Bad Girl II
11 Capítulo 10
His Pov
O que havia dado em mim para agir assim na frente das pessoas? Quando Anika e eu estávamos sozinhos eu podia provocá-la à vontade, sem correr risco algum de que alguém desconfiasse de mim e dos motivos que me trouxeram até aqui, mas agora? Agora, todos estavam me encarando de modo estranho, pois não entendiam o que havia acabado de acontecer. E o fato da Anika ter saído em disparada, só aumentou o nível de tensão. Droga!
Entretanto, não consegui resistir quando a vi usando aquele biquíni. Ela estava deslumbrante, sensual sem ser vulgar, e Will não tirava os olhos dela. Isso só contribuiu para esquentar meu sangue. Como se isso não fosse suficiente, ainda tive que aturar Stefany praticamente se jogando em mim, em busca de atenção. A beleza dela não podia ser negada, claro, principalmente usando aquele modelo de biquíni feito para enlouquecer um homem. Contudo, só o som de sua voz era capaz de aniquilar o desejo que alguém poderia sentir por ela. Não que este fosse o meu caso. Pois em um ambiente em que a Anika estivesse eu não conseguia ter olhos para mais ninguém. Uma praga que ela devia ter me rogado, certamente, para me punir por ter vindo atrás dela.
Em todo caso, suportei a Stefany, retribui seu flerte e a fiz ter certeza de que estava a fim dela. Isto até que Shantaw praticamente a puxou para a piscina, deixando-me sozinho, e eu cometi a estupidez de ir até a espreguiçadeira em que a Anika estava. Quando ela ergueu o protetor solar e pediu para passá-lo em sua pele, não resisti. Fazia tanto tempo desde que a tocara pela última vez, com um toque de verdade, que foi impossível não ceder à tentação.
Mas o risco não valera à pena, pois aquele simples toque não fez nada para aplacar o desejo que eu sentia, e agora me encontrava em uma situação complicada.
– Que diabos foi isso, Could? — Stefany inquiriu, com o rosto tomado pela fúria, e outra coisa, indignação, talvez?
Will também aproximou-se, com a expressão irritada. Se eu não tivesse que manter sigilo sobre minha missão, bem que gostaria de fazer o circo pegar fogo, adicionando o combustível necessário para causar uma explosão espetacular. Mas como minha atual posição não permitia, decidi que lidaria com a situação da maneira mais calma que conseguisse. Se é que isso era possível.
– Que merda você estava pensando, Montgomery? — Ele perguntou em um tom furioso, enquanto avançava para cima de mim.
Se Will quisesse brigar, eu não me importaria nem um pouco. Adoraria quebrar a cara daquele imbecil. Felizmente, ou não, Jack intrometeu-se no meio do caminho, impedindo-o de chegar até mim.
– Calma, pessoal. — Ergui as mãos, em um gesto de rendição. — Eu não fiz nada demais. Que mal há em ajudar alguém a passar protetor solar?
Neste momento, Shantaw saiu da piscina, me lançando um olhar do mal e, se enxugando em uma toalha, seguiu o mesmo caminho que Anika havia feito, poucos minutos atrás. Pelo modo como me olhou, ela certamente não acreditava que eu tivesse sido tão inofensivo, e estava indo conferir o estado da amiga.
– Mas que cara de pau! — Will tentou avançar para cima de mim, de novo. — Se você tivesse simplesmente feito isso, a Anika não teria saído daquele jeito!
– Parece que a sua namoradinha está meio maluca. Isto não é culpa minha. Talvez você não esteja cuidando dela direito, McCoy.
– Ora, seu...
– Tudo bem, já chega! — Stefany gritou. — Ninguém vai arruinar minha festa por causa de um protetor solar!
Will ainda tentou protestar, mas ela lhe lançou um olhar que o fez se calar. Virando-se para me encarar, ela decretou: — Agora, você e eu vamos conversar lá dentro.
Que ótimo! Tudo o que eu precisava neste momento era ter de aturar a Stefany novamente. Iria ser preciso muita força de vontade para fazê-la acreditar novamente em meu interesse por ela. Merda!
– Quer me explicar o que foi isso, Could? — Stefany inquiriu, assim que chegamos à cozinha. Mas que coisa, hein? Só porque eu dei a entender que poderia querer alguma coisa com ela, a garota já estava achando que podia cobrar satisfações dos meus atos. Que saco!
