Azul
1 Um - Efeito colateral
Notas iniciais
Um – Efeito colateral.
Noah
Puxei a manga da minha camisa para baixo para que cobrisse meu pulso. Não gostava que as cicatrizes que haviam ali aparecessem e além do mais a garota ruiva no sofá a minha frente estava olhando muito para meu pulso. Provavelmente deve ter visto os riscos regulares e esbranquiçados na minha pele e agora está se perguntando se tentei me matar e se esse é o motivo por eu estar aqui. Queria poder dizer a ela que não é. Esse não é o motivo, apesar de todos da minha família acharem que é. E pode até ser que eu tenha mesmo segurado aquela gilete e aproximado demais da minha pele. Pode ser que eu tenha mesmo feito isso e agora estou sendo obrigado a comparecer todas as quartas nesse consultório médico para conversar sobre meus problemas com o psicólogo da família, o Dr. Stefan Houston.
Mas mesmo assim gostaria de dizer a ela, que não é esse o motivo por eu estar aqui. Eu posso ter tentado me matar mesmo, posso ter desejado isso mais que o normal. E posso ter tentado sanar esse desejo, mas gosto de me enganar que não é esse motivo por eu ter concordado com esse tratamento. Gosto da minha versão de que eu morreria se não me tratasse e todos se culpariam e chorariam minha morte por um bom tempo ainda. Ela é bem melhor do que a versão real, onde meus familiares me internariam a força em uma clínica se eu não concordasse com esse tratamento. Mas de qualquer forma gosto da versão da garota ruiva.
Parece mais emocionante o fato de eu ter tentado me matar e depois ter vindo parar em sessões de terapia com um psicólogo como se eu tivesse visto que aquilo era errado e que a vida é realmente mais atraente do que uma banheira e pulsos cortados.
— Noah Grace. – a secretaria chamou. Olhei para ela. – O doutor vai recebe-lo agora.
Me pus de pé e segui até a sala dele. Abri a porta e entrei. Dr. Stefan estava sentado na sua habitual poltrona, as costas encostadas no encosto, o rosto sério e os óculos bem alinhados sobre seu nariz. Ele não estava olhando pra mim, estava olhando para seu bloquinho. Anotava alguma coisa ali. Segui até o divã e me sentei ali, o observei por um tempo. Gostava dele, apesar dele ser sempre tão indiferente.
Havia algo no modo como seu rosto permanecia sério ou no modo como ele nunca achava graça nas coisas que eu dizia que me lembrava Will e por isso eu gostava dele.
Fazia um bom tempo desde a última vez que falei com o loiro. Ele se recusava a atender minhas ligações e a responder meus recados. Estava me dando um tratamento de silêncio e depois de duas semanas sem me dá um único sinal de vida, apenas parei de tentar contata-lo. Resolvi dar a ele o mesmo tratamento. Tinha me cansado de ir atrás dele e pedir desculpas, mesmo que eu não me sentisse nenhum pouco culpado.
— Olá, Noah. – o doutor disse e me deitei no divã. Encarei o teto e permaneci calado.
Pensar em Will me deixava deprimido. Por isso eu me forçava a ocupar minha mente com outras coisas. Estudava mais que o necessário, escutava música mais do que queria e até mesmo tinha concordado com as aulas de piano, que minha avó tinha sugerido. Tudo isso para manter o loiro longe da minha mente. O problema era que nada disso adiantava muito. Ainda pensava nele em cada segundo do meu dia.
— Com está se sentindo hoje? – essa parecia ser a pergunta padrão. Até mesmo meu pai costumava fazê-la as vezes quando eu não conseguia me forçar a levantar da cama.
— Bem. – essa parecia ser a resposta padrão também.
— Pode me mostrar o seu braço? – eis mais uma pergunta padrão. Mas essa, aposto, que foi estabelecida pelo meu pai e pelo resto da minha família.
Levantei a manga da minha camisa e lhe mostrei a parte interna do meu braço. As feridas já estavam cicatrizando. Cortes perfeitamente alinhados, um embaixo do outro. Foram feitos com uma gilete há alguns dias e por isso já estavam cicatrizando, sumindo aos poucos já que não eram tão fundos. Eram só pequenos cortes para aliviar o tanto de coisa que havia dentro de mim. Apenas para que eu conseguisse respirar direito durante os dias que se seguiam, sem todas essas emoções no meu peito e que me subiam a garganta e me deixam com falta de ar.
