Bacanal

22 Epílogo


Notas iniciais
- sem condições psicológicas para um comentário de introdução... - ps.: o primeiro parágrafo pode causar fome. Boa leitura...

Abre a janela agora
Deixa que o Sol te veja
É só lembrar que o Amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O Amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem...

— Cícero, “Conversa de Botas Batidas”

Merengue de morango. Geleia de amora. Pão de batata. Bolo de cenoura. Queijo fresco. Manteiga salgada. Ovos mexidos. Pudim de leite. Mousse de cacau. Bacon frito. Creme de papaia. Biscoitos de coco. Bolachas de aveia. Mel, melado, açúcar. Água gelada, vinho tinto. E todo tipo de fruta que um ser humano pudesse conceber.

O que era para ser um almoço tardio acabou por se tornar uma mistura de café da manhã alcoólico com desfile de sobremesas. No que os servos do Palácio do Vinho quase se desfaziam em agrados, vendo com um alívio mitológico seu mestre finalmente comendo como devia, e socando na mesa – todos — seus pratos preferidos. Apolo demorou menos de um minuto para perceber que ele era quase uma formiga, se perguntando para onde ia todo aquele açúcar. Ainda mais nas poções muito generosas e aparentemente infinitas que o menino botava na boca. Era muito para uma coisinha tão pequena.

— Não... vai... comer...? — Dionísio lutou para dizer, entre uma mastigada e outra, as bochechas lotadas de biscoito. Fazendo-o parecer um filhote de esquilo.

Só agora Apolo percebia que realmente havia deixado meias porções largadas no prato. Estava com fome, na verdade. E muita. Mas já era a terceira vez que se pegava parado, apenas olhando para ele. O menino devorava tudo o que tinha pela frente, bebendo seu vinho contente e sorrindo feliz para os carinhos dos servos. Deixando para Apolo apenas contemplando-o como um imbecil apaixonado que era de fato.

Apolo estava feliz. Mas tão, tão feliz, que não sabia como lidar com isso. Era como se tivesse esquecido a sensação. Tal qual um músico que aprende uma canção na infância, e depois de anos longe da sua arte, senta-se em frente ao instrumento de novo, apenas para perceber que não se recorda da ordem das notas. O Sol era infeliz há tantos séculos que não se lembrava mais de como se portava quando não era. Aquele sorriso que queria nascer na sua boca parecia muito certo e muito estranho ao mesmo tempo. Como se tentasse encaixar uma peça bonita no molde errado. Mas ele queria sorrir, então sorriu. Mesmo que lhe parecesse inadequado. Mesmo que isso desse aos seus lábios uma nova forma. Descobriu que gostava cada vez mais dela.

Dionísio continuava olhando para ele, se apressando em engolir. Apertando cada vez mais as sobrancelhas castanhas uma na outra. Uma leve apreensão vinda daquela falta de resposta. Quando Apolo então notou que ainda o fitava calado, apenas sorrindo patetamente. Estava para quebrar o silencio quando ouviram.

— Ele já está te comendo com os olhos, amorzinho...

Eros surgiu na sala de jantar, sorrindo malicioso, com direito a todos os seus dentes brancos e perfeitos. Vendo o casal sentado na mesa: Dionísio na ponta, como era apropriado ao dono da casa, e Apolo do seu lado direito. Apenas olhando o pequeno comer três doces diferentes de uma vez, deixando seus lábios vermelhos sujos de calda e açúcar, e mesmo assim parecendo a achar a coisa mais linda do mundo. Eros quase podia enxergar coraçõezinhos cor-de-rosa brilhando nos seus olhos.

Adoro meu trabalho... Cupido gabou-se para si mesmo, jogando o cabelo para trás.

— Alguém acordou de bom humor – Baco comentou, devolvendo o sorriso devasso do amigo com o seu incoerentemente inocente.

Ah, sim, o humor de Eros estava excelente. Quase saltitava nos passos finais que o separavam da mesa, parecendo flutuar pelo caminho, levando um sorriso de arder as bochechas. Não apenas isso, mas, se fosse realmente possível, estaria ainda mais bonito que o normal. Os cabelos pareciam mais claros e brilhantes, bagunçados daquela maneira charmosa e languida que fazia imaginar que ele sempre havia acabado de sair de uma cama – e não estava exatamente dormindo nela... — os lábios estavam levemente inchados e mais corados que o de costume; a pele brilhando vistosa e macia, como a de uma grávida estaria.

O que uma noite inteira de sexo quente, frenético e extremamente satisfatório não fazia com uma pessoa?

