Bad Girl II
25 Capítulo 23 - Parte 2
His Pov
Nunca dei muita importância ao tempo. Nunca considerei sua real relevância, afinal de contas, o quanto poderia mudar em um curto período? Eu acreditava que praticamente nada, e esse foi meu erro. Cada minuto, cada segundo, são importantes; têm o poder de mudar uma vida inteira.
Enquanto estava naquela sala de espera insípida de hospital, refleti sobre o quanto poderia ter valorizado mais o meu relacionamento com a Anika, aproveitado mais nossos momentos juntos. Nós negamos o que sentíamos por tanto tempo e agora poderíamos não ter mais nenhum tempo juntos.
— Could? — Ergui os olhos para encarar a dona daquela voz hesitante. A postura dela era um reflexo do que eu sentia: insegurança. Eu não havia explicado muito sobre a situação quando liguei, mas as palavras acidente e hospital eram o suficiente para deixar qualquer pessoa apreensiva.
— Oi, Shaw — sorri fracamente, em cumprimento.
— Alguma atualização sobre o quadro da Anika?
— Não, nada — suspirei. — Acho que eles querem enlouquecer quem fica na sala de espera.
— É... – Ela se sentou ao meu lado e ficamos em silêncio por um tempo. Shantaw, que sempre era tão tagarela, parecia sem palavras, o seu brilho habitual havia desaparecido. – Você já ligou para a mãe da Anika? – Perguntou, depois de uma longa pausa.
— Não consegui – admiti. – Era demais para mim, falar com ela. A única pessoa para quem liguei foi você, e já sabe o nível de eloquência em que me encontrava.
— Tudo bem, eu entendo. – Ela sorriu tristemente. – Se para mim está sendo difícil processar tudo isso, imagina para você. Eu vou ligar para a portaria do prédio e pedir para encaminharem a ligação para o apartamento dela.
Assim que isso foi mencionado, me veio à mente a imagem da mãe da Anika ao lado do cara que se dizia marido da minha namorada. O que diabos havia acontecido depois que eu tinha saído daquele apartamento? Teria ele alguma coisa a ver com esse acidente?
— Shantaw, antes de você ligar há algo que eu preciso te dizer. – A mão dela parou de digitar no teclado do celular no mesmo instante. – Hoje a Anika e eu fomos ver a mãe dela no apartamento. – O olhar dela estava fixo em mim, aguardando que eu continuasse. – E o marido dela estava lá.
— Marido?! – Espantou-se. – Não sabia que Clarisse havia se casado de novo.
— Não, Shantaw. O cara que estava lá é marido da Anika – esclareci.
— O quê?! – Seu choque era evidente. – Isso não pode ser verdade. A Anika não é casada.
— Eu também quase não acreditei. Mas é verdade. É uma longa história, e eu nem sei tudo, porque nós íamos conversar mais depois que ela saísse de lá. O que ela me contou é que foi um erro, fruto de uma bebedeira em Las Vegas e que pensou ter resolvido. Mas, aparentemente, nada havia se resolvido da forma que ela esperava.
— Oh, meu Deus! Então por isso ela precisava da minha ajuda. Agora tudo faz sentido. – Ela ficou em silêncio por um tempo, depois arregalou os olhos. – Ela sofreu esse acidente por minha culpa!
— O quê? Que loucura é essa que você está dizendo, Shantaw? – Olhei-a, em confusão.
— Sim, é minha culpa. – Uma lágrima desceu por seu rosto e eu fiquei sem saber o que fazer. A Shantaw que eu conhecia era durona, alguém que assustava apenas com um olhar. Se eu não sabia como lidar com ela em seu estado normal, como lidaria com uma Shantaw emocional? – A Anika tinha me ligado, dizendo que precisava falar comigo, porque tinha se metido em uma enrascada e precisava que eu a ajudasse. Falei que ainda estava na faculdade e ela disse que estava indo me encontrar lá. Só que pouco tempo depois minha irmã me ligou e eu precisei ir para casa, para ver como poderia ajudá-la a resolver seu problema. Se eu tivesse dito para a Anika ir me encontrar em casa nada disso teria acontecido. Do jeito que eu saí imediatamente da aula, para ajudar minha irmã, se eu tivesse ido ao encontro da Anika, ela não teria ido para faculdade e sofrido esse acidente.
