Azul

1 Ônibus Maldito!


Notas iniciais
E aí, gente. Tudo bem? Tô sem criatividade para postar TBP, então estou postando essa história, enquanto tento me encontrar. É isso, beijos ;)

Luciana olhava atentamente a janela ao seu lado. Não, ela não tinha nenhum interesse no que se passava através da abertura do ônibus. Tudo o que a jovem queria era esconder o rubor em seu rosto toda vez que via a moça loira passar pela catraca, colocando-se sempre no mesmo lugar, a mesma pasta debaixo do braço.

— Vai uma água aí, dona? – perguntou um ambulante, enfiando a garrafa de água pela sua janela. Negou com a cabeça ao tempo que revirava os olhos pelo ato.

Naquele horário, ainda não havia baixado a gentileza e paciência que tinha pelo resto do dia. Odiava mais que tudo falar algo cedo, e odiava ainda mais quem a forçava a fazer isso. Sua mãe sempre dissera que ela era bicho do mato. E Luciana nunca negara, porque sabia que podia parecer horrivelmente mal educada.

Eram exatamente seis e quinze da manhã.

Não se sentia cansada, como a maioria ali. Alguns dormiam em pé, outros apoiavam o rosto na janela, uma parcela dormia com a testa encostada no encosto da cadeira, e outros apoiavam a cabeça no ombro de alguma pessoa, e esse era o caso do desconhecido ao seu lado, sentado no lado do corredor. Colocara o headphone, ignorando o ronco do abusado ao seu lado.

Diferente da maioria ali, Luciana adorava acordar cedo, tomar banho gelado e sentir o frio da madrugada escura e solitária no caminho do ponto de ônibus.

Trabalhava em uma escola no centro, às 7h30 da manhã, mas sempre saía de casa às 5h30 da manhã para não chegar atrasada, porque era a maluca da pontualidade.

Além da disposição de acordar cedo, havia mais um motivo para pegar o ônibus das seis. Na terceira parada, exatamente às seis e quinze, subia a moça que ela costumava observar. Podia não ser a mais bonita para os outros, mas, para Luciana, ela era mais que simplesmente esplêndida. Magra, alta, possuía, agora, o cabelo tingido de um loiro claro. Os lábios eram finos, assim como o rosto, e o olho era azul claro, enquanto o outro era esbranquiçado pela cegueira. Usava um óculos de aro fino na cor azul. Era simpática, notou, pelo bom dia diário ao motorista e cobrador. Sempre, sem exceção, entrava de bom humor, sempre sorrindo ao lado do amigo — ou namorado, não sabia ainda — até o trajeto final

E sempre que ela passava a catraca, Luciana virava o rosto em nervosismo, tão rubra quanto um tomate. Vez ou outra, levantava o livro que fingia ler para fitá-la discretamente. Às vezes baixava o volume do fone para tentar ouvir ao menos um mínimo tom da voz dela, mas tudo o que ouvia era o motor do ônibus sucateado.

E, antes que amaldiçoasse o transporte público, ele mesmo o fez. Parou na rodovia do nada, enquanto o motor tossia fortemente na tentativa de aguentar o trampo. Quando o barulho cessou, se iniciou um burburinho irritado dos passageiros

— Vai ter que descer, galera. Deu prego! — gritou o cobrador enquanto se levantava da cadeira para expulsar todo mundo. — Vamo, vamo, vamo!

E as pessoas em pé começaram a sair, enquanto os que estavam sentados reclamavam ou colocavam suas coisas dentro das bolsas e mochilas.

Luciana revirou os olhos, irritada. Colocou o livro na mochila e saiu apressada pelo corredor, descendo rapidamente. Andou junto aos outros para ponto mais próximo, que se encontrava cheio.

— Não acredito nisso — sibilou irritada — ficar na fila mais de trinta minutos para ir sentada e agora ter que ir amassada igual sardinha numa lata.

A pessoa ao lado dela riu, concordando. Não era muito de conversar, mas iniciara um diálogo saudável com o homem ao seu lado sobre o lixo que o transporte do estado era.

— Eles compram ônibus usado de outro estado e querem vender como novo pra gente só pra aumentar o valor da passagem — zombou o homem, fazendo-a rir de desgosto.

