Bacanal

15 Um culto à Éris


Notas iniciais
Olha o capítulo quentinho recém-saído do forno! Cuidado, está queimando... Ps:. o texto a seguir é tenso desde a epigrafe até a última palavra. Recomenda-se não manter objetos facilmente quebráveis por perto. Dê preferencia a algo que você possa apertar, cravar as unhas e gritar em cima. Éris: deusa da discordia Boa leitura. E boa sorte...

Você trouxe o silencio,

O som mais lindo que eu já ouvi,

Porque era onde você estava,

E agora você foi embora.

E todos os ruídos, todos os sons do mundo,

Não são altos o bastante para penetrar meu coração partido.

Olho para as estrelas, infinitas e eternas, e sussurro:

Volte para mim,

Volte para mim,

Volte para mim.

— Mia Sheridan, “A Voz Do Arqueiro”

O lugar tinha cheiro de cinzas, incenso e gases pesados. Das frestas mínimas no mármore do chão, subiam vapores esverdeados que irritavam as narinas. A pouca luz refletia nos cabelos compridos da menina, que bamboleava a cabeça em sintonia com a melodia que apenas ela ouvia, os joelhos no chão. De repente, jogou o pescoço para trás, expondo o rosto infante e um par de olhos violeta, que pareciam brilhar numa bioluminescência marinha, olhos muito mais velhos do que ela mesma.

— Diga-me o que vê. — ordenou o deus dos oráculos.

A menina, que já não tinha domínio sobre o próprio corpo, piscou desvairadamente sobre os globos completamente arroxeados, sem íris nem pupilas, e arreganhou a boca em dentes pequenos antes de cochear, numa voz áspera e velha, em total desarmonia a sua aparência infantil.

— Eu vejo... — o oráculo sibilou, entre os lábios da garota, os olhos brilhantes refletidos em suas maçãs. — Vejo o raio e o corvo numa dança de luxúria. — começou, mostrando os dentes. — Vejo a rainha humilhada pela princesa. Eu vejo... — ela estremeceu, tombando a cabeça de lado, uma mexa de cabelo fino caindo na face. — Vejo o Tártaro preso nas garras de um gato vermelho. Vejo o arqueiro sangrando entre um par. Vejo a ira da deusa em cortes profundos. Eu vejo... vejo...

Todo o seu corpo diminuto foi tomado por espasmos violentos, e ela desmontou-se pelo chão, inconsciente, quando o espírito do oráculo a abandonou.

Apolo agachou-se ao lado da menina e colocou-lhe a mão delicadamente na testa, livrando-a da exaustão extrema a que tinha se submetido e guiando-a para um sono anestésico e tranquilo. Logo suas servas a levaram para recupera-se por completo entre seus próprios lençóis.

Apolo saiu do templo com queixo ereto e pulmões inflados de um certo alívio. Era o melhor entre todos os seres existentes em destrincar aqueles enigmas e nem por isso os entendia por completo, o Destino era cheio de ironias cruéis e as moiras tinham um senso de humor macabro. Mas não importava. As cartas estavam lançadas e ele estava tão preparado quanto podia.

Estava na hora de ver Dionísio.

***

— Pela milionésima e última vez... — Eros exasperou entre os dentes perfeitos. — Não!

Anteros piscou os olhos devagar, o que era o equivalente humano a “extremamente irritado”.

— Devo pedir para que reconsidere essa decisão. — ele disse calmamente.

— Pelas almas, Anteros! Você é surdo? Eu não vou sair daqui! — exasperou, olhando impacientemente para as escadas. — Eu nem devia estar aqui embaixo!

Anteros se sentou, elegante e sereno, na poltrona púrpura as suas costas, como se tivesse todo tempo do mundo, cruzando as pernas delgadas por baixo da túnica cinza.

— Está sendo insensato. — a Ordem lhe disse, no seu tom de gelo liso.

Se fosse qualquer outra pessoa ali, Eros já teria tentado estrangulá-la.

As salas do Palácio da Uva eram um caos absoluto, como todo o resto do lugar. Na decoração, não se viam a mínima tentativa de ordem ou equilíbrio e haviam estátuas, pinturas e todo tipo físico de obras artísticas se dependurando tortamente ou acumulando-se em lugares improváveis. Na mobília, não existia um único móvel que tivesse um par, e em frente a cadeira arredondada e púrpura em que Anteros aguardava numa elegância rígida, haviam um sofá de couro preto e formas retangulares, três cadeiras de tamanhos e formatos diferentes, um pufe vermelho com marcas de unha que gritavam “Floquinho”, e um tapete felpudo cor de terra roxa, que parecia mais confortável do que tudo aquilo. Eros sabia, já tinha acordado nele depois de algumas noites caóticas.

O Cupido se sentou no sofá negro em frente ao irmão, com um suspiro irritado.

— Se ele tiver uma crise enquanto eu estiver perdendo meu tempo aqui, te tranco no quarto com ele! — ameaçou, mesmo sabendo que não faria a menor diferença.

— Mamãe está insatisfeita. — foi o que Anteros respondeu. E Eros sabia que “insatisfeita” era nada mais do que um eufemismo sutil para algo como “indescritivelmente puta”. — Seu tempo recluso tem consequências diretas na ordem das coisas e no culto dela. Já faz uma semana e...

— Um dia. Eu sei contar, Anteros! — Eros retrucou, num tom ríspido estranho a sua voz macia.

Anteros parou de piscar e o fitou, imóvel como uma montanha. Seu sinal para “mais irritado ainda”.

— Me desculpe... — Eros murmurou de imediato, esfregando os olhos cansados numa impaciência agoniante.

