Baby May Cry
1 Entrega Especial?
Notas iniciais

VAMOS PELO COMEÇO: Poderia definir que aquela noite em específico era o apogeu da preguiça em todos os âmbitos cabíveis. Encontrava-me jogada no sofá, seja pela monotonia quanto pelo fator de estar poupando energia — me auto regulando no modo econômico.
Embora estivesse em profundo estado de inércia, meu estômago não se importou com esse pormenor ao rosnar para sinalizar que precisava comer. As opções no cardápio de Dante incluía o que, naquele momento, não soava apetitoso para meu gosto. Adorava pizza, sundae de morango e os aperitivos ocasionais, mas apreciaria um prato menos repetitivo e esperava a boa vontade do Débil Hunter para abrir a carteira, porque duvidava muito que o pouco que tinha serviria nessa dimensão.
Legal depender de uma pessoa dura — mais pobre que tu.
Ele deveria variar, comprar alimentos mais saudáveis e não depender de comidas rápidas — meu organismo pedia algo diferente.
De praxe, o escritório estava o caos absoluto, o que não era nenhuma novidade, sobretudo, porque a única responsável pela manutenção dos serviços básicos — eu nesse caso — não tinha disponibilidade. E também: sempre que eu fazia o favor de limpar, Dante acabava sujando em um círculo vicioso. E começava a achar que era mais empregada que hóspede.
Ele nunca me obrigou a tal ou sequer deu a opção, só que é insustentável morar num lugar imundo.
Me espreguicei.
Acima de nós o ventilador girava lentamente, a ociosidade me compelida a letargia como efeito colateral.
Dei um longo e dramático suspiro.
— Dante... — chamei, sem nem mexer um músculo para encará-lo.
— Fala, doçura. — respondeu, desinteressadamente.
— Estou com fome! — disse impaciente.
— Coma, não estou com sua boca. — seu timbre ecoava uma sutil jocosidade provocativa.
— Você sabe muito bem que eu quero dizer. — retruquei impaciente, me sentando e, dessa vez, torcendo para que minha expressão estivesse ameaçadora o bastante para minha petição seguinte.
— Não, não faço ideia do que esta falando.
Com TODA graça e pompa, o que na minha cabeça acreditava piamente que minha linguagem corporal demonstraria sensualidade, marchei para perto do caçador. Debrucei-me sobre a mesa, parecendo mais caprichosa e, ao mesmo tempo, decidida.
— Quero comida de verdade.
— Até onde saiba, pizza é comida. — afirmou, dando uma grande mordida na fatia de pizza em sua mão. — E de verdade.
Ele sorriu.
Ele estava brincando comigo, só pode.
— Você não está entendendo! — rosnei.
— A vista é ótima daqui. — comentou, mais próximo de mim.
A princípio não compreendi a malícia em sua conotação, somente depois de acompanhar seu olhar indicando do que se tratava reparei que atentou ao meu decote que, naquela posição, se tinha uma vista privilegiada.
Meu rosto queimou, apesar de não ter contido a gargalhada. Nosso nível de intimidade progrediu à passos largos. Entretanto, ficava claro que se tratava de uma artimanha para desviar o assunto. Ajustei minha blusa para que não mostrasse tanta pele e distraí-lo. Sem outra alternativa, peguei uma fatia da pizza e comi com a barriga alegremente satisfeita.
Como sempre digo: Barriga cheia, coração contente.
— Não acha que deveria comprar comida de preferência mais saudáveis?
— Pizza é saudável, tem legumes. — contra argumentou, rindo.
Tem vezes que não tenho paciência pra lidar com pessoas evasivas.
Fazer o que se eu gosto desse chato.
O relógio marcava quase 10hrs da noite, frisando que mesmo que quisesse pedir comida, a essa altura, não teria tantos locais abertos — exceto os mercados vinte e quatro horas.
— O tempo está fechando. — Dante anunciou após um estrondo pouco discreto, olhei para a janela para checar.
Outro ensurdecedor trovão reverberou por todo escritório, seguida de um forte aguaceiro. Com o barulho estrondoso, acabei me assustando. Apesar de aquilo ter me pegado de surpresa, adorava dormir com barulho de chuva. Um verdadeiro ASMR natural providenciado pelas forças misteriosa da natureza.
Deixei escapar um suspiro.
— O que foi, doçura?
— Hm, nada. — respondi meio aérea. — Será bom dormir com essa chuva.
Antes que ficasse aquele climão entre nós dois, era um pouco estranho: sempre que não tínhamos nada para falar e simplesmente o silêncio reinava, ficávamos nos encarando e rola a tensão no ar. Talvez seja o que todos dizem: Tensão sexual. A batida de porta foi ouvida, aparentemente a pessoa que bateu estava com pressa.
— Eu atendo! — anunciei.
Abri a porta em um único impulso, a chuva me recebeu com uma ventania suave. Não havia sinal de vida na rua, somente eu parada feito estátua tentando entender o ocorrido e cogitei ter sido um trote besta de alguma criança, pois ninguém em sã consciência sairia com uma tempestade dessas, muito menos bater a porta da casa dos outros. Já estava pronta para fechar a porta quando vi uma cesta no chão todo envolta por panos cor de rosa, protegendo o pequeno pacote e o choro fraco me chamou atenção. Abaixei para pegar o cesto e tirei a coberta de cima, abismada.
Era um bebê!
— Dante, acho que o lance de bebê virem por cegonhas pode ser verdade. — brinquei, trazendo a cesta para dentro. — E somos o feliz "casal" premiado.
Ele franziu o cenho.
— O quê?
Dante chegou perto para verificar o cesto. Sua expressão foi de total surpresa e descrença. Eu quis rir, mas me controlei. Em meio aquele emaranhado de tecido encontrei um bilhete.
"Cuide bem da nossa pequena Beatrice"
Nossa?
Então aquela bebezinha era...?
Não pode ser!
Quando terminei de ler, senti meu rosto esquentar. Estava magoada, perplexa e tonta — tudo ao mesmo tempo. Isso não podia ser verdade. Dante tinha uma filha. UMA FILHA! Amaldiçoei até sua centésima geração.
O pior é que não era comigo... Quer dizer, eu nem sabia!
Dei um soco no largo ombro dele.
— Idiota! — gritei, visivelmente nervosa. Dante nem se abalou, como se nunca o tivesse batido invés disso me olhou confuso. — Essa criança é sua filha!
— Tsc... Impossível, e mesmo que fosse ela teria que ser igual a mim. — ele rebateu, sorrindo debochado. Dante tinha razão, se ela realmente fosse filha dele teria que ter os cabelos brancos, e os ralos cabelinhos que tinha eram castanhos. A única coisa semelhante eram os olhos azuis. O que não provava muita coisa. — Não pretendo ter filhos tão cedo, mas o processo de fazê-lo me agrada muito.
Corei, desconcertada.
— Não tenho interesse nisso... Não no momento.
Os olhinhos azuis da criança brilhavam, fitando o novo ambiente.
E ela é tão linda!
Fiquei meio receosa em tocá-la, sendo tão pequena e frágil. Meu instinto materno gritou mais alto que meu medo, o que me fez pegá-la delicadamente. Comecei a embalá-la com uma canção infantil. Com o tempo que passou na porta, ela devia estar com frio mesmo com todos aqueles cobertores. Por compaixão, a aqueci contra meu peito. Rapidamente ela dormiu em meus braços.
— O que faremos, Dante?
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