— Acham que nós temos cara de palhaço — reclamou enquanto ajeitava o headphone no pescoço para escutar melhor o homem, mas a música ainda rolava e Luciana conseguia escutar algum ritmo eletrônico ao fundo.

— E temos, né? — indagou ele, rindo. — Os caras lá votaram contra o ar-condicionado nos ônibus, e mesmo assim se reelegeram — zombou ele, balançando os ombros.

Pararam no ponto, e Luciana continuou conversando avidamente com o homem, aguardando qualquer linha que fosse para o Centro.

— Nosso povo tem memória curta — sussurrou ele, indignado. – Me diz aí: como pode uma família inteira governar o nosso estado dessa forma? Todo mundo sabe que eles roubam, superfaturam, mas sempre se reelegem! Eu fico é puto! – resmungou ele.

Luciana balançou a cabeça em afirmação.

— Agradeço a má gestão do nosso Estado ao pessoal que vendeu o voto por cinquenta reais…

— Cinquenta? Cinquenta ainda é muito — completou ele, fazendo os dois rirem.

— Eduardo, já está incomodando o pessoal com política? — indagou uma voz atrás de si.

Luciana virou o rosto, vendo a moça loira sorrir gentilmente, ajeitando a armação azul dos óculos. Nesse exato momento, ruborizou, virando o rosto rapidamente.

— Se deixar, ele passa a viagem toda falando… — riu ela.

— Ah, ela não está incomodada, não é… — continuou ele, aguardando o nome da pessoa desconhecida.

— Luciana.

— Não é, Luciana? — continuou.

Negou com a cabeça bruscamente.

— Não, nem um pouco — respondeu.

Ela se colocou ao lado de Luciana, subitamente tocando seu braço de forma delicada, fazendo-a corar mais ainda.

E não era nem um pouco difícil fazer Luciana ficar vermelha como um tomate.

— Nossa, está muito quente hoje mesmo — continuou a moça, olhando com um semblante preocupado para o rosto vermelho da morena. — Você está bem?

Assentiu.

— Esse aqui vai pro Centro! — gritou o cobrador, sinalizando o ônibus. — Quem quiser ir, vai por trás.

E como animais desgovernados, uma debandada se iniciou pra ver quem entrava primeiro pela porta traseira. Luciana via o empurra-empurra de forma estática. Preferia mil vezes esperar outro ônibus a passar por isso, ser roubada ou assediada.

Além do mais, esperava que o casal ali pegasse aquele ônibus. Já estava nervosa o suficiente.

— Vai pegar esse aí? – perguntou Eduardo, apontando para o ônibus cheio, mas não lotado o suficiente.

— Não, não – respondeu, agarrando a alça da mochila e colocando-a para frente. Não queria nenhum espertinho vasculhando sua mochila.

— Nem a gente – continuou a loira, sorrindo gentilmente. Pegou em seu braço, puxando-a em direção a cobertura da estação – Vem, vamos sentar!

E Luciana se sentou entre ela e Eduardo, que continuava falando animadamente sobre a família corrupta que governava o estado, mas tudo o que a morena conseguia pensar em seu mantra de não seja esquisita, não seja esquisita.

E Eduardo levantara bruscamente.

— Vamos – gritou ele, puxando Luciana pela mão, e virando-se para a loira. – Vem, Kris!

Kris!, pensou. O nome dela é Kris. Percebera que ambas não haviam se apresentado, e se amaldiçoou por isso. Ela deve me achar rude, pensou.

Eduardo havia puxado ambas para o ônibus vazio que avistara. Colocara-se entre a porta para que pudessem passar antes de todos, e subiram. Acharam um par de cadeiras vazias no final, e o moço logo apontara para que ela se sentasse ao lado de Kris.

— Pega aí – disse Eduardo, jogando a mochila para a loira.

— De nada – respondeu Kris com um sorriso debochado.

E Luciana se mantivera em silêncio, colocando o headphone nos ouvidos novamente, enquanto via Eduardo curvar-se para conversar com Kris. Puxara o celular para ver o horário, e praguejou ao notar que era sete e seis. Já imaginava a bronca que ia levar da diretora, que não tinha fama de ser uma boa pessoa.

