Bad Heroes

16 Mind Mischief


Notas iniciais
Olá, meus leitores! Quem está pirando com o trailer da 6B? Sim, eu estou! Esse capítulo é bem relax em comparação ao anterior, mas o próximo não será. Teremos Toby e Hanna cheios de segredinhos e um pouco de Emison... Enfim, boa leitura e até o próximo!

Parei em frente a porta dos fundos da minha casa e respirei fundo, minha mochila pesando absurdamente nas minhas costas, ou talvez fosse a exaustão que estivesse me causando essa sensação. Meu rosto estava todo suado, causando irritação nos meus visíveis ferimentos. Coloquei o capuz na cabeça para minha mãe não perceber caso ela estivesse acordada, e infelizmente ela estava. Eu ouvia o ruído fraco da televisão transmitindo algum jornal, mas ela logo foi desligada, dando espaço para os grilos no jardim fazerem algazarra. Desliguei minha mente por uns instantes, ouvindo a respiração sôfrega de minha mãe na sala. Bloqueei todos os pensamentos dela, os quais vinham como uma enxurrada de preocupação e angústia, me deixando ainda mais triste. Eu não queria preocupá-la daquele jeito. Tentei abrir a porta com o máximo de cuidado, fazendo o menor barulho possível e me lembrei do meu pai, que há essa hora deveria estar no departamento de polícia. Wayne Fields era o capitão da equipe de polícia de Nova Iorque, e por isso quase nunca estava em casa. Ele fazia um ótimo trabalho como capitão, apesar de ser muito severo e exigente quando estava em casa, principalmente comigo. E talvez fosse por isso que eu era tão certinha.

Dei o primeiro passo para dentro de casa lentamente, vendo as luzes da cozinha apagadas e apenas uma pequena lâmpada em cima do fogão acesa. Desisti de tentar não incomodar minha mãe e abri a porta normalmente, dando uma tapa nela com a mão para que se fechasse enquanto eu ia rapidamente até a geladeira e a abria, me abaixando e escondendo meu rosto atrás da porta. O vento gélido do interior da geladeira se arrastou pelo meu rosto, me aliviando por alguns instantes, até eu me lembrar da presença da minha mãe na sala de jantar. Tentei me concentrar nos potes de macarrão com queijo e saladas, dando tapas na minha própria coxa nervosamente.

— Não precisa me esperar acordada. — Falei, afastando a embalagem de vitaminas da minha frente para ver melhor.

— Preciso sim. — Minha mãe respondeu na mesma hora.

— Não, não precisa. — Disse eu, tentando me concentrar nas vasilhas de gelatina sem gordura. Minha mãe era sempre tão saudável, ela sempre se preocupava para que eu comesse tudo numa dieta predisposta por um nutricionista.

— Sim, eu preciso. — Ela disse atordoada e brava. Bufei quando percebi que a cadeira arrastou no chão e ela se levantou. — Onde é que esteve?

— Dei uma saída.

— Trouxe os ovos? — Ela disse. Então me lembrei dos ovos orgânicos que ela havia me pedido para comprar quando eu estava no laboratório e, obviamente, eu tinha esquecido de comprar.

— Não... — Me ergui, virando o rosto para o outro lado e fechando a geladeira. — Eu esqueci. Vou comprar agora. — Me virei com um passo e andei até a porta, abrindo-a rapidamente e tentando me livrar das perguntas da minha mãe.

— Não, você não vai de jeito nenhum. — Ela veio atrás de mim, fechando a porta antes que eu saísse e com a voz tremendo, como se estivesse à beira das lágrimas. — Não a essa hora! — Ela aumentou a voz, buscando meu rosto com o olhar, mas eu me virei para o outro lado e fui até a pia.

Infelizmente, eu não tinha a mesma capacidade de Alison para contar mentiras, e aquela história do paintball nem passava pela minha cabeça. Por outro lado, eu também não podia contar a verdade e muito menos dizer onde estive. Coloquei as mãos sobre o alumínio da pia, estava gelado, como a noite a lá fora. A luz da lua entrava pelas frestas da janela, iluminando meu rosto, o qual eu abaixei e permaneci olhando para baixo.