— Shaw, a culpa não é sua. – Falei, abraçando-a, um pouco sem jeito. As lágrimas agora corriam livremente por seu rosto. — Nós não sabemos o que aconteceu, mas o que quer que tenha sido, não é sua culpa.
Ela suspirou e passou as mãos embaixo dos olhos. Quando não se pronunciou, resolvi deixa-la em silencio por um momento, e fui buscar um pouco de água. No caminho, parei na recepção e pedi que ligassem para o prédio em que a mãe da Anika morava para avisá-la do que havia acontecido com a filha. A recepcionista deu-me um olhar de desagrado, mas começou a discar os números.
Estava quase me afastando do balcão quando reconheci o casal de meia idade que se aproximava do local que eu estava. Apesar de só os ter visto em fotos, não havia como não os reconhecer: eram os pais da Stefany. Mas o que eles estavam fazendo aqui?
— Boa tarde, gostaríamos de saber em que quarto a paciente Stefany Moore se encontra. Somos seus pais – O homem falou, enquanto a mulher apenas enxugava as lágrimas com um lenço.
Me mantive afastado da linha de visão deles, em um lugar em que ainda desse para ouvir o que eles estavam dizendo.
— Stefany Moore... – repetiu a recepcionista, seguido pelo som inconfundível de digitação no teclado do computador. – Oh, é uma das três pessoas envolvidas no acidente da rodovia Twenty One. Ela ainda está na sala de cirurgia. Vocês podem ficar na sala de espera e aguardar alguém trazer mais informações.
Stefany e Anika... Quem era a terceira pessoa envolvida nesse acidente?
Voltei para o lugar em que havia deixado Shantaw antes que percebessem que eu estivera ouvindo a conversa o tempo todo.
— Já pedi para avisarem Clarisse, ok? – Sentei ao seu lado e ofereci o copo de água que tinha ido buscar. Ela continuava com a expressão abatida.
— Eu preciso voltar aos eixos, ficar assim não vai ajudar em nada. A Anika precisa de mim com a cabeça no lugar – Shaw falou depois de tomar a água.
— Shantaw... – eu precisava contar que Stefany também estava nesse acidente, mas antes que eu pudesse dizer algo, ela viu o casal Moore.
— O que Derek e Charlote estão fazendo aqui? Tenho que ir falar com eles – ela já ia se levantando da cadeira, mas eu segurei seu pulso, impedindo-a de ir para o outro lado da sala, onde eles haviam se sentado.
— Shaw, espera. Eu preciso dizer algo antes de você ir lá. – Ela me encarou atentamente enquanto aguardava que eu continuasse. – A Stefany também estava nesse acidente que a Anika se envolveu.
— Oh, meu Deus! – Soltando-se do meu aperto, ela passou as mãos pelo cabelo, exasperada. – Então ela era a motorista do outro carro?
— Isso eu não sei dizer, porque há uma terceira pessoa também.
— Então não foi algo aleatório. – Repentinamente a Shantaw chorosa havia desaparecido, dando lugar a estudante de direito sagaz, que não deixava nenhum detalhe escapar. – Vamos procurar por algum site que tenha noticiado esse acidente, preciso de mais informações sobre o outro veículo. Se for o da Stefany, ou de alguma das outras meninas, eu vou saber. Os dois veículos saíram da faculdade... – Pegando seu telefone, ela começou a digitar alguma coisa, concentrando toda sua atenção no que estava vendo na tela. – A terceira pessoa é o Will, Could! O outro carro é o dele.
— Você tem certeza?
— Não conheço nenhuma outra pessoa lá na faculdade que tenha um Maserati preto. Além disso, o nome das vítimas foi divulgado. Aqui está dizendo que o Will não sobreviveu.
Essa notícia foi um choque para mim. Eu odiava Will McCoy, por todo o sofrimento que ele tinha causado a Anika, por ter mexido de tal forma com ela, que alterou algo elementar. Mas a morte? Eu nunca desejei de verdade que ele morresse.
