa coisa de não tomar atitudes seja maçante, mas deu certo uma vez com James, eu não sei se eu estaria melhor ou pior tomando atitudes, mas não estou tão mal.
–Espera, a culpa é da Larissa? – O professor pergunta. – Mas é claro que deve ser, afinal ela anda com o problemático do James. Mas espera... Não podem provar que a culpa foi dela. – O professor pensa alto. Acho que ele não percebeu que estava na minha frente enquanto pensava isso.
Eu continuo calada, mais por falta de saber o que fazer que tudo. Então de repente, James entra na classe em um disparo da porta batendo e se fechando atrás dele. Todo mundo fica em silencio e James, com um olhar de fúria, senta no lugar onde eu estava minutos atrás.
–Larissa, o James voltou! – O professor parece se animar com isso. Eu acho que ele pensa que me voltar para o lado dele era o fim de todos os problemas. – Detenção após a aula por esta confusão aqui, todas as três. Mas você Larissa, vai ficar uma hora enquanto elas ficaram apenas metade disso. – Diz o professor com uma expressão séria, como se estive concentrado no que faz.
O professor basicamente me arrasta até o lado de James. Eu fico cabisbaixa de novo e não digo nada. Eu não tinha o que dizer. James estava com raiva de mim, mas eu quero pedir desculpas. Mesmo que ele não possa ser tão mimado e incompreensivo.
–Ei... –James sussurra. –Ei... –Ele persiste. Então eu olho para ele e ele dá um leve sorriso.
– Eu quero pedir desculpas. Eu te confundi com um jogador de basquete e isso é imperdoável. –Eu disse sarcasticamente, mesmo sabendo que ele me perdoaria.
–Tudo bem, mas mesmo assim eu não vou poder andar com você. – James diz ainda sussurrando. – Minha reputação de malvado vai pro ralo assim. – Ele explica. Eu faço um bico de tristeza esperando que amolecesse aquela cabeça dura.
–Mas, porque você não pode simplesmente fingir que nada aconteceu? Aposto que essas pessoas são tão burras que nem notam. – Eu sussurro de volta xingando meus colegas.
–Olha gente! James e Larissa estão sussurrando! Será que eles estão namorando? – Grita uma garota loira, ela era a mais popular tinha fama de saber de todos os boatos sobre todo mundo, seu nome era Liana.
–Não. Eu estava explicando para este acéfalo aqui que a farinha vem antes do leite! –Eu digo pegando o saco de farinha da mesa às pressas. Por sorte – nunca pensei que usaria este termo – a farinha não caiu toda no chão.
–Mas você é burra mesmo! – James diz, mas ele pisca de leve mostrando que estava brincando. – Eu vou colocar o leite antes não importa mesmo o que você faça! –Ele diz despejando o leite na vasilha. Eu podia ver que ele reprimia um sorriso.
–Não! Seu idiota! – Eu digo quase caindo na gargalhada. Agora nosso disfarce já tinha ido para o buraco. Toda a classe parou o que fazia para ver que James também caia na gargalhada junto comigo. Somos péssimos atores.
–Hummm, então agora é James e Larissa? – Diz Liana. – Eu pensei que James em posição de badboy, escolheria uma garota assim... Popular. Mas pelo que posso ver, ele prefere o tipo normal.
–Ei, quem disse que a gente está namorando? –James pergunta enfurecido. – Esta idiota nunca seria minha namorada. – Jason diz e no meio da frase, pisca avisando que ele ainda gostava de mim e tentando manter o disfarce.
–Mas é claro... – Eu disse. – Eu não namoraria alguém com cabelo de emo, veja bem Liana! –Eu disse zoando com James. Nosso disfarce já havia afundado por eu xingar James. Nem o mais corajoso dos meninos faria isso.
–E por que você tem o direito de xinga-lo assim? Uma hora dessas, o James já teria avisado o diretor e você já estaria expulsa desta escola. – Liana ganha um argumento para dizer que nos amamos, mas não tem nada a ver eu e James. Poxa, não existe amizade entre homem e mulher sem que os outros pensem que tem segundas intenções?
–Não vou dar atenção a o que ela diz, ela é louca e deve ter problemas da cabeça. Eu não faria algo injusto assim. –Diz James, percebo que ele estava se esforçando para não rir de novo. Era melhor encerrar a discussão.
–Mas é claro, tanto que estou fazendo os biscoitos sozinha. –Eu disse jogando a farinha e misturando a massa com as mãos.