— Olha para mim, Emily. — Minha mãe pediu calmamente, mas começando a se desestabilizar. Mantive-me imóvel e olhando para baixo, o que a incitou a continuar falando. — Tira essa porcaria de capuz e olha para mim.

Respirei fundo e agarrei o capuz, tirando-o da minha cabeça com certa raiva e me virei para ela. Minha mãe colocou a mão sobre a boca assim que seu cérebro processou a imagem a sua frente: um vergão vermelho enorme no lado esquerdo da minha mandíbula, meu olho esquerdo vermelho e um tom arroxeado na pele ao redor dele, e o canto da minha boca vermelho e inchado, sem falar nos meus cabelos úmidos de suor e meio desarrumados. Eu abaixei os olhos, não sabendo com que cara iria olhar para ela.

— Emily... — Ela disse baixinho enquanto eu continuei mirando o chão. — Aonde você foi? Quem fez isso com você?

Aquilo certamente partiu meu coração, a forma assustada como ela me perguntava. Na verdade, tudo que eu queria fazer era correr para o colo dela e dizer que sentia muito por tê-la feito se preocupar.

— Por favor, vá dormir, mãe. — Pedi em tom de súplica, esperando que ela pudesse fazer isso.

— Por favo, me fala. — Ela disse, com os olhos cheios de água e o rosto começando a se retorcer. Me olhava como se só quisesse me tomar nos braços e cuidar de mim.

— Por favor, por favor, vá dormir. — Falei com a voz falhando a cada palavra.

— Eu não consigo dormir! — De repente, sua feição se tornou brava a irritadiça e ela falou mais alto. — Você não entende? Eu não consigo dormir! — Ela gesticulava agitada e me olhava bastante brava.

Eu não me atrevi a respondê-la, e suas lágrimas caíram pelo rosto cansado, trazendo um silêncio tortuoso. Segundos depois um barulho agudo e irritante se instalou pela cozinha, e eu percebi que se tratava do bule de chá que estava fervendo no fogão. Minha mãe abaixou os olhos e eu apenas fui até o fogão, tentando calar aquele ruído. Mamãe seguiu meus passos, indo até o fogão também e desligando o fogo antes de mim.

Os olhos da cor de mel me olharam impetrantes e suas mãos foram parar no meu casaco. Eu peguei um pouco de ar enquanto a olhava também, tentando mantê-la longe de qualquer rastro de sangue meu.

— Emily — Ela disse e eu olhei para os lados, nervosa. —, me escuta. — Mamãe disse enquanto me olhava, eu parei de desviar meus olhos dos dela e a fitei temerosa. — Segredos têm um custo, não são de graça. Nem agora e nem nunca.

Olhei para ela, tentando absorver o significado daquela frase, mas meu cérebro estava tão fatigado que eu só pensava na minha cama quente e macia.

— Eu tenho que ir. — Falei me desvencilhando dela e de seu olhar de cortar o coração.

Agarrei as alças da minha mochila com força enquanto me dirigia para a escada, sentindo minha mãe me olhar da cozinha.

***

No dia seguinte, quando eu já me sentia bem melhor e meu rosto já mostrava que podia se curar bem rápido, acabei decidindo que mesmo assim não iria participar da aula de educação física. Eu fiquei com Aria na arquibancada, olhando Lucas Gottesman tacar bolas como um foguete no jogo de queimada e quase matar Mona Vanderwall com uma bolada na cabeça. Ela pareceu perder os sentidos por uns segundos, mas depois apenas fez uma careta e disse que estava com dor de cabeça. Lucas pediu desculpas, é claro, enquanto Alison estava se dobrando de rir no canto da quadra. Mona estava diferente hoje, seu cabelo estava solto e sem nenhuma presilha colorida, também não estava usando suas meias listradas que iam até o joelho e seus suéteres de crochê de aparência antiga não deram nenhum sinal de vida e seus óculos de grau não estavam em seu rosto como de costume. Usava a roupa de ginástica de Rosewood Day — um short de pano e camiseta cinza — junto com um tênis preto esportivo. E no inicio da manhã eu a havia visto entrando na escola com um vestido preto com flores cinza bordadas na beira do mesmo e botas. Mesmo assim, Ali não havia perdido a oportunidade de tirar uma onda com ela por conta do estilo meio gótico.