— Como você pode parecer tão controlada agora, se há minutos atrás...
— Could – Shaw não deixou que eu concluísse -, às vezes nem eu me entendo, mas isso será muito útil na minha profissão. Então, não estou reclamando.
Certeira, como sempre. Shantaw não era mesmo uma de minhas maiores fãs.
— Longe de mim estar criticando isso.
— Parece que voltamos ao normal, hein? – Ela balançou a cabeça. – Eu preciso ligar para minha irmã e também dar algum apoio para os pais da Stefany. Apesar de tudo, ela também é minha amiga. Não demoro muito.
Quando ela se foi, encaminhando-se para o corredor, logo após a recepção, eu me perdi novamente em pensamentos. Sem ter uma distração, minha mente começou a correr, tentando decifrar o que tinha acontecido. Anika, Stefany e Will envolvidos em um acidente de carro? Isso não era um mero acaso. Tinha algo por trás. Mas o quê?
Não sei quanto tempo permaneci imerso em pensamentos, poderia ter sido um minuto ou uma hora, havia perdido a noção do tempo. Fui trazido de volta ao mundo real por uma comoção na sala de espera. Olhei ao redor e vi a última pessoa que gostaria de te que escarar aqui: Ryder, o marido da Anika.
— Eu não vou passar horas na sala de espera aguardando que vocês venham dar alguma migalha de informação! – ele gritava com a recepcionista, atraindo a atenção das pessoas que estavam ali. – Eu quero saber como minha esposa está e quero saber agora!
A mãe da Anika colocou a mão em seu braço e disse algo para ele, mas como foi em um tom normal, não consegui ouvir. Provavelmente estava dizendo para ele se acalmar. Eu sinceramente não conseguia entender como Anika poderia ter se casado com um sujeito como ele, estando ela bêbada ou não.
Algo do que Clarisse murmurara deve ter surtido efeito, pois ele se afastou do balcão da recepção e se dirigiu para a saída do hospital. Melhor assim, eu não ia conseguir lidar com ele.
Um médico, ainda com vestes usadas no ambiente cirúrgico, entrou na sala de espera bem no momento em que Clarisse se aproximava. Shantaw ainda estava do outro lado da sala, com os pais de Stefany, apoiando Charlote.
— Familiares de Anika Olsen? – Shantaw e eu nos erguemos rapidamente, cada um de um lado da sala.
— Somos nós – Pronunciei e apontei para Shaw e para Clarisse, que estava paralisada próxima a mim.
— Muito bem, venham até minha sala – virou-se e começou a caminhar, sem olhar se estávamos o seguindo.
Shantaw foi a primeira a se mover, eu a segui, e Clarisse, despertando do estupor em que se encontrava, também se encaminhou para a sala do médico.
Não prestei muita atenção no ambiente em si no qual estávamos, para mim era como qualquer consultório médico. Tudo o que conseguia focalizar era o médico, a máscara da imparcialidade que tentava manter em seu rosto.
— Primeiramente, eu gostaria de pedir desculpas pela demora em receberem notícias sobre a paciente. A cirurgia demorou mais que o previsto. – Ele começou a falar. Ninguém além dele quis se sentar. – Houve uma contusão pulmonar, causada pelo impacto do acidente, ocasionando insuficiência respiratória, por isso a paciente está respirando com ajuda de aparelhos. Além disso, o que estava nos preocupando era a hemorragia interna, pois a pancada do acidente rompeu vasos sanguíneos do abdômen e o sangue que vazou não saiu do corpo. Havia muito líquido acumulado na região, quando ela chegou ao hospital, mas não houve nenhuma lesão importante nestes órgãos. O trauma crânio-encefálico decorrente da batida no vidro do carro ocasionou perda da consciência. No entanto, não foi constatado inchaço na região, o que é um bom sinal.
Minha cabeça estava dando um nó. O médico havia falado tantas coisas que estavam erradas com a Anika, e não sabia como interpretar tudo aquilo.
— Doutor, qual o prognóstico da minha filha? Seja sincero – Eu não esperava que Clarisse fosse ser a primeira a se pronunciar. Ela parecia estar meio aérea durante toda a explicação do médico.