Ele detestava sem descortês ou rude, quando mais com seu irmão, mas estava pilhado. Devia ter dormido, no máximo, umas cinco horas em todos os últimos oito dias juntos e sombras arroxeadas decoravam a base dos seus olhos. O cabelo estava um ninho, e ele o prendera numa trança desalinhada, em completo contraste ao rabo-de-cavalo alto e impecável do irmão. Sua túnica rosa-shocking estava tão amarrotada quanto ele mesmo e seus pés descansavam descalços sobre o tapete.

Nem mesmo uma hora depois de Apolo ter deixado a sua sala cheirando a camomila; no que ele ficou andando nervosamente em torno da própria mobília, sem saber o que poderia fazer para aplacar aquela angustia antecipada que o estava dominando; e Dionísio irrompera pela mesma porta em que ele havia saído.

Aos prantos.

Ele ficou horas no seu colo, apenas chorando e soluçando copiosamente, como a criança que às vezes parecia. No que Eros só podia aninha-lo contra o peito e deixar que ele o molhasse com seu lamento, enquanto ele próprio continha o seu. Levou um dia inteiro para que ele conseguisse lhe contar o que havia acontecido, e o Cupido ainda estava dividido entre a tristeza avassaladora e o ódio frio. Não conseguia acreditar em como Apolo pudera ser tão estúpido.

Passaram a primeira noite ali. Já eram altas horas da madrugada quando Baco finalmente parou de soluçar nos seus braços, levando-o a acreditar que havia conseguido dormir e caindo ele mesmo num cochilo inquieto. Mas, minutos depois, acordou de rompante ouvindo:

— Onde estou? — Dionísio perguntou, sentado completamente ereto na cama, os olhos verdes impossivelmente abertos e obcecados, transbordando confusão...

E loucura.

— Ondestou-ondestou-ondestou-ondestou... — começou a balbuciar, as íris dançando.

— Ah, não... — Eros murmurou.

No fim, conseguira acalmá-lo. Mas quando o dia nasceu, decidiu por bem levá-lo para casa. As bacantes agiram como se ele tivesse contraído alguma doença terminal e o mimaram e cuidaram como a um filhotinho. Ele não parecia nem perceber, nem mesmo quando Floquinho lambeu lhe o rosto e o farejou inteiro, visivelmente preocupado, ele reagiu. Depois disso o felino não abandonou mais, e passava dias e noites fazendo guarda na beirada da sua cama. Eros também nunca pensou em deixá-lo de fato. Na única tentativa em que fizera tomar ar fresco e o pequeno o agarrara pela cintura desesperadamente, como se fosse se quebrar no segundo em que ele botasse os pés para fora da cama.

Os dias eram longos e as noites, angustiantes. Dionísio sempre dormira mal. Dizia que era quando sua consciência tentava repousar que os ruídos ficavam mais altos, gritando com ele, e acabavam por acordá-lo várias vezes por madrugada. Mas os barulhos tinham levado tudo para outro nível agora, e ele nunca conseguia descansar mais do que uma hora. E tanto Cupido quanto Floquinho — que enfim aceitara pacificamente a sua presença — acabavam despertando junto.

Foi quando ele se recusou a comer que o Amor ficou realmente preocupado. Dionísio era a encarnação da fome em bochechas coradas e cachos macios. Eros nunca o vira recusar sequer uma semente comestível em todo o tempo que eram amigos. Sempre devorava tudo que tinha disponível e pedia um pouco mais. Mas nem as lágrimas desesperadas do seu melhor amigo o convenceram a por uma única colher do seu prato preferido na boca pequena e ele passara todos esses dias com nada mais do que o gosto das próprias lágrimas na língua.

Ainda estava vestido com o chiton azul claro que um dia estivera num baú dourado do Palácio da Luz e não queria tirá-lo por nada nesse mundo. No quarto dia, no que o pano claro e fino já estava amarrotado e grudento, Eros decidira ser extremo e ameaçara rasgá-lo se ele não o despisse.

Foi o único momento desde que o conhecera em que o Cupido realmente achou que Dionísio pudesse machucá-lo.

As pupilas dele tremeram, expandindo e encolhendo em espasmos inconstantes, seus adoráveis lábios vermelhos se abriram para expor seus dentes, cerrados de cólera repentina, as mãos pequenas oscilaram entre punhos apertados e garras duras. De repente, abriu as presas e rosnou para ele, como se Eros fosse um animal estranho tentando roubar os seus filhotes. Nisso os pelos de Floquinho se arrepiaram por inteiro, e ganindo baixinho, ele se escondeu atrás de um baú.

— Dionísio? — chamou, assustado ao limite, vendo aquele felino gigantesco fugindo como um gatinho. O amigo não lhe respondeu, apenas mostrou mais das presas pequenas e brancas. E aquilo fez as lágrimas se acumularem na borda dos seus cílios — Dísi... — ele murmurou, profundamente magoado.

Aquele lamento pareceu alcançá-lo, e ele piscou espantado sobre as íris esverdeadas, vendo o choque e a magoa no rosto do amigo. Então faz uma careta surpresa de dor para as palmas das mãos, onde ele havia cravado profundamente as unhas. E foi se encolhendo, desfeita a adrenalina agressiva e primitiva que o tinha tomado no momento. Acabando por abraçar a si mesmo, sentado sobre os calcanhares e chorando baixinho, o rosto quase escondido no próprio peito. Eros ouviu quando um soluço quebrado escapou da sua boca.

— Pode t-tirar. — ele murmurou, erguendo os bracinhos de rompante, conseguindo parecer ainda menor do que era de fato. — Só não rasgue, por favor... — implorou, as lágrimas descendo pela face. — É tudo que eu tenho dele. Por favor, por favor, não rasgue...

Eros nunca quis tanto chorar com ele, e hesitou momentaneamente. Mas sabia que não teria outra oportunidade e pôs-se a tirar a roupa dele devagar.