— Engraçado... – Eros ronronou, puxando uma cadeira para sentar, no lado esquerdo da mesa. Levando um olhar treinado as nódoas que gritavam “Apolo!” na pele clara do pescoço de Dionísio – eu ia dizer exatamente a mesma... AH MEU ZEUS DO CÉU! – ele gritou, perdendo completamente a linha de raciocínio, e quase derrubando metade na mesa em afobação, no que apontou descaradamente um dedo branco e fino para Apolo e berrou: — VOCÊ ESTÁ VESTIDO DE MIM!

Ah é... tinha isso...

Eros tinha um baú de roupas só para ele no Palácio do Vinho, escondido a sombra de um espelho no quarto de Dionísio, com as peças que acabara largando ali ao longo dos anos. Nada do deus do vinho caberia em Apolo, mas o Cupido não era tão menor assim. Uns dez centímetros, no máximo. E suas formas delgadas certamente caberiam – com esforço – alguns músculos.

Problema número um. Eram todas entre um roxo sensual e o rosa escandaloso.

Problema números dois. Não havia nenhuma que não variasse em algum nível pouco pudico de transparência.

Problema número três. Claro, eram de Eros.

Foi preciso muita lamuria de Dionísio para convencer o irmão daquilo. Dez minutos de manha, três toneladas de dengo e várias promessas sexuais, mais exatamente.

O último ajudou bastante.

O resultado? Bem... “coube”.

Eros estava tendo algo próximo de uma síncope. Dionísio, aquele traíra, não estava muito longe, mesmo a ideia sendo dele, seus olhos já estavam molhado de riso. Apolo tinha um bico emburrado que mais parecia uma trompa. Estava se sentindo ridículo. Cor-de-rosa era uma cor ridícula! Tinha quase certeza de que era possível ver seus mamilos por baixo daquilo. Que coisa mais inadequada... Já não bastava estar colada em todos os seus músculos e mal cobrir a curva da sua bunda. Ainda tinha que ter aquele cheiro doce e aquele tom horroroso. Estava usando as roupas do seu pior inimigo, o destino estava de sacanagem com ele!

— Muito obrigado pelo apoio, meu amor – Apolo ironizou, lançando um olhar que prometia uns bons tapas futuros naquele bumbum empinado e branquinho do irmão.

Dionísio teria se desculpado, se não tivesse começado a engasgar de tanto rir.

— O que aconteceu, por Zeus? – Eros implorou por uma explicação, arriando na cadeira, esgotado pela gargalhada. Baco não conseguiu parar de rir para contar, e ele acabou esperando por Apolo.

— Ele rasgou minha roupa... – o Sol resmungou, contrariado.

— Oh... – o rosto de Eros brilhou num entendimento lascivo – Ele as vezes faz isso – articulou – Não se preocupe. Pode ficar com essa, ficou uma gracinha! – disse, com um sorriso terrível.

— Uhum! – Dionísio concordou, vendo todos aqueles centímetros de músculos marcados e expostos pela túnica transparente.

— Para o Tártaro com vocês! – Apolo rosnou, só trazendo mais uma sequencia escandalosa de gargalhadas.

— Esse é o melhor dia da minha vida... – Cupido declarou, olhando para o corpo mal coberto do antigo rival como se fosse seu troféu – Me sinto devidamente vingado agora. Obrigado, Destino! – ele disse para o ar, numa falsa seriedade, colocando uma das mãos sobre o peito e fingindo limpar algumas lágrimas solenes.

— Não acredito que concordei com isso... – Apolo murmurou para si mesmo, querendo se bater. Lançando outro olhar indiscreto a Dionísio, perguntando-se quantas pérolas ainda faria por aquele ser.

(Muitas, querido...)

— Não acredito que coube! – Eros acrescentou, rindo embasbacado – Olha o seu tamanho! Não tinha como cobrir... — então parou para arregalar os olhos pretos, como se apenas agora houvesse se lembrando de algo muito importante – Espera...

— Eros, mas... O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? — Apolo berrou, corando até as orelhas quando, do nada, Cupido enfiou a cabeça por baixo da mesa.

— Ah, sim... – o deus do Amor piou arrastado e abafado pela madeira – Isso sim é uma bela visão para se ter no começo do dia!

Apolo apertou as pernas uma na outra por reflexo, como se fosse uma garota que tivesse a saia rodada soprada pelo vendo. Que nada serviu para tirar as coxas grossas, lindamente desenhadas e totalmente descobertas da vista intrometida e libertina do Cupido.

O Sol estava mortificado e vermelho por baixo da pele bronzeada. Dionísio parecia mais perto que morrer asfixiado do que de ajudá-lo ali. Estava sentado com dois depravados, que Zeus o ajudasse.

