BPM - Batidas pelo Multiverso
20 O sequestro
Notas iniciais
Eram três. Um homem, uma mulher e uma menina, cansados devido à trilha que faziam. Andavam em uma fila, o homem, andava sempre à frente, a menina e a mulher vinham logo depois.
Finalmente avistaram o grande morro de pedras, deveria haver muito cuidado ao tentar andar sobre as pedras soltas, ainda mais juntamente de uma criança. O homem parou subitamente, como se houvesse encontrado algo. Ele sorriu com o canto dos lábios.
—Veja, querida, essa era a pedra favorita de sua mãe.
A garota andou calmamente com seus pequenos passos, deveria estar na faixa dos seis anos de idade. Era difícil andar na trilha íngreme com suas sapatilhas nada confortáveis, ainda mais quando o vestido armado insistia em dificultar seus movimentos. Ela abaixou-se do lado do homem, este, colocou a pequena pedra em suas mãos.
—Consegue pegá-la dessa vez?
Ela sentiu a temperatura gélida da pedra e fechou sua mão, a fim de poder segurá-la. O leve desapontamento veio depois, ao abrir e se deparar apenas com o pó que restou. Irritada, a mulher olhava com desprezo.
—Céus! Você não consegue nem se controlar para segurar uma pedra!
—Não seja tão dura com ela –ele acariciou o rosto da criança-, ela está aprendendo.
Ainda irritada, tirou o pó de suas roupas e se virou.
—Está tarde, vamos voltar ao castelo.
...
Todos já haviam terminado de comer, um pequeno robô retirava o que havia sobrado. Flerp empurrou uma máquina que queria pegá-lo para o lado, olhando ameaçadoramente para ela. Capitão e PS curvaram-se à mesa e se levantaram, Flerp fez o mesmo.
Todos os olharam de forma confusa, perguntando-se o porquê do movimento. Pedro fez o mesmo, fazendo uma leve reverência aos convidados também. Mais confuso ainda, Luciano cochichou para Jeferson.
—Você viu o que eles fizeram? Que estranho.
—Não achei nada estranho, a comida é tão boa que devemos prestar reverência a ela!
PS riu.
—É mais ou menos isso, Jeferson.
Carla e Ingrid começaram a se levantar quando foram repreendidas. PS olhou-as com o buraco negro em seus olhos.
—Paradas!
—Agora vai nos impedir de sair da mesa? –Carla zombou.
—Não, Merceer inútil. –encarou-a- Regra número um: Sempre se curvar à mesa antes de levantar.
Ingrid anotou o que PS disse em um bloco de notas que tirou do bolso do casaco. “Melhor do que escrever na mão”, pensou ela. Enquanto isso Luciano olhava com desdém para PS.
—Ah, vou! –disse cético- Só o que me faltava!
PS pegou uma das facas da mesa e, enquanto a observava, ficou girando-a em seus dedos com manobras.
—Vocês com certeza terão uma refeição com a família real, precisam aprender como se comportar. –ele manuseava a faca com cuidado- Sempre nos curvamos depois de comer, em sinal de respeito e agradecimento.
—E se eu não quiser? –perguntou Luciano.
—Ora, liberdade de expressão, faça isso e... –girou a faca rapidamente- Tem a língua cortada com a faca que você usou na refeição. -cravou-a na mesa.
Luciano se calou, olhando para seu prato vazio.
—Mas como surgiu esse costume? –perguntou Carla.
—Você acha que eu sei de tudo? É regra e isso que importa. Sem questionamentos.
Ela o encarou.
—Saber o porquê das coisas é essencial, sabia?
Ele tirou a faca cravada da mesa.
—É! Muito essencial! Você diz isso porque não sabe o porquê de...
Capitão colocou um braço na frente de PS.
—Calminha, amigo. Eu respondo a pergunta da Merceer ali.
PS revirou os olhos.
—Quando os reis tinham que ir para a guerra com suas famílias, eles eram responsáveis pelo preparo do alimento, inclusive dos servos que estavam no mesmo abrigo. Todos se curvavam diante dele na mesa no final da refeição por ele ser a majestade. O costume acabou vindo para dentro dos castelos, mesmo não sendo eles agora que preparam as refeições.
—Como forma de demonstrar gratidão por gostarem da comida, -disse Pedro- o rei se reverenciava levemente aos convidados, como eu fiz!
Eric se curvou à mesa e levantou, Pedro fez novamente a reverência.
—Eu gostei desse costume, achei legal. Mas não entendi algo... Havia servos nos abrigos, por que os servos não cozinhavam?
—Porque os servos eram de trabalho braçal, não sabiam nada além de construir ou lutar, os cozinheiros não iam para as guerras. Além disso, todo rei quando criança aprende a usar arco e flecha, então o rei caçava.
—E porque as mulheres não cozinhavam se os reis caçavam?
O Capitão riu.
