Babe

1 Parte 1: Conhaque


Notas iniciais
A primeira de um número indefinido de partes. Espero que gostem!

Babe corria pela areia da praia com os pés descalços.

Acima dela, um céu apinhado de estrelas cintilantes, um imenso jogo de luzes que apontavam na sua direção como holofotes. E os cabelos dela nunca estiveram tão brilhantes como naquela noite. Eu conseguia ver sua aura, era amarela e girava ao seu redor. O sorriso estampado de ponta à ponta só mostrava o tamanho da sua felicidade. O sorriso do qual eu não me esqueceria enquanto vivesse.

Usava um vestido branco que entrava num contraste feroz com os cabelos tingidos de rosa. Um broche colorido balançava no peito enquanto movimentava seus braços. Dava gritinhos eufóricos e abria os braços, como um verdadeiro pássaro, pronta para ser atingida pela liberdade. E Babe era um pássaro livre, ela adorava repetir o quanto sua liberdade lhe movia, o quanto era importante para ela não se sentir presa.

Nos últimos meses ela não falou muito, era difícil arrancar-lhe alguma informação do que acontecera em sua vida antes de nos conhecermos. A jovem dos cabelos tingidos nunca abriu o livro, e eu não insisti. Eu gostaria de ler as entrelinhas de sua história em algum momento, quando estivesse pronta. Enquanto isso não acontecia, eu procurei admirar a capa, as considerações iniciais… Mas conheci o bastante para saber que não existia um alguém tão intenso como ela.

Babe funcionava como uma brasa caindo sobre palha. Quando dei por mim, ela me incendiou.

x-x-x-x-x

Dois meses antes…

Nos conhecemos num barzinho de beira de estrada. A estrada da colina, que dava para a praia. Naquela tarde, da janela pude presenciar o mar se misturar ao céu nas cores vibrantes de um pôr-do-sol furioso. Ela estava impecável dentro de um vestido florido e um chapéu laranja. Babe era a visão do próprio pôr-do-sol, furiosa e penetrante. Assim como seu olhar, uma imensa farpa que atravessou meu corpo no instante em que bati meus olhos na figura franzina atrás do microfone, no palco.

Fui parar no bar por um acaso, ou pelo destino, chame do que quiser. Não imaginava que se tornar um mochileiro solitário me rendesse uma história como essa. Já ouvi muitas histórias de homens da natureza por aí, como meu falecido pai, mas nenhuma me fez mover um músculo sequer. A minha mexeu comigo de uma forma tão avassaladora, talvez pelo fato de ter sentido tão de perto. Foi vívido. Queria que meu pai ainda estivesse entre nós para que eu pudesse contar pessoalmente o que vivi. O porta-retratos que carrego dentro da mochila não era suficiente, mas inevitavelmente fui me acostumando.

Queria contar, por exemplo, que a moça era uma excelente cantora. A voz suave de um bem-te-vi e potente de um canário. Ela cantava um bom country, como o da dupla formada pelas minhas tias Dara e Arabella. As mulheres que me criaram e fizeram de mim essa chama acesa. Elas eram tão doces e ferozes ao mesmo tempo, mas meu pai não se dava bem com tia Dara, mesmo que ela tenha lhe dado um rim no seu primeiro transplante, logo no início de sua doença. Era engraçado como ela se referia ao velho, duas crianças que discutem e logo estão dividindo segredos. Porém, agora tia Dara dividia esses segredos no túmulo dele.

Babe parecia ter aquela mesma camada de doçura, como minhas tias, envolvendo sua ferocidade sutilmente.

Ela cantou umas três músicas e teve que sair às pressas. Eu não entendi o porquê do homem com uma garrafa de conhaque nas mãos e barba suja ter gritado com ela, enquanto ela negou com a cabeça e saiu pela porta dos fundos. Até então, ele tinha permanecido retraído atrás de uma pilastra, provavelmente esperando-a se apresentar. As pessoas sentadas na mesa ao lado cochicharam algo que não pude entender, mas tive um instinto de segui-la. Não cheguei nem a largar a latinha de cerveja, carreguei-a dando alguns goles displicentes.

Algo me levava até aquela porta como um ímã, uma voz sibilava no meu ouvido, seria a voz do meu instinto? Só lembro nitidamente de ver o homem do conhaque segurar o pulso de Babe com força e ouvi-la gemer, ela não dizia nada, apenas encarava o homem com raiva, rangendo os dentes. A posição de defesa na qual ela se encontrava me instigou a dar alguns passos na direção de ambos. O olhar que ela lançou para mim quando me percebeu do lado de fora, foi de quem teme pela vida.

