Bad Girl II
3 Capítulo 2
No dia seguinte, assim que cheguei ao estacionamento da faculdade, encontrei Shantaw encostada ao capô de seu carro com uma expressão nada amistosa para mim.
– Dormiu do lado errado da cama? – perguntei em tom de brincadeira quando me aproximei dela.
– Não, o lado da cama estava certo, já às suas atitudes, eu não sei – ela cruzou os braços e esperou que eu dissesse alguma coisa, mas o que poderia ser dito? Eu nem sabia por que ela estava assim comigo.
– Bem, suponho que pela sua cara eu deva ter aprontado alguma coisa, não é? – tentei amenizar, entretanto, não deu muito certo.
Ela suspirou.
– Não quero bancar a chata nem nada, mas eu me preocupo com você Anika. Depois de ter me dito que não queria nada com Will, você foi vista se agarrando com ele na festa.
– Shaw, eu entendo sua preocupação comigo, mas já sou grandinha e sei me cuidar. Will e eu estávamos apenas dançando, não sei por que as pessoas sentem a necessidade de aumentar o que aconteceu.
– Então você está interessada por ele? – ela perguntou em choque.
– Não, bobinha. Eu não estou interessada nele. No entanto, você me deixou sozinha em um lugar onde eu não conhecia ninguém, e Will me fez companhia. Agora, não posso negar que se tiver que rolar alguma coisa eu não vou impedir – Disse com raiva de mim mesma por ter que proferir aquelas palavras. Era preferível ter urticária a ficar com Will de novo.
– Bem, como você mesma disse, já é bem grandinha e sabe se cuidar. – Ela deu de ombros – Só não o deixe te magoar.
Tive que sorrir, porque isso não tinha a menor possibilidade de acontecer. Seria eu quem o magoaria agora, e não o contrário.
– Pode deixar comigo. Agora vamos, por que não quero chegar atrasada a aula. Falando nisso, qual a sua classe agora?
O sorriso de Shantaw iluminou seu rosto — Direito Penal I. E você, futura jornalista perigosa?
– Radiojornalismo I – respondi enquanto pensava em outras coisas que não tinham nada a ver com o meu curso.
– Te vejo depois então – ela disse e saiu rumo a sua aula, e eu estava prestes a fazer o mesmo, se não tivesse sido parada no meu caminho, por ninguém mais, ninguém menos que Will McCoy.
– Então gatinha, por que foi embora ontem à noite? – ele perguntou assim que havia me encurralado em uma das paredes do corredor – Eu não gosto de ser deixado esperando.
– Também não gosto de ser deixada esperando, queridinho – respondi em um tom petulante – E você – toquei seu queixo – demorou demais para o meu gosto.
– Então você é uma atrevida, não é? – Will deu um olhar aquecido ao meu corpo, mas não deixei o desgosto transparecer em minha expressão. – Sorte sua que adoro as atrevidas – ele sussurrou em meu ouvido – são as mais quentes na cama.
Em outra época eu teria corado de vergonha, só que não agora, pois já estava acostumada a este tipo de conversa.
– Tenho certeza de que entende bem do assunto – falei me afastando um pouco – Ouvi muitas histórias sobre Will McCoy, o pegador.
– Não deve acreditar em tudo que dizem.
– Não se preocupe querido, gosto de averiguar por mim mesma antes de acreditar em alguma coisa – pisquei para ele e caminhei para minha classe.
*** * ***
Estava revisando alguns trabalhos no computador, que deveriam ser entregues amanhã, quando meu olhar capturou uma pasta aberta em cima da mesa. Incapaz de parar-me, peguei-a e comecei a folhear. Tratava-se das fichas que o investigador me entregava de cada rapaz que era alvo da minha vingança. Todos os arquivos continham a mesma coisa, uma foto, nome completo, data de nascimento, nome dos pais, cidade onde morava, escola ou faculdade que frequentava, a rotina diária, enfim, tudo o que pudesse me ajudar a formular um perfil do garoto, e que me ajudasse na hora de mudar de cidade. Eu pagava caro a Norman, meu investigador particular, para obter dados minuciosos, e valia a pena.
