Baby Booties
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Ha exatos 365 dias Ellie vira ao mundo, lembro-me exatamente de como planejei esta data mesmo antes dela nascer, da mesa enfeitada com princesas da Disney, dos balões flutuantes pela sala que a fariam delirar de alegria, do bolo confeitado cor de rosa, com uma vela que seria soprada repedidas vezes até finalmente ser apagada, avos e tios sorririam enquanto as crianças passariam as mãos meladas de doce na cortina ou no estofado, era assim que deveria ser, no entanto estávamos tentando fazer o mínimo de barulho numa pequena casa que encontramos a alguns meses no meio de uma floresta da florida, tentamos fazer dela um lar, berço, cortinas, bonecas, ali dentro esquecíamos do mundo ou do que havia sobrado dele la fora.
Ouço um barulho do lado de fora, três batidas depois uma e eu abro a porta, sinto um alivio percorrer meu corpo ao ver Jared.
─ Graças a Deus você voltou eu estava tao preocupada. Porque demorou tanto você esta bem? Digo dando um abraço apertado e selando seus lábios com um beijo.
─ Eu estou bem, e a Ellie? Diz ele se livrando da mochila e do casaco grosso um tanto sujo de sangue preto e pedaços de uma massa viscosa que eu suponho ser o cérebro putrefato de algum “mordedor”. Jared segue com um sorriso até o berço onde nossa pequena se distrai com chocalhos coloridos.
─ Feliz aniversario Ellie, olha o que o papai achou pra você. Diz com um sorriso emoldurado pela barba já proeminente e lhe entrega uma boneca de pano cor de rosa.
Ellie estende os braços e murmura algo em sua fala ainda incompreensível de bebê mas o brilho e sorriso em seus pequenos olhos castanhos denunciam a alegria pelo pequeno mimo.
─ Você precisa de um banho. Digo.
─ Eu vi algumas placas, há um lugar com outros sobreviventes, TERMINUS, quem chega sobrevive podemos tentar, aqui não é seguro tem cada vez mais deles rondando a casa.
─ Terminus? Tem certeza? já estivemos em lugares assim e você...
─ Esta cada vez mais difícil conseguir comida e remédios, eu quase não voltei Lucy. Teremos que sair cedo ou tarde. Melhor rezarmos pra que Terminus seja um refugio ou se não vamos ter que voltar pra estrada.
─ Não a estrada não, vamos pra Terminus, mas hoje é o aniversario dela o que conseguiu?
─ Alguns enlatados, vou me lavar.
Volto o olhar a Ellie ainda encantada com o presente. Apesar de tudo que passamos ainda éramos uma família, sinceramente não achei que chegaríamos tao longe, uma bibliotecária recém formada grávida e um médico residente, que nunca havia pego numa pistola que não fosse durante as tarde de videogame com os sobrinhos, definitivamente não éramos candidatos a sobreviver a aquele caos, mas nos sobrevivemos, fizemos coisas pelas quais jamais faríamos em outra vida mas que agora não nos causavam qualquer remorso afinal elas garantiam a nossa sobrevivência e da nossa pequena Ellie. Ela renovava nossa esperança a cada dia, era difícil acreditar que Deus se esquecera de nos depois de um sorriso dela, era nosso presente, nosso milagre, nossa promessa de que dias melhores ainda estariam pela frente. Vou até a cozinha e faço uma fogo no fogão a lenha, lembro de como aquilo foi tarefa árdua nas primeiras vezes mas a pratica o tornara tão fácil, na mochila encontro algumas latas, um saco de farinha um pouco velha e me ponho a preparar um pequeno banquete.
Jared retorna algum tempo depois de barba feita usando uma camisa xadrez e jeans já surrados pelo tempo, seu corpo magro e no rosto as marcas de um ano extremamente difícil, devíamos ter envelhecido uns 10 anos durante esse tempo, mas mesmo assim ele ainda era irresistivelmente atraente, não pelos belhos olhos azuis ou aquele sorriso um tanto malicioso, mas por tudo que ele havia sacrificado pra manter sua família segura e mesmo nos dias mais difíceis estava sempre disposto a arrancar um sorriso de nossos rostos com uma piada boba ou careta engraçada a Ellie.
