Bad Karma
1 Crazy Over You (Capítulo Único)
Notas iniciais
Olá Julie, tem dormido bem? Espero que sim, pois eu não.
Tem sido difícil para um caralho cair num sono nesta porra de lugar. Minhas companheiras de cela enrolam demais para ir dormir, preferem passar a noite inteira conversando, badernando por ai; E às vezes, até mesmo, berrando igual otárias que elas são, sem nenhum motivo aparente. Já perdi a conta de quantas vezes o guarda teve que vir aqui.
Enfim, não estou perdendo meu tempo escrevendo essa carta para falar sobre minha vida chata na cadeia. É algo mais importante, acredite se quiser. E não, não são mais ameaças ou xingamentos diante a sua pessoa ou esse policialzinho. Na verdade, é o oposto.
Ok, estou me sentindo meio envergonhada em ter que falar isso com alguém, ainda mais para você. Então eu realmente espero que não ria da minha cara com o que irei dizer a seguir.
O que eu queria falar, ou melhor, perguntar é…
…
…
…
POR QUE fiquei tão obcecada por você?
Eu te odeio e tu sabe disso. Tu consegue me tirar do sério quando quer e você sabe disso. Mesmo que não intencionalmente, você me faz um mal desgraçado e sabe muito bem disso.
Então, por que, tão repentinamente, sem nenhum motivo, estou me apegando a sua pessoa? Qual é a razão de agora eu estar com vontade de te fazer bem, te fazer rir, sorrir, te proteger de todos os males que há neste grande mundo, sendo que anteriormente, eu era seu maior mal? Não entendo.
Estranhamente, de um tempo para o outro, te ver não estava mais me causando aquele sentimento terrível de medo, impotência e raiva. Não te vejo como um inimigo, não mais. O sentimento maligno de dor e ódio deu o seu lugar para amor e a compaixão. E a compaixão é tanta, que sinto que estou me apaixonando por você.
...
Falando nisso, acho que tenho falar uma coisa. Imagino que eu nem deveria te contar isso, uma vez que não irá só trazer problemas para mim, e sim para outra pessoa.. Só que é aquele negócio, né? Não me importo nem um pouquinho, haha.
Enfim, o que eu ia dizendo é: uma das minhas colegas de cela, a Emília, de alguma forma, tem conseguido roubar fotos suas do nosso guarda, sem que o mesmo perceba. Toda semana, ela consegue fotos novas e entrega para mim, sem falar nada.
No início eu não entendia o porque dela fazer isso, ou porque as me entregava, sem razão alguma. Também nunca tive coragem de perguntar, até porque nunca fomos muitos próximas, sabe? Sempre foi cada uma por si, em seu próprio canto.
Porém, acho que agora estou passando a entender porque ela está fazendo isso… Emilia deve ter roubado meu diário, em plena madrugada, enquanto todos nós dormíamos, e deve ter lido sobre tudo o que falei de você. Ou deve ter me pego fazendo um dos vários desenhos que faço de ti e de seu lindo rosto fofo. Tanto faz.
De uma forma ou de outra, ela deve saber que estou apaixonada por você e está dando seu máximo para alimentar esse desejo.
É, eu queria entender o porquê disto também. Talvez ela só goste da minha arte, ou goste de ver alguém aqui nutrindo sentimentos que não seja raiva ou ódio. Tantas possibilidades.
Voltando ao foco, quando passei a receber essas fotos, havia prometido a mim mesma que não iria alimentar esse vício, que não iria olhar muito para elas. Prometi a mim mesma que iria te esquecer e seguir a vida.
Só que você sabe, né? Eu nunca fui muito boa em manter promessas.
No começo, era só apenas uma pequena e boba sensação de alegria, felicidade. Agora, é um vício incontrolável. Uma droga na qual eu não consigo largar, e nem sei se quero, sinceramente.
Não há um doutor que possa me ajudar quando estou apaixonada.
Olhar fotos suas tem me causado borboletas no estômago, um quentinho no coração. Toda vez que vejo esse rostinho, sinto uma enorme vontade de beijar essas bochechas cheinhas. Sinto vontade de encostar sua cabeça em meu ombro, enquanto acaricio seus lindos cabelos castanhos curto. Ou apenas te abraçar por um longo período de tempo, esquecendo-me todo o mal que nos cerca.
Você é minha nenê rebelde.
É esquisito, é estranho, e até mesmo, um pouco irônico, estar passando a sentir esses sentimentos agora. Quero dizer, eu sou a raiz todo seu sofrimento, de todo o mal em sua vida e na vida das pessoas que você ama. Cometi crimes horríveis, machuquei pessoas, e pior, tentei te machucar. Te odiei muito ao ponto de querer ver você sofrendo, e sentir felicidade com isso.
Entretanto, ultimamente só tenho sentido o oposto de tudo isso. Nem consigo mais me imaginar sentindo prazer com algo dando errado na sua vida. Pelo contrário, tenho sentido tristeza, dor e preocupação em só sequer em imaginar tais coisas. Por que só agora?
Este é meu Bad Karma?
Meu karma negativo é me apaixonar por uma garota que nem ao menos posso chegar perto? Que nem posso cuidar, ajudar ou dizer o quanto a amo? Ou apenas pedir desculpas pelas caralhadas de merda que fiz e tentei fazer? Que tipo de brincadeira de mau gosto é essa?
…
É, imagino que, infelizmente, seja uma punição justa para alguém julgou sem conhecer. Que desejou tanto o mal de outra pessoa apenas porque sua existência estava causando dor. Estou pagando com a boca por cada merda que disse ou fiz para você, está feliz com isso? Espero que sim.