Passei pelos rostos de vários rapazes até que cheguei a ficha de Could, e não pude deixar de sorrir tristemente ao observar sua foto. Contudo, assim que culpa e saudades começaram a duelar dentro de mim, afastei a folha da minha linha de visão, e tomei uma respiração profunda. Não podia me permitir sentir essas emoções, eu sabia que não devia, principalmente, quando já estava em outra missão.
Peguei a próxima ficha, que era a de Will, mas quando comecei a lê-la, a campainha tocou, e tive que guarda-la rapidamente junto com as outras na pasta, e esconder em uma gaveta da minha mesa. Saí do escritório e caminhei para a entrada do apartamento.
– Surpresa! – Shantaw gritou assim que abri a porta.
– Shaw! – falei atônita – Como você descobriu onde eu moro? – perguntei enquanto dava passagem para ela entrar.
– Uh, esquecida! – ela fez uma cara engraçada – Você mencionou anos atrás que tinha um apartamento aqui. Até me deu o endereço e disse que um dia esse seria o lugar onde passaríamos as férias. Mas isso foi antes que você mudasse de cidade. Bem, eu tinha o papel guardado e resolvi usar.
É claro que eu havia dito isso, como poderia ter me esquecido? Eu fui a típica adolescente exibida e adorava expor os presentes que ganhava do meu pai. O apartamento fora um deles. Perguntei-me por um momento se ainda seria assim se ele estivesse vivo. Talvez, mas era algo que preferiria não pensar. Isso só me trazia dores de cabeça.
– Ah, claro. Eu sou mesmo uma esquecida. Mas a que devo a honra da sua visita?
– Bem, como você fugiu na hora do almoço nós nem tivemos tempo de conversar. Vim para colocarmos as coisas em dia, Anika, não se esqueça de que já se passaram seis anos! Aliás, por que saiu mais cedo hoje?
Como não previ que ela iria me interrogar sobre isso? Ontem tive algumas coisas para resolver e perdi o almoço, entretanto, hoje, eu era esperada na mesa das amigas de Shantaw, ela mesma havia me enviado mensagens para que eu soubesse e não ficasse perdida. No entanto, quando a última aula antes do almoço terminou saí o mais rápido que consegui da faculdade, pois não queria encontrar Will de novo. Isso fazia parte da minha estratégia de ataque. Eu já o havia provocado em três ocasiões, e sabia que ele não era do tipo que aceitava provocações passivamente, principalmente se estivesse interessado em transar comigo. O que, obviamente, eu tinha certeza de que estava.
– Desculpe, eu não avisei, mas precisava resolver um probleminha que surgiu – fiz uma careta para dar mais veracidade às minhas palavras – Odeio essas seguradoras, que só sabem nos atormentar.
– Problemas com o seguro do carro? – Ela perguntou preocupada, e me senti mal por mentir, mas era assim que tinha que ser.
– Nada que não pudesse ser resolvido, não se preocupe.
– Ainda bem que você já resolveu. Conheço muitas pessoas que já acabaram em apuros por causa disso. Agora, voltando ao motivo da minha visita, achei que poderíamos ter uma noite das meninas, para nos atualizar sobre a vida uma da outra. Trouxe até alguns filmes para assistirmos.
– Ótima ideia – sorri enquanto nos acomodávamos no sofá da sala – Espero que não sejam aqueles filminhos de comédia romântica, você sabe que eu detesto.
– Não se preocupe – ela revirou os olhos – Que tal começarmos com Jogos Vorazes?
– Não poderia ter dado sugestão melhor
Era por volta das onze, quando Shantaw finalmente voltou para casa. Conversamos bastante, e ela contou a versão resumida de tudo que tinha acontecido em sua vida durante os seis anos que ficamos sem nos ver. Eu, por outro lado, falei pouca coisa a meu respeito. A maior parte do tempo que havia passado, eu tinha estado fazendo diferentes garotos se apaixonarem por mim, para que eu pudesse abandoná-los de forma cruel depois. E isso, com certeza, não era algo que eu queria partilhar com uma amiga, especialmente, quando ela tinha uma visão favorável sobre mim.