Eduardo cutucou seu ombro, os olhos brilhavam. Fez sinal para que ela tirasse o headphone, e ela o fez.

— Diz aí, você faz o quê? – questionou ele, curioso.

— Sou professora – respondeu, e percebeu que ele ainda não estava satisfeito. – Professora de inglês.

— Ah – exclamou ele, animado. – Que legal. Você já viajou para fora?

Ela assentiu, animada.

— Com vinte. Fui para Londres em um intercambio custeado pela faculdade – contou.

Eduardo balançou a cabeça em afirmação, dando uma brecha para que ela continuasse a falar. E continuou. Conversavam sobre sua estadia em Bexley, seus estudos, o custo de vida e suas escapadas para a França e seu tour de mochileira pela Europa com um grupo de amigos que fizera. Contou animadamente cada detalhe que Eduardo perguntava, sentindo falta do seu antigo estilo de vida.

— Nossa, tudo parece muito surreal – falara Kris, interrompendo a ambos. – Posso perguntar algo?

E Luciana assentiu, já imaginando do que se tratava.

— Por que voltou, se tudo parecia tão bom?

Demorara para responder, pensando na melhor maneira de retrucar a pergunta. Mas a verdade era que não havia nada de bom em sua volta. Havia voltado com vinte e cinco, e não imaginava voltar para Londres nunca mais. Não por não ter gostado, mas por culpa.

— Minha mãe faleceu durante meu tempo em Londres – respondeu quase em um sussurro. Havia se passado três anos, mas a ferida ainda doía como recente. Perder a mãe não era fácil. E Luciana ainda tentava se desacostumar das manias que tinha.

E um silêncio se instalou entre os três. Kris claramente se encontrava envergonhada, enquanto Eduardo parecia triste.

O assunto acabaria ali, se dependesse de Luciana. Não queria reviver esses momentos de terror que a própria família da sua mãe havia feito ela passar. Odiava eles por terem omitido a morte dela. Luciana só viera descobrir três meses depois, quando decidira voltar para o Brasil por um tempo para matar a saudade da matriarca, que não ligava mais para ela. E tudo o que encontrou ao voltar para casa, foi um casal vivendo na residência que costumava ser sua e de sua mãe. O mais difícil foi saber da morte dela por uma vizinha próxima a ela. E, sem ninguém, Luciana chorara copiosamente nos braços da idosa, a única que era mais família que a própria família.

Ela tentara avisar, mas a família materna havia dito que já haviam avisado, e Luciana se recusara a voltar porque, de acordo com eles, era uma filha ingrata e metida a merda. A velha senhora lhe levara para o tumulo de sua mãe, em um parque funerário bem simples. O local estava limpo, já que a vizinha falara que costumava limpar e colocar flores.

Foi a partir daquele momento que decidira ficar no Brasil. Iria continuar cuidando da mãe. Porque a culpa a consumia junto a dor, junto ao buraco que ninguém conseguia preencher. E dos relacionamentos que deixara para trás porque eles não conseguiam lidar com sua eterna responsabilidade, ou ela não sabia lidar.

Não sabia.

— Mas e você, Eduardo... O que você faz? – questionou ela, tentando mudar de assunto antes que caísse em prantos.

— Eu sou administrador – respondeu ele, excitado. – Trabalho na...

E Luciana não notara o que ele falara, no exato momento em que Kris tocara sua mão e a apertara levemente em conforto. Elas se fitaram, e um fio de sorriso passara nos lábios de Luciana, enquanto Kris entrelaçava os dedos longos no seu, e pressionava um pouco mais forte.

— A Kris é advogada – continuou Eduardo, tirando-a de seus devaneios. Olhou para ele, que esperava alguma resposta.

— Ah, é? – falou, e ele continuou a tagarelar sobre a empresa que ambos trabalhavam no centro, e o quanto gostavam do que faziam.

— Ele não vai parar – sussurrou Kris, no seu ouvido, e seus pelos se eriçaram instantaneamente. Um arrepio passou pelo seu corpo, e Luciana puxou sua mão suada, desfazendo aquele momento íntimo que ambas compartilhavam.