Durante todas as aulas possíveis, flashes da noite passada entravam no meu campo de visão, me dando arrepios e choques de adrenalina pura no sangue. Minha mãe parecia ter esquecido meu pequeno drama ontem à noite, mas eu evitei conversar com ela a respeito e claro que ela me pôs de castigo. Quando o sinal bateu para o intervalo, eu estava saindo da minha aula de latim e tentando bloquear os pensamentos famintos dos outros alunos quando passei pela sala de química, que parecia vazia, mas somente parecia.

— Você está bravo? — Ouvi uma voz feminina perguntar de dentro da sala. Eu parei de andar e me escorei atrás do batente. — É porque não terminamos de fazer o trabalho?

Quando espiei dentro da sala, enxerguei Toby arrumando seus pertences dentro da bolsa e ao seu lado vi Hanna, que parecia ligeiramente preocupada.

— Não, não estou bravo. — Toby resmungou, mas o bico que ele estava fazendo deixava claro que ele estava chateado com alguma coisa.

— Tem certeza? — Hanna perguntou quase divertida. — Porque você quebrou um pote de vidro com a mão quando o sinal bateu e eu continuo achando que foi porque não terminamos nosso exercício a tempo.

Toby fechou o zíper da mochila com força e olhou para Hanna sério.

— Não foi culpa sua. — Ele disse retoricamente. Toby andou para sair da sala, mas as mãos de Hanna seguraram o braço dele.

— Toby... — Ela parecia implorar, olhando-o com apreensão. Cerrei meus olhos, tentando entender o que estava se passando ali. Toby lançou um olhar cortante a Hanna e ela soltou o braço dele.

— O que?

— Você ainda está se tratando, não está? — Ela o olhou, esperando que a resposta fosse sim.

Toby negou com a cabeça, desacreditado.

— Porque a pergunta? — Ele parecia querer rir. — Eu já estou bem, Hanna. Estou ótimo!

Hanna comprimiu os lábios, abertamente descontente com aquela resposta.

— Toby, eu só não quero que faça com Spencer o mesmo que fez com...

Ele revirou os olhos.

— Não, Hanna. Eu já disse que estou bem, se é que algum dia estive doente. — Ele falou tão grosseiro que até eu me assustei. Os passos pesados de Toby se tornaram mais audíveis e ele saiu pela porta na direção oposta a que eu estava, me deixando passar em branco.

Fique parada por um tempo, assimilando o que tinha escutado. E antes de sair dali, eu escutei um suspiro abatido de Hanna dentro da sala.

Encontrei com Spencer e Caleb na saída, e ambos pareciam discutir um assunto de extrema seriedade, ou talvez não. Quando me aproximei, Caleb praticamente evitou meus olhos e saiu de perto o mais rápido possível, como se estivesse com medo de mim.

— Qual o problema dele? — Apontei para o garoto magro que desaparecia entre os alunos.

— Problema? São três ou dois. — Spencer suspirou. — Mas não é nada muito sério.

Apertei minha mochila no ombro, sentindo meus músculos quase regenerados de novo.

— Ei, você teve mais notícias de Nova Iorque? Sobre o que aconteceu, quero dizer. — Perguntei a ela enquanto nos movíamos pelo corredor. Minha língua coçou para contar sobre Hanna e Toby na sala de química, mas achei melhor ficar na minha.

— Não muitas, na verdade. — Spencer disse num sussurro. — Mas saímos na primeira capa do New York Times essa manhã, eu vi na internet. “A cidade ganhou novas guardiãs?” — Ela disse imitando uma voz de locutora de rádio.