*** * ***
No dia seguinte não consegui me livrar da mesa das amigas da Shantaw, e, tenho que dizer agora, elas formavam um grupo tão heterogêneo que fiquei espantada pelo fato de existir uma amizade entre elas. Stefany — a garota cuja festa eu fui, mas que não cheguei a conhecer – era uma loira alta, curvilínea, e, vou ser bem sincera, uma tremenda patricinha que não fazia jus ao curso de Psicologia que estava fazendo. Quer dizer, ela só falava coisas superficiais, como marcas de sapatos e bolsas, então não seria a pessoa a quem eu recorreria para contar meus problemas e me aconselhar se um dia precisasse. Lindsay era um pouco mais parecida comigo, pelo menos quanto à forma de se vestir, ela curtia um estilo mais despojado assim como eu, no entanto, ela era morena e pelo menos uns 10 centímetros mais baixa do que eu. Marie era uma das mais extrovertidas do grupo, perdendo apenas para Shantaw, possuía um belo cabelo castanho ondulado, e assim como Lindsay, estudava Relações Internacionais. Como eu disse anteriormente, um grupo bem diversificado, não concorda?
–... E eu tenho quase certeza disso. E você Anika, o que acha? – A voz de Shantaw me tirou dos meus pensamentos. Quando Steffi, como Shaw carinhosamente a chamava, começou a falar da sua próxima viagem de compras para Milão desliguei-me da conversa. Não sabia qual tópico estava sendo abordado no momento, mas parecia que agora eu teria que opinar.
– Desculpe, mas sobre o que vocês estão falando? – questionei sabendo que isso seria motivo para me chatearem por não estar prestando atenção à conversa, mas, francamente, jogar no meu celular parecia bem mais interessante do que falar sobre os últimos lançamentos da moda.
– Estava no mundo da lua? – Shaw riu – Ou será que seus pensamentos estavam em certo alguém? – Isto não passou despercebido de suas amigas. Stefany logo arqueou uma sobrancelha para mim enquanto me encarava. Já existiam alguns rumores sobre Will e eu, graças a sua popularidade com o público feminino e à grande habilidade em fofoca que este campus universitário possuía.
– Não, jogar no meu telefone é mais interessante do que ficar perdendo tempo pensando em alguém. – Falei e pisquei para manter o showzinho – Agora, vão me dizer sobre o que estavam falando ou não? Assim não posso dizer minha opinião.
– Sobre o Will, claro – Stefany falou, inclinando-se sobre a mesa – Ele não apareceu na faculdade hoje, e isto é muiiito estranho.
Sorri. Sim era estranho, mas não algo que não pudesse acontecer, correto? Mas eu sabia por que ele não tinha aparecido.
– Bem, não tem porque achar isso estranho. Ele pode estar doente ou algo do gênero. – Respondi, dando de ombros – Ou vão me dizer que ele é imune a ficar doente?
– Não, mas... – Steffi tentou dizer, mas eu não a deixei continuar.
– Vocês pediram minha opinião, eu já dei. Agora se não se importarem tenho que me preparar para a próxima classe. – disse já me levantando e pegando minha bolsa estilo carteiro.
Shantaw olhou em minha direção, e pude ler bem o que ela estava tentando dizer com sua expressão: O que deu em você?
Tentei transmitir um desculpe com o olhar, mas não sei se ficou muito convincente.
As duas últimas aulas passaram se arrastando enquanto eu impacientemente aguardava minha próxima fase do plano. Quando finalmente saí do prédio da faculdade não segui direto para meu apartamento. Naquele dia, em especial, eu havia trocado o horário da minha aula de pole dance para que pudesse utilizar o restante da minha tarde concretizando a fase dois da missão.
Assim que parei meu porsche o vi. Dessa vez ele estava encostado em uma Ducati Diavel preta, exalando pura maldade com seu visual de motoqueiro. Não pude deixar de rir silenciosamente, enquanto travava o carro e seguia em sua direção.
– Não achei que fosse mesmo aparecer – falei quando me aproximei, deixando um bom espaço entre nós dois.
