BEN 10: MULTIVERSO QUEBRADO
2 Aulas Infernais Parte 1 - Sensibilidade a Mana
INTRODUÇÃO
Na manhã seguinte as aulas de magia teriam início. Acordei às 4 da manhã ansioso pela minha primeira aula de magia, me troquei com qualquer peça de roupa que consegui sentir no guarda-roupa. Clara estava dormindo no meu quarto, por esta razão evitei acender as luzes para não a acordar.
Saio da escuridão do meu quarto e sigo pelo corredor iluminado que interliga meu quarto à cozinha.
Pode parecer que está tudo tranquilo vendo como estou tão calmo, mas a realidade é bem diferente. Por dentro estou quase enlouquecendo. O medo da morte me tira a paz. Cada momento pode ser o último. Não saber o que o futuro reserva me aterroriza. Tento me manter firme pela Clara, por este motivo me forço a acreditar nas palavras de Ben; acreditar que tudo vai ficar bem, que tudo o que precisamos é nos adaptar à atual situação e não perder a esperança. Desta forma vou me iludindo, fingindo que está tudo bem e esperando que tudo realmente esteja bem.
1 – CONVERSA COM A MÃE
Na cozinha, encontro minha mãe terminando de preparar a mesa.
A comprimento com o meu melhor sorriso.
— Bom dia, mãe.
— Bom dia, filho. Dormiu bem? — perguntou ela com um sorriso.
— Dormi, melhor impossível — menti. Apesar de a noite passada não ter tido tremores, ainda sim dormir não era algo simples para mim.
Tomamos nosso café em silêncio.
Achava que eu era bom em controlar minhas expressões e emoções, mas aparentemente na frente das mães é impossível ter segredos.
— Filho, está tudo bem? — perguntou minha mãe preocupada.
Senti como se tivesse levado um soco na boca do estômago. A intuição dela é assustadora.
— Claro, mãe. Por que não estaria? Só estou nervoso com minha primeira aula de magia. — Sorri da forma mais natural possível.
— Tem certeza?
Ela me olhou como se pudesse ver o que estava em minha mente. “Me pergunto se anoditas conseguem ler mentes. Espero que não” — pensei.
— Tenho, mãe. Não precisa se preocupar. — Respondi.
— Oliver! Fala a verdade. — Exigiu ela.
“Será que realmente ela não pode ler mentes? Tenho minhas dúvidas” — pensei novamente.
— (Suspiro) Pelo visto não consigo esconder nada da senhora, né?
— Não enrola, garoto. Desembucha.
— Ok, ok... — penso com cuidado no que vou dizer. — Sinceramente, não fui convencido pelas palavras de Ben. Acho que é irreal voltarmos a viver normalmente.
Mantive minha cabeça baixa, sem conseguir olhar nos olhos dela. Odeio me sentir impotente. Não poder fazer nada além de ver tudo desmoronar diante dos meus olhos era dolorosamente irritante, muito além do que possa imaginar.
Já faz mais de três semanas desde que tudo começou a dar errado. Os dias parecem mais longos enquanto estou trancado neste bunker. Sem poder ver a luz do dia, minha identidade pessoal vai desaparecendo. Tenho saudades de ver o luar, e das noites estreladas de domingo com a Mavis. “Me pergunto se ela está bem.” Mavis sempre foi uma garota forte, mas não consigo deixar de me preocupar. Mesmo que tudo esteja calmo, e os tremores tenham se tornado uma parte do nosso cotidiano, o fato de que variáveis como a queda brusca de temperatura da última vez ainda existam me assusta.
— Oliver, o que as palavras de Ben soaram para você? — perguntou minha mãe enquanto retirava a louça.
— ...Soaram como os últimos suspiros de um herói que perdeu seu poder. Palavras desesperadas ditas da boca para fora e sem nenhum planejamento. — Respondi.
— Sério? Foi assim que pareceram para você? “Os últimos suspiros de um herói”. Entendo. Para mim, soaram como algo totalmente diferente. Soaram como um herói que não desiste até dar seu último suspiro, que se mantém firme e inabalável mesmo diante do desespero. Foi assim que aquelas palavras soaram para mim.