— Sério? — Olhei-a. — Nossa, nem acredito. Quer dizer, eu quase me ferrei por causa disso ontem e ainda tem meu pai...

— Ah, nem me fale. — Spencer espanou o cabelo para trás. — Meu pai e Melissa só falaram do meu grande atraso ontem à noite.

Eu abri minha boca para responder algo sobre, mas a figura de Ali passando pelo corredor me congelou onde eu estava. Era simplesmente deprimente a forma como meus olhos pareciam ser escravos dos dela, sendo controlados até mesmo a metros de distância. Com sua jaqueta de couro Armani e suas botas de salto pretas, ela desfilou pelo corredor como uma top model, sorrindo e piscando para mim enquanto entrava em uma sala. E então, depois que ela sumiu da minha vista, percebi que ela havia entrado na sala de detenção.

— É, parece que alguém se ferrou. — Spencer sorriu ao meu lado. — Você soube do que aconteceu?

Neguei completamente perdida.

— Bem, vamos dizer que Ali transformou as provas de economia em um bloco de gelo espesso e mais duro do que pedra. — Ela disse rindo. — Bem, vamos apenas admitir que foi uma bela jogada, apesar de ela ter que inventar mais uma mentira cabulosa para encobrir isso.

Depois de alguns segundos negando com a cabeça, eu resolvi perguntar algo a ela.

— Ei, você ainda está chateada por ontem? Pelo que Alison disse sobre você ser fraca... — Eu comecei, sentindo uma vontade enorme de ler a mente dela, mas me controlei.

— Claro que não. — Ela retrucou quase ofendida com a pergunta. — Em que mundo Alison DiLaurentis me faria ficar chateada?

Eu já sabia a resposta.

— Quando os macacos dominarem a terra e não sobrar nada além de polvilho para comer e ela te negar um biscoito?

— Talvez. — Ela disse, rindo das nossas piadas de nerd.

***

— Então você está me dizendo que pode me fazer vomitar se quiser? — Eu ergui minha sobrancelha esquerda e olhei para Spencer.

Ela deixou minhas fotografias em cima da cômoda de lado e me olhou com um sorriso convencido.

— Sim, eu controlo a água, queridinha. — Spencer sorriu e caminhou até a cama, onde eu estava sentada com as pernas dobradas e o dever de física incompleto. — E seu corpo é setenta por cento água, então eu posso começar a movimentá-la dentro de você... — Ela começou a mexer as mãos na minha direção, mais especificamente para a minha barriga e eu me apavorei. — E... Bum!

— Para, Spencer! — Eu disse querendo rir da forma como ela estava mexendo as mãos, como se fosse uma feiticeira.

Ela riu e sentou na beirada da minha cama. Eu estava tentando fazer meu dever de física quando ela apareceu aqui querendo o caderno de economia dela, o qual eu havia pegado emprestado. Com a luz do sol entrando fortemente pelas janelas abertas da minha sacada, o rosto de Spencer parecia se curar a cada segundo que ela bebia um gole da garrafa de água que tinha nas mãos. O inchaço no canto do queixo já estava quase imperceptível e seus hematomas nos braços sumiam quase que energicamente.

— Em, diz que não tem nada para fazer depois que terminar o dever de física. — Ela cerrou os olhos para mim, com aquele jeito persuasivo que eu já conhecia.

— O que? Por quê? — Juntei as sobrancelhas, puxando as mangas do meu casaco de quadro para cima.

— Porque eu preciso de alguém para ir comigo na prova do vestido para o casamento de Melissa. — Ela fez uma careta, fazendo seu rosto redondo ficar ainda mais circular por conta de seus cabelos presos.

— Bem, então eu não vou poder ir. — falei, olhando para ela com uma cara de culpada. — Minha mãe me deixou de castigo por causa de ontem.

— Sério? — Ela disse quase desesperada. — Eu posso tentar convencê-la, você sabe que eu consigo.