O psicólogo se inclinou levemente na sua poltrona em minha direção e observou os cortes, conferiu o grau de cicatrização de cada um para saber se eu estava me cortando depois que comecei as consultas. Não estava. Não nos braços, ao menos.
Ele ajeitou os óculos e voltou a encostar as costas no encosto da sua poltrona. Voltou a escrever no seu bloquinho.
— Quer me contar alguma coisa? – perguntou enquanto eu voltava a deitar no divã.
Fitei o teto mais um pouco antes de responder:
— Não.
777
Will
Observei os papeis sobre minha mesa, sem vontade alguma de lê-los. Mas era necessário fazê-lo, afinal eu tinha uma prova amanhã. Precisava dar ao menos uma lida nesse assunto, apenas para tirar o peso na consciência que ficaria depois se eu não estudasse nada. O problema, no fim, estava na minha mente que insistia em não se concentrar no assunto. Continuava e continuava, sempre voltando para um certo garoto de olhos e cabelo castanho.
Era difícil não pensar em Noah. Era preciso que eu me mantivesse em constante ocupação, sempre olhando para a frente em vez de olhar para os lados ou para trás. E mesmo agora quando ele tinha parado de ligar e deixar recados, isso deveria ser tornar mais fácil, não se tornou. Está bem mais difícil, o que vai contra todas as regras. No entanto estou com raiva dele o suficiente para não procura-lo.
Seguro a primeira folha e leio o que está escrito ali, mas é como se as palavras não fizessem sentido algum. E por isso tenho que ler de novo e de novo a mesma frase para ao menos entender sobre o que se trata o texto que anotei.
Começou a chover, posso escutar o barulho que os pingos fazem contra o vidro da janela do meu quarto e isso me distrai num grau que já estou pensando outra vez em Noah e no modo como ele não pensou em ninguém quando decidiu fazer aquilo consigo. Pensei no desespero que havia nos olhos do senhor Grace e no desespero que começou a crescer no meu peito. A ideia de perdê-lo tinha sido tão devastadora naquele momento, tão inacreditavelmente irreal que mais tarde quando ele ficou bem, quando os médicos conseguiram o trazer de volta, tudo isso tinha sido substituído por raiva.
Era uma imensa e feia raiva dele. Lembro do modo como gritei com ele, das coisas ruins que dissemos um ao outro ou das expressões de total desgosto que apresentávamos. Lembro da maneira como lhe dei as costas, terminando tudo que havia entre nós.
Os primeiros dias foram péssimos e as coisas apenas pioraram quando ele começou a ligar e a deixar recados. Eu sabia que precisávamos conversar, ter uma conversa decente e resolver as pendencias que tinham ficado entre nós. O problema era apenas que eu ainda não podia me forçar a olhar pra ele. Não quando ainda sentia sua falta, não quando tudo que eu queria era beijá-lo e deixar todo o resto para trás. Eu não podia perdoa-lo tão fácil assim.
Acho que estou sendo orgulhoso ou talvez insensível, já que não estou nem fazendo um esforço para entender o lado dele ou adivinhar o porquê dele ter tentado se matar daquele jeito. Mas eu não preciso adivinhar o motivo, eu já sei. Eu sei o quanto de dor Noah carrega e o quanto isso te deixa tão imensamente vazio que a única saída parecer ser morrer, para ver se todo esse buraco que ficou no peito some de uma vez. Eu já sabia que ele não estava bem. E tenho uma terrível certeza de que ele nunca mais ficara bem.
Noah adquiriu uma certa não-importância com o mundo a sua volta, com as pessoas a sua volta que o torna perigoso, não só para si mesmo mas para todos que o amam. É como uma montanha russa. É difícil saber quando ele está bem ou quando está mal. Quando vai receber bem uma frase ou não. Ele se tornou tudo o que eu sempre odiei nele quando o conheci. Noah se tornou autodestrutivo.