James percebeu que todos pararam de nos olhar e começou a ajudar enquanto cochichava algumas coisas no meu ouvido. Eu mal compreendi tudo, mas captei um: “Eles não sabem como estão certos.”. Isso eu não entendi realmente, mas acho que ele falou no sentido de que as pessoas ainda pensam que a gente se gosta, mesmo que seja como amigos. A coisa do namoro é só polemica da Liane.
Abri um sorriso não tão largo e discreto. James se afastou da minha orelha e começou a espalhar a massa em forminhas com uma delicadeza impressionante. A gente nunca trabalhara em algo juntos antes, nem nos trabalhos escolares em grupo, dos anos passados –conheço James faz uns cinco anos- pois James sempre foi o filho do diretor e conseguia que fazer tudo sozinho ou com os mais nerds da turma.
Colocamos os biscoitos no forno e escutamos o relógio do professor apitar segundos depois. Conseguimos fazer tudo bem a tempo e a confusão não atrapalhou em nada, quase não soa como a minha vida.
–Okay crianças, vamos esperar os biscoitos ficarem prontos. –Diz o professor. Não acho certo que ele nos chamar de crianças, afinal, tínhamos –a maioria- quinze anos e não éramos mais criancinha nojentas com catarro que correm e ficam suadas como porcos. Não éramos mais tão felizes assim. –Enquanto isso... Eu vou me arrepender disso... O período é livre.
Eu não gosto de períodos livres pela seguinte razão: Sempre cai alguma substancia desconhecida no meu cabelo ou eu fico doida com as pessoas que tem mania de gritar – e bem no meu ouvido- e me irrita saber que todos os outros se divertem menos eu e James, afinal não poderíamos conversar pelo bem de sua reputação.
Eu decido pegar uma folha de caderno e aproveitar a baderna pra conversar com James por bilhetinho, afinal, ninguém prestaria atenção se não falássemos nada.
“Quero ir para casa” Eu escrevo na folha.
“Você não quer isso mais do que eu. Hoje na primeira aula eu faturei duas horas na detenção” Escreve James.
“Mas é só você ter uma conversa com seu pai. Ele não acha que você é mal compreendido? “Eu escrevo e tento evitar rir na parte do ‘mal compreendido’.
“Hoje ele disse que não vai fazer nada que eu pedir por que diz que sou mal agradecido.” Explica James.
“Como assim?” Pergunto confusa, a folha de papel já estava ficando meio amassada de tanto ser passada de um lado para o outro.
“Ele fez o plano de classe para me colocar do seu lado, sua boba.” Explica James novamente. Mas porque o diretor gostaria de me colocar ao lado dele?
“Ele deve achar que você está gostando de mim” Eu disse prendendo o riso. Era uma coisa estupida de se pensar.
“E gosto mesmo, você é bonita” Me elogia James. Eu olho para a cara dele meio aterrorizada. Trocaram o cérebro dele? O James mal diria que gosta de mim.
“Um alienígena te abduziu?” Escrevo ainda apavorada. Mil coisas poderiam ter acontecido para ele ser assim, certo?
Sinto o papel ser tomado da minha mão quando estou pingando o pontinho debaixo da interrogação.
–Olha gente! –Grita Liana– O James diz aqui que acha a normalzinha bonita. Mas o que é isso, James? Eu sabia que estavam de namorinho.
Toda a classe se junta e se estapeiam para ver o papelzinho. Se tínhamos um disfarce, foi por agua a baixo neste exato momento.
–Aqui parece que o James está na friendzone. -Diz Liana rindo com nossos colegas. Meu rosto esquenta de raiva.
–O James não está na friendzone.–Eu grito calando todo mundo. Eu não poderia manchar mais a reputação dele. Mas eu tinha que pensar em algo rápido.
Então eu simplesmente me jogo no colo dele. James parece impressionado, afinal, ele não tira o sorriso do rosto – tem gente que ri quando fica muito chocada ou com medo, já passei por isso. – e eu tento fazer a maior cara de malvada do planeta. Eu tasco um beijo de cinema em James, e logo sinto suas mãos presas na minha cintura. Isso é improprio e é muita falta de sorte ser descoberta assim.
Eu largo da boca de James e ele sussurra algo no meu ouvido de novo, desta vez eu senti um arrepio na nuca quando ele disse:” Bem vinda ao lado negro”.
(Continua no próximo capitulo)
Notas finais
Prepara que quarta que vem tem outro capitulo que desce e rebola com cara de saliente :P
Spoiler do proximo capitulo? Apenas dou se alguem comentar. Eu dou na resposta U.u, nem vem.
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