Notas iniciais
[Capítulo revisado e corrigido]

Era o último dia de aula. A maioria dos alunos simplesmente não apareceu. Já os poucos que vieram aparentavam estar mais interessados em deixar uma última impressão simpática para o conselho de classe, sem real interesse na lição. O ventilador girava com um ruído estafado, espalhando mais barulho do que vento.

— Psiu, Luciano! Mais um episódio da Saga!

No fundo da sala, Carla, a garota Merceer, estendia uma folha destacada de fichário ao colega da carteira ao lado. Seus olhos grandes, porém, permaneciam atentos a qualquer movimento ao redor, como se a entrega fosse uma operação sigilosa.

— Até que enfim — murmurou, satisfeito.

Recebeu a folha sem pressa, conferindo antes se ninguém estava o observando. Sempre com o cabelo ajustado em um topete rígido de gel, ele carregava um olhar escuro que cintilava em tons avermelhados com o feixe de luz que vinha da janela.

Na frente da sala, o professor explicava algo pela terceira vez para dois alunos que claramente já tinham desistido de entender, apenas barganhavam meio ponto extra com sorriso forçado. O resto da turma estava dividido entre conversas paralelas e as tradicionais assinaturas nas últimas páginas do caderno. Duas fileiras ao lado, Eric girava o lápis entre os dedos como se fosse um truque de mágica e Ingrid desenhava uma história em quadrinhos com as sobrancelhas levemente franzidas.

O som do sinal veio seguido de gritos e correrias, estudar em um prédio que reunia fundamental I e II possuía seus efeitos colaterais. Normalmente, Ingrid e Eric guardavam seus materiais sem pressa, enquanto o restante da turma já estava com as mesas limpas antes mesmo da aula terminar. Luciano e Carla esperavam por eles na porta, preferiam entrar por último no ônibus a disputar os lugares da frente.

O quarteto saiu da sala comentando, entre risadas, os absurdos do recreio. Eric ia à frente com os cachos castanho-dourados saltando junto com o ritmo acelerado do passo. Ingrid vinha logo atrás, mais contida, sempre enrolando a ponta do rabo de cavalo entre os dedos enquanto deslizava calmamente pelo chão do corredor. A dinâmica do grupo era tão forte que até poderia faltar assunto na lousa, mas nunca entre eles.

— Mano, – Ingrid falou – como que a cantina chama aquilo de “suco natural”? Natural de onde? De um laboratório?

— Até senti meu DNA mudando! – Eric riu – Se crescer mais um braço em mim, vocês já sabem o porquê.

— Tomara – o garoto do topete respondeu.

Mas os sorrisos se esvaíram antes de completar o próximo passo.

Seria um sonho? Nenhum aluno se encontrava naquele local, nem os que gostavam de correr no meio da quadra descoberta. Até o ônibus, que sempre se lotava de gente, não estava perto do portão.

Confusos, olharam para trás, esperando ver alguma pessoa da secretaria, mas novamente o que encontraram foi o vazio.

— Ahá! – falou.

Os quatro deram um pulo para trás ao mesmo tempo. Eric quase esbarrou em Ingrid; Carla levou a mão ao peito; Luciano já examinava o chão em busca de algo arremessável.

O garoto à frente estava perto demais para não ter sido visto chegando. Usava camisa branca, jaqueta preta e um colar com pingente marrom em forma de losango. Ele sorria sabendo exatamente o tamanho do susto que tinha causado neles.

— Relaxem, eu sou o Pedro!

— O-o quê?! — Carla arregalou os olhos.

Ingrid o desenhara uma vez e, agora que ele falava, a semelhança com a caricatura era desconfortavelmente clara, aqueles olhos verdes e o cabelo preto, liso e bagunçado.

— O Pedro que a Carlacriou?! — Eric perguntou.

— Sim! Excelente personagem, aliás. Poderia ser bem mais aproveitado pela autora...

— Tá. Não — disse Luciano. — A gente tá sendo gravado.

— Não é pegadinha! Eu esperei esse momento.