— Está tudo bem, amorzinho... — ele murmurara, apertando seu rostinho contra o peito por um segundo. — Ele vai voltar rapidinho, eu prometo. — jurou no seu ouvido, limpando as lágrimas das suas bochechas. No que menino apenas fungou, assentindo mansamente. E Eros entregou a roupa usada a um servo qualquer, pedindo que fosse lavada e secada o mais rápido possível.

Aproveitou-se desse tempo para dar-lhe um banho, que ele permitiu como se não tivesse vontade própria, apenas fitando a água apaticamente, enquanto o Cupido lavava seus cabelos. E se lembrava do quanto costumavam divertir-se naquela mesma banheira, em banhos que costumavam ter que levar a outros banhos. Secando o choro para ele não ver. Vê-lo daquela maneira era terrivelmente doloroso e sua vontade de encher Apolo flechas só aumentava a cada dia. Depois de limpá-lo e secá-lo por inteiro, Eros tentou vesti-lo com as próprias roupas, mas isso ele não permitiu. Em vez disso, subiu de volta na sua cama e esperou, completamente nu, abraçando os joelhos e ninando a si mesmo, enquanto linhas molhadas e totalmente mudas desciam por suas bochechas.

— Ele vai voltar rapidinho... — repetia para si mesmo.

Eros não sabia se ele estava falando do chiton.

Aquilo tinha partido seu coração.

Também não foram poucas as vezes que em que o pequeno quase perdera a razão. Eros conhecia os estágios daquela velha loucura.

Primeiro, vinha a Obsessão. No que Dionísio ficava absolutamente imóvel, os olhos imensos petrificadamente fixos em algum lugar. Não ouvia nem reagia a estimulo nenhum.

Então vinha a Mania. E ele começava a repetir as mesmas palavras e movimentos num ritmo frenético e alucinado, as íris dançando sem controle. Às vezes ria histericamente por minutos, sem nenhuma explicação.

Depois vinha a Cólera, e ele perdia completamente a noção de quem era amigo ou inimigo, familiar ou estranho, e atacava todos e tudo que estivesse no seu caminho.

O quarto estágio era a Autoflagelação. Quando ele acabava de quebrar o que estava ao seu alcance, tentava quebrar a si mesmo. Jogava-se nas paredes, batia no próprio rosto e tirava sangue na pele macia com as unhas.

Por último, vinha a Depressão. O mais longo e angustiante de todos. Quando ele despertava daquele transe insano e destrutivo e percebia que tinha perdido as rédeas outra vez.

Existia apenas uma falha naquele enredo psicótico e demente, apenas uma chance de alcança-lo. O estágio da Mania. Por que na Obsessão, ele nada ouvia, e nos outros, já ela tarde demais. E tudo o que se podia fazer era trancá-lo em algum lugar e rezar para que não se machucasse muito.

Por um raríssimo rompante de bondade do Destino — e da dedicação e zelo obstinado do Cupido — o pequeno não passou da segunda fase em dia nenhum.

O que de forma alguma garantia que não poderia acontecer a qualquer momento.

— Você não entende... — Eros murmurou para o irmão, bem mais ameno, ainda deslizando as falanges pelos cílios compridos. — Não posso deixá-lo. Ele precisa de mim...

— O mundo precisa de você. — Anteros retrucou, no seu tom mortalmente racional e frio.

— O mundo não é meu melhor amigo! — Eros rebateu e em oposição ao irmão, soou apaixonado e quase enfurecido. — O mundo não acabou de passar por um dos piores momentos da sua vida! O mundo não está chorando, delirando e passando fome há uma semana! O mundo...

— Eros. — a Ordem cortou, e a sua voz era uma lâmina de gelo fino. — Sente-se.

O Cupido não percebera que tinha se erguido.

Acomodou-se de volta no sofá. Anteros não o tinha obrigado a isso. A Ordem jamais usara os poderes diretamente no irmão, como Eros também nunca fizera e nunca faria. Um acordo de afeto não dito cercada por uma linha invisível que nenhum deles ultrapassaria.

— Eros, — Anteros repetiu, e o Amor fechou os olhos a espera da repreensão que imaginou que viria. — você está bem?

Mesmo aquelas poucas palavras, numa interrogação tão simples, e ainda naquele tom gelado e impessoal, trouxeram lágrimas aos seus olhos.

— Estou no Tártaro, Anteros... — ele sussurrou, tirando as impressões molhadas das suas pálpebras. — Vê-lo assim, está acabando comigo.

Eros não conseguia não sentir. Seria o mesmo que pedir a uma bandeira que não se movesse sob o vento. E, aquela semana, Dionísio foi uma tempestade. O Amor estava quase tão acabado, arrasado e abatido quanto ele. Porque era isso o que ele era, a empatia mais pura. E estava sofrendo terrivelmente. Só houvera uma lufada de brisa quente naqueles dias, tirando-o brevemente daquela tormenta implacável.

E essa brisa fora Hermes.

Eros não saberia explicar porque, já que nada naquela situação lhe era agradável, e narrá-la a terceiros também não deveria ter sido. Mas no que as palavras saiam da sua boca, um alívio ameno lhes tomava o lugar. Talvez tenha sido a sua áurea, que pareceu ter-lhe injetado mililitros cálidos de energia. Ou a sua simples presença. Hermes era um ouvinte excelente. Não interrompia. Não se distraia. Absorvia e interpretava cada mínima informação. E quando fazia perguntas, eram bem pensadas e incisivas. A inteligência quase brilhava nos seus olhos, no que encaixava as peças dentro da sua cabeça. Ele tinha olhos assim, atentos e analíticos, de um jogador veterano e poucas vezes vencido. E sob seu estudo, Eros sentiu-se como enigma novo que ele tentava desvendar. O que não o aborreceu em nada. Nem mesmo a maneira obstinada com que ele encarava os seus lábios enquanto falava. E, nos últimos dias, o Cupido pegou-se querendo vê-lo de novo. Quando viera, seus cabelos estavam num tom fascinante de rosa-algodão-doce, que Eros achou lindo. A ponto de quase pedir tocá-los, e ver se se mexeriam em volta dos seus dedos como faziam sozinhos.