— Então vai ter que esperar até que ela volte do mercado, que vai ser lá pelas cinco ou seis da tarde. — Peguei meu lápis e tentei me concentrar no caderno aberto na minha frente.

— Mais que droga! A prova do vestido é às quatro. — Spencer saiu da cama e andou pelo quarto.

Eu sabia que ela queria que alguém fosse com ela porque era difícil para ela ter que aguentar Melissa sozinha. Melissa Hastings era o tipo de filha perfeita, ou quase isso. Ela já havia tido uma dúzia de namorados lindos e estrangeiros, os quais sempre mostravam interesse por Spencer e não por ela. Agora ela estava noiva de Ian Thomas, um cara com um aspecto meio pervertido que veio do Canadá. Spencer já havia me contado o quanto ele parecia ser traiçoeiro, mas não sabia se deveria ou não avisar Melissa sobre isso. E eu tinha plena certeza que se ela o fizesse, Melissa iria defender o noivo e dizer que Spencer estava com inveja, porque era isso que ela sempre fazia. Além de sempre tentar ofuscar o brilho de Spencer, querendo ser o centro das atenções da Super-Família-Hastings.

— Aria não está disponível? — Perguntei a ela.

— Hoje ela tem consulta com a Dra. Sullivan, a psicóloga ou terapeuta dela. — Disse Spencer.

Eu pensei em sugerir que ela chamasse Alison, mas ainda tenho amor a minha vida.

— Então pede para a Hanna. — Tentei soar divertida para que ela não fizesse eu vomitar meu almoço em cima do meu caderno.

— Hanna passou a aula de geografia inteira me desenhando de chapéu pontudo e com uma verruga na ponta do nariz. — Ela me contou indignada. Tudo que fiz foi soltar uma risadinha.

— Até que faz o seu estilo. — Caçoei dela. — Porque não chama o Toby?

Spencer voltou a se sentar na cama de novo.

— Ah, sei lá. — Ela fez um beiço. — Ele parecia meio bravo hoje.

A cena da sala de química piscou na minha cabeça.

— Bravo com você?

— Não sei. Ele foi meio grosseiro e quase não falou comigo.

Estreitei meus olhos.

— Você lembra-se daquele dia do meu aniversário? Quando Toby nos encontrou no parque? — Ela me olhou.

Na verdade, eu não me lembrava de muita coisa daqueles momentos depois de termos saído do laboratório de Ezra, e algumas lembranças daquele dia ainda estavam embaçadas.

— Me lembro de um pouco.

— Toby me deu um aquário vazio, na hora eu não estranhei, mas depois pensei: como ele sabia o dia do meu aniversário? — Ela começou suspeita, então a Detetive Hastings estava entrando em ação novamente? — Quando perguntei a ele, sabe o que ele me disse?

— Não. — falei, rabiscando uma fórmula na folha de papel. — O que ele disse?

— Que Alison havia contado a ele, dito para que ele comprasse algum presente e fosse nos encontrar no parque. Ela planejou tudo! — Seu tronco se ergueu da cama de novo enquanto eu a olhei, perplexa. Que interesse Ali teria em ver Spencer e Toby juntos?

— Porque ela faria isso?

— Segundo Toby, ela disse: ela está caidinha por você. — Ela ajeitou a coluna e imitou Alison como uma presidiária.

Eu ri.

— E isso não é verdade?

Spencer me olhou como se eu fosse um inseto que havia pousado no casaco dela.

— Claro que não! — Ela protestou, mas eu continuei olhando ela sugestivamente. — Tá bom! É só um pouquinho.

— Então qual é o problema? — Voltei minha atenção para o caderno.

— Eu quero saber por que ela fez isso, quer dizer, ela me odeia. E eu a odeio. — Spencer disse e deu outro gole em sua garrafa.

— Odeia nada, você não odeia ela e nem ela te odeia. — Eu tentei dizer sem me embaraçar. Acho que falei “odeia” umas três vezes. — Ela só gosta de irritar você e sei que você também gosta de provocá-la.