Ela, pelo visto, era do tipo grudenta, e não havia nada mais que eu odiasse em uma mulher do que isso. Já estava até me arrependendo de ter dado margem a ela.
– Eu já disse o que aconteceu, Steffi — tentei pronunciar com o máximo de calma que consegui reunir, que não era muita
.
– Não, você não disse. Anika pareceu muito sobressaltada quando te viu. Então, tem algo mais que você não está dizendo.
Eu tinha quase esquecido que ela era estudante de Psicologia. Quem a visse, não diria que por trás da garota rica que adorava moda, existia alguém que se preocupava em estudar o comportamento e as emoções do ser humano.
– Não queira dar uma de psicóloga para cima de mim, Stefany. A Anika é quem deve estar meio pirada, então você deveria estar fazendo perguntas a ela, e não a mim. Além do mais, eu não te devo explicações — dizendo isto, virei-me e saí, deixando Stefany com um olhar atordoado no rosto.
Provavelmente ela não entendera porque eu disse tais coisas. Mas quer saber? Tô nem aí. Eu poderia muito bem arranjar outra garota para causar ciúmes na Anika, pois meninas da faculdade interessadas em mim não faltavam. E quem sabe, dessa vez, eu conseguisse alguém que não tivesse a voz irritante, e com quem eu pudesse transar.
Sim, sim. Era isso o que precisava fazer. Um sorriso tomou meus lábios, enquanto eu encarava o céu azul.
Her Pov
Quando atravessei o gramado do jardim bem cuidado da casa de Stefany, meu corpo todo ainda tremia com a ira que percorria minhas veias, e eu tentava me acalmar inspirando e expirando o perfume das flores que, supostamente, deveria ter um efeito calmante. Por que não funcionava comigo, droga?!
Eu precisava voltar para fazer o controle dos danos que deveriam ter sido causados por minha saída intempestiva minutos atrás. Por que Could ainda tinha esse efeito sobre mim? Por quê? Por que essa não poderia ser apenas mais uma vingança, a principal? Eu tinha tudo para ter um trabalho bem-sucedido, não fosse ele. Could. Sempre Could. O homem por quem me apaixonei como uma idiota, por quem quebrei minhas regras, e que quase me fez voltar em uma decisão que tomei anos atrás. Estive tão perto de quebrar minha resolução naquela noite, tão perto... E isto me envergonhava. Só mostrava o quanto eu poderia ser fraca quando se tratava dele. E fraqueza não combinava comigo, de jeito nenhum! Por isso precisava me livrar dele, de uma maneira ou de outra. Eu só precisava pensar em como faria isso.
– Anika? — Prendi a respiração quando ouvi a voz de Shantaw chamar-me. Ela estava próxima, poucos passos atrás de mim. Eu não precisava de um interrogatório naquele momento, mas com certeza era isso que ela iria fazer. Soltando a respiração, abri e fechei as mãos, antes de me virar.
– Eu já estava voltando, não precisava vir atrás de mim — falei com um sorriso forçado.
– Ah, meu Deus, Anika! Por que não me contou? — Ela caminhou em minha direção e me abraçou, fazendo meu corpo se retesar. Eu não estava acostumada a ser confortada, era estranho para mim. Por isso me afastei.
– Não contei o quê? — Questionei, mesmo que já soubesse o que ela iria responder. Shaw era esperta demais, tanto que estranhei ter demorado todo este tempo para juntar as peças do quebra-cabeças.
– É ele, não é? O Could é aquele seu ex-namorado sobre quem você me falou naquele dia.
– É, é ele sim. — Embora usar o termo ex-namorado não fosse apropriado para descrevê-lo, uma vez que nunca estivemos em um relacionamento de verdade.
– Por que não me disse, Anika? Por que deixou que eu apoiasse a Stefany...
– Não — Interrompi. — Eu não queria falar sobre isso, e ainda não quero. O que tivemos já acabou faz tempo e ele pode fazer o que quiser.
Isso era uma mentira deslavada. Nunca, nem em um milhão de anos eu permitiria que Could tivesse algo com Stefany. E, nem tampouco, as coisas estavam acabadas entre nós. Se estivessem, Could não estaria aqui; teria permanecido onde eu o deixara. Não sei nem por que me dei ao trabalho de pronunciar aquilo. Shantaw jamais acreditaria. Prova disso é que ela arqueou a sobrancelha, em ceticismo, assim que terminei de falar.
