Bônus Club

1 Cartel dos Santos


Notas iniciais
O enredo não se passa numa data específica; boa leitura.

A gravata incomodou: parecia sufocá-lo. Aliás, existia coisa mais inútil? Era como ter uma língua de sapo enrolada pelo colarinho, se esticando pelos botões. Camisa alugada, calças sociais, sapatos lustrados. Mantinha pelo queixo uma grossa camada de barba, a qual não raspava há dias, falhada e jovial.

Encostava a nuca sobre as persianas, sonolento, estirado sobre o banco de espera. Não era pecado dormir, hipnotizado pelo tédio: apenas um erro trivial, visto seu currículo invejável. Quem rejeitaria dar a ele a vaga de emprego, disputada pelos melhores profissionais? Ninguém em sã consciência.

Dispersos pelas banquetas, outros três recém-formados aguardavam pela chamada, ansiosos. Pobres crianças, iludidas. A vitória estava no papo. E ele cochilou, seus olhos verdes inteiramente cobertos pelas pálpebras.

— Senhor Jorge Figueira? Senhor? – convocou uma voz, vinda do término do corredor.

Continuou adormecido; suspirou profundamente, enquanto o cabelo oleoso despencava sobre as sobrancelhas.

— Senhor? – e a dona do chamamento se aproximou; seu salto bicou o piso.

Abrindo os olhos, revigorado, contemplou o rosto da secretária, que, tão obstinada, impedia seu sono. Que fosse. Jorge Figueira, por enquanto, era seu nome, e ele precisava se orientar pelo que mandava a cartilha.

— Sim? – ele respondeu, forçando um breve sorriso.

— Poderia vir comigo? – pediu a secretária, que voltou pelo corredor.

— Claro – disse ele, brando.

Deixando os outros três candidatos à deriva, ele acompanhou a funcionária pela passagem, igualmente povoada por persianas. A claridade entrava em recortes, e cortês, ela indicou a porta pela qual ‘Jorge’ deveria prosseguir. Possuía uma maçaneta redonda, bege, a típica entrada de escritório.

Rangendo os trincos, ele adentrou o cômodo, examinando cada canto. Um bebedouro gorgolejava à esquerda; três estantes forneciam um confortável plano de fundo; e no exato centro da sala, uma escrivaninha, arrebatada por papéis, circundava uma engravatada.

A mulher digitava interminavelmente: dedos que se revezavam, nos arredores da caneta e teclado, ditavam o ritmo. De aproximadamente quarenta anos, usuária de óculos de leitura, ela trajava um gritante terno rosa, seu cabelo arredado num coque.

— Sente-se, por favor – ela ofereceu a poltrona frontal, séria.

O ar austero não foi o suficiente para lhe retirar a confiança: Jorge deu um risinho gracioso, ocupando o assento.

— Jorge Figueira, vinte e cinco anos. Prazer, meu nome é Carla. Você fez uma entrevista, aqui, nesse mesmo prédio, há duas semanas, não? – e a entrevistadora finalmente interrompeu o serviço, encarando-o e retribuindo um aperto de mãos.

— Sim. Preenchi o questionário, entreguei o currículo, e fiz a primeira entrevista – replicou ele, sem sinal de nervosismo.

— Certo – e ela desembaralhou alguns documentos.

Focada no que parecia ser uma carta, Carla parou por alguns instantes, matutando e coçando a bochecha. Após a pausa, realizou uma breve recapitulação.

— Universidade dos Reis: graduado em Química-cíclica, especialização em síntese carbonífera, e obtenção facilitada de combustíveis – e então, o rumo normal da conversa foi retomado. – Você tem noção de que, nossa empresa tem a maior rede de produção, dentro do mercado, relativa a combustíveis orgânicos? E que precisamos não só de empregados produtivos, como também de trabalhadores focados e amistosos?

— Sim, senhora, tenho perfeita noção das necessidades da companhia – assentindo, Jorge alisou a barba.

— Bom, eu não teria tanta certeza, se fosse você – retrucou Carla, mexendo em uma segunda papelada.

De lá, removeu um envelope.

— Esse é o seu questionário – ela tirou a folha, cheia de questões, do interior da pasta. – O item número três, caso não se lembre, sugere ao entrevistado que ele faça uma pergunta, como se a dirigisse ao contratador. Você se lembra da pergunta que escreveu?

— Creio que não. Sendo um item isolado, dificilmente eu me lembraria – disse Jorge.

