Azul
3 Três – Apenas olhem para mim.
Três – Apenas olhem para mim.
Will
— Will! – ele exclamou assim que me viu. – Você veio. – ele correu até mim e me abraçou.
Notei que suas roupas estavam úmidas, o cabelo molhado se colava na nuca e na testa. Estava cheirando a cerveja e suor e parecia terrivelmente animado. O abracei de volta, em parte porque tinha estado mais preocupado do que irritado durante o caminho inteiro. E poder vê-lo agora, e constatar de que estava bem, era o suficiente para me deixar parcialmente aliviado.
Noah se afastou de mim.
— Preciso me despedir de Daniel, então podemos ir para casa. – falou e simplesmente se afastou, meio cambaleando foi até a varanda da casa.
Lá estava Daniel, o cabelo castanho-claro e os olhos da mesma cor. Ele parecia tão bêbado quanto Noah, mas ao menos não estava tão eufórico quanto o moreno. Mas eu já sabia porque Noah estava naquele estado. Era o efeito que a bebida combinada com os remédios tinha, um anulando o outro e deixando a bipolaridade agir por si mesma. Suspirei enquanto esperava que Noah se despedisse de Daniel. Mais tarde teria uma conversa com esse garoto. O que ele estava pensando quando resolveu dar álcool a Noah? E Noah, o que tinha na cabeça para aceitar?
— Vamos. Vamos! – ele disse muito rápido, alegre demais. Correu até o carro, abriu a porta e entrou, se sentou no banco do carona. Enfiei as mãos nos bolsos do meu jeans e andei até o meu carro.
Abri a porta e me sentei em frente ao volante, coloquei o cinto ao mesmo tempo que via pelo canto de olho Noah tentando colocar o seu.
— Deixe-me ajudar. – falei e me aproximei dele para tentar ajudar, mas ele afastou minha mão.
— Eu consigo. – falou e tentou mais um pouco. Revirei os olhos.
Ele sempre conseguia ser tão teimoso quando queria.
Observei ele tentar e tentar, até que com seus movimentos descoordenados conseguiu colocar o cinto de segurança.
— Pronto. – disse sorrindo, os olhos muito brilhantes e as bochechas rosadas por causa do álcool.
Suspirei e dei a partida no carro. Me mantive calado durante todo o trajeto, as vezes resmungava um “ok” ou “tá bom” para Noah, que não tinha parado de falar um minuto. Ele contou o que fez durante o dia, como estava odiando as aulas de piano, disse como tinha sido o seu dia na escola e como Bianca fora quem tinha armado essa reunião com o comitê da escola, mas Daniel estragou tudo quando disse a todos que era uma festa e não uma reunião. Ele me disse como Bianca e Daniel tinham brigado e Kate tomou partido da amiga, enquanto ele resolveu ficar e cuidar de Daniel. Depois que Noah cansou de falar sobre isso, ele ligou o rádio do carro e cantou. Cantarolou algumas músicas que eu não conhecia e depois de me fazer parar em um supermercado 24hs para comprar alguns doces, ele começou a mostrar sinais de cansaço.
Noah se encostou no banco, olhou pra mim e pelo canto de olho peguei o seu sorriso. Então ele bocejou, piscou algumas vezes.
— Will. – chamou, a voz arrastada de sono.
— Hum. – resmunguei em resposta. Ainda estava meio irritado com ele.
— Você me ama? – perguntou baixinho, percebi que estava de olhos fechados.