Ela cerrou os olhos para mim.

— E agora você está defendendo ela. — Spencer disse me investigando.

— Eu só estou querendo um pouco de paz. — Me defendi e desviei os olhos dela.

O som do celular de Spencer soou no meu quarto e ela rapidamente o pegou de dentro do bolso do casaco marrom e longo que estava usando. Ela olhou a tela piscando e fez uma expressão cansada.

— É a Melissa. Eu tenho que ir. — Disse ela, desligando o telefone e dando outro gole em sua água. — A gente se vê.

— Até mais. — Acenei para ela enquanto a mesma saía do meu quarto.

Depois do que pareceram trinta minutos, eu continuei fazendo meu dever ou pelo menos estava tentando. Eu ainda sentia o vento de Nova Iorque batendo pelos meus cabelos e as telas da Times Square explodindo em luzes por todos os lados, as pessoas nos aplaudindo e gritando por nós. Eu estava prestes a pegar meu laptop para pesquisar sobre o que estavam falando de nós quando alguma coisa bateu na minha janela e quase quebrou o vidro. Pulei para fora da cama no segundo seguinte e fui até a sacada, abrindo a janela e enxergando uma figurinha loura bagunçando a grama do meu jardim.

— Ali? — Gritei olhando para baixo e vendo Alison parar de pisar na grama como se quisesse matar as formigas.

— Ah, oi Em. — Ela acenou para mim com um sorriso tão doce quanto açúcar.

— Oi. — Falei franzindo o rosto quando vi um cubo de gelo derretendo na minha sacada. Ela o tinha usado para atirar na minha janela.

— Eu sei que sou linda, mas, ao invés de ficar me admirando, não quer me convidar para entrar? — Ela perguntou lá de baixo, colocando as mãos ao redor da boca para que eu escutasse.

Eu ri.

— Ali, você não quer entrar? — Falei. Ali sorriu como se fosse o que ela estava esperando.

Eu me afastei alguns passos quando vi ela tomar impulso do chão. Alison usou a árvore perto da minha janela como apoio para escalar entre a parede e o tronco até chegar à minha sacada. Eu não tive tempo calcular quanto isso durou, mas me pareceu rápido o suficiente. Quando olhei de novo, ela já estava dentro do meu quarto, tirando os sapatos e a mochila surrada das costas e se jogando na minha cama. Ela rapidamente deu um tapa no meu caderno em cima da cama e ele voou pelo quarto e bateu na parede, fazendo os papeis estalarem uns contra os outros.

— Venha, Em, deite aqui. — Ela deu tapinhas na cama, indicando o espaço vazio ao seu lado.

Eu me deitei timidamente do lado dela, percebendo sua temperatura baixíssima exalar pela pele. Ali ainda estava com sua jaqueta Armani e sua calça jeans com buracos do tamanho de uma mão no joelho e seus cabelos estavam muito dourados, quase como ouro.

— Você foi para a detenção hoje? — Perguntei, brincando com as minhas próprias mãos.

Ouvi Alison rir ao meu lado, me provocando algo de bom dentro de mim.

— Fui. — Disse Ali, enganchando seu dedo indicador no meu, que estava em cima das minhas coxas. — Você deve saber da história, a informante Hastings já deve ter contado a você.

— Foi ruim? — Eu indaguei. A verdade é que eu me sentia uma completa idiota toda vez que ficava sozinha com ela, sempre tentava dar toda atenção que ela precisasse.

Ali juntou os lábios e ficou pensativa.

— Não. — Ela me fitou e sorriu. — Pensei em você durante o tempo inteiro.

Meu coração começou a bater muito forte. A princípio, eu imaginei que aquilo era mentira. Concentrei-me em seus olhos e passei a desvendar sua mente mirabolante, vendo imagens minhas no dia em que ela me beijou na biblioteca e depois muitas outras cenas minhas sorrindo em sua cabeça. Pisquei espantada, afastando meu olhar do dela e sentindo um cheiro de cigarro vir de sua jaqueta.

