BPM - Batidas pelo Multiverso
1 O começo
Notas iniciais
Então nasce, na Galáxia de Andrômeda, a escolhida de uma nação, em um planeta muito menor do que a Terra, porém, com uma capacidade espacial infinitas vezes maior. Apesar da tecnologia inegável, o modo como viviam se assemelhava à época medieval, com nobres, guardas, soldados e camponeses. O dia de seu nascimento fora importante, afinal, há tempos o rei possuía o plano ambicioso de espalhar sua raça para outro astro com intenção de dominá-lo, assim, quem sabe conseguiria se desvencilhar da grande crise econômica que seu lado do globo enfrentava.
A criança escolhida para liderar a soberania mundial nasceu no lado do planeta dos Merceers. Os Merceers, da mesma forma que seus rivais, possuíam aparência similar aos terráqueos, mas com características físicas peculiares que os destacariam ao lado de humanos. Era uma menina, nascida no exato momento em que a luz mais brilhante surgiu no céu, algo que todos os antigos textos previam como um augúrio de grande poder e influência. Aquela criança, que surgia no escuro, seria a luz que guiaria a nação até um futuro próspero, análogo de algo radiante e incomparável.
O outro lado era habitado pelos Croosers, inimigos históricos dos Merceers. Desde os primeiros sinais de vida inteligente naquele corpo celeste, os dois grupos sempre disputaram território, mantimentos e poder, até que, cada vez mais, foram se dividindo em partidos e regiões que jamais se mesclariam. Meses antes do nascimento da escolhida Merceer, os reis do lado Crooser celebraram o nascimento de uma bela garotinha, o plano deles foi exatamente o mesmo que os seus oponentes tiveram, mas, ao descobrirem que os adversários também tinham um designado, o rei e a rainha adicionaram um novo objetivo à missão da filha: destruir a herdeira do inimigo.
A chegada da menina foi uma grande festa, finalmente o lado Crooser possuía mais um herdeiro do trono, um que seria capaz de ser o precursor da grande hegemonia que imaginavam, a guerra poderia chegar ao fim de uma vez por todas. A partir dos seis meses de vida, a menina já estava fortificada o suficiente para ser enviada à Terra e lá conseguir crescer, contudo, houve um conflito no castelo, alguns membros da corte começaram a questionar a legitimidade da herdeira, sugerindo que era necessário provar sua linhagem antes de mandá-la em uma jornada tão importante. A confirmação veio de forma inusitada – e quase fatal. A pequena teve uma forte reação alérgica ao amendoim, uma sensibilidade que há séculos acompanhava a família real, e a crise foi tão grave que ela quase não sobreviveu. Desde aquele dia, o rei proibiu a leguminosa em todo o reino e, temendo novas complicações, adiou a viagem para a Terra até que sua filha estivesse completamente recuperada.
Os Croosers possuíam um grande aliado, um planeta da Galáxia Sextans I, famoso por sua influência nas relações interplanetárias, tanto por seus inúmeros acordos diplomáticos quanto por seus conflitos recorrentes com outras civilizações. Mais do que isso, aquele era o lar da tecnologia mais avançada já vista em todo o cosmo. No passado, o planeta de Andrômeda recebeu uma proposta de aliança por parte deles, mas apenas os Croosers aceitaram, transformando os Merceers em seus inimigos também. Agora, o pacto entre os dois mundos ia além, pois para garantir a vitória, os habitantes de Sextans I decidiram fornecer uma ajuda aos seus aliados, um escolhido do planeta mais avançado existente enviado para auxiliar a criança Crooser na destruição de sua rival comum.
A Terra, localizada na distante Via Láctea, foi cuidadosamente selecionada como o destino das operações, seu grande diâmetro, abundância de recursos e, principalmente, a presença de uma civilização inteligente tornavam-na a escolha ideal para a missão. As crianças foram enviadas em cápsulas especialmente projetadas, equipadas com um sistema avançado de adaptação genética, esse dispositivo analisaria as expressões e traços faciais daqueles que viessem a adotá-los, ajustando sutilmente suas próprias feições para que se assemelhassem a seus novos pais. Assim, poderiam crescer sem levantar suspeitas, um detalhe crucial para a infiltração.
E assim, cada um deles atravessou os confins do universo até chegar ao seu destino. Em locais diferentes, sob céus distintos, mas muito mais próximos do que jamais imaginariam.
A cápsula Crooser se abriu assim que tocou o solo. Instintivamente, a pequena engatinhou para fora, sem imaginar que aquele simples ato seria seu primeiro – e mais desastroso – erro. Uma matilha raivosa vagava pelas ruas do bairro quando a encontrou se movendo, exultante, no meio da calçada. O rosnado foi imediato, em questão de segundos, a criança foi cercada, presas afiadas avançando contra seu corpo indefeso. Por sorte, o escudo protetor temporário ainda estava ativado, impedindo qualquer ferimento grave, os danos físicos apenas destruíram o chip implantado em seu cérebro, aquele que carregava todas as informações sobre sua missão; já na parte mental, um medo inerte de cachorros ficou como consequência, assim como o receio inconcebível de ter atitudes espontâneas novamente. Poucos minutos depois, um casal a encontrou, adotando-a com boa vontade, acreditavam que dar uma irmã ao filho de seis anos seria uma boa ideia. Inicialmente, planejavam chamá-la de Irina, mas, após alguns argumentos convincentes, optaram por Ingrid.