Instintivamente, a morena olhara para a janela, e se levantou mais que bruscamente ao perceber sua parada passando rapidamente.

— Merda, que merda! – esbravejou, puxando o sinal diversas vezes para que o motorista parasse, e ele o fez bruscamente por causa do sinal. Luciana desembarcara do ônibus em um pulo, puxando a mochila e jogando-a nos seus ombros.

— Você trabalha onde? – indagou Kris com a cabeça para fora da janela, falando um pouco mais alto para que ela pudesse escutar.

— No ESFB – gritou para que ela ouvisse, ao notar o movimento do ônibus.

E tudo o que vira fora um aceno com as mãos em despedida.

E Luciana caminhara uns metros até o colégio em que dava aula. Acenou para o porteiro, que era seu amigo, e alguns alunos que também corriam em direção à sala de aula. Tudo andava muito bem, até passar em frente à sala aberta da diretora.

— Luciana – chamou, já em um tom zangado. – Atrasada.

Luciana parou, segurando a mochila mais forte, e virando em direção a diretora, sem adentrar a sala chique e mal decorada.

— Diretora Filho – saudou, como a maioria, pelo sobrenome da mulher. – Sim, atrasada – respondeu. – Pela primeira vez. Tive um...

— Eu não quero saber o que você teve – replicou a mulher de meia idade. – Quero que faça o seu trabalho com perfeição. É isso o que eu quero.

E a morena arregalara os olhos, incrédula. Conhecia o temperamento da mulher, através dos relatos de outros professoras, mas jamais, jamais, imaginaria que ela era pior do que falavam. Luciana nunca dera motivos para aquela grosseria, e mesmo assim a mulher já saía atirando má educação.

E, como diria sua antiga professora, atingindo a face dela sem nenhuma cortesia.

She is so rude!

— E eu faço, senhora – respondeu, aguentando o veneno que teimava em querer escorrer de sua boca. – Com perfeição. E continuarei fazendo – falou, aproximando-se do batente da porta, para se apoiar. – E não será um dia atrasada que idiotizará meus alunos.

A mulher se levantou, ajeitando a saia rapidamente. Caminhou até ela calmamente, e Luciana quase achara que ela iria lhe esbofetear, mas tudo o que fizera foi fechar a porta da diretoria na sua cara, quase batendo no seu nariz.

— Vá trabalhar – ouviu a voz abafada da mulher.

E Luciana fora direto para o vestiário. Trocara a roupa casual que usava, para logo vestir o maldito uniforme do colégio cristão: uma saia azul, que odiava mais que tudo, e uma camisa social branca, que também odiava, mas bem menos que a saia. Colocara o jaleco, que não via necessidade do uso, e fora em rumo para a sala de aula.

Ao entrar, um burburinho animado tomara conta do local, e Luciana sorrira para os jovens que lhe saudavam. Olhou o relógio de parede, que marcavam oito horas. Colocou os livros que carregava na mesa de madeira, e pegara o piloto, escrevendo no grande quadro negro.

— Phrasal verbs! – gritou um dos meninos, fazendo o resto rir. – Nossa senhora, me ajude.

Luciana virou, assentindo.

— Let’s start!

...

Já havia se passado três semanas desde que fizera amizade com o casal do ônibus, como costumava chamar. Sempre conversavam durante o trajeto até o Centro, e Eduardo e Kris agora davam o material para que ela segurasse durante o trajeto, mudando o local que costumavam ficar para ficar perto dela.

Podia dizer que eram amigos.

Luciana saía da sala, verificando o celular. Havia liberado os meninos para o almoço um pouco mais tarde, exatamente trinta minutos mais tarde. Eram exatos meio-dia e meia. Andava apressada para a entrada do colégio, com aquele uniforme horrível, na tentativa de achar um restaurante que não estivesse cheio. Parou em frente ao portão, visualizando os estabelecimentos mais próximos pelo Maps.

— Você parece mais uma aeromoça do que uma professora – falara alguém de fora do portão, rindo.

Luciana olhara o casal que estava lá fora, levantando os braços em derrota.

— Eu odeio esse uniforme, quero que saibam disso – respondeu para Eduardo, que batia palmas.