Ali se levantou da cama e apanhou sua mochila jogada no chão, tirando de lá uma caixa de donuts com cobertura de granulado e chocolate. Um maço de cigarros também veio junto, mas Alison não pareceu disposta a fazer uso dele já que apenas o guardou no bolso.

— Já fumei o bastante por hoje. — Ela resmungou para si mesma enquanto sentava de novo na beira da cama, onde Spencer estivera algum tempo atrás. Suas mãos jogaram a caixa aberta na minha frente e depois ela pegou um donut, dando uma mordida enorme e sujando os cantos da boca.

Comemos a caixa inteira de donuts em poucos minutos, e eu ria de algumas coisas que Ali me contava sobre sua estadia na detenção. Ou sobre a mentira que ela inventou para não ter que contar sobre seus poderes aos diretores. Ali sempre tinha no rosto aquela feição de menina pestinha: sobrancelhas arqueadas, sorriso sarcástico e um brilho nos olhos sempre que fitava alguém — como se estivesse prestes a jogar uma bombinha dentro de sua camisa.

— Sua mãe está por ai? — Ali questionou quando já estávamos deitadas lado a lado na minha cama e olhando para o teto.

— Não, ela foi ao mercado. — Respondi, sentindo uma onda de raiva vir de dentro dela. — O que foi?

— Eu só estava pensando... — Ela comentou vagamente, passeando seus dedos frios pela minha coxa. — Jason estava mexendo no meu quarto hoje, e realmente espero que ele não estivesse fazendo o que eu estou pensando que ele fez.

Virei meu rosto para olhá-la.

— Ele fez alguma coisa com você?

— Não, mas lá tem algumas coisas que nem ele e nem ninguém podem ver.

Eu juro que tentei me controlar, mas a curiosidade foi maior. Mirei os olhos de Ali, pronta para xeretar seus segredos, mas foi como se ela já esperasse por isso. Seus pensamentos se dissiparam com uma rapidez alucinante, antes mesmo que eu pudesse os ver com clareza. Tudo em sua mente ficou vazio e depois se preencheu com uma imagem ainda mais agoniante — eu e Ali no quarto dela, na semana passada.

Assim que me dei conta do que ela estava fazendo, me desconectei de sua cabeça e me sentei na cama. Tinha sido uma armadilha? Ela tinha me feito ficar curiosa para olhar a mente dela e depois pensou em algo impróprio para me desestabilizar? Então ela tinha conseguido. Meus músculos endureceram ao me lembrar de seus lábios grudados no meu pescoço e da forma macia como suas mãos vagavam por dentro da minha blusa.

— O que foi, Em? — Ali arreganhou um sorriso para mim, se aproximando.

Olhei para ela, sentindo uma vontade enorme de beijá-la na boca. Então me beirei lentamente dela, retribuindo seu aproximamento e em segundos senti seus lábios tocando os meus. Tinha sabor de menta, eu aposto que era o cigarro. Pulmões? Que se danem os pulmões. Deus abençoe essa garota por fumar e por ter esse sabor gelado tão delicioso.

Minhas costas amassaram a caixa vazia de donuts em cima da cama quando Ali se deitou por cima de mim, com seus beijos tomando proporções cada vez mais intensas. Sua língua tinha um aspecto tóxico, mas eu não nem ligava. Aquilo só me fazia querer beijá-la ainda mais, eu quase conseguia perceber meu rosto ficando mais gelado, como se estivesse começando a se petrificar com o gelo. Suas mãos eram rápidas quando se tratava de tocar minha pele e adentrar o tecido da minha camiseta. Não era a primeira vez que fazíamos aquilo, e algo me dizia que também não seria a última. Como da derradeira vez, Ali avançou para o meu pescoço, beijando-o sonoramente enquanto seu celular apitava em seu bolso com um som estridente de um toque de guitarra.

— Talvez seja importante. — Falei com visível dificuldade em pronunciar as palavras, revirando os olhos com mão de Ali traçando linhas invisíveis por cima da minha coxa.