Olhei para o meu celular sobre a minha mesa de estudos, estava meio escondido sob minhas anotações; folhas soltas cheias de rabiscos. Fitei o aparelho durante um tempo. Estava chovendo tanto lá fora. Será difícil ir a algum lugar assim, mas eu sabia que hoje era quarta-feira e que ele estaria em mais uma das suas consultas com o psicólogo. Dr. Stefan Houston, o mesmo médico que cuidou da sua mãe há muito tempo.
Peguei o celular e me pus de pé. Olhei o horário que estava sendo marcado nele e constatei que ainda dava tempo de chegar lá.
Peguei meu casaco que estava jogado sobre a cama, o vesti e sai do quarto. Calcei meus tênis quando estava na sala e depois sai do meu apartamento.
Talvez esteja na hora de acabar com esse tratamento de silêncio.
777
Noah
— Não, pai. Eu posso ir sozinho. – eu estava dizendo no celular durante a ligação com meu pai. – A chuva nem está tão forte assim. – declarei olhando para a torrente de água que estava caindo sobre Los Angeles.
Apesar do consultório do doutor ficar no primeiro andar, não vi problema algum em entrar no elevador e ir até o quinto andar, apenas para olhar a paisagem. Queria ver como estaria a chuva ali de cima, se pareceria tão bonito quanto imaginei que estaria.
— Então venha quando a chuva parar. – mandou e revirei os olhos.
— Tudo bem. – respondi, como se eu estivesse louco o suficiente para sair no meio dessa chuva.
Então desliguei.
Encostei minha testa no vidro daquela enorme janela e olhei para baixo. Os carros continuavam seguindo o seu rumo, as pessoas continuavam indo para o trabalho ou para casa ou para qualquer lugar. Los Angeles não ia parar por causa de uma chuvinha de nada, apesar de o céu estar mandando alguns trovões ocasionalmente.
— Não devia ficar tão colado no vidro assim. – alguém disse, a voz familiar demais. – É perigoso.
Não olhei para trás para ter certeza de que era ele mesmo, apenas permaneci onde estava. E sem realmente querer meu corpo se retesiou. Fazia bastante tempo desde a última vez que nos falamos. Ainda lembrava das coisas que ele tinha me dito naquele quarto de hospital, a decepção que havia no seu olhar.
Como você pôde? Ele parecia estar perguntando.
Apenas fiz. Lembro de ter tido vontade de responder.
Fechei os olhos agora, com a testa ainda encostada no vidro. O barulho da chuva contra o vidro embalando o nosso silêncio. Escutei o barulho dos seus passos vindo em minha direção, percebi que ele parou do meu lado a uma distância segura de mim.
Isso, apenas se mantenha longe do seu ex-namorado maluco.
Abri meus olhos, desencostei minha testa do vidro e voltei a fitar o movimento da rua abaixo de nós.
— O que está olhando? — ele perguntou.
— A chuva. – falei, minha respiração embaçando o vidro.
— Emocionante. – ironizou e não pude segurar o sorrisinho que surgiu no meu rosto. – Quer uma carona? – ofereceu.
— Esse é o seu jeito de pedir desculpas e me convidar para ir ao seu apartamento? – perguntei. Nunca fui bom em rodeios, era da minha personalidade ser direto.
Notei pelo modo como ele mexeu os pés que ele ficou sem graça e quase pude imaginar o tom rosado que devia estar nas suas bochechas. E senti vontade de encara-lo, puxar ele para mais perto e beijá-lo. Sim, eu estava com saudade.
— Você iria se eu convidasse?
O fitei. Ergui uma sobrancelha e cruzei os braços.
— Vai ter que me levar para almoçar antes. – demandei e ele sorriu.
E dessa vez não pude me conter, descruzei meus braços e me aproximei dele. Segurei a gola da sua camisa e o beijei. Will não me empurrou como achei que faria, na verdade ele apenas passou os braços pela minha cintura e me trouxe para mais perto. Aprofundou o beijo, deixou que eu provasse o gosto da sua língua.
— Não pode fazer isso e achar que estar tudo bem. – ele se afastou, segurou meu rosto e olhou bem dentro dos meus olhos. – Não pode me beijar desse jeito e achar que esqueci o que fez.
Tirei suas mãos do meu rosto e dei um passo para trás.
— Você mais do que ninguém devia entender o porquê daquilo. – falei.