Mas, bem, isso era assunto para outro dia.

Ou talvez não...

— Mestre Eros. — uma bacante o chamou. Além de cuidar de Dionísio, o Cupido também se viu tendo de decidir por tudo naquele palácio, tentando equilibrá-los precariamente fora do caos completo e absoluto. — Mestre Hermes está aqui e pediu para vê-lo.

Eros poderia ter pensado em muitas coisas naquele momento. Como que algo grave houvesse acontecido e ele viera informar-lhe. Ou que talvez tivesse de narrar aquela história fatídica outra vez. Que poderia estar trazendo informações importantes. Que o Olimpo estava sendo invadido por gigantes! Ou todo outro tipo de catástrofe imaginável e possível. Mas a que ele escolheu pensar foi:

Ah, meu Zeus, Hermes está aqui e meu cabelo está horrível!

—Ah... — Eros quase gemeu doloridamente, desfazendo aquela trança precária às pressas. — Diga a ele que pode entr...

— Mestre Apolo está com ele, senhor. — a bassária completou, comprimindo os lábios levemente.

Isso parou-lhe o movimento dos dedos. Os olhos pretos endurecendo em lascas de ônix fria. O que esse bastardo acha que está fazendo aqui? Eros perguntou-se, largando os cabelos. Eles não importavam mais.

— Não. — o Cupido respondeu, num tom que poderia ser de Anteros. — Não os deixe entrar.

— Tarde demais... — uma voz conhecida respondeu, quase divertidamente.

O Amor fechou os numa fúria evidente, para depois levantar-se numa calma irônica e dar de caras com o cabelo colorido e errático de Mercúrio.

— Olá de novo. — Hermes cumprimentou com um sorriso mínimo, embora sua voz quase não tenha passado de um murmúrio. Seus cabelos tinham um tom muito belo e gelado de lavanda, destacados pela palidez da túnica branquíssima que vestia seu corpo alto e esguio. E lá estavam aquelas íris âmbar, tentando perseverantemente desvendar algo nos seus traços finos.

Mas Eros não estava vendo. Por que tinha os olhos pretos cravados como estacas em quem estava ao seu lado.

— Como entraram? — ele perguntou num rosnado, dirigindo-se claramente a Mercúrio. Embora seus globos duros e tom de morte súbita não trouxessem evidencia nenhuma da calidez amena que, a pouco tempo atrás, a lembrança dele tinha lhe causado.

— Eu tenho meus modos... — Hermes respondeu, com um sorriso maior. E Eros bufou pelo nariz.

— Suponho que sim, deus dos ladrões. — retrucou, numa impessoalidade tão frígida e mordaz que lhe varreu o sorriso da face.

Apolo, que até o momento apenas existira ao lado do irmão, calado e quieto, ergueu os olhos para o deus da paixão. E Eros pouco não arquejou. Havia tanta intensidade daquelas íris azuis que o desnorteou por um momento. Não era a sua aparência em si. Estava pelo menos quatro quilos mais magro e levemente pálido. E não se poderia negar um traço evidente de culpa no seu rosto moreno. Mas havia algo mais. Muito mais. Uma determinação implacável. Uma vontade férrea. E uma resolução absoluta. De quem sabia o que fazer, como fazer, e o faria.

Simples assim.

E isso deixou o Cupido mais irritado ainda.

O Sol abriu a boca para falar, os olhos firmes e fixos.

— Eros...

— Não! — o Amor o cortou num quase rosnado raivoso, apontado lhe o indicador. — Eu me recuso a falar com você! Eu não quero olhar para você! Eu não quero que você exista! — ele gritou no seu rosto, extravasando apenas um pouquinho do que estava sentido.

— Eros, por favor... — foi Hermes quem falou, tentado a colocar-se entre ele e o irmão.

— Você é um idiota! — Eros continuou, cuspindo as palavras entre os dentes, nem ouvindo Mercúrio. — E eu sou um idiota maior ainda! — soltou, umas lagrimazinhas inconvenientes brilhando nos seus cílios. — Você estava certo. Eu só pensei no qual bem ele poderia lhe fazer. E nem sequer considerei o qual terrível você seria para ele! — o Amor gritou, chorando de verdade. E pela primeira vez expondo o quando ele também se sentia culpado por aquilo tudo. — E o quão terrível você foi... — murmurou amargo, o pranto enrouquecendo a sua voz macia. — Fez com que ele se apaixonasse por você. E para que? Apenas para usá-lo e depois expulsá-lo como uma meretriz baixa que não quer mais! Qual é o seu proble...

— Apaixonasse por mim? — Apolo o interrompeu de rompante, as íris brilhando. Ele se aproximou de Eros quase num avanço. Por pouco não segurando-o pela gola da túnica cor-de-rosa. Fulminando-o com a intensidade caustica e desesperada dos seus olhos azuis — Você tem certeza disso? Dionísio está apaixonado por mim?

Eros ficou aturdido. Não por aquela atitude, em que praticamente era sacodido pelas palavras dele. E sim pelo que havia dito. Quando finalmente pareceu absorver cada informação, encarou o Sol como se ele fosse uma espécie rara, nova e absolutamente especial de imbecil.

— Que as moiras tenham piedade... Você é burro, por acaso?! — o Amor gritou com ele, indignado.

— Aparentemente sim... — Apolo murmurou para si mesmo, quase sorrindo.

Apolo sabia disso. No mais profundo e ignorado do seu ser, ele sabia. Soube no dia em que Dionísio beijou lhe pela primeira vez, o desnorteando a ponto de tornar-se quase explosivo. Soube quando o vi amuado nas calhas daquela torre, e o pequeno lhe informara que tinha parte da culpa. Soube quando o menino abriu a boca para ele, deixando-o prová-lo e todas as maneiras que conseguiu. Soube quando o seguiu para a sua carruagem, sem lhe tecer uma única pergunta. Soube quando ele se entregou por inteiro. Dionísio nunca tinha se esforçado nem minimamente para esconder o que sentia, e era ele o único covarde entre os dois.