— Mas tá bonita – dissera Kris em um tom baixo, olhando para o chão.

E a professora sentira o rosto esquentar.

Percebera que, assim como ela tinha o costume de trocar de roupa no trabalho, eles também haviam mudado de roupa. Eduardo havia mudado a camisa polo e a calça jeans por uma camisa social preta, e uma calça oxford cinza, com sapatos sociais. Kris usava um blazer azul marinho, que combinava com seu óculos, uma blusa branca solta por baixo, e uma calça larga escura. O salto a fazia parecer muito mais alta.

— Mas o que vocês estão fazendo aqui? – questionara ela, tentando mudar o assunto.

— Viemos te buscar para almoçar – respondera ela.

Ele assentiu, colocando a mão no bolso para retirar o celular.

— São meio-dia e trinta e sete. A gente vai no restaurante da 54. Eu já pedi pro Chico separar uma mesa pra gente – avisou ele para Kris, virando para ela e aguardando sua resposta.

E Luciana aceitara.

Caminhara com eles, que não paravam de tagarelar sobre algum advogado metido a besta na advocacia em que Kris trabalhava, que gostava de diminuir os funcionários e maltratá-los. Eduardo sempre conversava animadamente, como se qualquer conversa com a moça fosse incrivelmente divertida.

Na verdade, Eduardo era incrivelmente divertido.

Ele puxara conversa com ela, e ambos iniciaram um diálogo bobo sobre jogos eletrônicos. Ele gostava das mesmas coisas que ela, e era viciado em League of Legends, que Luciana também adorava.

— Mas sou horrível – respondeu ele rindo ao escutar ela falando que era de um elo alto. – Não tenho coordenação motora para jogar ranqueada. Para você ter noção, eu sou ferro IV – zombou de si mesmo.

E Luciana riu, sem se importar com aquilo, convidando-o a jogar com ela no fim de semana. Ele assentira, e iniciara falando sobre os campeões animadamente, como uma criança, que fazia a morena rir divertidamente.

Kris tossira, e parecia meio irritada.

— Que tal falarmos de algo que vocês possam me incluir? – pedira ela baixinho, parecendo chateada.

Eduardo revirou os olhos.

— Ela odeia os jogos eletrônicos desde que éramos crianças. Sempre foi de ler muito, não é atoa que é uma nerd e advogada – zombou ele.

E Luciana arregalara os olhos.

— Nossa! Vocês se conhecem desde a infância?

E ele assentiu, colocando as mãos no bolso frontal da calça.

— Nossas mães eram vizinhas. Eu sou um ano mais novo que ela. Nos tornamos amigos porque minha mãe costumava me deixar com a mãe dela para trabalhar, e continuamos amigos até hoje. Não sabemos o dia de amanhã, não é? – questionou ele aos risos. – Vai que ela se cansa de mim.

E Kris riu.

— Não está muito longe de isso acontecer – zombou ela.

E chegaram no restaurante.

Eduardo parecia um verdadeiro político, todo mundo o conhecia. Ele entrou saudando todo mundo, com um sorriso verdadeiro para todos. Pelo visto, ele não era difícil de socializar. Kris acenava para algumas pessoas de forma mais contida, sentando-se na mesa que o tal Chico havia separado para eles. E o jovem administrador fizera questão de apresentá-la para o pessoal ali, fazendo-a ficar rubra.

Eduardo havia pedido o seu almoço e o dela, pedindo que experimentasse o prato do dia. Kris escolhera um prato mais simples, e pedira para dividir a quantidade.

— Ela come como um passarinho – pontuou ele. – Aí eu como a outra metade.

Luciana e ele riram.

— Que horas você volta? – questionara ela repentinamente, e parecia realmente curiosa.

— Duas – respondeu, e o pedido chegara.

Comeram silenciosamente, ou quase. Eduardo sempre falava uma coisa ou outra para manter o papo em dia. Kris assentia com a cabeça, e comia lentamente, sempre verificando o celular.

O telefone tocara repentinamente, e a loira olhara para Luciana repentinamente.

Era o seu celular.