Estava ressentido com ele. Estava com essa coisa no peito que era uma mistura de raiva e saudade e ressentimento que me fazia permanecer longe com vontade de estar perto.
— Suicídio? – soltou, parecia irritado. – Eu devia entender o motivo do seu suicídio? Noah, você está se escutando? Como pode achar que eu entenderia algo como isso?
— Porque você sabe como é. – respondi baixinho e me abracei, estava começando a sentir frio. Desviei meus olhos dos dele. – Você sabe o que aconteceu naquele quarto, Will.
Ele sabia. Não só porque eu contei, mas sim porque ele já havia sentido as mesmas coisas. Já havia provado uma pequena fração do que eu sofri nas mãos daquele homem.
— Eu só não podia mais continuar... – continuei falando. Fiquei de frente para o vidro de novo. A chuva continuava caindo.
Acordava todos os dias sem ter realmente vontade de acordar. Sentia medo a todo momento e havia essa maldita dependência que havia sido obrigado a adquirir. Eu havia ficado viciado nas drogas que aquele homem me obrigava a consumir. Passei os primeiros dias longe do cativeiro sentindo essa vontade descontrolada delas. Era uma reabilitação forçada, estavam limpando meu sangue delas mesmo que eu secretamente não quisesse. Sentia como se estivesse enlouquecendo. Tinha alucinações, pesadelos e sentia tanta coisa ao mesmo tempo. Eram tantos sentimentos dentro de mim, que eu não sabia como lidar com eles. Não com todos eles assim, tão embolados e querendo minha atenção a todo o momento.
Então comecei a me cortar. No começo o sangue me incomodava. Não gostava de vê-lo sobre minha pele e por isso costumava me cortar sem olhar e geralmente ficava tonto só de imagina-lo sobre minha pele. Mas então isso foi passando aos poucos. Um problema sendo substituído por outro. A hematofobia foi embora, deu lugar a automutilação. Que mais tarde teria a companhia de outra coisa, o real motivo do tratamento e de todos estarem com um olho em mim.
— Noah. – Will tentou.
— Apenas achei que... eu realmente achei que pararia. Sabe? — o fitei para ver se ele entendia ou estava ao menos escutando. – Achei que os pesadelos iam parar, que isso tudo aqui dentro pararia... – olhei para baixo, podia sentir as lágrimas vindo, umedecendo meus olhos. Não vou chorar. — Mas não passou.
— Não passa nunca, Noah. – ele disse e o fitei ao mesmo tempo que uma lágrima descia por minha bochecha.
Eu sabia que era verdade e também sabia que William devia estar me consolando, dizendo palavras de consolo, dando batidinhas no meu ombro e falando que as coisas iam melhorar. Mas era Will. Ele nunca mentiria pra mim, por mais que eu quisesse que ele fizesse isso. Ele nunca mentiria. O loiro sempre me olharia muito sério e me diria o que ninguém jamais quis dizer. Uma parte minha ficou grata por isso, a outra só quis que ele se aproximasse e me beijasse.
— Mas tem dias que você acha que vai passar, que você acorda e pensa que passou. – ele continuou e deu um passo em minha direção. – Que acha que vai ser mais fácil agora porque a dor diminuiu aqui dentro... – ele colocou a palma no meu peito. Continuei o fitando, o azul no castanho. – e realmente pode ter passado, se você quiser.
— Foi assim que você superou? – perguntei baixo. – Você começou a mentir para si mesmo?
— Não, não foi assim. – respondeu e chegou mais perto. – Eu apenas procurei algo que me fizesse viver.
— Como o que? – eu podia sentir sua respiração batendo contra minha bochecha, o calor do seu hálito aquecendo meu rosto.
— Qualquer coisa. – sussurrou de volta. – E quando nada parecia bastar, você apareceu naquele beco. – confessou e acabei rindo com a lembrança, deitei minha cabeça sobre seu ombro e ele passou os braços a minha volta. Me trouxe para mais perto.
— Você não me agradeceu. – reclamei rindo e passei meus braços a sua volta.
— Não pedi sua ajuda. – respondeu, mas notei o divertimento na sua voz.
— Levei um soco por sua causa. – lembrei.
— E eu levei muitos por sua causa. – confessou. Levantei meu rosto, surpreso pela declaração e o fitei muito sério. Ele sorriu, meio triste. – Não me olhe assim... – segurou meu rosto e me deu um beijo. O interrompi.