— Você realmente acredita no que está dizendo, mãe?
— Filho, você tem que entender que o que faz do Ben 10k o Ben 10k não é o Omnitrix, mas sim o Benjamin Kirby Tennyson. É ele o núcleo desse herói que você tanto ama. Não importa se Ben está com o Omnitrix, ele ainda vai salvar quantas pessoas for possível, porque é isso que os heróis fazem.
Deixei escapar um leve sorriso ao ouvir as palavras de minha mãe. Percebi naquele instante o quão pouca era a confiança que eu tinha no homem que já salvou esta Terra inúmeras vezes.
— Obrigado, mãe. Acho que posso depositar minhas esperanças no meu herói novamente.
— Fico feliz em ter ajudado.
2 – CHEGADA À OFICINA
Após o café, seguimos para o cômodo n°4, que fica ao lado do meu quarto.
Cada cômodo do bunker possui uma numeração acima da porta que vai de 1 a 10. Não sei o motivo disso, mas acho que foi ideia do meu pai.
Aquele cômodo parecia bem desgastado. Havia lodo e musgo por todo o lugar, tanto nas paredes como no teto. O chão parecia estar limpo, provavelmente foi limpo para a aula de hoje.
— O que aconteceu com este lugar? — perguntei, olhando ao redor.
— Esse lugar era uma oficina — declarou minha mãe. — Seu pai mandou construir este bunker com o intuito de dar vida às suas ideias. Mas depois que o projeto da oficina n°4 se tornou perigoso demais, ele desistiu da ideia e deixou o bunker como um escape de emergência.
— Bom, ele cumpriu bem esse propósito — comentei, ironicamente. — Que tipo de projeto era esse para deixar tudo nesse estado? Parece até que houve uma inundação.
Ela deu uma breve risada antes de responder.
— Seu pai era meio infantil quando jovem e colocou na cabeça que iria construir uma máquina de teleporte não importando o custo. Chegou ao ponto de descobrir uma nova liga metálica só para continuar o projeto. Mas ele não parou só com isso. Seu pai, com a ajuda do senhor Max, viajou para outros planetas em busca de materiais. E foi lá em Kylmyys, o planeta dos necrofriggianos, onde ele encontrou o material que o ajudou a solucionar o problema de superaquecimento do teleportador — uma substância tão fria que foi capaz até mesmo de manter seu pai bem em planetas com altas temperaturas como as de Pyrus. A oficina n°4 como um todo foi revestida com esta substância. Seu pai a chamou de friggia, em homenagem aos necrofriggianos. Por consequência do frio e da umidade que o friggia gera, a oficina ficou assim.
— Os feitos do papai são incríveis, principalmente viajar para outros planetas. Como eu nunca soube disso?
— Seu pai evita tocar no assunto. Mesmo que o projeto tenha sido um sucesso, a máquina foi mantida em segredo do resto do mundo por ser perigosa demais caso caísse em mãos erradas.
— Entendi... Podemos começar as aulas? — perguntei.
“Queria saber mais sobre esta história, mas tenho a sensação de que minha mãe vai ficar chateada se eu der mais importância a isso do que às aulas de magia” — pensei.
— Vamos começar agora mesmo — concordou ela com um sorriso.
3 – INÍCIO DA PRIMEIRA LIÇÃO
Nós nos sentamos no chão, no centro daquele cômodo frio, de frente um para o outro. Ela me encarava séria, como se estivesse me avaliando. Nunca vi minha mãe assim, mas confesso que é assustador. Ela exalava uma imponência avassaladora.
Ficamos cerca de um minuto olhando nos olhos um do outro antes de ela quebrar o silêncio.
— Presumo que saiba o básico sobre a mana e a magia. Certo?
Sua voz estava cheia de autoridade. Percebi pelas suas palavras que, deste momento em diante, não sou mais seu filho, mas sim seu aluno, e que ela não pegaria leve comigo.
Não entendo o porquê, mas isso me deixou empolgado, como se uma corrente elétrica percorresse todo o meu corpo. Tenho a impressão de que os próximos dias serão bem divertidos.
— Sim — respondi com confiança.
— Ótimo. Então podemos pular a introdução.