Levantou-se, pedindo desculpas, e atendeu a ligação. Sorriu ao escutar um velho amigo do outro lado da linha. Iniciaram um pequeno diálogo sobre o local do Braz-TESOL. Olhava de soslaio para a mesa em que estava acomodada, e percebera que Kris a olhava fixamente, quase como se quisesse escutar a conversa. A morena rira de algo que o amigo dissera, e a loira virara o rosto.

Aproximou-se da mesa novamente, despedindo-se do velho amigo.

— Ok. Vejo você lá – e desligou o telefone.

— Sua comida já está fria – falou a loira, remexendo com o garfo um pedaço de tomate que deixara no prato.

— Deixa ela falar com o namorado – ralhou ele.

Luciana olhara pra Eduardo, negando com a cabeça diversas vezes.

— Não, não é meu namorado. É um amigo, apenas. Ele está fazendo parte da realização do Braz-TESOL, e apenas me avisou onde vai ser – falou, envergonhada. Ainda se sentia uma adolescente, sempre que falavam dos namorados.

— Viu? Eu falei que não era o namorado – respondeu ele para Kris, que baixou a cabeça envergonhada.

Eduardo terminara o segundo prato no mesmo momento que Luciana terminava o seu. Pediram a conta e se retiraram. Ficaram rodeando alguns pontos das ruas, e se sentaram em um banco de praça de frente para uma igreja. Conversaram por uns minutos mais, até Eduardo olhar a hora no celular, que marcava uma e meia, levantando-se num pulo.

— Tenho que ir. Você vem? – perguntou ele para Kris, que negara.

Ele se despediu, e saiu correndo em direção ao trabalho.

Ficaram em um silêncio confortável por uns minutos, apenas apreciando o vento naquele calor infernal, ou observando os jovens, alguns até mesmo do seu colégio, andando de skate ou namorando “escondido”.

— Você pensa em voltar? – perguntou Kris, pegando-a de surpresa. – Digo, pra Londres. Você pensa em voltar?

Luciana não pensara para responder um não decidido.

— Às vezes, penso que minha vida seria muito melhor se tivesse ficado lá, ao mesmo tempo que agradeço ao estilo de vida que tenho aqui. Não sei. É tudo tão estranho, sabe? Não é uma decisão fácil de fazer: ir ou ficar. Ao mesmo tempo que algo me prende, me liberta. Então, tecnicamente, não tenho nada que me prenda no Brasil, mas também não tenho nada que valha a pena voltar para Londres.

Ela balançou a cabeça positivamente.

— Então não tem a intenção de voltar, né? – falou ela, mais como uma afirmação para ela mesma.

— E você? – questionou Luciana, e Kris virara para ela, aguardando. – Você não tem nenhum lugar que queira ir?

Ela olhou pra cima, apoiando os braços no banco da praça, e balançando as pernas. Parecia analisar a pergunta, mas apenas fez um bico, negando.

— Só na minha adolescência. Fui para Santa Catarina, porque eu nunca percebia o que tinha aqui, sabe? Eu voltei, e fiz minha graduação aqui mesmo. Parece comodismo? Não sei. Só sei que eu aprendi a gostar daqui. E tudo o que eu tenho, tenho aqui. – Ela sorriu, contente consigo mesma.

— É, você é acomodada mesmo – respondeu, fazendo-a rir.

— Por um momento, eu pensei que fosse me perguntar sobre o olho – falara ela, meio chateada, mas ao mesmo tempo aliviada.

Luciana apenas dera de ombros, e aquele ato tranquilizara a loira. Ficaram mais alguns momentos ali, apenas jogando conversa fora. Havia notado o quanto Kris havia se soltado, e ela também. Conversavam tão animadamente quanto com Eduardo, e aquilo já era um grande progresso.

— São duas horas – respondera Kris, ao responder algo em seu celular. – Você também tem que ir, não é?

E Luciana assentira, um pouco chateada pelo tempo ter passado tão rápido.

Iriam para lados opostos, mas Kris puxara seu braço antes de ir.

— Hoje é sexta feira, então eu acredito que você não tenha nada para amanhã. Quer sair para beber hoje? – questionara ela, claramente envergonhada.

— O Eduardo não vai trabalhar amanhã? – questionara Luciana.

E uma faceta irritada passara pelo rosto de Kris, que negara bruscamente.