Mas mesmo assim, não conseguia evitar sentir um frio inquieto e inseguro. De que talvez não fosse totalmente correspondido. E de que o que o pequeno sentia não passasse de curiosidade, atração e até algum nível de afeto. E depois das suas atitudes estúpidas, tudo o que restasse fosse um ódio justificável e legítimo. A verdade é que nem mesmo isso o demoveria. Se Dionísio não o amasse como ele o fazia, seria a meta da sua vida conquistá-lo.

Porém, ouvir aquela confirmação espontânea nas palavras raivosas do Cupido foi como injetar hélio nas suas veias, e Apolo achou que fosse capaz de voar como o irmão. Um sorriso que beirava o ridículo brincando nos seus lábios.

Estava tão embriagado pela própria felicidade que quase não ouvia Eros gritando com ele. Tudo o que pode absorver foi algo como “bastardo” – o que era irônico, já que todos naquele recinto se enquadravam nessa categoria – “idiota estupido” — o que, embora pleonástico, era merecido – “minhas flechas na sua garganta” – o que pareceu um pouco dramático – e algumas obscenidades que fariam uma mãe tapar os ouvidos dos filhos.

Apolo sacodiu a cabeça, trazendo a si mesmo de volta a realidade, que ainda lhe berrava uma série bastante criativa de palavrões.

— Você está certo. — ele afirmou, cortando a histeria raivosa do Cupido, e encarando-o sem receio nenhum no fundo dos olhos. — Está certo sobre tudo isso. Eu fui sim estúpido, inconsequente e provavelmente cruel. — Apolo disse, as palavras claras e calmas como águas cristalinas — E eu mereço o seu ódio e a sua raiva. Tenho plena e total consciência disso. E se tivesse um mínimo de decência, jamais me atreveria a dar as caras por aqui novamente. — acrescentou, vendo os lábios rosados alheios se abrindo. — Mas não importa. — disse, simplesmente, um sorriso muito sutil nos cantos da boca. — Eu amo Dionísio. — declarou com suavidade, como se fosse algo tão natural quanto a cor dos seus cabelos. — E eu preciso vê-lo.

Dito isso, rumou às escadas que imaginou que o levariam até ele.

Por alguns segundos, ninguém além dele se mexeu. Hermes piscou para as costas do irmão, levemente orgulhoso, torcendo para que fosse capaz de reverter aquela situação. Anteros, que tinha se levantado quando Apolo encurtou perigosamente a distância entre ele e seu irmão, encarava a cena com a mesma indiferença com que olhava quase tudo, como se já tivesse visto coisas absolutamente mais interessantes e aquilo não merecesse o mínimo de comoção. Eros ficou momentaneamente imobilizado pelas palavras que saíram tão fáceis e abstraídas do antigo rival, algo de primitivo lhe dizendo que tudo poderia finalmente entrar nos eixos outra vez e tirando aquela angústia alojada no seu estômago a uma semana, mas isso não foi o suficiente para amortecer a raiva que tinha cultivado, e momentos depois, estava entre Apolo e o seu destino.

— Para o Tártaro com o que você precisa... — Eros sibilou, e com os olhos feitos em fendas finas, decretou: — Não vai machucá-lo mais.

Apolo desceu os olhos para o Cupido, analisando-o como um general faria com um mapa antigo ou a formação do inimigo. As íris azuis pareciam reluzir, num anseio feroz, notando friamente os seus dez centímetros mais baixo e formas delicadas. Sem as suas flechas atrozes, Eros não era um oponente páreo e Apolo sabia que poderia dobrá-lo ao meio se fosse preciso. Não queria fazer isso. Uma parte sua sabia que ele tinha todos os motivos para tentar impedi-lo, e que, no fundo, apenas tentava proteger o amigo. Mas era uma parte pequena e tímida perto da sua determinação. O que ele realmente via era seu objetivo e um obstáculo.

E o obstáculo devia ser removido.

Quase como se pudesse ler seus pensamentos, Anteros moveu-se como uma sombra para o lado do irmão, cravando os olhos translúcidos implacavelmente no deus do sol, desafiando-o a qualquer imprudência, o rosto ainda tão liso quanto o mármore de um pilar. Embora não estivesse absolutamente tranquilo quanto sua impassibilidade sugeria. Apolo tinha uma força de vontade espantosa. Ele soube disso quando precisou repetir a ordem que deu a ele outro dia, exigindo mais que o de costume de seus poderes, o que era absurdamente raro. E pelo que via nos seus olhos agora, aquilo era apenas um pouco da determinação que ele possuía. Anteros poderia fazer uma multidão de mortais esquecerem-se do livre arbítrio e dobrarem-se a sua vontade sem esforço algum. Mas com deuses, era diferente. E ele não estava certo se podia controlar Apolo e Hermes ao mesmo momento por tempo demais. Certamente, ninguém machucaria seu irmão. Teriam que matá-lo primeiro. No entanto, talvez não pudesse manter ambos longe do quarto que Eros queria tanto proteger.

E isso o deixou muito, muito, muito irritado.