– Certo. Que você não quisesse falar eu até entendo, mas não pense nem por um segundo que acredito que tudo está acabado entre vocês. Por que mais ele estaria aqui? Alguma coisa ele quer.
Claro que há algo que ele quer. Se vingar de mim. O que mais poderia ser?
– Você está certa. — Suspirei. Por que negar o óbvio? — Mas eu não quero falar disso aqui. Podemos deixar para mais tarde?
– Claro que sim. Nós vamos para minha casa assim que sairmos daqui e você me contará tudo. E quando digo tudo, é TUDO mesmo!
Dei um aceno, concordando, ainda que soubesse que de maneira alguma revelaria toda aquela história sórdida de vingança. O que eu dissesse não seria nem a metade do que realmente aconteceu.
– Tudo bem, eu vou. Agora podemos voltar? Eu não quero nem imaginar o que devem estar pensando depois do modo como saí.
– Eles só acharam um pouco estranho — Shaw tentou amenizar a situação. Um pouco era um eufemismo! Eu sabia que deixara tudo muito confuso, agindo de maneira tão estranha. Quem em sã consciência teria uma reação daquelas quando alguém te ajuda a passar protetor solar? Exatamente. Ninguém. A não ser que seja maluca ou tenha assuntos mal resolvidos com a pessoa que ajudou.
Não voltei a falar durante a curta caminhada, e Shantaw respeitou meu silêncio, permanecendo calada também. Quando chegamos à área da piscina novamente, todos pararam o que estavam fazendo para me encarar. Eles esperavam o quê? Que eu fosse fazer um escândalo ali, só porque reagi de um modo exagerado antes? Me senti como um animal em um zoológico com todo aquele escrutínio.
– Ah, você voltou! — Will falou com ironia, assim que passei pelo lugar em que ele estava.
– Will... — Shantaw lançou um olhar repreendedor em sua direção.
– Shaw, por que não volta para a piscina? Eu já estou indo, mas antes queria falar com o Will.
Ela me olhou atentamente antes de se virar e caminhar para a piscina. Puxei uma cadeira de uma das mesas e me sentei, esperando que Will fizesse o mesmo. Algumas pessoas ainda me observavam, enquanto outras revolveram retomar o que estavam fazendo.
– Quer me explicar o que diabos foi aquilo, Anika? -Will inquiriu ao sentar-se.
Quanta prepotência! Como se eu devesse alguma explicação a ele!
– Olha, não foi nada demais. Eu que exagerei. Pensei que fosse você e quando vi o Could...Bem, isso é só o estresse porque vou para Nova York amanhã...
– Você vai para Nova York amanhã e só agora eu fiquei sabendo?! — Ele me interrompeu.
– Vou, Will. Tenho assuntos a resolver por lá. Agora, pare de agir como um namorado ciumento, porque você não é nada meu!
– Whoa! Calma aí. — Ele ergueu as duas mãos. — Só fiquei surpreso.
– E eu só estava esclarecendo as coisas — retruquei, me levantando. — Espero que tenham ficado claras.
Meu tom foi duro, frio. Ele deve ter percebido que as brincadeiras acabaram. Não era assim que eu pretendia passar para a próxima fase do plano, porém, não me restara escolha.
– Muito claras. — Will também parecia sério.
– Ótimo! — Sorri. — Vou para a piscina agora.
Virei-me e saí, dando poucos passos antes de quase esbarrar em Stefany, mas consegui parar a tempo. Isto é o que eu chamo de dia azarado. Minha nossa! Ela me examinou com os olhos semicerrados por um instante, depois deu um sorriso forçado.
– Estão organizando um jogo de vôlei na piscina, se quiser participar — Steffi disse, quando fiz menção de passar por ela sem dizer nada.
– Acho que vou sim, obrigada.
– Bem, é melhor eu ir pegar logo a rede, então. Antes que comecem a reclamar.
*** * ***
A festa rolou até o comecinho da noite, quando o cansaço pela exposição ao sol bateu, e a necessidade por comida de verdade ganhou a guerra contra os aperitivos. Could e eu não chegamos mais perto um do outro durante esse meio tempo, cada qual permanecendo o mais distante possível. Ele ficou conversando com alguns rapazes quando eu estava na piscina, e quando eu ia comer alguma coisa ele aproveitava a água. Por mais que tenha tentado, aquela tensão não se dissipou, ficando tão espessa no ar que nos rodeava quanto um nevoeiro no mar.