(Para quem está lendo isto e não sabe o que é mana ou magia: a mana é a energia vital presente em tudo no universo, tanto em seres vivos quanto em objetos inanimados, desde uma pedra simples a um vasto oceano. E a magia é um dos meios para manipular a mana.)
— Vamos começar a primeira aula aprendendo a sentir a mana ao redor. Feche os olhos e concentre-se nas coisas ao seu redor. Use seus outros sentidos para sentir a mana que está presente no oxigênio que respiramos, nos sons, nas paredes e em mim e você. Você tem doze horas. Não vai comer nem beber até conseguir sentir a mana. Entendeu? — perguntou ela com firmeza.
— Sim — respondi.
Fechei meus olhos e me concentrei nos outros sentidos.
4 – PROGRESSO NA MEDITAÇÃO
{3 horas desde o início da aula.}
Os músculos das minhas pernas estão doloridos por passar tanto tempo na posição de meditação. Meus sentidos agora estão ligados no 220, mas mesmo assim ainda não consegui sentir a mana.
{6 horas desde o início da aula.}
Minhas pernas estão dormentes. Comecei a ouvir com mais nitidez os sons à minha volta: a respiração da minha mãe, as batidas de nossos corações e o som estridente do duto de ventilação em oscilação constante. O frio e a umidade no ar irritavam minha pele. Estranhamente, os cheiros pareciam ter desaparecido. Foi aí que comecei a sentir algo diferente — um forte aroma adocicado entrou em minhas narinas, diferente de tudo que senti antes. Era suave como a brisa da manhã em um dia nevado, ao mesmo tempo violento e autoritário. Decidi focar totalmente no meu olfato a partir daí.
{8 horas desde o início da aula.}
Percebi, depois de duas horas focando inteiramente no sentido do olfato, que tudo neste mundo, desde seres vivos a objetos inanimados, possui cheiros característicos. Minha mãe tem um cheiro calmo e leve que me lembra o mar num dia ensolarado (era aconchegante). As paredes, teto e chão da oficina tinham o mesmo cheiro do ar frio e da umidade à nossa volta — suave e, ao mesmo tempo, violento, como se fosse me congelar a qualquer instante.
Abri meus olhos convicto do que eram aqueles cheiros. Eram a própria mana.
— E então, conseguiu? — perguntou minha mãe ao ver que eu abrira os olhos. Sua voz era fria e sem emoção.
Respirei fundo, sentindo o cheiro da mana à minha volta.
— Sim — respondi com um sorriso.
— Excelente. Agora me diga o que sentiu e como é ver o mundo nessa nova perspectiva.
— Consigo sentir o cheiro da mana em pessoas e objetos, e identificar se são fortes ou fracos dependendo do cheiro ou da intensidade dele. Quanto à perspectiva... bom, é estranho, não sei como explicar.
— Está tudo bem. Isso é o bastante. Já é bem impressionante você ser um irregular. Agora vamos almoçar e depois continuamos — sua voz havia voltado ao normal e parecia estar feliz.
— Sim — concordei. “Estou um pouco curioso sobre o que é um irregular, mas deixarei para depois” — pensei.
5 – ALMOÇO COM A FAMÍLIA
Na cozinha, uma atmosfera acolhedora preenchia o ambiente, enquanto Clara e meu pai conversavam e riam tranquilamente, fazendo contraste à atmosfera sombria das últimas semanas. Os sons das risadas de Clara ecoavam pelo cômodo, dando um brilho único ao local.
— O que aconteceu para estarem tão alegres? — perguntou minha mãe, um sorriso caloroso estampado em seu rosto.
Ela puxou a cadeira ao lado de seu esposo e se sentou, dando um beijo em sua bochecha, o fazendo sorrir sem jeito.
— O papai me contou que o tio Ben uma vez pintou o cabelo de rosa porque perdeu um jogo de futebol — disse Clara, ainda rindo.
— Isso eu queria ter visto — disse eu, montando meu prato.
Fomos sugados por aquele clima acolhedor como um ímã atrai o metal. O cheiro do almoço adentrou em nossas narinas, intensificando a sensação de aconchego.
