Bad Liar
2 Oh, I'm tryna play it coy...
Notas iniciais
“Oh, I'm tryna play it coy
Tryna make it disappear"
1ª aula:
Meu corpo pula ao ser acordado com um solo de guitarra. O relógio marca uma da tarde. Não é de manhã cedo, mas eu passei toda a madrugada de sexta jogando conversa fora com Luke pelo FaceTime e fui dormir lá pelas seis da manhã. Ou seja: para mim, nesse momento, uma da tarde é a mesma coisa que oito da manhã.
Levanto da cama mal-humorada e querendo arrancar a cabeça do meu irmão. Às vezes, acho que ele faz isso de propósito para me irritar. Desço as escadas com passos pesados, querendo que os degraus fossem a cabeça de Jason para poder esmaga-la sem muitos problemas.
— Abaixa essa droga, Jason! — grito, puxando o instrumento de brinquedo do irmão e fazendo-o errar os comandos.
— Que merda, Thalia! Ficou louca? — Ele puxa de volta para si.
— Quase. Por sua causa! Abaixa essa porcaria de jogo, você não é o único na casa.
— Eu deveria dizer o mesmo, fiquei tendo de escutar os teus risos com Luke a noite toda! Parecia uma bocó!
— Oras, seu...! — Só quando estou prestes a tirar o chinelo do meu pé para acertar meu irmão é que noto a terceira presença na sala. Sentindo-me constrangida por um momento, desisto de pegar o calçado para mostrar ao Jason quem é o bocó ali. Nico, entretanto, parece se divertir com a cena, pois está com um sorriso enorme no rosto.
Acabo bufando ao perceber que havia perdido todo o meu sono. Não vou conseguir voltar a dormir nem que quisesse e tentasse muito. Por fim, estendo a minha mão para Jason, que ergue suas sobrancelhas louras.
— Me passa a guitarra. Vou jogar também já que você acabou com meu sono.
Manifestando-se de verdade pela primeira vez desde a nossa pequena briga de irmãos, o di Angelo levantou do sofá e parou ao meu lado, ainda sorrindo.
— Na verdade, nós vamos estudar. — Acho que a minha cara de confusão é o suficiente para Nico entender que eu estou mais perdida que cego em tiroteio. — Aula de lírica. Quíron pediu para eu te ajudar. Estava esperando você acordar para começarmos.
A compreensão chega em mim assim que lembro do dia anterior e do pedido de Quíron para Nico me ajudar com a matéria. Eu realmente havia me esquecido disso por um momento.
— Que tipo de pessoa vai mal em lírica? — Jason implica comigo de novo, irritando-me mais um pouco.
— Você. Aposto que não conseguiria chegar nem a três pontos na prova. — respondo.
— Bem, mas eu sou de exatas.
Reviro os olhos, decidida a ignorar o meu irmão, e me volto para o seu melhor amigo.
— Não acha meio cedo para estudar? O professor falou ontem sobre isso...
Nico sorri para mim de novo. Ele só sabe sorrir?
Bem, respondo a mim mesma, é um sorriso bonito, então faz sentido que ele sorria o tempo inteiro.
— Minha irmã vai se casar. Como somos só nós dois, acabei tendo de ajuda-la com o casamento, então não vou ter muito tempo. Achei que quanto antes, melhor. Mas podemos remarcar, se quiser.
Eu queria remarcar. De verdade. A última coisa que pensei em fazer nesse dia lindo de sábado é estudar e me chatear, mais uma vez, com lírica. Contudo... bem, a verdade é que achei que Nico tivesse concordado com a ideia do professor apenas para dispensá-lo logo e para garantir a preferência dele – me convenci disso, já que não via motivos para ele me ajudar. Nós não somos amigos, só nos cruzamos e convivemos vez ou outra na minha casa por causa de Jason. Agora, ali estava ele, esperando uma resposta minha. Nico me deu a opção de remarcar o encontro de estudos, mas eu seria uma pessoa ridícula se fizesse isso, mesmo querendo muito. Ele tinha vindo de boa vontade para me ajudar.
— Não, tudo bem. Ãh... — olhou para o irmão. — Vaza, a gente vai estudar.
— Não vou. Continuarei jogando Guitar Hero.
— Você tem cinco anos de idade, Jason?
— Não, mas você parece ter.
Nico tossiu para chamar a atenção e deu dois tapinhas no ombro de Jason.
— Xô, Jason. A sala agora é zona de estudos.
— Até parece que você é o dono da casa — resmungou meu irmão, de cara fechada.
— Você quem sempre diz pra eu me sentir em casa.
Revirando os olhos, Jason ergueu as mãos em rendição. Desligou a televisão e rumou para seu quarto, mandando olhares irritados para mim. Como se fosse minha culpa! Jason, com toda certeza, pode ser descrito como uma criança em corpo de adulto. Mimado, odeia perder e quer estar certo sobre tudo. Isso faz com que eu tenha vontade de socá-lo mais vezes que o normal e colocar algum juízo naquela cabeça oca. O culpado disso é nosso pai, que fez Jason crescer achando que era um super-herói e que o mundo deveria girar em torno de si.