— Não incluí o Eduardo. Nós não somos grudados, nem gêmeos ou algo do gênero. Iriamos só você e eu – respondera ela em um tom zangado.

Luciana corou. Ao mesmo tempo que queria ir, tinha vergonha de responder algo que pudesse sair como uma mentira, mas dissera mesmo assim: — Eu não bebo.

Aquilo parecera como um balde de água fria para a loira, que balançara a cabeça enquanto tirava sua mão do braço da professora.

— Mas... Se você quiser ir ao shopping ou algo do gênero, nós podemos ir – continuou, claramente nervosa. – Só você e eu – a última parte fora sussurrada, tão baixo, que duvidou que Kris fosse capaz de ouvir.

E um sorriso aparecera no rosto da advogada, que assentira, pedindo seu número para que pudessem marcar algo para a noite. A moça se despedira de Luciana com um beijo no rosto, que a fizera sorrir o dia todo.

E lá estava ela, no shopping, mais especificamente no cinema, assistindo a um filme qualquer que não conseguia prestar atenção. Porque tudo o que via era a bela mulher ao seu lado, tão sexy com aquela roupa de advogada, que desejava mais que tudo repetir o ato de mais cedo.

Mas quero que me beije na boca, pensou.

E o filme terminara, e só percebera que terminara quando todos começaram a levantar. Luciana vira os créditos subindo, e levantara tão rápido quanto. Saíram da sala de cinema com a loira criticando o filme, mas tudo o que Luciana fazia era fitar os lábios finos e atraentes, que pediam para serem preenchidos pelos seus.

Deus do céu!

Sentaram-se na praça de alimentação para comer algo. Um silêncio constrangedor se instalara quando Kris perguntara se ela gostara do filme, que fora apenas negado, sem nenhuma argumentação.

Não sei o que dizer. E se falar que só presto atenção em você vou parecer, no mínimo, uma maníaca, pensou.

Já era tarde, e Kris decidira levá-la até em casa. Pedira um carro pelo aplicativo, e o silêncio continuava fazendo uma pressão terrível no seu peito. O motorista não levara nem sete minutos para aparecer, e ambas entraram no carro.

Vez ou outra se fitavam, e Luciana também olhava para fora da janela, tentando evitar o olhar de Kris. Tinha medo de que a moça soubesse o que sentia por ela, e não queria desfazer aquele laço que estava construindo aos poucos.

Luciana descera do carro ao chegar em frente a sua casa, e fora surpreendida quando vira Kris pagar o motorista, que fora embora tão rápido quanto chegara.

— Você devia ter ido – avisou Luciana, preocupada. – É perigoso ficar aqui até tarde, e eu já estou na frente de casa.

Kris negou diversas vezes, um pouco nervosa. Suspirou longamente, antes de soltar o ar novamente.

— Eu não bebo – soltara, assustando Luciana. – Eu não bebo, mas te convidei porque achei que bebesse – falou ela, com um sorriso amarelo. – E eu queria um momento para conversar com você.

A morena rira, um pouco envergonhada.

— Por que?

E a moça deu de ombros.

— Porque eu queria sua atenção sem ter de dividi-la com o Eduardo – replicara, olhando para o chão.

E o coração da morena disparara.

— Então... – continuou Kris. – decidi abandonar meu Uber para te beijar na porta da sua casa – respondera ela, as bochechas coradas.

Luciana arregalara os olhos com a confissão.

— Por que ainda não beijou? – questionara ela, aos gaguejos.

Kris sorrira genuinamente, diminuindo o espaço que tinham, segurando sua nuca e puxando-a para mais perto. Beijou-a, e Luciana suspirou em contentamento. Fechara os olhos, para aproveitar o máximo da sensação da língua da loira na sua, que passeava pela sua boca de forma experiente. O beijo era quente, necessitado. Beijo esse que esquentava mais do que apenas o seu coração. Beijo que tinha gosto de menta, ou talvez luxúria.

Ou paixão, quem sabe.

Não sabia definir o que era aquela sensação que passava pelo seu estômago, que lhe deixava tonta e sem rumo. Não sabia definir o que sentia por Kris.

Mas sabia que a queria.

E a queria muito.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!