BEHIND HIS SMILE

2 Capítulo 2 - O Chai


Já batiam 20h30. Eu já tinha preparado a roupa e estava tomando banho. O dia tinha passado bem rápido, depois da praia fui fazer uma refeição leve no restaurante do hotel e fui para o quarto. Assisti um filme qualquer, mas acabei pegando no sono. Foi um dia de descanso, como se aquilo que tinha acontecido na praia nunca tivesse acontecido. Eliad Cohen havia simplesmente saído da água e me chamou para sair hoje à noite. Essa foi uma das coisas mais inesperadas que me tinha acontecido. E tudo em um curto espaço de tempo. Já me belisquei muitas vezes pra saber se não era um sonho delirante, em que acordava com a certeza de que dias como aqueles não existiam. Mas não era um sonho. E sim, dias como hoje existem. E eu estou vivendo um.

Ainda estava tomando banho quando ouvi alguém tocar a campainha do quarto. Não lembro de ter pedido serviço de quarto. Enrolei a toalha na cintura, passei a mão no cabelo molhado e fui abrir a porta. O.k., nós dois ficamos surpresos. Eliad estava na minha frente, com uma blusa social que valorizava seu físico, calças e sapatos pretos sociais. Resumo, todo em social. A camisa estava com alguns botões abertos, deixando o pingente de alguma significância judaica à vista. Ele sorriu pra mim.

— O.k., pode parar de me analisar — riu. Não sei quanto tempo o fiquei observando. Ao perceber que fiquei desconcertado, ele perguntou — O que achou? Fico bem com esses sapatos?

Minha expressão de "poupe-me" o faz rir.

— Sério que você me perguntou isso? Você vem todo arrumado, lindo para ser mais direto e me pergunta se ficou bem com os sapatos? — Olho para os sapatos e acabo confirmando — Quer saber, você realmente ficou bem com esses sapatos.

— Obrigado. — Ele olhou por cima do meu ombro. — Eu posso entrar?

— Eu ia pedir isso, mas obrigado pela educação. — Digo me curvando e fazendo reverência para que ele entre. Ele riu e se sentou num sofá. Ao ver a sacada, se levantou rapidamente e exclamou:

— Não acredito nessa vista! — Ele se virou pra mim com a boca aberta e caminhou em direção à varanda. — Que vista maravilhosa! Não sabia que esse apartamento tinha uma vista assim!

A vista era realmente linda. Ao longe havia um penhasco, que dava diretamente para o mar. A ressaca de águas azuis claras espumava ali, o céu estrelado e a lua refletindo sua luz branca na água. A maresia era deliciosa.

O deixei apreciando a vista e voltei para terminar de me arrumar. Minutos depois o ouço chegar perto da porta do quarto, e abri-la.

— Eliad?

— Oi?

— Por que abriu a porta? — Pergunto, pondo a cabeça pra fora do box.

— Ah, ficar sozinho na sacada é ruim, abri a porta pra conversar enquanto você se arruma.

É engraçado perceber o quão comum uma pessoa considerada famosa pode ser. Ele estava sentado em um banquinho de madeira na frente da porta, e eu estava me arrumando na suíte.

— É então, Sr. Fontes, o que você faz da vida? Com o que trabalha? — Pergunta, espontâneo.

— Bom, eu sou herdeiro da empresa da minha família. Mas sou formado em Música. Soa inútil, né?

— Quando música for inútil, me avisa, porque de inútil não tem nada. Acho interessante.

— Ah, mas não é nada de muito prestígio — Saio do banheiro já vestido com a calça e sapatos. Visto a blusa e Eliad se levanta.

— Deixa eu te ajudar.

Ele para na minha frente e começa a abotoar vagarosamente a camisa. Ele olha pra mim e sorri. Um arrepio percorre a minha espinha, uma sensação ótima.

Depois de ter terminado de abotoar a camisa, começou a abotoar as pontas das mangas.

— Mas esse negócio de família é importante? — Ele passa os botões pelas casas instantaneamente, como se já tivesse feito aquilo milhões de vezes.

— Sim, vem de muitas gerações passadas. Controlamos grande parte do ramo de produtos alimentícios, domésticos, tudo.

— Então vocês tem bastante influência? — Ele termina, pega o meu paletó azul escuro na cama e o estende pra que eu possa vesti-lo.

— Sim, de uma forma bem considerável.

— Hum, imaginei. Ele sorri pra mim e se afasta, me analisando de cima abaixo. — Você está maravilhoso. Então, vamos?

— Claro, vamos lá.