—Ah, meu caro... As mulheres não sabiam nem descascar uma maçã, além do nojo de mexer com um animal morto.
Carla revirou os olhos, uma das coisas que ela gostava de fazer era cozinhar, não entendia o porquê do nojo.
—Que mulheres mesquinhas! –disse ela- Não vejo nenhum problema em cozinhar! E se as madames não sabiam, as servas não podiam preparar o alimento?
—Naquela época, não podiam haver mulheres como cozinheiras, pois acreditava-se que elas se vingariam de toda a opressão com o gênero delas, envenenando a comida.
—Uau... Bem, -ela se curvou- agora eu entendo a origem disso, mas acho que cortar a língua de alguém por não ter feito uma reverência é exagero.
—Ah, faça-me o favor! –disse PS- As coisas têm que ser rígidas ou tudo vira uma bagunça!
—Céus, não tão rígidas assim! Acho que até a Larissa questionaria essas regras! Aliás... Onde ela está? Faz tempo que ela foi para a enfermaria, já deveria ter voltado.
A porta abre-se rapidamente, mostrando Larissa com uma expressão aflita.
—Pedro... A Taína... Sumiu.
...
—Conseguiu ver algo, Ingrid?
Essa devia ser a quinta vez que faziam a mesma pergunta para ela. Assim que Larissa anunciou que Taína-chan havia desaparecido, disse à Ingrid para usar os óculos e tentar detectar algo diferente na enfermaria ou nas palavras escritas na parede.
—Não... Tenho que olhar melhor para encontrar alguma coisa.
PS e Flerp estavam escorados na porta, olhando de longe Ingrid analisar a sala. Eric estava junto com Carla e Jeferson perambulando ansiosamente, já Pedro e Larissa tentavam analisar a sala junto com a Ingrid.
—Essa sala parece cena de filme de terror. –disse Jeferson- Frases escritas com sangue nas paredes!
—Isso não é sangue, — disse Ingrid- é algum outro líquido.
Capitão olhava perturbado para as frases nas paredes, às vezes chegava a desviar o olhar.
—Essa Taína... De onde vocês a conhecem?
—Ela faz reação dos capítulos da minha história em um blog, por quê?
—Essa letra é mesmo dela?
Todos se entreolharam. Eric começou a andar lentamente pela sala com um olhar pensativo, era assim que ficava quando estava prestes a deduzir algo.
—Taína-chan não é muito de escrever sem ser por aparelhos eletrônicos, -disse ele- então não conhecemos a letra dela... Mas realmente, essa letra é muito perfeita e parece ser antiga, não acho que alguém que quase não escreve tenha uma letra dessas.
—Está dizendo que acha que não foi Taína-chan quem escreveu isso? –perguntou Larissa.
—Sim, o problema é descobrir quem foi se não foi ela.
—Bem que ela podia ter trazido um caderno de anotações pra gente confirmar se a letra não é mesmo dela. –disse Carla.
Uma voz perto das paredes exclamou no ar.
—Isso!
—Isso o quê, Ingrid? –perguntou Eric.
—Pedro, quando você sequestrou a Taína-chan, o que ela estava fazendo?
—Voltando da escola, por quê?
—Ela deve ter uma mochila! Você deve ter confiscado e guardado em algum lugar, com certeza há cadernos lá dentro!
—Isso se ela não tira foto do quadro em vez de copiar... –disse Luciano.
—Eu lembro de ter guardado a mochila dela em uma sala, venham comigo!
...
—Então é aqui que você guarda nossas coisas, Pedro?
—Sim, Eric, são coisas que vocês não vão precisar aqui.
Carla exclamou enquanto olhava algumas prateleiras.
—Meu celular! E o da Ingrid! Todos nossos celulares estão aqui!
—Só servem de distrações.
Pedro pegou uma mochila roxa de pano, entregando para Ingrid. Esta, pegou um caderno e o abriu.
—Não é preciso nenhum óculos especial para perceber que essa letra não tem nada a ver com a da parede da enfermaria.
O capitão se aproximou.
—Realmente... Essa letra não é dessa senhorita... Embora eu já presumisse isso.
Eric ficou com a testa franzida, como se estivesse investigando.
—Por quê? Você conhece aquela letra?
—Ora, como eu poderia conhecer?
—Não sei, eu que estou perguntando.
Ingrid guardou o caderno na mochila.
—Mas quem escreveu? Não há rastros naquela sala! É como se a pessoa não tivesse tocado no chão!
—E se foi algum ser que voa? Isso explicaria porque não há pegadas, ele teria levado a Taína-chan.
—Então ela foi sequestrada?! –perguntou Jeferson.
—Não!
Todos olharam para Capitão.
—Não tem como ela ter sido sequestrada!
—Não podemos descartar as hipóteses. –disse Eric.
As pupilas de Larissa encolheram, ela falou friamente.
—Pedro.
—O quê?
—Os tubos. De ventilação.
—Meu Deus! Ela vai morrer de hipotermia!