— Eros... – Apolo rosnou, trincando os dentes – Você tem meio segundo para sair daí ou eu juro que vou chutar a sua cara!

— E perder todos esses músculos trabalhando? — Cupido questionou, ainda socado debaixo da mesa – Eu não! Pense na vista...

— Que vista? — Hermes quis saber, aparecendo na sala de repente.

Eros tentou voltar para lugar tão depressa que acabou metendo a cabeça na madeira com força, ecoando num barulho alto o suficiente para que todos que ouviram fizessem uma careta de dor alheia.

— Ai... – ele gemeu, esfregando a nuca dolorida.

— O que você estava fazendo? — Mercúrio perguntou, curioso e com dó.

— Deixei um talher cair... – Eros mentiu descaradamente, um sorriso muito grande e exagerado para um inocente.

— Ah, foi! – Apolo exclamou sarcástico. Sentindo-se parcialmente vingado pela mesa.

Dionísio ria tanto que quase caiu da cadeira, vermelho como um tomate-cereja, e Apolo começou a achar que ele ia passar mal.

— Certo... – Hermes murmurou, erguendo uma sobrancelha branca, deixando claro que não tinha acreditado nessa, mas também não estava ligando muito. Sentando-se ao lado de Eros. Tinha ficado para trás, esperando sua túnica voltar limpa, seca e costurada dos rasgos pequenos na mão de uma das servas. Elas tinham muita experiência remendos... – Oh, céus! – ele exclamou, só agora vendo a roupa em que tinham metido seu irmão, os lábios já se curvando em zombaria.

— Nem se atreva! – Apolo adiantou.

— Ora – Hermes fingiu reclamar, num sorriso que parecia já ter aprendido com Cupido – Quer dizer que não vou poder dizer o quanto você ficou lindo de rosa-bebe? — quis saber, num bico falso – Estou chateado.

— Porque vocês não vão todos se... – Apolo quase xingou, parando ao finalmente assimilar um detalhe – Espera, você dormiu aqui? — perguntou, erguendo uma sobrancelha loura para o irmão.

— Hm... ele passou a noite aqui... – foi Eros quem respondeu, e sua voz parecia estar engatinhando sobre veludo, já totalmente esquecido do futuro galo na cabeça – Não posso garantir que tenha dormido muito...

Apolo deixou o queixo cair devagar, fitando o irmão. Que não se importou nem um pouco em confirmar, dando um sorriso convencido que mostrou todos os seus dentes. E aquela tensão macia entre amantes parecia permear o ar ao redor dele e do Amor.

— Mas... já?! – o Sol exasperou, inconformado. As coisas não podiam ser fáceis assim, certo?

Eros revirou os olhos para ele, deitando a cabeça loura com cuidado no ombro de Mercúrio, só por despeito, mas apreciando imenso a sensação de animo e vivacidade em que a áurea dele o envolveu. E Hermes aproveitou para afundar o nariz nos seus cabelos macios com cheiro de baunilha.

— Nem todo mundo é complicado, Polly... – Cupido murmurou, piscando devagar.

Dionísio, que finalmente parecia ao menos minimamente recuperado da sua histeria, deu um par de risadinhas pelo nariz e um par de tapinhas de incentivo na mão do Amor.

— Boa, amigo – elogiou, lançando um olhar de aprovação para Mercúrio. Ele não apenas era atraente e inteligente como fora bom o suficiente para salvar a sua vida, sem esperar nada em troca disso. Eros tinha um gosto excelente.

Cupido sorriu de canto para o menino, acomodando-se mais no novo amante, que começou a deslizar distraidamente os dedos na sua bochecha, no que iria se tornar uma mania dali para frente. Uma devoção intensa escondida nos orbes dourados.

O ar de afeto entre eles era tão evidente que Apolo sentiu sua breve irritação se desmanchando. Seu irmão parecia muito feliz. Jamais diriam que havia passado pelo Tártaro no dia anterior olhando para ele agora. E o Sol imaginou o quanto ele poderia ter se machucado caso Cupido não houvesse interferido. Eros era irritante, inconveniente, depravado e sempre seria. Eros o havia machucado mais do que qualquer um, e isso provavelmente nunca mudaria. Mas, era por causa dele que Hermes estava inteiro. Era por causa dele que estava sentindo os dedos de Dionísio se entrelaçando nos seus por baixo da mesa. Era por causa dele que estava feliz como um tolo. E Apolo finalmente percebeu que odiá-lo já não fazia nenhum sentido.