Ah, Éris... deve estar dando piruetas de alegria. Hermes pensou, aspirando cautelosamente o ar denso e pesado do ambiente, vendo ambos os lados se armando mentalmente. Aquele não era o dia de jogar perigosamente. As previsões foram vagas e as apostas eram ruins. Muito ruins. Eros podia não ser um desafio físico muito intimidante, mas a fúria no preto dos seus olhos disse para o deus dos jogos não descartá-lo facilmente. Ele parecia capaz de arrancar globos oculares com nada mais do que as unhas se fosse preciso. E aquele tipo de raiva cega tornava qualquer gato doméstico um perigo legítimo. Já Anteros gelava a sua espinha sem nem ter tido o trabalho de olhá-lo uma única vez desde que ele chegado. Não que estivesse reclamando. Preferia muito mais a raiva cáustica — e absurdamente sensual — das íris escuras do Cupido, a frieza indiferente e sombria daqueles orbes claríssimos. De quem parecia ser apto a ver tanto uma comédia aclamada quando uma tortura prolongada com a mesma expressão. Se aquilo fosse um jogo de dados, ele teria recolhido as suas peças.

Mas foi olhar para a postura solida e resoluta do irmão, para colocar-se decididamente ao seu lado. Hermes não era um guerreiro nato. Como estrategista, apenas Atena se mostraria mais temível. No entanto, no que lhe dizia respeito dos punhos e da fúria, Mercúrio os acharia estranhos aos seus modos. Poucos foram os impasses que sobreviveram a sua astúcia, e o modo Ares de lidar com as situações lhe parecia bárbaro e primitivo. Mas isso não importava agora. Aquilo não era um jogo. Não para seu irmão. E no que fosse necessário Hermes estaria ao seu lado. Não machucaria ninguém, mas o defenderia se fosse preciso. O que não o impediu de tentar a diplomacia mais uma vez. Por que aquilo poderia resultar não apenas em sangue dourado imediato, mas também de séculos de contenda e inimizade desnecessária e destrutiva.

— Não há motivo para justa entre nós. — ele disse, mostrando as palmas das mãos, num gesto universal e quase distraído de passividade. O tom calmo e civil. — No fim, tudo não passou de uma série lamentável informações omitidas, pressuposições erradas e precipitações estúpidas. — ele disse, lançando um olhar de repreensão indiscreto para Apolo, que o ignorou solenemente.

Eros arregalou os olhos para ele, parecendo não apenas enfurecido como nitidamente magoado, como se ele houvesse acabado de traí-lo cruelmente.

— Não pode estar defendendo ele... — o Cupido sussurrou, de um jeito estrangulado e quase ferido.

— Eu não! — Hermes afirmou quase desesperadamente, acrescentando: — De maneira alguma! Nunca! Evidente que não...!

O Sol lhe lançou um olhar exasperado de “Já ficou bastante claro, obrigado” e foi a sua vez de ser completamente ignorado pelo irmão.

— Então... por que? — o deus do amor acabou gritando, apontando para Apolo como se não conseguisse pronunciar seu nome.

— Eros...

— Eu te contei aquilo tudo porque você parecia preocupado e eu achei que o entendimento acalmaria o seu espírito. — ele continuou. — Não foi para que o trouxesse aqui! — acusou, ainda ao soando terrivelmente atraiçoado em seus gritos.

Para a completa surpresa de Apolo, que esperava do irmão alguma resposta esperta e incisiva, Hermes baixou a cabeça. Torcendo os lábios arroxeados de um jeito absolutamente constrangido e culpado, como se tivesse dez anos e fosse repreendido pela própria mãe.

— Eu sei... — ele murmurou, os olhos presos nos pés, e os cabelos quase não se movendo. — Me desculpe.

Apolo estava para perguntar se ele por acaso tinha caído enquanto voava e batido aquela cabeça colorida em algum lugar, quando concluiu impacientemente que aquilo não importava agora e já tinha perdido tempo demais.

Chega disso... Resmungou para si mesmo, começando a contornar Eros como se ele fosse meramente decorativo, em direção as escadas outra vez. Foi quando uma mão de dedos finos e macios o agarrou pelo bíceps.

— Onde pensa que vai, Polly? — Eros desafiou num murmúrio. Estavam tão próximos que Apolo pode sentir seu hálito doce no lóbulo da orelha e seu cheiro apimentado nas narinas.

— Solte-me, Eros. — o Sol ordenou, as íris queimando. — Não vou pedir outra vez.

— Eu soltarei se disser que vai embora. — o Cupido prometeu. — Pouco me importa você. Apenas ninguém o quer aqui... — sibilou, dando a entender que também falava por Dionísio.

— Isso não cabe a você decidir. — Apolo decretou, pronto para quebrar o pulso dele se não o removesse nos próximos segundos.

— Ah, por Zeus... — Hermes resmungou impacientemente, parecendo um pouco mais com ele mesmo outra vez. — Não há nenhuma necessidade disso! — exclamou, quase rolando os olhos nas orbitas. E, num movimento inesperado e súbito, pegou ele mesmo a mão do Cupido e a tirou do irmão, com uma gentileza evidente e absolutamente estranha a situação, que fez com que Eros sequer resistisse.

Teria aproveitado para ter a pele lisa dele na sua por mais tempo se não tivesse ouvido.

— Tire as mãos do meu irmão.

Hermes deu um passo reflexo rápido e assustado para trás, quando seus dedos se abriram sem qualquer comando dele mesmo, e começaram a formigar numa friagem agoniante e levemente dolorida. Ele escondeu a mão dormente na outra, erguendo os olhos amarelados numa surpresa — para equivaler ao Eros de momentos atrás — bastante magoada.

O Amor piscou, absorvendo os últimos segundos e registrando a expressão ofendida e chateada de Mercúrio. E não gostou de saber que por causa dele ela estava ali.

— Não havia necessidade disso, Anteros. — ele repreendeu num murmúrio, tocando distraidamente na pele em que tinham entrado em contato. — Ele não ia me machucar...

— Você não sabe. — foi o que ele respondeu, num corte incisivo e cirúrgico, como se Eros fosse uma criança inconsequente incapaz de pesar os próprios atos. E isso fez tanto o deus do amor quando o dos ladrões unirem as sobrancelhas.