...
—Eu estou vendo o rastro dela dentro dos tubos de ventilação! Sigam-me!
Todos começaram a correr, esperando Ingrid achar o corpo.
—Não sabemos há quanto tempo ela está nos tubos, -disse Pedro- precisamos correr antes que seja tarde!
—Achei! Ela está nesse tubo!
Pedro pulou, alcançando um tubo próximo com as mãos e o puxando para baixo até quebrar. Logo depois começou a tirar sua jaqueta.
—Não podemos pegar ela bruscamente. Rápido, quem tem casaco tire e me dê.
Carla, Ingrid e Luciano deram seus casacos ao Pedro. Logo após pegá-los, ele subiu pelo tubo caído até chegar em Taína-chan, envolveu-a com os casacos e a trouxe para baixo.
—Eric, sente e pegue ela no colo, Larissa, vá buscar algumas garrafas de água morna na cozinha.
Enquanto Eric se sentava escorando-se na parede, Larissa correu para pegar as garrafas.
—Aqui... –Pedro a colocou no colo de Eric.
—Nossa! Ela está muito fria!
—Ingrid, detecte a temperatura dela.
—Um minuto... –ela ajustou os óculos- Não pode ser!
—O quê?
—Ela está com 28,7°C!
—Céus! –disse Eric- O normal é em torno de 37,5°C!
Pedro colocou sua jaqueta envolvendo as axilas de Taína e mediu sua pulsação.
—Sem pulsação arterial... Vou precisar fazer uma massagem cardiopulmonar. Eric, fique com a Taína de costas para você, precisamos desobstruir as vias aéreas primeiro.
—Certo, e agora?
—Abrace a cintura dela e vá um pouco para a frente.
Larissa chegou correndo dirigindo-se a onde todos estavam.
—Eu trouxe chá também, para dar a ela quando acordar.
—Ótimo. Eric, cerre o punho e coloque na boca do estômago dela, com a outra mão você vai puxar pra dentro e pra cima cinco vezes.
—Tem algo obstruindo as vias aéreas? –perguntou Larissa.
—Não sei, mas é uma precaução. Pode deitá-la de novo.
Capitão inclinou a cabeça a fim de ver o rosto de Taína.
—O que foi capitão? Até em uma crise de hipotermia o senhor vai ser pervertido com a garota? –perguntou PS.
—Apenas estava vendo se reconheço a pobre moça, mas ela é bonita mesmo.
—Eric, afouxe as roupas da Taína-chan.
—O-o quê?
—Afrouxe as roupas dela! Vamos!
—M-mas!
—Não temos tempo! Ela pode morrer!
—C-certo... –ele corou.
Enquanto ele desabotoava a blusa deTaína, Pedro tirou os sapatos e colocou as garrafas com água morna dentro da meia para colocar nas pernas dela.
—Ela... Vai viver, não é? –Perguntou Carla.
—Caso tudo der certo, sim. Ok, acho que já podemos deitá-la de costas no chão.
Com cuidado, Taína-chan foi colocada no chão com os braços e pernas abertas. Eric levantou e Pedro se posicionou de joelhos ao lado de Taína, fazendo uma respiração de socorro em sua boca. Logo começaram as compressões. Carla escondeu o rosto no ombro de Eric enquanto tentava se acalmar. Eram 10, 20... 30 compressões. Ele parava para fazer a respiração e depois voltava com as compressões. Havia passado cerca de 2 minutos sem ninguém falar até que Ingrid exclamou.
—Está subindo! Ela está com 30,2°C!
—O-O que... aconteceu?
Pedro parou, ela havia falado.
—Taína, você está me ouvindo?
Ela estava com os olhos quase fechados.
—Sim... Eu só... Estou cansada...
—Larissa, pegue o chá.
Ela colocou o chá em uma xícara e se ajoelhou ao lado de Taína-chan.
—Beba devagar, -disse ela- não pode se esquentar repentinamente ou vai ter uma arritmia cardíaca.
—Uma o quê?
—Esqueça, não se esforce muito agora.
Taína bebeu o chá enquanto Pedro levantava.
—O pulmão dela está fraco, melhor levá-la à enfermaria para dar oxigênio.
—Ah não, enfermaria de novo não...
—Não reclame, apenas tente respirar bem.
Pedro e Larissa pegaram Taína para levá-la à enfermaria.
—Vocês vão para a sala de treinamento, dessa vez nossos convidados que vão ser os treinadores.
—Vocês vão ficar com a Taína? –perguntou Ingrid.
—Eu só vou levá-la e depois volto, a Larissa vai ficar o tempo todo com ela dessa vez.
—Tudo bem então, espero que ela melhore.
Levaram Taína-chan pelos corredores até desaparecerem.
—Então eu vou treinar vocês... –disse PS- Prepare-se Merceer.
O capitão se afastou do grupo e tirou um papel do bolso.
—Será possível? É a mesma letra!
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