O jantar, um macarrão caseiro improvisado com as salsichas enlatadas nem de longe lembrava o que minha mãe costumava fazer aos domingos, mas no entanto era devorado com entusiasmo pela nossa pequena família, Ellie ainda não aprendera a usar os talheres então afundava sua mãozinha no prato espalhando molho e pedaços de macarrão pela mesa e pelo casaco de lã, uma cena tão comum no passado mas agora com certeza era algo raro e único, cantamos os parabéns o bolo confeitado se resumiu a uma dúzia de alfajor que Jared encontrou no que restou de um supermercado. A noite segue tranquila, entre brincadeiras com o bebê, relembramos historias da escola, da faculdade, da família pessoas que jamais retornaremos a ver até que finalmente Ellie se entrega a um sono pesado e despreocupado a qual Jared e eu não nos damos ao luxo de desfrutar a muito tempo. Deixo que ele descanse junto a nossa bebê e sigo pra vigia ao redor da casa, não que eu não estivesse demasiadamente cansada afinal passei os últimos três dias acordada sem ter com quem revezar a vigia, depois de três voltas e nada além de uma coruja que insiste em romper o canto rítmico dos grilos ser avistada me sento em uma cadeira a frente da propriedade e em pouco tempo me entrego ao sono.
Acordo ao som de gemidos e do andar arrastado em meio as folhas secas, antes mesmo que meus olhos pudessem distinguir o que estava a frente ouço um disparo retumbar em meu ouvido esquerdo, pedaços de muco e sangue se espalham pelo meu rosto e um corpo feminino já em avançado estado de decomposição despenca sobre o meu.
─ Lucy! Ouço o grito de Jared, que depois de mais dois disparos contra o grupo que avança através da cerca, ele troca o rifle por um facão afiado e se encaminha na direção deles. Empurro o corpo de cima do meu e uso a pistola e derrubo mais um com um disparo. Pego uma pá, precisávamos economizar munição além do barulho demasiado que servia pra atrair ainda mais errantes. Alguns minutos e pedaços de massa encefálica espalhados pelo chão e tudo esta sob controle, meu braço esta dolorido eu puxo a manga da blusa cobrindo o ferimento.
─ Esta tudo bem? Diz Jared enquanto fecha a cerca e ceifa silenciosamente os dois que se aproximavam, o alivio de termos sobrevivido a mais um ataque é cortado assim que ouvimos o choro desesperado de Ellie, volto imediatamente pra dentro da casa sentindo como se meu coração estivesse sendo arrancado do meu peito, com a Glock em punho empurro a porta do quarto clamo por mais um choro, mas apenas silêncio, meu corpo congela, meu peito se despedaça, ao ver a criatura de carne podre e cinzenta com a boca coberta de sangue vivo, um no se forma em minha garganta e eu mal consigo respirar, continuo petrificada até Jared efetuar doid disparos contra o errante e uma mancha tingir a parede, por instantes sinto minha mente pairar por aquele ano enquanto meus olhos já embebidos de lagrimas estão parados olhando Jared que luta incessantemente pra ouvir um sopro da nossa pequena Ellie, são minutos angustiantes até ele finalmente desistir e apenas aninha-la em seus braços manchando a camisa com seu sangue, meu bebê esta morto, não haverá mais sorrisos pela manha, nem fraldas sujas, nem esforços inimagináveis pra acalentar o choro, ela esta morta. Recuo alguns passos, a dor me dilacera de uma forma que não haveria como explicar, a dor não é algo que possa ser explicado ou entendido, ela é apenas sentida e cada um de sua forma. Do lado de fora do quarto eu posso ouvir o pranto inconsolável de Jared, sento-me no sofá da sala, os brinquedinhos estão espalhados dentro do cercado, junto a boneca de pano que proporcionara a Ellie seus últimos sorrisos, por mais estranho que pareça eu não consigo chorar, embora meu bebê merecesse todas as minhas lagrimas e a dor de te-la perdido corroesse a minha alma nenhuma lagrima desce pelo meu rosto, Ellie não merecia esse mundo, até quando íamos garantir que aquele sorriso doce surgisse em seus lábios, certamente no momento que ela passasse a entender o quanto as coisas eram difíceis eles se tornariam mais escassos, ela morreria aos poucos, ela sofreria lentamente como nós, e como todos que insistiam em lutar pela sobrevivência.