Fiquei calado, muito surpreso com a pergunta para responder de imediato. Automaticamente mudei a marcha do carro, respirei fundo. E o observei. Desviei meus olhos do trânsito, que não era muito, e o fitei. O cabelo castanho úmido por causa do banho de piscina, os olhos fechados e os cílios curtos e finos, tinha uma marca esbranquiçada na bochecha esquerda, um corte horizontal muito pequeno e muito fino, causado pelos estilhaços de vidro do carro que ele bateu quando tinha 16 anos em Los Angeles, talvez nessa mesma rua. Na testa havia um hematoma avermelhado, que poderia ficar arroxeado amanhã, mas que por enquanto não era nada além de uma lembrança da sua queda contra a escada da casa de Daniel. Mas apesar disso, ele parecia tranquilo. Parecia como ele mesmo. O peito subindo e descendo do jeito certo, sua pele em um tom saudável, as bochechas ainda meio rosadas denunciando toda a sua euforia de antes. Ele parecia tão terrivelmente novo, tão terrivelmente frágil, ali dormindo no banco do meu carro, que me perguntei se ele teria mesmo 17 anos ou se foi um engano do cartório.
Me perguntei como ele poderia ter toda essa carga de fantasmas nas costas quando ainda era tão frágil. Essa era uma das coisas bonitas e delicadas que havia nele, o modo como ele conseguia ser tão frágil. Havia algo de extremamente chamativo nele que fazia com que eu quisesse cuidar e protege-lo, coisa essa que maioria das pessoas a sua volta não via. Menos o seu pai. O senhor Grace sabia. Ele via as mesmas coisas que eu. Ele via que toda a sua rebeldia e raiva era para esconder o seu lado frágil.
E como eu gostava desse lado irritante. Gostava do modo como ele sempre arranjava maneiras de me irritar, seja com comentários ou com ações. Sempre me deixando preocupado ou me mandando embora, para no minuto seguinte sorrir e pedir desculpas. Me beijar e achar que tudo estava solucionado, que tudo poderia voltar ao normal. Não podia ao mesmo tempo que podia. O quão louco isso poderia ser? O quão louco eu pareceria se dissesse que ao mesmo tempo que tenho vontade de abraça-lo, o quero longe, que ao mesmo tempo que o quero protege-lo, o quero ver tentar por si mesmo, livre de tudo e de todos?
Céus, como eu o amo!
Era isso, afinal. Simples e leve, grande e insuportável. Era assim que eu o amava. Como se todos os dias fosse ser os últimos, como se se eu fechasse os olhos por um minuto pudesse acordar e perceber que ainda estava nos dias negros, quando ele ainda estava desaparecido. Foram os piores dias da minha vida. Levantei a mão e toquei-lhe o rosto.
Está mesmo aqui, ressegurei para o meu lado inseguro que ainda tinha pesadelos com o seu desaparecimento, com a possibilidade de não vê-lo mais.
Pisquei e voltei minha atenção para a rua, deixei que ele dormisse e segui até o meu apartamento em silêncio. E mais tarde, quando o coloquei em minha cama, tirei seus sapatos e coloquei roupas limpas em si, sussurrei para o Noah adormecido:
— Eu te amo. – e deixei um beijo tímido nos seus lábios.
777
Noah
Minha cabeça estava latejando quando acordei, havia um gosto amargo na boca e meu corpo estava dolorido. Ainda pisquei algumas vezes para ajustar meus olhos a luz, para logo constatar que não estava em casa e sim, no quarto de Will. Suspirei com isso. Tinha uma vaga lembrança de ter ligado para ele na noite anterior, mas o resto das lembranças eram só borrões na minha mente.
Levantei, cambaleei até o banheiro, lavei o rosto e só então fitei meu reflexo no espelho. Notei a palidez no meu rosto e uma mancha arroxeada na testa. O que tinha acontecido? Toquei a mancha, mas doeu então logo parei. Encarei o chuveiro durante um tempo, decidindo se tomava banho ou não. Acabei decidindo que sim. Acabei pegando algumas roupas de Will emprestado, depois as devolveria.
No entanto, assim que sai do quarto, pronto para encarar seu rosto irritado e escutar um belo sermão, percebi que não havia ninguém no apartamento. Havia, apenas um bilhete pregado na porta da geladeira, me advertindo sobre ficar no apartamento até ele chegar. Como se eu estivesse outra escolha, pensei amargo quando tentei abrir a porta e constatei que ele tinha a trancado me prendendo aqui.