Caminhamos até o final do corredor, onde fica os elevadores e então ele segura minha mão e não larga. Entramos nos elevador, sozinhos e ele continuou segurando minha mão. A mão dele é de um tamanho normal, mas que se encaixa perfeitamente na minha. É quente, macia e firme. Ele olha pra mim e me lança uma piscada. O elevador chega ao estacionamento subterrâneo e caminhamos através das fileiras de carros até um Mustang antigo, mas totalmente reformado e novo. Entro no veículo estupefato com a máquina. Uma maravilha da velocidade.

— Uma beleza, não é? — Ele diz acionando o motor girando a chave. Ele pressiona o pedal do acelerador e sorri. Ele acelera e saímos da garagem.

***

Já deveria ser umas 22h00 e ainda estávamos a caminho do local. Estávamos no litoral, as ondas se quebravam a minha esquerda e à minha direita vários barzinhos e casas de show estavam iluminados com néons e holofotes.

Depois de procurar por vaga para estacionar e achar uma bem longe, saímos do carro. "Bom, casas noturnas. Se for onde ele vai me levar tudo bem. Só não acho um local adequado. Mas está tudo bem. Não vou ser exigente." Pensava comigo mesmo.

Ele deu a volta no carro apressado e abriu o porta-malas.

— O que foi, algum problema no carro? — Pergunto ao ver à pressa com que procurava algo.

— Não, o carro está bem. — Sua voz estava meio sufocada por conta do acústico do porta-malas. Quando ele se levantou, tinha um lençol dobrado em um dos braços e velas no outro. — Vem.

Ele começou a caminhar em direção a praia e quando achou um local seguro, estendeu o lençol, cavou alguns buracos ao redor e fixou as velas ali . Depois as acendeu. Fiquei surpreso com a criatividade. E pensar que eu tinha suposto que iríamos para alguma casa noturna ou um bar.

— Espera só um momento — ele ligou para um número eram seu celular. — Alô? Frederico? Já pode trazer, o.k.? Muito obrigado. — Disse em um italiano quase natural.

— Estou perdido nessa história — comento. — Quem é Frederico?

— Calma, não quero estragar a surpresa.

Então, no começo da praia, uns três garçons caminhavam em nossa direção com bandejas. Olhei para ele, incrédulo e ele apenas riu.

Ao chegarem, colocaram as bandejas na nossa frente no lençol branco e retiraram a estufas reluzentes.

— Meu Deus, não esperava por isso! — Digo, rindo. Não sei que pratos eram, mas sei que havia tanto carne quanto coisas naturais. Era bastante coisa.

— Eu pedi que trouxessem os melhores pratos — Ele disse, coçando o pescoço, um pouco sem jeito. — Eu não sabia se comia carne ou não, então eu decidi ser precavido e pedi tantos pratos comuns quanto vegetarianos.

Eu sou vegetariano. Isso me assustou. Onde acaba essa perfeição toda? Não que eu queira que acabe, mas é muito surreal.

— Ah, Eliad — olho para ele, agradecido — , muito obrigado mesmo, porque eu sou vegetariano. Estou em dívida com você.

Ele balançou a cabeça, reprovando o que eu disse.

— Se você tem alguma dívida comigo, ela já está sendo paga com você aqui, e com esse seu sorriso que deixa noite muito mais bela. — Ele retribuía o olhar que eu lançava. E o sorriso também. Aquilo era incrível. — Vamos comer antes que esfrie.

No final ele acabou pedindo para os garçom levarem os outros pratos que não fossem vegetarianos. Comemos um pouco de cada prato e eu poderia dizer que estava fantástico. Não sabíamos os nomes dos pratos, então os apelidamos de acordo com aparência e gosto. Um era um enrolado de massa crocante e leve recheado com tofu, vulgo "Abrace o Tofu". Outro eram batata, tomate, pimentão e rúcula, com um molho doce e cítrico. "Maravilhoso", mas depois descobrimos que era ratatouille. O último era sorvete, obviamente, de limão cercado com o que parecia uma coroa de biscoito. Meio esquisito, mas estava ótimo. "Cabeça do Rei", e fez bastante sentido. Pelo menos para nós dois.

Enquanto provávamos os pratos, conversávamos e quando terminamos, ele pediu que Frederico (o chef de um restaurante prestigiado que ficava bem ali em frente à praia) mandasse a melhor garrafa de vinho que tivesse.

O garçom despontou caminhando na areia, trazendo uma bandeja nas mãos com uma garrafa e duas taças. Deixou na areia perto de Eliad e recolheu as outras bandejas, saindo em seguida.

Enchi duas taças e bebemos daquele vinho maravilhoso. Eu não sabia o nome, mas sabia que era antigo, obviamente. Ficamos bebendo e aos poucos a garrafa foi esvaziando. Quando servimos as duas últimas taças, terminando definitivamente o conteúdo da garrafa, eu me encontrava deitado com a cabeça encostada no peito nu dele. Ele olhava profundamente para o mar e parecia refletir.

