Her Pov

Minha respiração ainda estava acelerada, e meu corpo trêmulo, enquanto subia para meu andar. Tudo culpa do maldito encontro com Could. Por que ele tinha que aparecer para complicar minha vida? Por que tinha que me provocar daquele jeito? Lembro-me de uma vez ter lido em algum lugar que a vida era cheia de altos e baixos, como uma montanha russa. Se naquela época não consegui entender direito o que aquilo significava, agora eu poderia dizer que entendia perfeitamente. Nas últimas horas minha vida oscilara de um modo que eu não sabia se ainda iria controlar. Uma montanha russa emocional desgovernada, que seria difícil de parar.

Could voltar para minha vida neste momento foi a pior coisa que poderia ter me acontecido. Eu ainda o amava, disto não tinha dúvida, infelizmente. Principalmente, se meu coração acelerando em sua presença era algum indicativo. No entanto, eu não tinha tempo para ele. Minha nova missão ocupava todo meu tempo e demandava toda a minha energia. E eu não tinha ideia do que Could estava planejando. Mas se o confronto de hoje fosse uma prévia, então ele só poderia estar querendo me enlouquecer. Entre Could e Will, como eu conseguiria manter minha sanidade mental?

Saí do elevador e caminhei para meu apartamento – o único lugar onde estava segura, longe de todos esses problemas que bombardeavam minha cabeça. Contudo, assim que entrei senti que algo estava errado. Olhando ao redor, a primeira coisa que notei foi o modo como as fotos no meu aparador estavam dispostas – fotos que não estavam ali, para começar -, e em seguida sons vieram da cozinha. Isto não estava acontecendo, não mesmo. Tinha que ser um pesadelo! Este dia inteiro só poderia ser um sonho ruim, e a qualquer momento eu acordaria. Só que não era um sonho, era a realidade.

Tentei me acalmar, mas não consegui. Primeiro Could, e agora isso. Certamente este não era o meu dia. Comecei a andar em direção à cozinha com a intenção de confrontá-la, no entanto, ela apareceu na sala antes que eu desse mais do que alguns passos.

– Finalmente você voltou! Achei que não fosse mais chegar em casa – nenhum cumprimento, como sempre. Ainda bem que eu não estava esperando nada de diferente dela.

– Mamãe – sorri forçado – será que pode me dizer o que está fazendo aqui?

– Você está aqui. Uma mãe não pode mais visitar sua filha? – Observei seu visual impecável, que não mudava nunca. Em meus vinte anos de vida, jamais vi um fio do cabelo loiro avermelhado de Clarisse Olsen fora do lugar.

– Você não acha que vou comprar esta história, não é? Já faz 10 meses desde a última vez que nos vimos, e você não estava empolgada para um reencontro. Que eu saiba era para você estar fazendo a cobertura de um casamento em Los Angeles, não?

Ela não se abalou com minhas palavras, pois assim como eu, sabia muito bem fingir suas expressões faciais.

– A matéria foi dada para outro jornalista – ela disse simplesmente

– Então você perdeu a matéria e resolveu vir para cá me atormentar?

– Claro que não, Anika – ela pareceu realmente ofendida. Se eu não a conhecesse, acreditaria nela — Você alguma vez já pensou em alguém, além de si mesma? Nós só temos uma à outra, então, sim, é claro que eu vim te visitar. Já passou da hora de esquecermos o passado e voltarmos a agir como uma família.

Família? Qual era a concepção dela de família? Estávamos tão longe do que esse termo compreendia, que eu quis rir de seu tolo pensamento de que ainda poderíamos agir como uma. Mas era fácil para ela falar, que não sentia um pingo de remorso pelas coisas que fazia — Clarisse era uma mulher fria e prática, sem tempo para questões emocionais. Já eu, tinha todas as lembranças para me atormentar a cada minuto do dia.