O barbudo não me deixou se aproximar, logo ele ergueu a garrafa de conhaque na minha direção. Agora ela estava vazia. Mesmo que eu repetisse diversas vezes e insistisse que não queria brigar, vi no momento em que o maluco quebrou a garrafa em um latão próximo e exibiu o gargalo na minha frente. Ele estava mesmo disposto a me machucar, assim como machucava Babe. Dei mais um passo e deixei que ele avançasse em mim. Como eu previa, o homem de quase dois metros e músculos flácidos pendendo nos braços tentou investir e desviei.

O caco de vidro passou pelo meu rosto a poucos centímetros, eu tive a impressão de que meu nariz havia sido cortado, mas tive a vantagem do sangue dele estar mais quente, ele era incapaz de pensar em qualquer coisa. Só precisei chutar seu saco, para que o desgraçado tombasse de joelhos, segurando seus escrotos e se contorcendo com um ranger de dentes. Chutei o rosto dele e o gargalo do conhaque caiu há metros dali. Assim como o fortão, que cuspiu um dente ao cair de costas na terra batida.

Babe ainda mantinha-se assustada e desorientada, ela tinha os ombros encolhidos. A face congelada em uma expressão de confusão. Aproximei-me com cuidado dela, confesso que foi difícil tocar seus pulsos para analisar as marcas roxas que notei de imediato, Babe mostrou-se arisca e evitava contato visual. Eu disse que cuidaria daqueles machucados, que eu a levaria até um pronto socorro. Nada do que eu dissesse iria convencê-la, Babe não queria vir comigo, ela estava irredutível. Entretanto eu queria ajudá-la de alguma forma, então apenas levei-a até o bar novamente.

Mesmo que ela não quisesse conversar, lhe fiz companhia. A jovem tomou um refresco de amora, enquanto tomei outra cerveja. Desta vez, assistimos outra apresentação qualquer, até que ela decidisse cantar pela segunda vez. Encorajei-a e ela subiu ao palco, tomou o violão para si e fechou os olhos, deixando-os cobertos pelas mechas que até então não eram rosadas. A pele morena e nativa escorregava pelo instrumento, os dedos dedilhavam as cordas, a voz agitava o microfone e no refrão todos batemos palmas para acompanhá-la. Ela aparentava estar mais aliviada.

E nenhum sinal do barba suja.

Bem que eu queria ter bebido um pouco daquele conhaque, estava zerado e sem grana para tomar qualquer outra coisa além da mísera cerveja nas minhas mãos.

Levantei e decidi ir até lá fora. Fiz algum contato visual com Babe, antes de perdê-la de vista entre os cabelos castanhos e a canção que parecia me ninar. Caminhei pela terra batida por alguns minutos e acendi um cigarro nas imediações do bar. Já estava fazendo um frio do capeta. A fumaça subiu e me esquentou.

Contudo, não foi mais quente do que o sangue molhando meus lábios. O soco certeiro no meu maxilar me levou direto pro chão, onde bati o rosto na areia. Fechei os olhos quando os grãos encheram-nos e me impediram de enxergar qualquer coisa. Rangi os dentes e cuspi. Ainda de bruços pude ouvir os passos pesados e arrastados se aproximando. Tive a concreta certeza de quem se tratava.

— Nós podemos tentar negociar de maneira menos agressiva, cara. — Argumentei.Ainda tentei erguer as mãos em sinal de rendição, somente para receber um chute no estômago. Mordi os lábios com a dor lancinante e me revirei, com os braços pressionando a barriga.Teria sido menos dolorido se o barbudo não fosse tão cuzão. Não se deu por satisfeito, e por fim, apanhou o cigarro caído há alguns centímetros.Apagou a brasa na minha bochecha. E foi aí que eu apaguei completamente.

x-x-x-x-x

Acenei e Babe veio até mim radiante, a areia sendo jogada pro alto pelas pernas grandes e delicadas. O horizonte azul atrás dela revelou uma onda quebrando. O barulho causou-me um arrepio e a maresia escorregou no meu rosto. Babe caiu de joelhos na minha frente e acariciou minha face. Seus dedos pousaram na protuberância das minhas bochechas. A cicatriz ardeu um pouco e eu encarei os olhos de âmbar embriagados pela música. Ela deu um sorriso arteiro e mordiscou o lábio inferior.

Meu corpo entorpeceu e tombei a cabeça para trás, sentindo a brisa da noite. Babe levantou e voltou a saltitar pela areia, rodopiando e gargalhando.

Encarei a cena deslumbrado. Ela cheirava à liberdade. Um agradável aroma de espírito livre. Apreciá-la de longe era como ouvir uma poesia sussurrada ao pé do ouvido.

Babe era uma revolução.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Não deixem de comentar, é muito importante que eu saiba o que acharam. Dúvidas, críticas, vou procurar responder todas.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.