Minha amada, sinto que este texto está ficando muito longo, mais do que deveria. Sinto muito. Só que antes de me despedir de você, eu gostaria de te contar uma coisa que espero que se lembre e te ajude nos momentos difíceis. É apenas um relato, mas também é minha opinião pessoal sobre seu ser. É o que realmente penso de você.
Vamos lá...
Confesso que te acho uma garota talentosa pra caralho, acho sua arte muito linda, inspiradora. E admito que ela tem me inspirado bastante também. Um dia sonho em ser igual a ti, ser essa mulher linda, maravilhosa, alegre, infantil, confiante, boba, forte e poderosa que tu é.
Também queria constar que desde o dia que nos conhecemos, de nossas brigas até nossos shades… tudo isso também fez parte para que eu abandonasse meu egoísmo, minha ignorância, e passasse a buscar te conhecer de verdade. E sinceramente? Sinto que estou mais feliz desde que me permitir isso.
É como dizem por ai, quando você cruza com Julieta Scrawberry, você dificilmente não acaba se apaixonando por ela.
Bom, acho que agora eu falei demais mesmo, me desculpe novamente por isso. Sei que nunca irá me perdoar e sinceramente, não espero perdão. No entanto, se algo escrito aqui nesta carta te afetou de alguma forma, seja positivamente ou negativamente, quero que me visite.
Meu maior desejo aqui tem sido te ver de perto, ao vivo. De poder olhar em seus olhos, de ouvir essa doce voz. Realize esse desejo por mim, se sua visão também mudou. Única coisa que peço.
Adeus.
…
…
...
(...)
Um mês após a carta ter sido enviada…
…
O policial poderia odiar o seu trabalho, porém, com certeza odiava ainda mais ter que substituir o trampo dos outros. Seu colega de trabalho, Maxine, teve problemas pessoais envolvendo sua família e infelizmente não pôde comparecer. O barbudo estava tendo que se virar em dobro para que nada desse errado.
Felizmente, o trabalho de Max não era algo que exigia muito esforço, era bem simples na verdade: vigiar as prisioneiras para garantir que elas não fujam ou façam muito barulho; e acompanhá-las quando recebessem visitas.
Geralmente isso, para ele, isso não seria um grande problema. As prisioneiras costumam ficar bem caladas e paradas com a presença dele intimidadora dele. Não por medo, por puro desconforto mesmo.
Já as visitas, era algo incomum de se acontecer. De vez em quando, um amigo, parente, ou até mesmo, um advogado, poderia comparecer. Mas as garotas dificilmente aceitavam, alegando que não queriam mais ter contado ninguém de fora.
O policial pensava que esse seria apenas mais um dia desses.
Girando a chave em torno de seus dedos, o homem caminhava tranquilamente ao lado celas. Olhares de curiosidade, esperança e desprezo, o cercavam durante seu trajeto.
Uma pessoa um tanto “inusitada” havia vindo fazer uma visita a uma prisioneira ainda mais inusitada ainda. O rapaz estranhou tal interesse repentino. Todavia, optou por não questionar. Assim isso seria mais rápido.
Claro, tentou explicar que as detentas não costumam receber visitas, e quando recebem, costumam negar. O indivíduo não pareceu se importar e retornou a insistir em querer ver a delinquente. Não tinha mais nada o que se pudesse fazer a partir dai.
Repentinamente, parou de girar as chaves e as segurou com força. Seus olhos encararam com desprezo a grande cela em sua frente. Havia finalmente chegado em seu destino.
Várias mulheres de diversas raças e etnias estavam encarando-o de volta, com exceção a uma. “Sam”.
O cabelo de Sam era um loiro bem claro, com visíveis raízes castanhas que haviam crescido durante o tempo. Devido a falta de hidratação e a forte descoloração, seu coro cabeludo se assemelhava bastante a palha.
Suas vestimentas eram escassas. O vestido que usava, que uma vez na vida havia sido branco, agora havia se tornado algo como bege, cheio de cortes e manjas desconhecidas. Sapatos? Não conseguiu os localizar. Talvez os tenha perdido também.
De forma esquisita e um tanto macabra, a jovem encarava atentamente a parede em sua frente. Seu olhar carregava um ar de pensativo, distante. Era uma cena assustadora de se ver, levando em conta a aparência e o histórico da mais nova.
De forma profissional, afastou-se de tais pensamentos e focou no que realmente veio fazer: Perguntar para Sam se ela quer ver o indivíduo. Ainda que ele ainda esteja se questionando se isso é realmente uma boa ideia.
Sem mais e nem menos, o rapaz pegou as chaves em suas mãos e começou a bater elas nas grades. Em seguida, anunciou:
— Sam, você tem visitas.
— Diga a eles que não quero ver ninguém. – Respondeu, sem retirar a atenção de seus olhos na parede. Seu tom de voz não demonstrava ânimo nenhum.
— Mesmo se for uma vadia? — A atenção de Sam foi-se em direção a ele.
— Mas o quê? — O superior deixou um riso escapar — Que porra de brincadeira é essa?
— Acho que você terá que vir comigo para poder descobrir.
A prisioneira olhou para o policial, e em seguida, olhou para as colegas de cela, esperando respostas. Todas assentiram com a cabeça.
Sam respirou fundo e decidiu seguir o guarda para saber quem seria essa tal “visita”.
(…)
Ao chegaram lá, uma mulher jovem e bela estavam lá. Seu cabelo era da cor preta, curto e raspado nos lados. Usava bastante maquiagem, num estilo bem gótico, e vestia roupas pretas também.
Sam ficou de boa aberta, seu corpo começou a tremer. Ela não pode acreditar no que estava vendo.
Era Julieta Scrawberry.
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