Aposto que já ouviu falar que a verdade, muitas vezes, pode ser cruel. Eu não tinha ideia de como esta afirmação estava certa até me deparar com algo que preferiria mil vezes nunca ter descoberto. A maior parte da minha vida fora uma mentira, e posso dizer, honestamente, que isso foi um combustível adicional para tornar-me o que sou hoje. Já havia ressentimento em mim bem antes de Will me usar e descartar como se não valesse nada.

– Acho que sua mente é um pouco distorcida, Clarisse. Família não faz o que você fez – pronunciei sem emoção na voz. Eu estava cansada demais para uma briga com ela. Could havia drenado toda minha energia em nossa discussão. — Não se meta em meus negócios, e talvez eu tolere sua presença aqui – Fui para meu quarto antes que ela pudesse dizer alguma coisa. No momento eu tinha certeza de que nossa convivência não seria nada fácil.

A cada dia que passava meu desafio nesta cidade tornava-se maior, mas desistir não era uma opção.

– Já liguei para um restaurante e pedi o jantar! – mamãe gritou depois de alguns minutos. Ela não esperou por uma resposta minha, porque sabia que não receberia.

Deitei na cama e fiquei encarando o teto, esperando que minhas emoções se acalmassem. Respirei fundo e decidi que já estava na hora de tomar banho e me trocar, pois Will logo estaria aqui para me levar à empresa (Eu tive que concordar com isso, mesmo a contragosto, porque tinha que parecer “amigável”, e se recusasse talvez perdesse todo o progresso que já havia feito com ele). A única coisa boa em todo este dia era que me encontraria novamente com Harrison McCoy. Pelo menos isso, para salvar o dia de ser um desastre total!

Fiquei um bom tempo embaixo do chuveiro, adorando a sensação de calmaria que a água me proporcionava. Quando saí estava mais relaxada, embora não totalmente. Vesti uma calça jeans de lavagem escura e uma blusa tom pastel de mangas compridas. Enquanto calçava minhas sapatilhas pretas, peguei o secador e comecei a secar meu cabelo. Quando ele já estava livre da maior parte da umidade, o prendi em um rabo de cavalo e passei um gloss rosa suave nos lábios. Para ser sincera, não curtia muito este estilo cor-de-rosa, mas era necessário para convencer o Sr. McCoy de que eu era uma boa garota.

– Oh, finalmente você vestiu uma roupa de verdade – mamãe disse assim que saí do quarto – ela estava sentada no sofá, bebendo uma xícara de chá (provavelmente era isso o que estava fazendo na cozinha quando cheguei). Por que tive esperanças de não vê-la antes de sair, mesmo? – Você sabe que aqueles trapos que usa normalmente não constituem uma roupa, não é? – ela continuou falando enquanto eu me dirigia para a porta. – Para onde você vai? – perguntou quando minha mão já estava na maçaneta da porta.

– Vou sair – respondi simplesmente, fechando a porta atrás de mim.

Juro que gostaria de ser como outras garotas da minha idade que tinham um bom relacionamento com a mãe, mas com Clarisse isto era impossível de acontecer.

Quando cheguei à entrada do meu prédio, Will estava parando a moto.

– O que há com você e este visual de motoqueiro? – perguntei provocando, quando o vi novamente vestindo uma jaqueta de couro preta e uma calça jeans escura, com um cinto cravejado.

– Gatinha, eu tenho que me rebelar um pouco – ele disse me entregando um capacete – Você já viu onde vou passar o resto da vida trabalhando. Preciso aproveitar bem minha juventude, e me divertir.

– Pensei que sair com mulheres fosse sua forma de diversão – tentei esconder o desgosto em minha voz.

– Bem, isto também – ele piscou – Agora suba, já está na hora de você torturar meu velho.

– Não sei se vou ter coragem de subir – se eu soubesse que ele planejava vir de moto, teria inventado uma desculpa bem convincente para encontra-lo na empresa, dispensando seu convite de vir me buscar.