Sua infância foi diferente da maioria das crianças, pouco sociável, especialmente com meninas, Ingrid evitava grandes interações, ainda que sem entender o motivo. Seu subconsciente, no entanto, sabia. Ela não havia vindo ao mundo para fazer amigos, mas para destruir a escolhida dos Merceers. Era comum, portanto, que passasse tardes inteiras sozinha, vez ou outra brincando de passes de futebol com seu irmão mais velho, mas sua maior companhia era um relógio de pulso, acessório que nunca tirava. Para ela, era quase como um melhor amigo. Ou, ao menos, como imaginava que um deveria ser.
No extremo oposto do estado onde a Crooser havia pousado, a chegada da escolhida dos Merceers foi, no mínimo, catastrófica. Como se não bastasse a cápsula despencar de um penhasco, uma avalanche de pedras se seguiu, atingindo em cheio a área onde seu chip estava localizado. Assim como sua rival, a menina perdeu todas as informações que deveria carregar. Horas se passaram até que um casal, ao encontrar a bebê abandonada, sentisse pena de sua condição e decidisse adotá-la, chamando-a de Carla. Coincidentemente, mudaram-se dois anos depois para um bairro não muito distante de onde Ingrid cresceria.
Desde pequena, Carla demonstrou um fascínio incomum por livros, o que enchia seus pais adotivos de orgulho, no entanto, seus comportamentos destoavam do que esperavam de uma criança de sua idade. Ela parecia operar sob uma lógica própria, alheia às normas não ditas do convívio social. Era mais sensível a estímulos do que o normal — barulhos altos a faziam estremecer, certos tecidos lhe causavam incômodo, e multidões eram exaustivas. Seus únicos amigos eram as histórias impressas em papel, que, segundo ela, eram portais para viajar a universos paralelos; o mundo real era um lugar caótico e imprevisível, os livros, por outro lado, seguiam regras claras, e era isso que os tornava tão fascinantes. Aos cinco anos e meio, Carla ganhou uma nova companhia em casa: Ana, a bebê da família; diferente dela, Ana era inquieta, ruidosa e sempre em movimento. Mas, mesmo que o convívio exigisse adaptação, a Merceer não duvidava que a irmã teria um futuro promissor.
Perto de onde Ingrid foi parar, o escolhido do planeta Sextans I também fez sua chegada à Terra, mas teve muitos contratempos. Quando a cápsula se abriu, revelou um menino que, antes mesmo de dar seu primeiro respiro no novo planeta, já enfrentava uma série de infortúnios. Primeiro, a tampa da cápsula abriu de mau jeito, e ele despencou de cabeça no chão, em seguida, por razões que desafiam qualquer lógica, uma bicicleta voadora surgiu do nada e o atingiu em cheio. E, como se o universo ainda não estivesse satisfeito com seu sofrimento, um garoto aleatório chamado Douglas, que estava apenas passeando pela vizinhança, resolveu que não gostava da cara do recém-chegado e, sem hesitar, quebrou um violão na cabeça do pobre menino. Resultado: seu chip foi severamente danificado. Entre um desastre e outro, um casal o encontrou e decidiu adotá-lo, batizando-o de Eric. Eles já tinham uma filha de dez anos, que, tomada pelo ciúme, declarou guerra ao novo irmão, manifestando seu descontentamento com beliscões, mordidas e ocasionais puxões de cabelo.
Desde o primário, Eric estudou na mesma escola que Ingrid, e, com o tempo, ambos se tornaram amigos próximos. Mas, ao contrário dela, que era mais reservada, Eric parecia ser movido por uma energia inesgotável, sempre sorridente, falante e de raciocínio rápido, era difícil encontrar um desafio que ele não aceitasse. Se alguém dissesse que não era possível escalar uma árvore de ponta-cabeça, ele já estava lá no topo. Se duvidassem que ele conseguiria fazer trinta flexões seguidas, ele fazia cinquenta. Mesmo as aulas de natação e karatê, que fazia desde cedo, não conseguiam canalizar toda a sua energia infinita. Ainda assim, os infortúnios de sua chegada deixaram uma marca permanente: um problema no joelho que, de tempos em tempos, o fazia sentir dores.
Então veio o dia em que os três se encontraram. Naquele momento, ninguém demonstrou qualquer sinal de rivalidade ou destino predestinado. Para eles, eram apenas crianças normais, vivendo suas vidas normais, mas é aí que nossa história realmente começa.
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