BLACKOUT ▼
2 INTERVENÇÃO

MACKENZIE FLETCHER ◯
— Senhorita Fletcher. — eu me levanto ao som do meu sobrenome e sigo pelo caminho que eu já conheço tão bem.
Eu consigo ver na enfermeira o mesmo olhar decepcionado que minha mãe me daria nesse momento.
— Como ele está? — pergunto.
— Ele já foi medicado e poderá ir para casa muito em breve. — ela responde e espera pacientemente pela minha próxima pergunta. Ela já sabe qual será.
Eu não poderia perguntar à ele, Zac inventaria algo. Tentaria minimizar a situação e faria alguma piada sobre como ele ama hospitais e aparentemente eu também. Por isso, eu sempre pergunto e dependo da boa vontade de completos desconhecidos para conseguir entender o que se passa pela cabeça do meu próprio namorado.
— O que aconteceu dessa vez? — ela me olha com pesar e suspira.
— O mesmo que das últimas três vezes Mackenzie. — ela não é mais a enfermeira simpática com quem eu tinha lidado segundo atrás. Agora ela era a mãe preocupada e ao mesmo tempo enfurecida. — Ele fez uso de substâncias ilícitas e se envolveu em uma briga. Está situação está ficando fora de controle minha querida. Alguém precisa pará-lo e esse alguém não é você. Onde estão os pais dele? — ela coloca a mão sobre o meu ombro como se isso fosse me encorajar, só faz com que eu volte meu olhar para o chão.
— Eles não puderam vir. — eu sussurro. — Eu posso vê-lo agora? — pergunto voltando o meu olhar suplicante para ela, que apenas sorri compreensiva.
— Sim. — ela responde. — Acredito que você já saiba o caminho.
— Eu sei.
Me viro e continuo seguindo pelo enorme corredor branco com detalhes em azul cobalto. Eu observo as dezenas de portas numeradas pelo caminho. Algumas delas estão abertas, eu e minha imaginação relacionamos esse ato, como esperança. Outras estão fechadas, resignação, algumas pessoas nunca saíram daqui.
E as placas, que continuam ao meu redor, ainda pedem por silêncio. Eu nunca gostei do silêncio.
Se minha mãe soubesse onde estou, ela viria com aquele discurso que eu já havia decorado.
"Você realmente acredita que terá algum futuro com esse jovem Mackenzie? Olhe só para você! Você não deveria estar perdendo seu tempo com essa história. Você terá uma vida fantástica pela frente e eu sinto muito lhe dizer, minha querida, mas você está carregando um peso morto."
Ele ainda não está morto, mãe. Mas talvez muito em breve. Se alguém não intervir.
Eu enxugo uma lágrima solitária que escapou e escorre pelo meu rosto. E sorrio para um médico que passa ao meu lado, questionando silenciosamente se está tudo bem. Não. Não está Doutor. Mas ninguém precisa saber.
Subo dois lances de escadas olhando para os meus próprios pés. Eu estou tentando adiar uma conversa inevitável.
345.
É só mais um número. A porta está fechada.
Respiro fundo. E bato duas vezes na porta, espero apenas por educação. Eu já sei que ele está sozinho. Conto até dez, abro e entro. Eu ainda estou olhando para os pés da maca quando escuto sua voz.
— Você não deveria estar aqui. — ele diz simplesmente.
Deus! Ele tinha razão, eu não deveria estar aqui. Ele também não.
— Engraçado. — eu digo, me aproximando. — Se você não me queria aqui, deveria tirar o meu nome como seu contato de emergência. — ele olha para todos os lugares daquele quarto, menos para mim.
— Você é única que viria. — sussurra.
Eu esperei, mas ele continuou olhando para o nada. Como se estivesse vazio. Eu não sei como ele se sente, mas eu quero fazer com que ele se sinta melhor. Então coloco minha mão sobre a dele e aperto. Ele precisa saber que eu estou aqui, porque no final, eu sempre estarei. Não importa qual seja o fim.
— O que aconteceu? — pergunto.
Ele finalmente ergue seu olhar para mim. Então eu vejo. Ele tem um hematoma evidente ao redor do olho direito, algo entre o roxo e um tom estranho amarelado, como quem levou um soco. Está tão inchado e vermelho que eu mal consigo ver o azul que tanto me lembra o mar. Tem um rastro de sangue seco que saí do seu nariz e segue em direção a sua boca, onde existe um pequeno corte. Consigo ver outro corte na sobrancelha. Sua mão direita está com um tipoia e também tem resquícios de sangue nela. Seu cabelo está totalmente bagunçado.
E então, ele sorri. Me lembrando do porque eu estou aqui. Ele não tem mais ninguém. E eu preciso protegê-lo dele mesmo.
— Eu não tenho certeza. — ele diz se movendo para o lado, para que eu possa me deitar na cama junto com ele. Com certa dificuldade, passa o braço por cima do meu ombro e me puxa para perto, apoiando a minha cabeça sobre o seu peito. Ele resmunga um pouco, como um lembrete de que havia alguns ossos quebrados, provavelmente suas costelas. Eu me afasto um pouco, para que ele consiga respirar melhor. Ele se aproxima e deposita um beijo suave na minha testa, me fazendo fechar os olhos e me aconchegar mais. Eu me sinto em casa.
— Eu estou cansada. — eu digo mais para mim do que para ele, mas eu soube que ele ouviu quando seu corpo ficou rígido ao meu lado.
— Então você deveria ir para a sua casa. — diz secamente, se afastando de mim.
Eu entendi e me levanto, cruzo os braços na frente do meu corpo, como se isso pudesse me proteger de tudo o que seria dito em seguida.
— Quando foi que você começou a mentir para mim? — eu pergunto, não querendo realmente saber a resposta.
Ele solta uma risada debochada e com dificuldade se senta na cama.
— Do que é que você está falando Mackenzie?
— Você precisa de ajuda Zac. E por mais que eu queira, eu não sou a pessoa que pode ajudá-lo. Não é possível que você não consiga enxergar isso. — eu tenho certeza de que ele notou o tom de desespero na minha voz, mas eu não me importo.
— Eu estou bem. Porra! — ele passa as mãos pelos cabelos, bagunçando-os ainda mais. — Porque é que todo mundo continua me dizendo que eu preciso de ajuda? — ele pergunta exasperado.— EU NÃO PRECISO! — e me assusta quando sua raiva explode em um grito agudo.
Silêncio.
— Quando todo mundo te diz a mesma coisa, seria sensato da sua parte começar a prestar atenção. — me viro e dou dois passos em direção a porta, até que sua voz me fez parar.
— Onde você está indo? — ele pergunta.
E eu preciso reunir toda a minha força de vontade, para não me virar, correr em sua direção e dizer que está tudo bem. Que eu não vou para lugar algum.
Essa é a primeira vez que não tenho tanta certeza disso.
— Para casa. Me ligue quando tiver alta, eu volto para te buscar. — digo e sigo em direção a porta.
— Talvez eu ligue para a minha mãe. — ele diz quando eu coloco a mão sobre a maçaneta e a impulsiono para que a porta se abra.
Olho para ele sobre o ombro e para frente novamente antes de dizer. — Você sabe. Ela apenas mandará o motorista. Você pode escolher.
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