– Deixe disso. É só me segurar bem apertado, que você não tem perigo de cair – o sorriso malicioso em seu rosto deixou claro que isso foi premeditado. Claro que Will não perderia uma chance dessas!

– Por que não previ isso?

– Porque eu sou mais esperto que você. – o sorriso dele ampliou – Agora suba, gatinha.

Mais esperto que eu? Só nos seus sonhos, querido!

His Pov

As coisas não estavam saindo como planejei. Quer dizer, até estavam, se eu não tivesse quase colocado tudo a perder. E só por que não consegui aguentar mais uma de suas provocações! Mas que droga!

Estava tudo caminhando perfeitamente bem, Anika fora pega desprevenida em seu estacionamento — assim como eu sabia que seria – e negou que estivesse fugindo de mim, quando a provoquei sobre isso. A situação toda estava até me divertindo em certo ponto, afinal de contas eu havia encurralado a pessoa que se achava a mais esperta do mundo, capaz de passar para trás qualquer um. No entanto, assim que as provocações dela começaram, meu foco foi se perdendo.

Tenho certeza de que ela conseguiu ver a raiva em meus olhos quando menosprezou a noite que passamos juntos. Embora eu já soubesse que não havia significado nada para ela, foi duro ouvi-la falando daquele modo tão zombeteiro. Mas me controlei, assim como treinara, e não disse nada em resposta. O que talvez tenha servido como um despertar para ela, que logo recuou em sua postura desafiadora, e tentou sair de cena, deixando nossa conversa inacabada. Só que isso era algo que eu não podia permitir, pelo menos não até que Anika houvesse esclarecido algumas coisas para mim.

Tocá-la, mesmo sendo apenas para impedi-la de fugir novamente, foi um erro. O primeiro de muitos que cometi esta tarde. Sentir sua pele novamente, ainda que com aquele ínfimo toque, desencadeou em mim coisas que eu não deveria estar sentindo por ela naquele momento. E pelo que pude perceber, eu não fora o único afetado, apesar dela ter tentado encobrir sua reação utilizando o sarcasmo, que parecia ser sua arma para quase todos os momentos. Não que eu tivesse demonstrado como estava me sentindo. Usei a fúria para mascarar minha verdadeira reação, e exigi saber o porquê de seu jogo sádico com os homens.

A expressão confusa que tomou conta de seu rosto ao perceber que eu sabia sobre os outros antes de mim, deu-me mais combustível para continuar, e a maneira com a qual reagiu ao dar-se conta de que eu investigara seu passado quase fez o meu dia. Quase. Porque estraguei tudo ao tentar beijá-la depois dela ter dito que nunca me desejara. Aquilo fora como uma punhalada certeira em meu ego, e quis provar para mim mesmo que não passava de mais uma de suas provocações. No entanto, fui rejeitado.

Pela primeira vez em toda a minha vida, uma mulher rejeitou um beijo meu. Mas eu não deveria estar surpreso. Vindo da Anika, qualquer coisa era provável. Pensar qualquer outra coisa era iludir-se, e eu não me permitiria mais isso. Esta era a verdadeira Anika, a manipuladora, não a representação de garota espontânea e divertida que conheci meses atrás. E o fato de ter me apaixonado pela mentira e ainda não ter conseguido superá-la era o que me enfurecia mais.

Tive vontade instantemente de socar alguma coisa, e o volante do carro foi o alvo mais próximo que consegui encontrar. Assim que havia descontado parte da minha frustação, saí do carro — que havia estacionado a pouco tempo em minha vaga. Para falar a verdade, eu nem sabia como havia conseguido dirigir até meu apartamento. Estava tão furioso comigo mesmo, quando deixei o prédio da Anika, que foi um milagre ter conseguido me concentrar no trânsito.

Meu celular tocou quando estava prestes a entrar em casa.

– Ei, Matt – atendi tentando transparecer estar tranquilo.