Shantaw permaneceu o tempo todo atenta, observando tudo como um falcão, pronta para entrar em ação a qualquer momento. Mas, felizmente, sua intercessão não foi necessária. Todavia, agora que estava dirigindo para sua casa com a intenção de falar sobre meu "relacionamento" com Could e sua inesperada vinda para a cidade, começava a sentir a apreensão querer me dominar.
Eu já havia dito tantas mentiras desde que chegara que estava com medo de cair em contradição.
– Você pode usar o banheiro do quarto de hóspedes para tomar banho. Tenho certeza de que o cloro também deve estar começando a te incomodar. -Shantaw disse assim que entramos em seu apartamento. O lugar onde iria morar em breve. Não podia esquecer de perguntar se aquele convite que fizera ainda era válido. — Vou separar uma roupa minha para você vestir e coloco em cima da cama.
– Tudo bem. Eu só preciso saber qual é — falei, já me encaminhando para o corredor.
– Segunda porta à esquerda.
Entrei no que, provavelmente, seria o meu quarto, analisando-o. As paredes brancas eram estéreis, impessoais, destoando do restante da casa que exalava alegria com sua decoração. A cama de casal estava na parede oposta à da porta e havia um criado mudo de cada lado, com abajures em cima.
Abri a porta do banheiro e não perdi tempo, tirei logo o biquíni e fui para debaixo do chuveiro. A água morna fez com que eu me sentisse mais letárgica, e, enquanto me enxugava, lutei contra a sonolência que ameaçava me subjugar.
– Anika, eu pedi comida chinesa, tudo bem? — Shantaw indagou quando apareci na sala. A camiseta cinza e short jeans que ela me emprestara haviam ficado um pouco apertados em mim, dada nossa diferença de corpo, mas, mesmo assim, estavam confortáveis. Shaw também havia tomado banho e trocado de roupa, e agora vestia macacão estampado, de tecido leve.
– Contanto que você não se incomode se eu não comer com hashi, por mim, tudo bem — falei rindo, mais para amenizar minha tensão, do que outra coisa.
– Ótimo! — Ela sorriu, mas o sorriso não chegou aos seus olhos. — Agora, acho que nós poderíamos iniciar nossa conversa. Por que não se senta aqui? — Shaw bateu no lugar ao seu lado, no sofá.
Engoli em seco, me preparando. Eu tinha certeza de que Shantaw não iria facilitar as coisas para o meu lado.
Forcei-me a caminhar até onde ela estava e me sentei, desviando o olhar para a televisão desligada e observando minha imagem. Mentir era uma questão de agir com naturalidade, pois quanto mais natural você parecesse, menores as chances de alguém desconfiar de que o que estava sendo dito não era verdade. Por isso eu devia me manter relaxada.
– O que você quer que eu diga? — Indaguei ao virar para encará-la. Olhar nos olhos da pessoa com quem estivesse falando era uma regra de ouro para um bom mentiroso. Mas, para isso, era preciso ter muita prática, já que nossos olhos podiam trair o que estivéssemos pensando. Não era à toa que os olhos eram considerados o espelho da alma.
Shantaw pareceu refletir por um momento, considerando o que deveria abordar primeiro; como me conduzir a dizer tudo o que ela gostaria de saber.
– Eu sei que deveria fazer você me explicar essa história tin tin por tin tin desde o começo, mas acho que o dia foi muito cansativo, e eu não quero ser tão evasiva na sua vida — disse ela, me surpreendendo. Eu estava preparada para reviver a inquisição espanhola e Shaw resolveu abrandar. — Por hoje, vou me contentar em saber se Could já te procurou desde que está aqui, e o que aconteceu quando se encontraram.
Soltei a respiração que nem sabia que estava prendendo. Isso eu podia responder com sinceridade. Seria a resposta que ela estaria esperando, de qualquer maneira.
– Já, Shaw. Nós discutimos. Feio.
– Quando foi isso?
– No mesmo dia em que ele chegou aqui. O Could foi até meu prédio.
– Ah, meu Deus, Anika! Todo este tempo você teve que suportar...