— Sim, ele sabe. — foi Hermes quem falou, a indignação quase enrouquecendo a sua voz, os cabelos movendo-se furiosamente. — Eu nunca o machucaria! — afirmou convicto, fazendo um Eros fora do seu campo de visão entreabrir surpreso os seus lábios cheios.

Anteros o olhou como se ele fosse algo que o gato acabara de trazer da rua, sujando o chão impecável da sua cozinha.

— Não estou nem minimamente interessado nas suas promessas, deus dos ladrões. — ele lhe disse, naquela inflexão impassível e friamente uniforme. — Se tocar no meu irmão outra vez, perderá todos os dentes.

E foi assim que a única pessoa indisposta a uma luta naquela sala passou a querer quebrar muito alguma coisa.

Não se saberia quem se moveu primeiro. Mas segundos depois, estavam todos em algum nível de contato físico rude, trocando injurias gritadas. Talvez não Anteros, que nunca perderia a sua impessoalidade gélida. Mas era apenas uma questão de momentos para que aquilo resultasse em sangue, no que pareciam pólvora negra a espera de uma fagulha.

Só uma.

— BASTA! — uma voz gritou, mais alto do que tudo aquilo.

E embora o seu timbre fosse adocicado e levemente embargado, poderia ter saído do próprio Anteros, por que todos pararam como que congelados em pleno movimento.

Dionísio começou a descer as escadas.

Seus passos eram lentos e absolutamente mudos, mais do que conseguiriam as patas almofadadas de Floquinho, que o seguia apenas alguns centímetros atrás. Os cachos castanhos e livres caiam sobre os seus olhos esverdeados, fixos no grupo na sua sala. Estavam vermelhos nas bordas, os cílios espessos e compridos levemente úmidos. Mas isso não amenizava a dureza feral nas suas íris escuras. E ele mais do que nunca parecia um felino. Selvagem e arisco. Rodeando seu território numa lentidão ameaçadora. Os lábios vermelhos prontos a dar espaço às presas a qualquer momento.

Apolo perdeu todo o ar.

A simples visão do deus o vinho e seu coração voltou a dançar como um bêbado ensandecido, dando piruetas trôpegas e cantando nos seus ouvidos. O que lhe parecia bastante apropriado. Deixou que a áurea dele lhe tomasse todos os sentidos. Pela primeira vez, sem tentar resistir a isso, e quase não pode conter um gemido.

Era mais do que aquela leveza languida e deliciosamente atordoante; mais do que o aroma de floresta, madeira e frutas maduras nas suas narinas e gosto de licor e vinho nos seus lábios; era mais do que a lentidão deleitosa com que tudo parecia se mover, e o brilho novo nas cores que quase se fundiam a sua vista; era mais do que aquele calor estranho e voluptuoso que tomava seu baixo ventre, ou a sede absurda que tomava sua boca; era mais do que a vontade de maravilhosa enlouquecer; era mais do que o próprio delírio. Naquele momento, em que via o pequeno e belo deus moreno descendo lentamente as suas escadas, Apolo sentiu como se, depois de muito tempo, estivesse voltando para casa.

Dionísio chegou ao fim dos degraus.

Ele estava descalço, ainda vestindo o chiton azul-bebe comprido demais para ele mesmo. Seus cabelos não tinham folhas ou vinhas e as melenas cacheadas se enrolavam umas nas outras. A pele clara parecia mais pálida, embora tanto as bochechas quando a pontinha do nariz e a borda dos olhos continuassem vermelhas. Estava mais magro e mais leve. E seus pés não pareciam pesar no chão quando ele andava.

Ele não disse uma palavra. Apenas continuou andando devagar, ignorando tudo e todos, que não fossem certas íris azuis a sua frente. Os filhos de Afrodite acabaram abrindo o círculo para ele passar, Anteros com um olhar resoluto e Eros com várias palavras presas na garganta.

— Dísi? — ele conseguiu sussurrar, quando o menino passava por ele.

Dionísio não lhe deu atenção.

Apolo o via se aproximando com a endorfina e a adrenalina competindo implacavelmente pelo seu sangue. A sua vontade imediata era se jogar nos pés dele e implorar perdão – Certo... A sua vontade imediata era beijá-lo, pegá-lo no colo, levá-lo para a superfície macia mais próxima e possuí-lo até perder os sentidos. E depois ajoelhar-se e implorar por perdão – Mas, infelizmente, não achou que fosse o momento...

Por isso, quando ele estava perto o suficiente, com aqueles olhos verdes escuros como musgo macio, um anel de pingos castanhos perto da pupila, que pareciam carregados da mesma profundidade densa e sombria que Apolo tinha visto nas suas íris quando ele lhe contou a historia de Floquinho, presos acirradamente nele; aprumou-se inteiro, pronto para aquela luta.

— Eu sinto muito... — ele começou dizendo. — Eu não consigo colocar em palavras o quanto fui estúpido. Eu resisti e cedi em momentos errados. Eu tirei conclusões apressadas. Eu fui insensível, rude, precipitado e...

Ele teria continuado. Tinha um monte de auto depreciações a tecer, e ainda nem tinha começado as verdadeiras desculpas. Mas ele parou quando o outro fez o impensável.

Dionísio simplesmente tatuou a mão na cara dele, com uma força absolutamente desproporcional ao seu tamanho.

Eros deixou o queixo cair.

Hermes deixou o queixo cair.

Floquinho deixou o queixo cair.

Por Zeus, Anteros deixou o queixou cair! (Embora sua versão tenha sido apenas um leve entreabrir de lábios).

Apolo levou os dedos à bochecha por instinto. O tapa fora tão forte que, embora não tenha tirado seus pés sólidos do chão, girou seu rosto noventa graus. Os cinco pequenos dedos do menino aparecendo perfeitamente em um tom vermelho escuro na sua pele bronzeada. O Sol voltou a face para ele devagar, os olhos quase não cabendo no dentro dela.