Retorno ao quarto, Jared esta sentado aos pés da cama, Ellie já coberta pelo lençol.
─ A culpa é minha, havia muitos eu vi ontem, devíamos ter ido embora. Eu falhei. Diz ele entre soluços.
─ Não falhou, ela te amava, foi o melhor pai que ela podia ter tido.
─ Eu a deixei morrer.
─ Ela esta melhor agora, ela não merecia crescer num mundo assim. Você precisa ir pra terminus é um bom medico pode ajudar pessoas, salvar vidas.
─ Como assim eu? Nos vamos prta terminus juntos.
─ Não meu amor, eu vou ficar com a Ellie, nos ficamos aqui. Você tem que continuar Digo, ele me olha confuso e eu levanto a manga da blusa revelando uma mordida.
─ Não Lucy... Susurra ele se entregando ao pranto novamente.
O abraço calorosamente e beijo em seus lábios, passamos uma hora talvez mais abraçados olhando pra aquela cama até finalmente termos coragem de nos despedir de Ellie, Jared não precisa conviver com essa lembrança então eu me encarrego de atravessar uma faca fina e afiada entre os cabelos castanhos, que emolduram aquele rosto angelical que parece dormir serenamente. A enterramos em uma cova rasa a frente da casa, Jared improvisa uma cruz com galhos de arvores e amarra a ela o par de sapatos que Ellie usava, fazemos algumas orações embora eu sinta Jared um tanto descrente nelas.
─ Isso não é justo, sussurra ele. Perder vocês duas.
─ Ta tudo bem, você em que ir, antes que eu... Tem que ir.
─ Eu vou ficar, não tenho onde ir, vou ficar com você e quando chegar a hora eu vou com você. Foi isso que nos prometemos não foi? No baile de formatura, eu vou ficar com você e com o nosso bebê.
─ Jared, não pode fazer isso... Sabe disso, tem que continuar. Digo sentindo aquele arepio frio percorrer meu corpo, não quero que esteja aqui quando acontecer, não quero que lembre de mim assim. Precisa ir. ─ Terminus não é? Quem chegar sobrevive, vão precisar de um médico.
─ E pra que eu vou querer sobreviver sem vocês?
─ Ellie nos trouxe até aqui, teríamos desistido se não fosse por ela, e depois de tanto tempo sozinhos, pode haver um lugar com sobreviventes, talvez essa fosse a missão dela, a minha, mas não a sua, me prometa que vai continuar? Me promete Jared?
─ Eu te amo Lucy.
─ Me prometa. Por favor?
─ Eu... Prometo. Ele diz enquanto segura meu rosto com as mãos e me beija docemente.
Passamos o dia em frente ao tumulo de Ellie, tenho que insistir muito até que Jared se afaste pra fazer a sua mochila, sinto o cheiro das flores que começam a brotar ali perto, as folhas das arvores balançam e uma brisa suave e doce da primavera toca minha pele, o gosto do sangue na minha boca anuncia que esta chegando a hora, Jared se aproxima já com a mochila e o casaco eu sorrio e peço pra que não chegue perto, já havíamos nos despedido ele precisava ir antes que a noite caísse.
_Eu te amo... digo quase como um sussurro e ele sorri de volta e posso ler em seus lábios as mesmas palavras, ele vira-se e começa a caminhar receoso até parar passos adiante.
_Vai! Não olha pra trás! Vai! Grito usando o que me resta de força.
Observo ele se afastar e depois fechar cuidadosamente o portão de arame farpado, volto a olhar pra cruz, estou de joelhos diante dela por instantes sinto aquele cheiro delicioso da minha filha, ah não há nada no mundo mais gostoso do que sentir o cheirinho que eles exalam.
Ellie...
Mamãe esta chegando...
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