— Nós conseguimos drenar todo o sangue que havia se acumulado e também conseguimos conter o sangramento. Temos que monitorar a contusão pulmonar, e embora frequentemente, a contusão melhore sozinha com as medidas de suporte, a paciente irá ficar na Unidade de Terapia Intensiva. Também iremos monitorar o coma, ela pode acordar a qualquer instante. Como não houve inchaço, creio que a perda de consciência não demore muito a passar. De um modo geral, eu acredito que o prognóstico de sua filha seja bom, Sra. Olsen.
*** * ***
Ela não acordou logo, como o médico previra. Eu saí tão esperançoso depois do discurso do médico sobre o prognóstico, mas lentamente minha esperança foi sendo minada. Quando Anika não acordou depois de dois dias inconsciente, eu comecei a me desesperar. Não havia inchaço, então eles conseguiram examinar a região e não encontraram nada de errado. Os sinais vitais estavam todos normais em cada exame rotineiro que os médicos faziam. Então por que ela não acordava? Por quê?
Cada dia era mais difícil que o outro. Como se não bastasse a angústia que sentia pelo estado em que Anika se encontrava, ainda tinha que lidar com Ryder, que estava fazendo valer o seu direito legal como marido e ficava no quarto ao lado dela, quase ou tanto quanto eu. Isso me machucava, mais do que gostaria de admitir.
No primeiro dia nós brigamos feio, uma discussão bastante acalorada do lado de fora do hospital. Embora eu tenha pensado que ele houvesse ido embora depois do escândalo que deu na recepção, na verdade, Ryder tinha ido apenas “esfriar a cabeça” do lado de fora, esse havia sido o conselho de Clarisse, o que ela tinha murmurado para ele e eu não tinha conseguido ouvir. Quando me viu, ele saiu do lugar e veio até onde eu estava, a caminho do estacionamento, pois queria ir em casa trazer algumas coisas para poder ficar confortável para passar a noite no hospital. Não conseguimos conversar civilizadamente. Toda a educação que eu havia recebido pareceu evaporar quando fiquei cara a cara com aquele que era mais um impedimento para que eu pudesse ficar com Anika livremente. Ele queria que eu ficasse longe dela, algo que refletia o que eu desejava que ele fizesse. Então nós trocamos insultos, quase partimos para a agressão física. O que impediu que trocássemos socos foi a chegada dos seguranças do hospital, que notaram nossos ânimos exaltados e ameaçaram não nos deixar mais entrar se não parássemos com aquilo. Eu não podia permitir que nada me afastasse de ficar ao lado Anika. Aparentemente, Ryder também não.
Assim, num acordo não verbalizado e cheio de tensão, começamos a meio que nos revezar enquanto ficávamos com a Anika.
A pele dela estava tão pálida, sem cor, parecia sem vida. Tão diferente da minha Anika, sempre enérgica, os olhos verdes faiscando, a boca atrevida sempre provocando. Alisei seu cabelo vermelho e peguei sua mão, depositando um leve beijo.
— Anika, meu amor, por que você não acorda? – Sussurrei. – O mundo está um caos sem você, o meu mundo.
Se depois de dois dias inconsciente, eu havia começado a me angustiar, agora que havia passado mais de uma semana, eu estava começando a ficar desesperançoso. E se ela nunca mais acordasse? E se ficasse assim para sempre? Eu não sabia como ia conseguir lidar com isso.
Houve um movimento, um movimento mínimo, mas eu senti. Anika havia mexido a mão.
— Você consegue me ouvir?
Dessa vez o movimento foi mais perceptível. Mal comecei a me levantar, animado para relatar esse progresso a uma das enfermeiras, quando o milagre que eu estava esperando aconteceu: Anika abriu os olhos.
Ela finalmente havia acordado. Finalmente, finalmente!
— Anika, meu amor, você acordou. Você não imagina o quanto eu estou feliz!
O olhar que ela me lançou era vazio, como se estivesse vendo um estranho a sua frente. Quando falou, sua voz estava rouca, devido ao desuso, mas não foi isso que me apunhalou, foi o que disse:
— Quem é você?
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