Acabaram todos ocupando-se em comer num silencio preguiçoso depois disso. Apolo recusou-se a soltar a destra macia e pequena do menino no processo; deixando-o para comer com a esquerda, o que ele fez sem dificuldade nenhuma; e só agora percebendo que ele era ambidestro. Se perguntando como uma coisa boba daquela parecia tão bonitinha nele, porque fazia com que quisesse se gabar disso para os outros e apertar aquelas bochechas vermelhas.

Hermes e Eros pareciam muito a vontade um com outro. E pensar só estavam tentando fazer a felicidade do irmão e do amigo, juntando-os como era devido; e acabaram se encontrando no meio do caminho. O destino as vezes nos dá alguns presentes. Cupido ainda tinha a cabeça ociosamente deitada em Mercúrio, comendo do seu prato. De vez em quando dizia alguma coisa no seu ouvido que o fazia rir e sorrir cheio de malicia, ou colocava e roubava coisas da sua boca. Pelo jeito fariam o tipo desnecessariamente e constrangedoramente grudento.

— Eros, pare de flertar com meu irmão! – Apolo fingiu se irritar em uma dessas.

— Apolo, pare de flertar com o seu! – ele devolveu de imediato.

— Justo – Hermes apontou.

— Haha... – Dionísio, para variar, só riu.

— Bem, por mais que eu esteja adorando essa comida cheia de glicose e esse clima amorzinho – Eros declarou, finalmente desencostando-se de Mercúrio – Eu preciso ir. Ou meu adorável e amoroso irmão vai aparecer aqui outra vez e comer o meu fígado enquanto toma um chá – ele disse, levantando-se da mesa com um suspiro.

Ninguém queria vê-lo saindo, mas acabaram todos assentindo devagar. Já tinham tomado muito do seu tempo, cada um da sua maneira. A Ordem Das Coisas precisava voltar ao seu lugar.

— Obrigado, Eros – Dionísio murmurou, olhando no fundo dos seus olhos, fazendo daquele verde-escuro algo sério e profundo – Por tudo...

Também havia uma gratidão não velada tanto nas íris azuladas quando nas âmbar, mas Cupido fingiu não ver, ou acabaria corando de novo. Ainda não estava acostumado a aquele tipo de olhar, sentia-se muito mais evidente do que se estivesse nu na frente deles.

— Não há de que, Dísi... – ele respondeu, fazendo um carinho nos cabelos cacheados do menino. E piscando levemente surpreso ao vê-los de mãos dadas por baixo da mesa, um sorriso de alegria genuíno se abrindo nos seus lábios. Missão cumprida. Pensava, colocando as mãos na cintura, fitando-os com orgulho. Houve alguns percalços, mas...— Acho que já é seguro deixar as crianças sozinhas – brincou, antes de lançar um olhar mais sério a Apolo – Lembre-se do que me prometeu, Polly... – disse, num tom mais grave que combinada com a intensidade do negro perigoso dos seus olhos – Não quero ter que ficar chateado com você outra vez – avisou, com uma amabilidade que não fez das palavras mais macias.

Mas Apolo não pareceu intimidado ou ofendido. Não porque o menosprezasse a ira do outro. Teria de ser uma espécie muito especial de imbecil para fazê-lo depois de tudo. Mas porque sabia não haver nem a mínima chance de faltar com a palavra naquele caso. Não abandonaria Dionísio.

Nunca.

— Vá em paz, Cupido – ele disse, como que o enxotasse dali, mas seus olhos estavam serenos e gratos – Nunca terá de perder o sono com isso – afirmou, apertando mais os dedos entre os de Dionísio.

— Imagino que não – concordou, satisfeito. Já virando-se para sair dali.

— Espera... – Hermes pediu num sussurro só para ele, segurando a sua mão com delicadeza, impedindo-o de continuar – Posso ir te ver mais tarde? — pediu, os olhos dourados brilhando de expectativa.

Eros soltou o ar num suspiro sofrido. Como não havia reparado em Hermes antes, santo Zeus... Ele era lindo! Aqueles cabelos coloridos que não paravam de dançar, aquela boca arroxeada, aqueles olhos espertos e pidões de quem está acostumado a ganhar tudo com um pouco de astúcia e muito charme. Ou vice e versa.

Eram farinha do mesmo saco, Eros percebeu. Dois mimados que viviam manipulando os outros com seus dotes. Estava adorando isso mais do que poderia explicar, queria subir no colo dele e dar uma longa aula de beijos aos olhos presentes.