Ou talvez seja só genética ruim mesmo, penso, lembrando que Zeus Grace é igualzinho. Seria culpa do vô Cronos?
Peço para Nico aguardar enquanto corro até meu quarto e pego todos os materiais necessários. Ou seja: pego muitas, muitas, muitas folhas de teoria. Aproveito a deixa e já respondo uma mensagem de Annabeth, dizendo que não vou poder sair porque estarei estudando o dia inteiro. Ignoro a resposta cheia de emojis rindo, apesar de ser uma verdade: eu estudo bastante, mas nunca abri mão de um sábado e de uma saída para ficar em casa revisando conteúdo.
Largo o celular de qualquer jeito em cima da minha cama e volto para a sala de estar, onde Nico está me esperando sentado no chão, com os cadernos em cima da pequena mesa de centro. Sento-me ao lado dele, também abrindo minhas anotações.
Nico me olha, sério.
— Então... haicai?
Duas horas depois, com muita teoria e leitura de haicais, eu sinto as minhas costas doerem de permanecer sentada e a cabeça latejar de tanto pensar e ler. Mas não sinto o desgaste mental de sempre. E sou obrigada a admitir que Nico explica a matéria muito bem. Não entendi tudo sobre o haicai, mas tenho certeza de que peguei bem o básico da teoria. Inclusive, acabei adorando essa forma de poesia.
— “A faísca queima, Leo irritou Reyna novamente e amanhã estará morto". — Rio da minha tentativa de haicai, seguida por Nico.
— Boa, boa. Que tal essa: “O estômago vibra, o grampeador está a vista e Jason se afoba”.
Nós nos inclinamos para a frente, rindo tanto que minha barriga dói. Tanto que mal notei Jason parado na ponta da escada, com os braços cruzados e uma careta tomando conta do rosto.
— Não deveriam estar estudando ao invés de darem risada?
Olho para Jason, limpando o rastro de uma lágrima que saiu do meu olho. Nico, ao meu lado, está jogado no chão enquanto tenta respirar normalmente.
— Nós já terminamos os estudos. Estávamos pondo em prática. — E acabo voltando a rir, pensando em mais haicais sobre meus amigos. Posso fazer até um livro com eles. — Nico fez um haicai ótimo sobre você.
Jason revira os olhos. Tenho certeza que ouviu o haicai e não achou graça; ele havia ficado traumatizado com a história do grampo – o que era bom pra mim, já que usava isso sempre que queria irritá-lo de igual para igual. Ele caminha até Nico e o ajuda a levantar.
— Sua irmã estava te procurando. Ela reclamou que você não atendia o celular.
— Ah, eu coloquei no silencioso. — Nico anda até a sua mochila e tira o celular do bolso frontal, digitando alguma coisa. — Vou ter que ir ajudar ela a escolher um convite.
Acabo focando na conversa dos dois. Nico é um cara engraçado. Que tipo de irmão ajuda a irmã com um casamento? Jason jamais faria isso por mim, além de que os caras preferem fugir desse tipo de coisa.
— Isso é legal — digo, chamando atenção deles para mim. — Ajudar a sua irmã com o casamento. Normalmente, os irmãos e caras correm dessas coisas, não?
Ele sorriu, dando de ombros.
— É, bem, só estou ajudando porque sou obrigado.
Embora ele tenha dito isso, algo me diz que não é esse o caso.
— De toda forma, muito obrigada por essa primeira aula — agradeço enquanto recolho meus cadernos e lápis.
— De nada. Te mando uma mensagem para marcar a próxima aula?
Assinto rapidamente antes de vê-lo colocar a mochila nas costas e seguir Jason até a porta da frente. Segurando meus cadernos e folhas, subo as escadas até o meu quarto. Sem me importar, jogo tudo no chão e me atiro na cama macia.
Minha camiseta, por algum motivo, está cheirando ao perfume de Nico.
Preciso urgentemente de um banho. E dormir.
Jason está parado na minha porta há quase um minuto. Apesar de eu não estar olhando para o rosto dele, tenho uma ideia do que vou encontrar. Provo estar certa para mim mesma assim que desvio os olhos da tela do notebook.
Lá estava: a famosa cara de quem chupou limão. Não faço ideia do porquê ele estar com ela já que mal o irritei hoje, então pergunto:
— Que foi?
— Nada de namorar com ele, Thalia.
Me atiro para trás na cama, bufando alto. Não acredito que estou ouvindo uma coisa dessas.
— Larga de ser um pé no saco, Jason. Não tenho interesse nenhum no seu amigo.
— Eu tô’ falando sério! Nico é como um irmão pra mim. Não quero estragar o que temos por causa de um namorinho que não deu certo.
— Cruzes, Jason. Você soa tão incrivelmente gay.
— É sério. — Avisa, antes de dar meia volta e entrar no seu próprio quarto.
Cruzes. Tão mimado! Só podia ser coisa do vô Cronos.
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