— Will. – chamei e ele abriu os olhos e me fitou. – Do que está falando?
— De nada. – respondeu e voltou a me beijar. O afastei de novo.
— Will, para. – ele me fitou, parecia mais triste do que confuso por eu o ter afastado. – O que aconteceu? – precisava saber do que ele estava falando.
O loiro piscou, sabia que eu não ia desistir até ter a resposta.
— No começo, quando você se mudou para Dickson. – começou a contar. – E depois quando apareceu naquele beco... Você me impressionou mais do que deveria. – confessou e olhou para baixo, fitou meus tênis. – Mark acabou descobrindo que eu estava interessado em você, então ele achou que seria melhor se você continuasse onde estava. Ele achou que se você ficasse longe as coisas ficariam bem, que nossa amizade continuaria a mesma e que ninguém teria motivos para que deixássemos de ser amigos.
— Então ele te ameaçou. – constatei.
E todo o começo do nosso relacionamento fez sentido. Agora eu conseguia entender porque ele queria ficar tão longe ao mesmo tempo que queria ficar perto, agora eu tinha entendido o modo bipolar que ele tinha se comportado. Sempre brigando comigo para no minuto seguinte agir como se fôssemos melhores amigos. Entendi, para meu alivio, porque ele tinha me mandado embora no dia seguinte ao nosso beijo para mais tarde me beijar no supermercado como se nada estivesse acontecido.
— Um pouquinho. – confessou e sorriu.
— Você é um idiota. – falei e o trouxe para mais perto. – Devia ter me contado antes sobre isso. Eu teria te protegido. – beijei seu pescoço.
— Não queria proteção. – ele me fez olhá-lo. – Queria você. – e me beijou.
Foi o meu celular tocando que fez com que nos separássemos. Eu o retirei do bolso do meu casaco e fitei o visor. Maya chamando. Suspirei e atendi, ficando de costas para Will. Não sabia ao certo porque, mas não queria que ele escutasse a conversa, acho que porque já tinha uma leve ideia sobre o que ela ia dizer.
— Alô. – falei.
— Onde está? – foi logo perguntando, nem ao menos me disse um oi decente.
— Ainda estou no consultório do Dr. Stefan. – respondi, decidido a não me irritar por causa disso. Maya sabia ser bem irritante quando queria.
— Estou aqui perto. Quer uma carona? – perguntou. Parecia apressada.
— Não precisa. – falei e olhei de canto de olho para Will. Ele estava parado uns dois passos de mim, observando a chuva. – Will vai me dá uma carona. – contei e olhei para baixo, não sabia porque estava com essa pontinha de vergonha.
— Will? Mas vocês não tinham... – se interrompeu ao mesmo tempo que eu começava a pensar em algo para dizer a ela sobre isso. Mas então ela suspirou. – Tudo bem. Me deixe falar com ele. – mandou e dessa vez eu suspirei.
Já sabia o que ela ia fazer e já sabia o que ela ia dizer, e de repente não quis que ela falasse com Will, não sobre isso. Não com ele. Will era meu ponto cego, era a única pessoa que parecia alheia a tudo isso. Ele ainda me olhava como se eu fosse normal, ele ainda me tratava como se eu fosse normal... E eu não queria que isso mudasse, não agora, não quando estamos indo tão bem na nossa reconciliação. Então por isso, apenas afastei o celular da minha orelha e desliguei.
— Vamos? – coloquei o celular no silencioso e guardei-o no meu bolso e me virei para o loiro.
Will olhou pra mim e sorriu, um sorriso pequeno, ajeitou os óculos e então estendeu a mão esquerda na minha direção. Acabei sorrindo de volta, peguei sua mão. No meu bolso, o celular tinha começado a vibrar. Provavelmente Maya ligando, mas ignorei. Não queria saber o que ela tinha a dizer, não queria sua carona e principalmente, não queria ela falando com Will. Enchendo ele com todos os cuidados que eu não preciso. Eu ligaria para meu pai mais tarde, avisando que estava tudo bem e que provavelmente não dormiria em casa...
Notas finais
Espero que tenham gostado desse começo.
É isso.
xoxo
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