Bíblia dos Contos Proibidos.
3 A Casa Vazia.
Elísio, com seus 78 anos, tinha a rotina como um dos poucos pilares que ainda sustentavam sua vida. A casa de três andares, outrora cheia do riso de sua falecida esposa e dos netos que cresceram e partiram, agora era um santuário silencioso. O tempo parecia ter parado junto com o relógio de pêndulo na sala, suas engrenagens enferrujadas e o vidro empoeirado refletindo o passado.
Em uma noite de outono, o vento começou a uivar, e a chuva açoitar a janela da sala, que Elísio observava, sentado em sua velha poltrona. Um relâmpago clareou a sala por um instante, revelando a fisionomia cansada e os olhos que pareciam guardar memórias demais. Segundos depois, um trovão ressoou, e a energia se foi.
A escuridão, antes acolhedora, agora parecia ter vida própria. Elísio acendeu um lampião a gás, e a luz bruxuleante transformou as sombras da casa em monstros. Um arranhar persistente vinha do andar de cima, mas ele o ignorou, atribuindo-o ao galho de uma árvore que batia na janela. No entanto, o som parecia se mover, seguindo-o pela casa.
Ao passar pela sala de jantar, ele percebeu algo estranho. O porta-retrato da esposa, que estava de frente para a mesa, agora estava virado para a parede. A curiosidade se misturou ao calafrio, e ele o ajeitou, com a mão tremendo de leve. Em seguida, foi para a cozinha, onde encontrou uma xícara de porcelana, um dos seus jogos favoritos, quebrada no chão. Ele não se lembrava de tê-la derrubado, nem de ter ouvido o barulho.
A tensão aumentou quando ele retornou à sala. A mesinha de centro, onde havia deixado o jornal, tinha agora o lampião no lugar. O jornal estava em sua poltrona, dobrado de maneira perfeita. Ele esfregou os olhos, mas a cena não mudou. A solidão e a idade estavam finalmente cobrando seu preço. Ele começou a ter um diálogo interno, questionando sua própria sanidade. O mal que ele sentia estava na casa, ou estava em sua cabeça? O medo do sobrenatural foi substituído por algo mais profundo: o medo da loucura.
O terror atingiu o clímax quando ele ouviu um novo som, um que ele nunca pensou que ouviria em sua casa: o ranger de uma cadeira de balanço. O som vinha do porão, que estava trancado há anos, com a porta selada. Ele se aproximou, e o som parou. Ele se afastou, e o som retornou.
Ele sentiu um pânico avassalador e correu para o andar de cima, trancando-se no quarto. Ele esperou, tremendo, até que o som parou. Quando a tempestade finalmente passou e a luz voltou, ele saiu do quarto, exausto.
Ao chegar na sala, a cena era de normalidade. Tudo estava em seu devido lugar. Ele suspirou, aliviado, e sentiu algo em sua mão. Ele olhou para baixo e viu que estava segurando a aliança de sua esposa, que ele havia guardado em um baú no porão. O baú estava lá, em seu lugar, trancado. Ele olhou para o lampião, que estava em sua mão, e o jornal, que estava em sua poltrona. Ele mesmo havia movido as coisas, sem perceber, em meio ao delírio da escuridão.
O terror não vinha de fantasmas ou de demônios, mas do vazio em sua mente e da solidão da casa que, aos poucos, engolia as últimas faíscas de sua sanidade.
Fale com o autor