– É — suspirei. — E ele não tem me dado sossego. Não há um só lugar em que eu esteja que ele não apareça para me provocar.
– Ah, Anika, isso deve estar sendo um saco pra você! Mas não me deixe com tão pouca informação. O que ele disse quando te procurou?
A lembrança daquele dia me atingiu com força total, quase me sufocando. Eu ainda podia sentir o ressentimento do Could, o ódio que emanava de suas palavras. Subitamente aquele beijo que o impedi de aprofundar também me voltou à mente.
– Foi tanta coisa, Shantaw. Eu não queria falar disso agora, por favor. Lembrar dói. — Esquivei-me de responder.
– Certo, tudo bem. — Ela suspirou. — Acho que forcei demais, desculpe. Mas nós ainda falaremos sobre isso. Muito.
– Vou responder o que você quiser. Só não hoje. Até porque, tenho que falar sobre outro assunto importante com você.
– O que é? — Perguntou ela com uma expressão de dúvida.
– Lembra de quando você me convidou para morar aqui, alguns dias atrás? — Comecei, meio sem jeito.
– Lembro sim, por quê? Resolveu aceitar minha oferta? Ela ainda tá de pé.
Visivelmente mais tranquila, concordei com um aceno de cabeça.
– Se não for muito incômodo, eu gostaria de ficar aqui por um tempo. Clarisse resolveu que não irá mais embora.
– Ela vai ficar? — Shaw indagou, em choque. — Mas, e o trabalho dela?
– Pois é, ela quer brincar de casinha agora e pediu outra função na revista — fiz uma careta de desgosto. — Você sabe o quanto nossa relação sempre foi tensa. Eu não poderia ficar lá.
– Eu sei. Viver em constante conflito não faz bem pra ninguém. Minha casa está de portas abertas para te receber no dia que quiser.
– Obrigada, de verdade — agradeci sorrindo. — Eu devo estar chegando na quarta-feira à noite. Venho do aeroporto direto pra cá.
– Espero um segundo. — Shantaw olhou-me, confusa. — Você não disse que ia ficar uma semana em Nova York? — Ela fez questão de frisar a palavra, para ter certeza de que não teria ouvido errado, com certeza.
– Isso era o que Adam queria. Mas eu dei um jeito das coisas saírem do meu modo. — Dei um sorriso mais amplo. — Parece até que não me conhece, Shantaw! Eu não aceito ordens de ninguém!
– É verdade. Por um segundo esqueci — disse ela, rindo.
*** * ***
Fechei os olhos quando senti o avião começar a se movimentar pela pista. Agarrando o braço da poltrona, inspirei e expirei lentamente tentando me acalmar. O medo que sentia da decolagem era uma porcaria. Uma porcaria, porque eu odiava fraquezas.
Quando finalmente me senti segura (no momento em que o avião alcançou estabilidade no ar), permiti-me relaxar na confortável poltrona, e até sorri, mesmo que tenha negado, quando a aeromoça me perguntou se eu precisava de algo. Eu não precisava de nada, pelo menos nada que ela pudesse me oferecer. Quem me dera eu pudesse ter o que desejava! Se ao menos eu conseguisse ter uma noite de paz, seria suficiente. Mas continuar a ter esses sonhos com Could iria acabar comigo. Principalmente depois de ontem.
De todos os sonhos eróticos que tive, certamente este foi o mais quente. Ainda conseguia recordar a textura de sua pele sob minha língua, o gosto do suor. Realmente tinha sido selvagem. Entretanto, por algum motivo desconhecido, acordei antes de chegar ao clímax. Novamente.
Isso precisava parar. Eu tinha que tirar Could do meu sistema para me concentrar. Talvez devesse levar o conselho de Shantaw em consideração e aproveitar que estaria em Nova York para encontrar alguém que pudesse me ajudar com esse problema.
Devo ter adormecido em algum momento, porque a próxima coisa de que me lembrava era de o piloto anunciar a aterrissagem.
Pegando minha bolsa no assento ao meu lado, tirei meu nécessaire e retoquei o batom. Dando duas batidinhas nas bochechas para dar-lhes mais cor, conferi minha aparência no espelhinho de mão e decidi que estava pronta.
Allie, a moça que havia sido designada para ser minha assistente, estava me esperando no aeroporto. Ela era uma mulher jovem, talvez uns dois ou três anos mais velha que eu, de estatura média, e estava usando uma blusa branca social com uma saia lápis cinza, que não ajudava em nada a acentuar o tom claro de seu curto cabelo ondulado.