— É lindo, não acha? — Comentou.

— O quê? O mar? — Pergunto.

— Em parte sim. Mas me refiro mesmo a força de vontade que vejo no mar.

— Como assim? — digo aconchegando minha cabeça no peitoral dele. O coração batia forte.

— Eu vejo as ondas chegarem até a areia como se o mar buscasse alcançar algo aqui na areia. Como se fosse algo precioso. Até mesmo um...

— Um amor — concluo. — Faz sentido o mar estar apaixonado. Podemos estar observando uma paixão muito antiga.

Ele riu docemente e senti as vibrações em seu peito. Ele se deitou e me ajeitei, enquanto ele passava a mão pelo meus cabelos. Algo frio encostou na minha testa e percebi que era o cordão que ele sempre usava. Era algo em hebraico, mas parecia o símbolo pi. Segurei entre meus dedos.

— O que significa? — Pergunto, observando o pingente dourado. Com certeza era de ouro puro.

— Isso é um Chai — Respondeu. — Meus pais me presentearam com esse cordão quando eu tinha meses de vida, pois confiavam que eu seria alguém especial. Mas o maior significado que ele tem pra mim é que carregá-lo me lembra de minha terra, de Israel. Um símbolo do meu orgulho pelo meu país.

— Isso é lindo — sorrio para ele.

Então levanto e começo a tirar a minha roupa, ficando só de cueca, e começo a caminha em direção ao mar.

— Aonde vai? — Eliad pergunta.

— O mar está me atraindo — digo, rindo. — Vem comigo.

Estendo a mão e ele segura, levanto-o e ele começa a tirar a roupa. Corro para a água, e olhando por cima de meus ombros percebo que estava logo atrás de mim.

Quando a água já bate em minha coxas, mergulho e nado metros à frente. Quando volto à tona, vejo a silhueta musculosa de Eliad debaixo d'agua. Avanço mais e quando volto a emergir, não vejo Eliad. Olho para todos os lados e subitamente ele emerge, na minha frente. Nossos rostos se encontravam a meio palmo de distância. Ele segurou minha cintura de forma suave e firme. Passei minhas mãos em suas costas, sentindo os músculos definidos que envolviam as omoplatas. Ele passou a outra mão em meu rosto e segurou levemente minha nuca. Se aproximou e me beijou.

Os lábios dele eram suaves e doces, cheios de desejo, a barba roçando no meu rosto, também com a barba por fazer. Ele se afastou para olhar em meus olhos e sorriu.

Me aproximei e retribuí o beijo. Ele parou de beijar meus lábios, e desceu pela minha garganta, até meus ombros, beijando delicadamente. Cada vez que descia, um arrepio percorria a minha espinha loucamente. Uma sensação ótima. Depois de ficarmos por ali alguns minutos, decidimos voltar para a praia. Recolhemos nossas roupas, o que havia sobrado das velas e dobramos o lençol. Eliad chamou o garçom, pediu para que agradecesse a Frederico e agradeceu ao garçom pelo serviço prestado. Pagou até a mais do valor estipulado e o garçom saiu satisfeito.

Colocamos o lençol e as velas dentro do porta-malas. As roupas ficaram nos bancos de trás. Não havia necessidade vestir as roupas, estávamos bem daquele jeito.

Eliad acionou o motor, segurou minha coxa esquerda e sorriu pra mim. Se aproximou e beijei ele, de forma profunda e cheia de desejo. E logo estávamos em direção ao hotel.

Ao chegarmos ao hotel, tiramos as coisas do porta-malas e as nossas roupas. De cueca, atravessamos o lobby do hotel e ficamos esperando o elevador. Muita gente nos observava, mas não estávamos ligando. O elevador subiu e estava vazio.

Entramos no elevador e o empurrei contra uma das paredes espelhadas. Segurei em sua cintura, ele fez o mesmo e ficamos olhando um nos olhos do outro.

— Eu poderia olhar em seus olhos por dias, meses, anos. Uma eternidade. — Ele sorriu e me beijou, apenas parando quando chegamos ao sétimo andar. Entramos no meu quarto, deitamos na cama e por conta do cansaço, dormimos. Ele estendeu seu braço por trás da minha cabeça e me senti aconchegado. Ele se aproximou mais, sua respiração esquentava minha orelha. Com seu braço envolvendo meu peito e puxando meu corpo para perto dele, ele sussurrou e meu ouvido "Boa noite" e caí em um sono sem sonhos. Nem precisava, o dia já tinha sido surreal demais. Entrelacei meus dedos em sua mão sobre meu peito e adormeci.

Notas finais
Próximos capítulos vão ter mais ação, prometo rs ;) .
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.