– Eu jamais recusaria uma oferta sua, gatinha – Ele piscou e meu deu seu conhecido sorriso. Não sei por que os homens tinham esta tendência tola em pensar que uma mulher iria derreter-se por causa de seu sorriso. Ok, ok. Algumas garotas caem neste velho truque, eu incluída, mas já aprendi minha lição.
– Will, Will – Balancei a cabeça – Pensei que havia deixado bem claro que pretendia obter apenas uma entrevista com o futuro herdeiro do império McCoy.
Ontem enquanto Shantaw ainda estava no meu apartamento, Will havia me telefonado, deixando-me curiosa sobre como ele havia conseguido meu número. Ele riu quando disse que tinha suas fontes e sempre conseguia o que queria. Não preciso nem comentar que revirei os olhos quando ouvi isso, não é? Bom, o motivo da ligação era que Will queria saber se eu gostaria de ir para alguma balada com ele, mas, obviamente, recusei. Aproveitei sua ligação para algo muito mais proveitoso, pelo menos para mim. Novamente tive que subornar um professor para que inventasse um projeto que não tinha intenção de fazer, para conseguir ficar mais perto do meu alvo. A nova tarefa dos alunos da classe de economia era fazer um trabalho sobre uma empresa bem sucedida da cidade ou do estado. Eu, logicamente iria fazer meu trabalho sobre a empresa da família de Will. Tenho quase certeza de que ele só aceitou me conceder uma entrevista porque era uma oportunidade para me levar para cama.
Ah, eu não mencionei porque Will faltou à faculdade hoje, não é? Simples, deixei bem claro ontem que não gostava de como cada passo dele ele era repercutido por toda a faculdade, e que não queria suas adoradoras a nossa volta quando eu fosse entrevista-lo. Se eu pudesse ter visto seu rosto, tenho quase certeza de que ele estaria com um sorriso satisfeito nos lábios, por esta minha pequena reivindicação de privacidade. Depois de marcarmos o local de encontro, ele me garantiu que ninguém saberia que sairíamos juntos. Como resultado, ele não foi para a faculdade.
– Sim, mas por que não ampliarmos nossos horizontes? – ele deu um passo em minha direção – Garanto que depois de uma rodada bem selvagem eu derramo tudo o que você quiser saber para o seu projeto.
Não consegui segurar minha risada – Não sei se aprovo seus métodos de entrevista, certamente eu estaria perdendo minha ética profissional.
– Quem liga para isso? O que importa é que nós dois estamos aqui – ele se aproximou ainda mais, e eu instintivamente dei um passo para trás. Já estava esperando por isso. – Eu não te disse Anika, mas desde que te vi na segunda-feira, não consigo parar de pensar em você – E eu sou a Chapeuzinho Vermelho, certo? Cinco anos se passaram e ele ainda não mudou seu discurso. Era patético, realmente.
Arqueei minhas sobrancelhas deixando bem claro que não estava caindo no seu papo-furado.
– Will, querido, você deve ter interpretado errado. Não estou interessada em você dessa forma – tive que conter minha risada, porque a cara que ele fez depois que disso isso foi hilária. Sim, sim essa deve ser a primeira vez que alguém diz que não está interessada nele. E eu sei que isso vai me tornar um desafio para ele. Blábláblá. Todo mundo sabe como se desenrola um enredo clichê. Mas eu seria hipócrita se dissesse que não estou esperando ansiosamente isso acontecer.
Após se recuperar de seu choque momentâneo, Will riu. Uma gargalhada, na verdade. Ele devia pensar que eu estava brincando. E por que não pensaria? Ele estava acostumado a ter todas as garotas aos seus pés, não que isso impedisse algumas de jogar um pouquinho antes de ceder. Bem, queridinho este não é o caso, sinto muito.
– Vou fingir que acredito, tá legal? – Ele disse entre risos.
– Pode acreditar, porque isso é a mais pura verdade. Sei que você está acostumado a ter quem quiser, mas não me inclua nessa, porque estará perdendo seu tempo.
– Isto é um desafio, Anika? – Ele perguntou avaliando meu corpo com os olhos – Por que eu adoro um desafio.
– Não, Will, este não é um desses joguinhos que você está acostumado. Pode ter certeza disso.
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