Carla lhe lançou um olhar gelado, intimidante, e desafiou:

— A pergunta que você escreveu foi: quanto é o salário? – e ela esperou a reação do candidato, visivelmente irritada.

Jorge franziu a testa. Inesperadamente, tropeçou em algumas palavras, tenso.

— É uma pergunta pertinente. Caso você não saiba, o salário é o quanto arrecadamos por mês! – ele simulou raiva, como se estivesse descontente. – Não é uma falta grave querer saber esse tipo de coisa!

— Eu tomei isso como uma falta menor. Os problemas foram a chuva de erros ortográficos, e a arrogância e prepotência de algumas dissertações suas – Carla empurrou ambos currículo e questionário, como se o descartasse. – Não pude acreditar que alguém, tão mal-educado, seja um recém-formado, ainda mais de um centro de ensino renomado como esse.

Jorge estava lívido. A entrevistadora não deteve a prensa psicológica.

— Liguei para a Universidade dos Reis, e conferi o número de matrícula, passado pelo seu contato de recomendação, Professora Estela Muller – Carla encrespou os lábios, divertindo-se. – Seu registro, 171171-171, não é compatível com nenhum dado precedente. Ao pesquisar com cuidado, descobri que a professora que o recomendava também não é real.

O entrevistado sacudiu-se, pasmo. Levantando-se, às pressas, Jorge dava a impressão de ter presenciado uma assombração, ao passo em que se indignava. Tentou refutar as afirmações, mas as frases não fluíam com a clareza necessária.

— Minha única opção foi assimilar suas filmagens ao sistema policial, que anota registros de golpistas e afins. Você não é Jorge Figueira, e esse diploma e currículo foram forjados – ela matou a xarada, ordenando silêncio por parte do outro. – Você é Miguel Villa, um falsário de dezesseis anos.

Miguel prendeu a respiração. Não havia o que ser feito. Ele fora pego. Solenemente, travou o maxilar, esticando a palma esquerda: seus olhos regurgitaram lágrimas.

Sob outra perspectiva, era plausível observá-lo de outro modo: seu rosto era demasiado infantil, embora a pelugem já crescesse livremente, avizinhada do cabelo farto e castanho. Seu corpo era forte, e afrouxando a gola, desesperado, se assemelhou, ironicamente, a uma criança.

— Mil... Mil descul-culpas... Eu não pretendia... AH! Eu não tive outra escolha: eu não posso arranjar um emprego, e preciso alimentar minha irmã – ele praticamente se ajoelhou, grunhindo e implorando sobre o encosto do estofado. – Não chame a polícia, Carla, eu te peço!

A mulher estacou, curiosa.

— Eu não pretendia chamar a polícia. Se quisesse, poderia simplesmente não ter telefonado, e hoje você nem aqui estaria – cínica, ela se ergueu, abrindo uma gaveta. – O fato é: você é um “Canalha”.

O choro parou. Miguel, refeito, ergueu o nariz, frente a frente com a entrevistadora. Ao invés de se revelar frágil, a postura do golpista era agora proeminente, quase militar. A mudança de temperamento tornou óbvio: ele havia encenado o pânico e descontrole.

— Não é necessário fingir choro, ou tentar me ludibriar. Eu conheço bem a sua raça – desdenhou ela, ajeitando o terno rosa. – “Canalhas”. Usuários de droga ilícita, que, eventualmente, perderam o caráter e bom senso, e passaram a infringir a lei, abusando de pequenos delitos. Que tal um acordo, e ficamos quites?

— Um acordo? – Miguel se felicitou.

Embora o jovem não soubesse o passo seguinte, contanto que a polícia não fosse inserida na confusão, ele toparia qualquer procedimento.

Carla escancarou mais três gavetas, vasculhando pelos compartimentos; de um deles, tirou um disco de veludo. Parecia proteger, de forma circular e uniforme, um medalhão precioso ou gema rara.

— Eu não envolverei a polícia, e como recompensa, você leva isso com você – e rapidamente, ela lançou o recipiente ovalado para Miguel, que o agarrou. – Suma daqui. Nunca mais me procure.

Engolindo o orgulho, limpando a trajetória do pranto, Miguel Villa inspirou e cruzou rapidamente a saída de emergência, como se tivesse acabado de se meter numa perseguição. Carla ficou pelas imediações, pensativa, logo atrás da escrivaninha, e sorrindo maliciosamente.

Notas finais
Espero que tenham gostado, vou escrever mais depois. Paz pra todo mundo!