Suspirei e fui procurar meu celular, precisava ligar para meu pai e dizer que estava no apartamento de Will. Que estava tudo bem, que ninguém precisava se preocupar. Mas depois de revirar cada canto do apartamento de Will, não encontrei meu celular. Devo ter esquecido na casa de Daniel ou talvez, Will tenha pegado para me impedir de pedir ajuda e fugir do seu apartamento antes do sermão.
Entretanto, depois que cansei de procurar por meu celular e por maneiras de fugir do apartamento, notei que Will tinha deixado um café da manhã pra mim, ou pelo menos achei que fosse isso. Na verdade, era o só café numa garrafa térmica sobre a geladeira. Servi uma xícara para mim e me sentei a bancada, já que ele não tinha mesa para as refeições. Fiquei um tempo fitando o café e lembrando aos poucos o que tinha acontecido na noite anterior e em como eu tinha feito uma besteira. Não podia ter bebido. Fechei os olhos e suspirei. Quando vou parar de ser tão impulsivo? Não devia ter aceitado as bebidas oferecidas por Daniel assim como não devia ter começado a beber por conta própria depois. Primeiro me senti culpado e depois fique com raiva de mim mesmo, então fiquei triste de novo. Bebi o café devagar pensando nas coisas que tinha feito, no tanto de pessoas que tinha decepcionado, em como Maya ia contar aos meus avós que eu não estava tomando os remédios e em como Will me olharia. Ele me amaria menos agora quando percebesse a grande carga de imprevisibilidade que eu tinha me tornado? Suspirei com isso e tratei de terminar o meu café, talvez a cafeína me ajudasse a acordar ou ao menos a colocar minhas emoções no eixo.
Não sei quanto tempo fiquei encarando e bebericando aquele café, sei apenas que minha mente viajou. Voltou no tempo e por um momento me vi com doze anos novamente, sentado na fila de espera do hospício, esperando e torcendo para que Erika quisesse me receber. Lembrei do jeito nervoso que estava, do modo que minhas mãos suavam e como meu coração batia rápido. Fazia tanto tempo desde a última vez que vi minha mãe e meu pai tinha enchido meus ouvidos com histórias sobre ela, sobre o quanto ela me amava e estava doente por isso fez aquilo. Mas é claro, eu devia ter desconfiado....
—--
— Você veio, afinal. – Erika disse quando me viu sentado à mesa de visitas. Ela se aproximou e sentou à minha frente.
Eu escondi minhas mãos embaixo da mesa, elas estavam suando e eu não queria que ela visse o quão nervoso eu estava com esse encontro.
— Precisava falar com você. – disse.
Ela me encarou, os olhos dourados desconfiados sobre mim. Então ergueu uma sobrancelha e sorriu.
— Diga logo então, estou com pouco tempo.
A fitei, meio confuso com o que tinha dito. Mas quando ficou claro que ela não ia explicar nada. Apenas suspirei e comecei a falar.
—--
Não sei quanto tempo fiquei, ali, parado, fitando o café na xícara. A lembrança de minha conversa com Erika tinha retirado todo o meu apetite ou a minha força de vontade em tentar colocar algo no estômago. Lembrava do modo como ela tinha dito aquelas coisas, lembrava da tonalidade da sua voz, lembrava dos seus lábios se mexendo, mas dificilmente conseguia lembrar do que ela tinha realmente dito. Conseguia recordar algumas palavras, algumas frases. No entanto, tinha ficado com tanta raiva naquele dia, tanta raiva, das coisas que ela tinha dito que com o passar do tempo isso tudo foi se embolando na minha mente. As palavras foram se perdendo, a lembrança foi se desfazendo aos poucos.
No entanto, agora, que acabei me tornando como ela... tenho me pegado cada vez mais distraído, meu cérebro insiste em sempre voltar para aquele dia e tentar recuperar as palavras que ela disse mesmo que eu sinta que o que quer que seja que exista nessa conversa, que minha mente escondeu de mim, não seja nada de bom.