— Momento pra quê? — Ingrid retrucou, quase num sussurro.

— Pra vocês finalmente voltarem!

Um silêncio hesitante se estabeleceu.

— Voltarem? Voltarem pra onde? — Carla perguntou.

Pedro girou nos calcanhares e andou até o portão da escola, onde atrás se encontrava uma máquina com um conjunto peculiar de cabos, placas, luzes pulsantes e peças que claramente vieram de lugares desconhecidos. Ele deu dois tapinhas na lateral, orgulhoso.

— Entrem! Vou explicar tudo o que precisam saber.

Ninguém se mexeu.

— A gente não vai entrar numa máquina aleatória construída por um desconhecido de colar geométrico — disse Luciano.

— Justo. Mas não é uma escolha.

Ele estalou os dedos, a máquina respondeu com um campo translúcido que se fechou ao redor do grupo, flutuando meio centímetro, e deslizou para dentro suavemente. Pedro também entrou e fechou a porta atrás deles. Após segundos de uma luz branca acompanhada de pressão nos ouvidos, a porta se abriu, o pátio da escola tinha sumido. Quando criaram coragem para sair, perceberam que estavam em uma sala ampla, metálica, mas estranhamente acolhedora. Sofás baixos formavam um semicírculo perto de um painel luminoso que exibia símbolos em movimento constante.

O até então sequestrador inspirou o ar, estufando o peito, parecia bem alegre de estar finalmente contando aquilo.

— Bem, ok, vamos explicar desde o início. Vocês não são humanos, são adotados e... Tecnicamente... A vida de vocês é uma mentira.

— O quê?! – os quatro disseram em volumes diferentes de incredulidade.

Pedro apontou primeiro para a garota de cabelos compridos.

— Carla, você não nasceu aqui. — ele inclinou a cabeça. — Seu povo se chama Merceer, você foi enviada pra trazer a tecnologia do seu planeta pra Terra.

Ele agora olhava para Ingrid.

— Você cresceu desconfiando de tudo, não é coincidência, os Croosers não confiam nem na própria sombra... — sorriu. — Croosers são rivais diretos dos Merceers, então sua missão era eliminar a Carla.

Mudou o alvo para o integrante de cabelos encaracolados.

— Eric, você também veio de outro planeta, um com a mesma oposição estratégica. Sua função era impedir o avanço Merceer e espalhar a tecnologia do seu planeta no lugar.

Nenhum deles piscava.

— Ah... Seus nomes verdadeiros não posso revelar agora.

Tomando a frente, Luciano encarou Pedro.

— Ótimo briefing apocalíptico. E eu, sou o quê?

— Bem... Você é uma experiência que fizeram em um buraco negro, tentaram transformar uma pedra em humano, mas o buraco negro drenou suas emoções e te deixou frio... Como uma pedra.

— ... Tá.

Ingrid arqueou uma sobrancelha, evidenciando os olhos cor de mel em julgamento.

— Perguntas?

— Como assim “perguntas?”? — Eric gesticulou cada palavra com as mãos. — É óbvio que temos perguntas!

— Que pena.

Em choque, virou-se para Ingrid, tentando demonstrar a ela, com olhares, sua indignação.

— Certo, vou falar o verdadeiro propósito de eu contar isso pra vocês só agora. Vocês não têm mais tempo, a Terra está registrando picos anormais de eventos extremos, nunca se perguntaram o porquê?

— Bem... – Carla franziu a testa. – Desastres naturais acontecem faz tempo...

— Sim, é fato, mas o que também está influenciando são os planetas de vocês. Esse seria o código para entenderem que já podem voltar pra casa. Conflitos entre civilizações avançadas deixam marcas que atravessam o espaço-tempo, vocês viram as notícias desse mês! Terremotos em sequência, tempestades históricas, sistemas saindo do padrão... O problema é que, até alguns minutos atrás, vocês nem sabiam que não eram humanos. A sorte é que eles pensam que vocês sabem, e é melhor assim, porque se descobrirem que vocês cresceram juntos... Não vai ser só um conflito diplomático.