Eu gostei dela, apesar de toda a seriedade que exalava. Allie nem parecia ter quase a minha idade, era como se já tivesse passado dos trinta pelo modo como falava. Durante todo o trajeto até o prédio onde meu irmão morava, ela me atualizou sobre algumas questões-chave que eu devia saber para a primeira reunião de amanhã, e repassou meus compromissos.
Sorri em agradecimento e elogiei sua eficiência quando o carro estacionou. Após me despedir, saí e caminhei para a entrada do prédio, onde cumprimentei o porteiro e peguei minha chave com o recepcionista. Primeira impressão era tudo, e eu esperava ter conquistado a simpatia dos funcionários. Já me bastava ter o Adam me olhando atravessado. Eu não precisava de mais hostilidade para o meu lado.
Entrei no elevador e me recostei em uma das paredes, o cansaço do dia finalmente me dominando. Não fora um dia fácil.
Como já era de se esperar, mais uma vez havia discutido com minha mãe, e eu simplesmente explodi, não aguentando mais seu comportamento fingido de mãe preocupada. Quando eu realmente precisei dela, Clarisse me ignorou, me jogando aos cuidados dos empregados sempre que precisava ir para mais uma de suas intermináveis viagens.
Apenas por um segundo pensei que conseguiria evitá-la, como fizera na noite passada após chegar da casa de Shantaw e fui direto para meu quarto arrumar minha mala. Mas não tive tanta sorte. Clarisse fez questão de passar o dia enfiada no apartamento, numa espécie de vigilância absurda que só alimentou a minha raiva. Ela ficou o tempo todo pairando perto de mim dando opiniões sobre como eu deveria me portar; alertando-me a não aborrecer meu irmão.
Isso foi me inflamando, dando combustível, no entanto a explosão só aconteceu quando eu já estava de saída, no momento em que ela reclamou do tamanho de minha mala e eu a informei, gritando, que não voltaria para lá, por isso estava levando mais que o necessário à minha estadia. Clarisse não reagiu bem, e antes que eu saísse de casa ainda trocamos farpas.
Quando o elevador chegou à cobertura eu saí quase cambaleante, arrastando a mala atrás de mim. Usei minha chave para destrancar a porta e levei um tempo observando o que podia ver de onde estava. O apartamento gritava "aqui mora um homem solteiro e rico" com sua decoração em preto e branco, e os eletrodomésticos ultramodernos. Não havia um toque feminino sequer naquele lugar. Nada para suavizar o ambiente. Bem típico de Adam, mesmo.
Cheguei a um corredor, que supus ser o dos quartos, e abri a primeira porta do lado direito. No e-mail que meu irmão me enviara, estava escrito que o quarto onde ficaria era o primeiro à direita. Só podia ser esse.
Abri a porta e deixei a mala próximo a porta. Havia uma cama king size do lado esquerdo, arrumada lindamente com uma colcha branca e vários travesseiros da mesma cor. Do outro lado do quarto havia uma escrivaninha e alguns passos depois, uma porta. Existia outra porta, na parede oposta à porta, e imaginei que deveria ser o banheiro, e a outra o closet. Pelo menos da hospitalidade eu não poderia reclamar.
Usando minha intuição como guia, encaminhei-me para a porta mais próxima da escrivaninha e senti como se houvessem me jogado no meio do meio do mercado coorporativo quando a abri.
Terninhos e mais terninhos, nos mais variados tons de preto, cinza e pastel, estavam pendurados. Adam não estava brincando quando disse que eu não precisaria me preocupar com as roupas.
Que atencioso!– Pensei com escárnio.
Tudo por que estava com medo de que eu o envergonhasse.
Clarisse provavelmente se deleitaria em meio a tantas roupas formais; quanto a mim, estava começando a ter urticária só de olhar.
Estava prestes a sair quando o brilho de algo chamou minha atenção. Aproximei-me e me deparei com um espelho. No entanto o que fez com que eu me detivesse em frente a ele foi o que estava em cima da bancada abaixo dele: uma peruca preta, com um infame bilhete anexado.
"Anika, não quero causar uma má impressão ao pessoal da empresa, portanto, use isso para encobrir a desgraça que fez em seu cabelo."
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