Comemos e conversamos distraidamente, deixando para trás, por um momento, todo o caos das últimas semanas. Parecíamos novamente aquela família feliz de antes.
— E então, como foi sua primeira aula de magia? — perguntou meu pai, depois que Clara voltou para seu quarto. Seus olhos, cheios de expectativa, me observavam.
— Foi bem... um pouco cansativa — reclamei — mas consegui concluir a primeira tarefa.
— Sério? Se bem me lembro, a primeira tarefa era...
— Sentir a mana — completou minha mãe enquanto lavava a louça. — Ele chegou perto de bater meu recorde, conseguindo em 8 horas e 3 minutos. Sem contar o fato de ele ser um irregular.
— Muito bom, muito bom. Já sabia que você era talentoso para os negócios quando te coloquei para administrar o armazém do leste. Mas conseguir sentir a mana em só 8 horas, e ainda por cima com um sentido de mana irregular... Isso é bem impressionante para um meio-anodita — disse meu pai satisfeito.
— Esse tempo é tão impressionante assim? E o que é esse negócio de irregular? — questionei.
Meu pai deu uma leve risada ao ouvir minhas perguntas.
— Oliver, anoditas puros normalmente levam um dia inteiro para sentir a mana. Você levou ¼ desse tempo. Além disso, você sente a mana de forma bem rara entre os anoditas. Os irregulares focam somente em um único sentido, ampliando esse sentido e diminuindo o desgaste mental. Para eles, é quase como respirar.
— Isso significa que já posso ir lá fora? — perguntei esperançoso.
— Vai sonhando, pirralho. Sua mãe é quem vai dizer se você está pronto ou não — disse ele em tom definitivo.
Olhei para minha mãe com olhos suplicantes, como um cachorrinho pidão.
— Não me olhe assim — disse ela, desviando o rosto. — Você só vai sair quando eu tiver certeza de que pode se proteger sozinho.
— Mas mãe! —
— Sem mais, Oliver. Isso é para sua segurança.
— Tudo bem — concordei em desistência.
Descansei pelo resto da tarde, pois a próxima aula seria só à noite.
FINAL – SEGUNDA LIÇÃO DE MAGIA
Com o cair da noite, a antiga oficina do meu pai se tornava cada vez mais fria. A sensação térmica chegava próximo aos 10° negativos. O ar congelante castigava brutalmente minha pele — não me foi permitido o uso de nada além de uma bermuda azul-clara assustadoramente fina para essa aula.
— Q-qual a razão de termos a-aula nessa ofici-cina fria? Con-congelar mi-mi-minha alma po-por acaso? — gaguejei, meus dentes rangendo com frio.
— Você não queria sair logo para a superfície? Essa aula é um dos meios que te levará lá para fora — disse minha mãe com a mão cobrindo a boca, segurando a risada. Ela vestia uma calça de algodão bege e uma blusa preta simples.
— C-como exatamente m-morrer congelado v-vai me ajudar?
— É bem simples: você só precisa controlar a temperatura da mana no seu corpo.
Isso explica ela estar bem mesmo com roupas tão finas nesse frio.
— Mais fácil f-falar do que fazer — retruquei. — N-não consigo me c-concentrar com esse f-frio.
— Sei que consegue — disse ela, colocando a mão no meu ombro. — Só precisa se esforçar um pouco mais.
— O-ok — respondi.
— Então boa noite, filho. Te vejo amanhã.
Minha mãe se vira e caminha em direção à porta. Com cada passo que dava, uma espécie de vapor saia de debaixo dos seus pés. Parecia emanar calor de todo o seu corpo.
— E-espera, e-eu vou passar a-a noite toda nesse q-quarto frio? A-ainda s-são 6 h-horas!
Ela olhou para mim com um sorriso travesso nos lábios.
— Está proibido de sair da oficina enquanto não concluir a lição, mesmo que dure a noite toda — disse ela, se virando para a porta.
Ela saiu da oficina e trancou a porta no processo.
E é desta forma que se inicia minha segunda lição de magia: quase morrendo congelado em uma oficina abandonada por Deus, tendo que aprender na marra como sobreviver nesse frio intenso, vestindo nada além de uma bermuda ridiculamente fina.
Aulas realmente infernais.
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