Azul para Carmesin
2 Seasons in the sun
Notas iniciais
Percebi, quase dez minutos depois, que havia adormecido dentro do ônibus, Minha testa bateu contra o vidro e levei alguns segundos para me situar. Trouxa.
Meus olhos ganharam foco e percebi que estava a dois pontos de casa, levantei apressada e esperei chegar minha à parada recostada à uma das bases perto das portas traseiras. Uma parada antes da minha, o garoto ruivo desceu, suspirei sem dar muita importância à ele que, quando passou por mim disse: — Hey, cabelo legal.
Apressei os passos quando percebi o quão escura estava a rua em que morava, quando finalmente em casa, ouvi minha mãe reclamar por quase quinze minutos sobre como a casa andava vazia depois de Marcelo.
Já fazia oito meses desde a morte do meu irmão mais velho e inevitavelmente, todos os dias minha mãe falava sobre aquilo. Marcelo havia sofrido um acidente de carro quando voltava da faculdade, depois de duas semanas na UTI, recebemos a notícia de sua morte. Rafael, que estava no carro com ele, não durou tanto quanto meu irmão, estava morto antes mesmo de chegar ao hospital. Mamãe sempre dizia que estava cometendo o maior dos erros em namorar o melhor amigo do meu irmão, pois cedo ou tarde o fim de nosso relacionamento acabaria com o deles. No fim das contas, a morte deles acabou comigo. Desde então, nada foi como antes.
Saí do banho encarando minha imagem cansada no espelho, estava mais pálida do que me lembrava, meu cabelo estava mais desbotado do que devia, o azul escuro estava se tonando esverdeado em alguns lugares e cinzento em outros, mas eu não conseguia ânimo para retocar.
Me meti em roupas de dormir e comecei a responder a lição de casa, apesar de história ser minha matéria preferida, estava cansada e cheia de preguiça então apenas liguei o computador e comecei a pesquisar pelas respostas.
***
Cerca de três meses se passaram, estava começando a aceitar que me daria mal em matemática, e química não ia bem tampouco. Tentava lembrar as respostas que devia ter dado na prova enquanto caminhava para casa.
Mamãe estava rindo, pude ouvir mesmo antes de entrar, e quando o fiz, lá estava ela emaranhada com os filhotes que havia comprado, se bem que eles já não pareciam filhotes há muito tempo. Nós os tínhamos desde a morte de Marcelo, e eram a única coisa que podia fazer minha mãe sorrir sinceramente desde então.
À noite, saí para passear com o par de Golden Retrivers, prendi meu cabelo em duas tranças que brilhavam num azul recém retocado e quase quatro ruas para cima eles começavam andar mais rápido do que podia controlar e assumi que não devia continuar passeando com os dois assim que percebi não ter ideia de onde estava.
— Hey Sol, para, hey – Tentei Puxar uma das coleiras, mas logo os dois estavam atraídos por um gato que escalava um muro qualquer.
— Oh não! Por favor, Volta dourado, vem – Puxei as coleiras com mais força, mas só fez minhas mãos doerem.
— Isso não está ajudando – A voz soou calma, mas divertida – Você precisa ser mais dura com eles.
— Dura? – Franzi o cenho olhando para trás, encarei confusa o garoto que falava comigo com a sensação de que já tinha o visto e então lembrei do encontro no ônibus há alguns meses. Ele riu quando os cachorros puxaram outra vez e eu quase caí.
— Fale com eles como se estivesse com raiva, sabe?
— Bem, eu estou – Disse finamente conseguindo afastá-los da calçada, e quase não acreditei quando eles retomaram a caminhada natural enquanto eu, tentava lembrar o caminho de casa.
Percebi que nos próximos cinco passos, o garoto caminhou comigo, levantei os olhos para ele mas logo os afastei.
— Eu não te conheço? – Ele se inclinou para olhar meu rosto, e sorriu.
— Não – Respondi de prontidão.
— Eu me chamo Lucas – Ele abriu um sorriso para mim estendendo a mão. Olhei para sua mão pairando no ar, e então para as minhas enroladas nas correias, e apenas lhe ofereci um sorriso forçado. Ele estava diferente da última vez, usava uma touca que deixava ver pouco de seu cabelo alaranjado, e parte de seu antebraço direito estava preenchida por uma grande tatuagem, Era um sol, sobreposto por uma ave de asas abertas, e mais embaixo, algo que lembrava a vela de um grande navio. O pássaro era a única parte colorida, em tons de violeta, azul e amarelo. Era uma peça recente ou eu só não a havia percebido antes?
— Nome legal, tenho que ir – Respondi ainda me afastando, ele parou de me seguir e pouco tempo depois ergueu a voz:
— E você, como se chama?
— Atrasada – Gritei correndo no mesmo ritmo em que os cachorros, esperando que eles soubessem melhor do que eu o caminho.
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