– Já viu a bruxa ruiva? – Matthew Montgomery, ou simplesmente Matt, era meu primo e melhor amigo, o único para quem eu tivera coragem de contar minha história com Anika, não com todos os detalhes, é claro, mas o suficiente para fazê-lo entender minha situação.

Durante uma semana, depois daquela fatídica noite, virei praticamente um zumbi. Não comia, e bebia sem parar, cada vez mais me afundando no álcool. Eu só queria esquecer. Esquecer que Anika um dia aparecera em minha vida. Esquecer minha estupidez por ter me apaixonado por ela. No entanto, a sensação de estar anestesiado era de curta duração, pois quando ficava sóbrio novamente tudo retornava. Era um inferno. Eu não saía de casa, havia jogado todas as minhas responsabilidades para o ar. Faculdade, estágio na empresa, eu não me importava com nada. A família toda estava preocupada com o meu estado, mas eu não queria falar com ninguém, até Matt arrombar a porta do meu quarto um dia e me tirar da minha auto depreciação. Ele me obrigou a sair de casa e enfrentar o mundo lá fora antes mesmo que eu tivesse lhe contado o que havia acontecido. Demorou ainda alguns dias para conseguisse falar com ele sobre o assunto, e posso garantir que não foi nada fácil ter que reviver tudo o que aconteceu novamente enquanto narrava resumidamente minha descida até o inferno.

Mesmo saindo de casa, eu havia me tornado um antissocial. E principalmente, evitava as mulheres como quem fugia da peste negra. Para mim todas haviam se tornado seres ardilosos e trapaceiros, apenas esperando alguém ficar de bobeira para dar o bote. Cheguei seriamente a pensar que Anika havia me arruinado para sempre. Felizmente com a insistência de Matt, que não me deixou afundar, consegui me tornar um ser sociável novamente depois de quase um mês. Desta vez, porém, levei em consideração a lição que aprendi com Anika e encontrei alguém que só queria uma boa noite de sexo e diversão como eu. Garotas assim não eram difíceis de encontrar, e tentei mudar meu comportamento antigo de frieza. Eu sabia mais do que nenhuma pessoa o quanto isso era horrível, e o que não queria para mim, não queria para mais ninguém. Não que eu houvesse me tornado romântico de repente, isso era exigir demais e não caberia à situação, mas acho que um tratamento digno era bom o suficiente.

– Já, sim – respondi sem querer entrar em detalhes.

– Como ela reagiu quando viu você? Aposto que não estava esperando por isso!

– Bem... ela fingiu que não me conhecia. – Não diria de jeito nenhum sobre a minha abordagem do estacionamento do prédio dela. Pretendia esquecer aquilo.

– Bem a cara dela fazer isso! – logo em seguida ele suspirou – Could, tem certeza do que está fazendo? Não quer mesmo voltar para casa?

Quando contei meus planos, Matt ficou furioso comigo. Ele não entendeu, e ainda não entendia, meus motivos, e me acusou de estar louco. Talvez, de fato, eu estivesse. Esse era o efeito que a devastadora Anika causava. Mas isso não vinha ao caso, pelo menos não agora. Minha vinda para cá era única e exclusivamente para impedi-la de fazer com mais alguém o que tinha feito comigo. Eu seria um obstáculo para seus planos, uma pedra em seu caminho. Definitivamente queria acabar de uma vez por todas com o seu jogo.

– Eu tenho certeza do que estou fazendo, como disse milhares de vezes antes. Não insista, Matt. Só voltarei quando tiver tudo resolvido.

– Mas, Could...

– Preciso desligar agora. Nos falamos depois. – Desliguei o celular e caí no sofá de couro preto da minha sala de estar. Sim, Anika deveria se preparar porque eu poderia ser um forte adversário quando precisava ser. E não seria atacando que venceria, já havia percebido isso. Era hora de partir para o plano B. E eu mal podia esperar para colocá-lo em prática!