Dionísio estava furioso.

Suas pálpebras se apertavam em torno dos seus olhos, que brilhavam com um resquício de lágrimas raivosas. Os lábios rubros tremiam, apertados um contra o outro e as íris pareciam muito mais escuras.

— “Eu, eu, eu... eu”. — ele repetiu, o mesmo numero exato de vezes em que Apolo tinha dito. Bamboleando a cabeça levemente para o lados. Cada letra saiu espremida e sibilada entre suas presas. Um perigo pouco são brincando nas suas pupilas. Ele chegou muito perto, tonteando o outro com seu cheiro de vinho, fuzilando seus mares azuis com sua vastidão esverdeada. Então disse: — Por que só o que você sente que importa?

Silêncio.

Pesado, intenso e absoluto.

Aquela pergunta pareceu reverberar dentro e fora de Apolo. E doeu. Nunca se sentira tão baixo, mesquinho e cruel. De repente, aquela ardência acentuada e fina na sua bochecha lhe pareceu pouco.

Lágrimas desceram pelo rostinho corado de Dionísio. Sua boca tremeu mais, acompanhada pelo queixo. E seu peito ia e vinha acelerado, deixando-o ofegante. Mas os olhos não vacilaram nem um segundo.

Ele deu dois passos para trás e ergueu o rosto pequeno, como se pudesse mirá-lo de cima.

— Saia da minha casa. — Dionísio disse, e não havia num um rastro mínimo de fragilidade, doçura ou inocência no seu tom.

Então apenas deu-lhe as costas e voltou a rumar para as escadas.

Apolo o viu se afastar com a sensação de quem cai de um penhasco. Então tirou os dedos da bochecha agredida e sacudiu a cabeça, ignorando a dor que achou merecida. Baco estava indo embora outra vez e ele não suportaria isso.

— Dionísio! — chamou alto, com a urgência estridente nas palavras.

O menino parou.

Mas não parou para ele. Nem virou-se de volta para vê-lo. Em vez disso, Apolo viu a sua cabeça girar num reflexo tão felino que conseguiu imaginar perfeitamente um par de orelhinhas felpudas mexendo entre os seus cabelos. Estava olhando em direção a porta.

— Ouviram isso? — ele perguntou de repente, a ninguém específico.

Eros e Anteros se entreolharam e Hermes franziu o cenho, confuso. Apolo não se mexeu, mas também não havia entendido. Não ouviram barulho algum.

Porém, algo pereceu se repetir, por que Baco inclinou-se ainda mais naquela direção. E não apenas isso, como Floquinho mexeu as orelhas inquietamente, os pelos arrepiados e as garras expostas, também com as pupilas fendidas na porta.

— De novo... — Dionísio murmurou e sem dizer mais nada, correu para lá.

Ninguém precisou ser chamado e, em segundos, estavam todos do lado de fora. O Palácio da Uva era um dos primeiros que se via ao subir no monte Olimpo, feito mais tarde, quase na periferia daquela corte divina. E quem quisesse avançar por aquele lugar, teria de passar por ali. Talvez fosse por isso que foram os primeiros a ouvir.

Tum.

Apolo arregalou as pálpebras quando seus ouvidos sensíveis finalmente captaram o som profundo, mas ainda mínimo.

— Eu ouvi. — declarou. O tom sério e impassível. Os olhos presos na entrada do Olimpo.

Tum.

— O que é isso? — Dionísio perguntou, sem nem olhar para ele. As íris também fixas a sua frente.

— Isso o que? — Hermes e Eros perguntaram em uníssono. O que Anteros também se questionava calado. Logo que nenhum deles tinha o ouvido absoluto do deus da música, nem os tímpanos felinos e precisos de Dionísio.

Eles não precisaram responder por que, segundos depois, tudo começou a tremer.

TUM! TUM! TUM!

Quem não tivesse ouvido agora, simplesmente não tinha audição. Era uma mistura de passos pesados, terra deslocada e pedras partidas. Alto, abafado e totalmente aterrorizante.

— Zeus, não... — Hermes sussurrou, já entendendo a situação. Ele lançou um olhar que beirava o terror para Apolo, que não pode responder com algo melhor.

Por que apenas os dois tinham idade o suficiente para reconhecerem aquele barulho.

Eros aproximou­­-se dele, notando aquele pavor permeando tudo.

— Hermes, o que é isso? — ele perguntou baixinho, quase temendo atrapalhar aquela série de batidas e ruídos.

O deus dos ladrões apertou os lábios e ofegou antes de conseguir falar:

— Gigantes...

Notas finais
...TÁQUEPARIU! É O QUE? Sim, meus amores, tem Gigantes subindo o Olimpo... AH MEU ZEUS AH MEU ZEUS AH MEU ZEUS AH MEU ZEUS... (momento risada sádica e ensandecida) E A-G-O-R-A? Pois é, queridos, esse deve ser um dos meus caps favoritos. Tem flerte, tem tapa, tem treta e tem Floquinho. Só faltou um lemonzinho pra temperar tudo, mas isso não deve demorar demais... Ps2.: sobre as profecias do começo do capítulo, com exceção de uma que irá se realizar já no próximo, todas as outras são futuros possíveis dependendo do correr da fic. O que acham que significam? Ps3.: desculpem a demora. Achei que conseguiria postar até sexta e infelizmente não foi o caso. Porém, olhando pelo lado bom, não foi em uma semana mas também não foi em duas. Perdem a tia Norma, okay? ♥ Ps4.: dito isso, saibam que vou tentar voltar a postar aos domingos. Ps5.: essa semana eu deixei Hermes na capa da fic, por que ele foi foda e estava merecendo kkk. Amanhã já vou trocar para um novo de Dionísio (não foi o meu melhor, já que ele ficou meio vesguinho kkk. Mas achei as cores bonitas) Por favor, quero opiniões :) Beijos felinos e até o comentários.