Sua risada se abateu gelada na minha pele e depois ela voltou a me beijar com mais cuidado, tocando minha língua sutilmente com a sua e sugando meu lábio inferior com delicadeza.

— Só preciso beijar você mais um pouco. — Ela murmurou com um sorriso torto nos lábios que logo se colaram aos meus. Eu mexia meus lábios do mesmo jeito que ela, sempre seguindo a língua dela onde fosse. Estremeci imediatamente quando senti sua mão espertinha tentar passar por dentro meu short.

— Ali, seu celular. — Segurei a mão gelada dela. Alison saiu de cima de mim.

— Como você é chata, Marrentinha! — Ela disse fazendo um bico engraçado, pegando seu celular do bolso.

Enquanto Ali franzia o rosto para o próprio celular e sua face pálida e morta adquiria uma feição irritada, eu tentava manter minha respiração no lugar e controlar o frio no meu ventre.

— Quem é? — Perguntei a ela.

— Algum desocupado. — Ela fechou a cara, colocando o aparelho de volta na calça jeans.

Pensei em lê-la, mas a experiência de minutos atrás me alertou que seria em vão. Ali tinha pleno controle sobre os próprios pensamentos e sabia exatamente quando eu estava prestes a lê-los.

— Agora — Ali levou as mãos ao zíper da calça, abrindo-o. — vamos continuar a diversão. — Ela olhou para mim com um sorriso inteiramente pervertido e tudo que eu fiz foi arregalar os olhos.

— Do que você está falando? — Me afastei na cama, penetrando meu olhar no dela.

— Brincadeirinha, Em. — Ela fechou de novo e foi até mim na cama. — Não quer mais continuar?

Eu quase gaguejei, sentindo minhas orelhas ficarem rosadas.

— Tudo bem. — Ali assentiu complacente. — Eu entendo se não quiser se apaixonar ainda mais por mim... — Ela me olhou sugestivamente.

— Eu não sei se consigo... — Cruzei minhas pernas e percebi que estava suando. — Não sei se consigo me apaixonar mais do que já estou.

Com certeza admitir aquilo foi muita idiotice, mas eu já não conseguia simplesmente ignorar as diferentes sensações que me invadiam toda vez que Ali estava por perto. Eu não podia mais fingir que nossos amassos casuais eram só isso, eu não conseguia evitar sorrir toda vez que a via ou evitar que meu coração acelerasse quando ela me beijava de leve no início das aulas de latim, quando ninguém estava vendo. Ela me fazia rir e tinha o gosto de cigarro mais maravilhoso do mundo, me mandava bilhetes durante as aulas de história e colocava doces gordurosos no meu armário.

Ela deu um sorriso enorme, tão grande que quase rasgou seu rosto com um formato exato de um coração. Ali se apoiou sobre os braços e me beijou de novo, trazendo meus suspiros de volta.

— Então, você vai treinar hoje? — Ela tocou a ponta do meu nariz com o dedo indicador.

— Estou de castigo.

— E daí? É só um castigo idiota.

— É, mas minha mãe vai cozinhar meu fígado se chegar aqui e eu não estiver. — Expliquei a ela, mas isso não pareceu afetá-la.

— Aposto que seu fígado deve ser delicioso. Eu gosto de fígado com cebola. — Ali disse.

— Muito engraçado.

— Espere aí, eu já sei o que fazer. — Ela pegou o telefone de volta e ligou para alguém. — Ei, vadia! Nós vamos sair... É, agora mesmo. Não estou nem aí... Vamos mostrar diversão para a Em. Sabe o tipo de diversão... Sim, tenho certeza. Nos vemos daqui a pouco, vadia. — Ela desligou o celular e me olhou.

— O que você...

— Se arrume, Em, nós vamos nos divertir. — Ali disse sem me dar tempo de fazer nenhuma objeção.

— Mas...

— Eu te espero lá fora. — Ela piscou e pegou seus sapatos, pulando pela janela e desaparecendo no ar.