Mas não podia. Não por qualquer espécie de pudor ou vergonha. Faria aquilo só para irritar Apolo qualquer hora do dia. Não podia porque não tinha tempo. Passara nove dias inteiros dentro daquele castelo. Nove dias em que os humanos não sabiam o que era se apaixonar. Nove dias em que não gastava suas flechas. Era nocivo. Sabia o que aconteceria se negligenciasse seu trabalho por muito tempo. As pessoas deixariam de amar; os templos de Afrodite ficariam vazios e a mãe perderia poder enquanto os humanos perderiam o sentido das coisas; não iam querer sair nem trabalhar, deixariam de comer, de dormir e, no fim, não iam querer viver mais.

Falta de amor era letal.

Ainda estavam muito longe de algo tão drástico, seriam necessários muitos meses de inércia sua para chegar a esse ponto. De qualquer maneira, não era como se pudesse ignorar os efeitos daqueles dias. Precisava trabalhar. Compensar por aquele tempo. Colocar tudo de volta ao lugar, como Apolo e Dionísio também deveriam fazer depois de tudo.

Então não, não e não. Hermes não poderia vê-lo mais tarde. Anteros daria um jeito de matá-lo lentamente se o pegasse gastando tempo com o novo amante logo no primeiro dia. Ou pior, sua mãe poderia vir pessoalmente. Afrodite raramente se irritava, mas, quando acontecia, fazia Ares no auge da fúria parecer um menino birrento. Não deveria dar sorte para o azar. Devia ser prudente, responsável e sensato. Devia abria a boca cor-de-rosa e dizer:

— Claro que sim! – a afirmação saiu antes que pudesse impedi-la.

Ah... para o Tártaro com isso! Que os deuses da Razão se entediassem com a sua lógica fria! Ser ponderado e estoico não era para ele. Se Hermes queria estar na sua cama hoje à noite, estaria esperando ansiosamente... Espero que goste do perigo, Colorido. Pensava, ao deixar um beijo lento nos seus lábios sorridentes e sair desfilando pelo piso.

— Bom – Mercúrio suspirou, depois que Eros desapareceu da sala e seus olhos não puderam mais acompanhar aqueles passos languidos e sensuais – Acho que não tem mais nada para mim aqui – admitiu, roubando um último biscoito da mesa antes de se levantar – Cuide do nosso irmão, Dionísio – pediu, dando um sorriso travesso – Preciso de umas férias dele – implicou, piscando um olho para o menino. E antes que Baco pudesse concordar ou Apolo pudesse retrucar, partiu.

Dionísio emitiu um som macio de satisfação, deixando a mão livre sobre o estomago cheio, finalmente livre daquela fome. Sabendo que recuperaria o peso perdido rapidinho, visto de devia ter comido metade da mesa sozinho.

Olhou para Apolo ao seu lado, que já o admirava calado a tempo, e sorriu. Eles também precisavam por as coisas no lugar. Mas, o mundo não iria acabar por umas horinhas a mais... certo? Estavam sós no céu, depois de tudo. Poderiam aproveitar um pouquinho...

— Sexo? — Dionísio perguntou simplesmente, fazendo círculos lentos na sua pele quente com o polegar.

— Sexo – Apolo respondeu sem hesitar.

Assim, ainda de mãos dadas, os dois correram de volta para o quarto...

Notas finais
E é isso. O dramático "Fim". Ou, mais ao certo, um pseudo-fim. Mais um ponto-e-virgula que um ponto-final. Mais um "Até logo" que um "Adeus". Porque, vocês sabem, ainda tem muito mais pela frente, e o destino das personagens está longe de ser concluído. 'Erótica', a continuação, sairá no começo do ano que vem. Depois de todo suor, lágrimas e varias formas diferentes de ficar em posição fetal; depois de muitas risadas, gracejos e pulos de pura felicidade; depois de muitas pupilas dilatadas e muita pesquisa; tudo o que eu posso fazer é agradecer. Agradecer a vocês que leram tudo isso; que tornaram um punhado de palavras pseudo-poeticamente arranjadas e devaneios mitológicos algo real para mim; que transformaram todo esforço e tempo e pesquisa em prazer genuíno; que fizeram de um dos períodos mais difíceis e perigosamente depressivos da minha vida algo suportável; que me davam vontade de acordar de manhã nem que fosse para ver se havia um novo comentário, e correr de volta para o notebook, podendo esquecer tudo de errado que estava acontecendo, e me perder somente em escrever. E me perdendo sempre, acabar me achando através disso. Através de vocês. Vocês me salvaram. Vocês me amaram. E eu só posso dizer: Muito obrigada... Beijos de alguém que agora acredita que realmente pode escrever para viver... e até ano que vem ♥ link da continuação: https://fanfiction.com.br/historia/719662/Erotica/
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