— Não. — Eric cortou — Não, não, calma. Você não pode falar uma coisa dessas e esperar que a gente aceite!

Pedro tocou em um painel e o ambiente projetou mapas, gráficos e linhas orbitais cruzando.

— Vocês precisam sair do radar, por isso estão aqui, — apontou para o chão. — camadas e camadas debaixo da superfície. Enquanto estiverem nesse prédio, ninguém rastreia vocês.

— A gente tá em um prédio subterrâneo? — O olhar de Ingrid subiu instintivamente, como se desse para ver andares através do teto.

— Podem chamar ele de Steeven! Fica mais leve assim.

— Acho que terapia ajudaria mais. — Luciano murmurou.

Ingrid se aproximou, a voz quase sussurrando.

— A gente vai ter que morar aqui? Tipo... Sem voltar pra casa, escola, nada?

— Vocês vão sair. Quando for seguro. — ele tentou tocar o ombro dela, mas Ingrid recuou meio passo.

— Então... — Carla falou — Ou a gente se esconde... Ou começa uma guerra entre planetas?

— Exatamente. Mas não se preocupem, aqui é bem confortável, vocês podem explorar várias salas e ainda pedir chás infinitos! O botão do chá às vezes reinicia o sistema, mas estamos melhorando...

— Reconfortante. — Luciano ironizou.

Eric olhava para o chão fixamente, os olhos bem abertos, o peito subia e descia rápido. A força que cerrava os punhos era a mesma que travava a mandíbula, como se estivesse tentando não chorar.

— Não. — ergueu o rosto. — Eu tenho pai. Tenho mãe. Eu não vou... Simplesmente sumir.

A voz falhou no meio da frase.

— Entendo que seja difícil, mas, se vocês ficarem, colocam eles em risco também. Infelizmente, é o que precisa ser feito agora.

— Você tá dizendo que eu tenho que abandonar eles? É isso?!

— Temporariamente. — sorriu, mas os olhos não acompanharam.

— Não existe essa de “temporariamente”!

Cruzando os braços e balançando uma das pernas sem parar, Luciano olhou para aquele que estava ainda com o peito arfando.

— Cara, você acha que isso é sobre você? Aceita, a gente vai ter que ficar um pouco longe dos nossos pais, finge que é férias.

— Como você pode falar disso desse jeito?!

— O que foi? Você acha melhor ficar fazendo draminha igual nas brigas com a sua irmã?

— Não fala dela! — avançou um passo, perto o suficiente para Luciano sentir a respiração irregular.

— Ou o quê? Vai chamar seus pais?

— Seu...

— Chega!

A madeira de uma mesa estalou seco, formando uma rachadura que rasgou o tampo da mesa e correu até partí-la ao meio. A fenda irregular findava diante de Carla, com a mão ainda fechada.

— Meu Deus! — olhava a própria mão como se não fosse dela. — Desculpa, eu não queria... Vocês estavam fazendo muito barulho e... — engoliu em seco. — Foi muito caro?

Ingrid não conseguia tirar os olhos da mesa partida. Como ela...? O olhar subiu para a mão ainda trêmula da amiga.

— Pra falar a verdade, não. — Pedro sorriu. — E não se preocupe, eu tenho uma máquina para consertar mesas partidas ao meio.

— Isso... Isso não é normal. — Ingrid mordeu o dorso do indicador enquanto pensava.

— Eu sei... Algumas máquinas minhas são meio estranhas.

— É óbvio que ela não tá falando disso, seu idiota! — Luciano retrucou. — Não é normal alguém partir uma mesa ao meio!

Os olhos de Carla ainda permaneciam escancarados, presos entre espanto e silêncio. Podia ter machucado alguém...

— Ah... — Pedro juntou as mãos atrás das costas. — Sobre isso, a partir de agora esse tipo de coisa vai ficar cada vez mais comum. Vocês não são humanos. Têm habilidades... Específicas. Como viram, ela tem força acima do padrão terrestre.

— Acho que a gente teria percebido se nossa amiga fosse capaz de quebrar móveis. — Eric ainda falava com a voz áspera da discussão anterior.

— Então... — riu brevemente, quase constrangido. — Eu instalei um bloqueador em vocês, pra evitar que se destacassem demais no cotidiano.

— Você o quê?!

— Mesmo que você tivesse instalado algo, — ajustou os óculos. — a gente teria percebido alguma coisa em todos esses anos.

— Digamos que eu tenha instalado há um tempo considerável.

— Pedro, — Luciano começou a rir de incredulidade — quando que você instalou isso?

— Quando vocês ainda eram crianças.

— Perfeito. — abriu os braços. — Somos monitorados desde a infância por um personagem fictício com tecnologia alienígena! O homem do saco parece mais confiável que você.

Eric massageou a testa, afastando uma mecha de cachos que caía sobre os olhos.

— Você mexeu na minha vida inteira. Não consigo nem processar isso.

— Eu impedi que chamassem atenção antes da hora, sinto muito, mas pelo menos descobriram todos juntos!

— Animador. — Luciano cruzou os braços. — E eu faço o quê? Cuspo fogo?

— Você é resistente, seu corpo suporta impacto, tem ossos densos... Aguenta coisas que esmagariam qualquer pessoa.

— E ele? — apontou para Eric.

— A capacidade cognitiva é acima da média, o planeta de origem é reconhecido com o maior QI médio registrado na galáxia. Um perigoso estrategista natural. — sorriu para ele, que desviou o olhar.

— Isso explica a cabeça grande...

— Ei!

— E Ingrid, — ela endireitou a postura automaticamente. — Você é mais forte e resistente do que imagina.

O sorriso de Pedro demorou por um segundo a mais do que deveria, os olhos percorrendo o rosto dela com expressão quase encantada.

— Ô, homem do saco alienígena, estamos esperando. — Luciano bateu os pés.

— S-sim, claro, ahn... Você tem ótima percepção e capacidade física, mas não posso explicar tudo sobre vocês agora porque já são informações demais. Até lá, Ingrid, quero que fique com isso.

Pedro foi até a cômoda, abriu uma gaveta e retirou uma caixa embrulhada.

— Já que estamos no meio de dezembro, considere como presente de Natal!

Ela pegou a caixa, admirando o belo laço verde que havia em cima dela.

— Obrigada...

Abriu a tampa da caixa, com cuidado para não desfazer o laço, já que ela olharia depois para refazê-lo em suas gambiarras. Era um par de óculos, a armação semelhante à que ela usava.

— Vai ser útil, os meus estão sempre caindo.

— Eu sei!

Todos olharam para ele.

— P-porque eu sempre observei vocês, então acabei percebendo. — pigarreou. — Enfim, adaptei para incluir visão noturna, leitura estrutural básica e detector de metais.

— Leitura estrutural básica, tipo raio-x?

— Em termos simplificados, sim.

Inesperadamente, o que parecia ser um pequeno robô surgiu deslizando pelo chão em uma esteira contínua, equilibrando pratos de comida. O grupo virou a cabeça ao mesmo tempo.

— Ah! Quase me esqueci do almoço! — pegou. — Dessa vez saímos da rotina, mas nos próximos teremos um cronograma.

— Cronograma?! Saí do inferno de casa pra uma espécie de internato? – bufou Luciano.

Ignorando o comentário, Pedro pegou uma máquina que o robô também tinha trazido e foi em direção do móvel quebrado. Apertou alguns botões, regulou a potência e voilà! Como se fosse mágica, a superfície da mesa voltou a ficar lisa.

— Como?! Eu tinha quebrado de um jeito irreversível!

— Nada que eu não pudesse consertar. — ele piscou. — Depois de comerem, é melhor irem pros quartos, não é muito bom andarem sozinhos nos corredores do Steeven, ainda não são acostumados.

Pedro entregou um pequeno dispositivo para cada um.

— GPS interno. Vai ajudar a guiar vocês!

O grupo se entreolhou. Ninguém dizia em voz alta, mas todos pensavam a mesma coisa: gostassem ou não, eles estavam oficialmente presos ali.