Mas foi o barulho da porta se abrindo que me tirou do meu devaneio, que fez com que parasse de encarar o líquido escuro na xícara e levantasse a cabeça e esquecesse o meu pequeno dilema “lembrar ou não lembrar”. Fiquei, com um certo alívio, a figura loira de William entrando. Ele trancou a porta assim que entrou, lançou um olhar sério para mim quando me viu sentado a bancada da cozinha, mas não disse nada. Passou direto pela sala e por mim, sem me dar nenhum sorriso. Observei-o entrar em seu quarto e ficar um tempo ali, para depois sair usando outras roupas e com o cabelo loiro molhado. Tinha tomado um banho, notei.
O loiro foi até sua mini cozinha, ainda ignorando minha existência. E isso já estava me dando nos nervos. Preferiria que gritassem comigo do que me ignorassem, mas mesmo assim não me mexi. Me mantive quieto, não sei porque, queria prolongar o silêncio, queria arranjar as palavras certas para pedir desculpas pela grande burrada que tinha feito. Às minhas costas escutei Will fazer barulhos com panelas, cortar coisas e depois as cozinhar. Ainda mexi no banco, para observar o que ele estava fazendo. Mas assim que seus olhos se encontraram com os meus, desviei o olhar e voltei a ficar de frente para a xícara de café.
Ficamos em silêncio durante todo o tempo que ele cozinhava e mais tarde quando ficou pronto, fiquei quieto durante todo esse tempo. Até que, sem aviso prévio algum, Will colocou uma tigela com sopa na minha frente, uma colher de cabo verde enfiada no líquido.
— Coma. – mandou, a voz neutra. Estava mesmo muito irritado comigo.
Encarei a sopa ao passo que ele retirava a xícara da minha frente para deixar apenas a tigela com sopa. Estava com um cheiro bom e a aparência não era nada ruim, observei os legumes boiando ali junto com pedaços pequenos de carne. Não estava com fome. Meu estômago estava se revirando em mal estar e minha cabeça ainda estava latejando. Queria deitar e dormir, para ver se os meus músculos doloridos paravam de doer.
— Coma, Noah. – mandou de novo, quando não me mexi.
O encarei.
— Will. – falei sem ter o que dizer.
Em pé, do meu lado, ele parecia bem mais alto do que eu. Sendo que tínhamos a mesma altura quando em pé, ao lado um do outro.
— Deixe-me ver sua testa. – disse, ignorando minha tentativa de pedir desculpas. Me virei no banco, para ficar de frente para ele. Will afastou meu cabelo e olhou minha testa, do jeito que um pai preocupado faria. Observei seus olhos azuis fazerem um minucioso exame no local arroxeado. – Acho que vai ficar bem. – disse por fim e acabou sorrindo, um daqueles sorrisinhos pequenos de canto. Então colocou uma mão em cada lado do meu rosto e me beijou.
Era um beijo devagar, como se ele não tivesse certeza se devia fazer isso ou não. E provavelmente ele não devia se queria me dar um sermão mais tarde, mas eu sabia como ele se sentia. Sabia sobre a imensa saudade que parecia nos acompanhar para todos os lugares. Mas então se afastou, de repente, e me deixando surpreso e com vontade de continuar. Era incrível a capacidade que Will tinha de atuar no meu corpo como um remédio, afastando o mal estar.
— Will. – chamei, mas em resposta ele apenas me deu as costas e se trancou no seu quarto.
Suspirei e voltei a encarar a sopa na tigela a minha frente. Segurei a colher e depois a levei a boca, provei um pouco da sopa. Até que estava bom. Continuei comendo, já estava no final quando Will saiu do seu quarto. Me lançou um olhar significativo e no meu nervosismo, acabei sorrindo pra ele. Olhei para o resto de sopa que havia na tigela. Odiava quando ele fazia isso. Tratamento de silêncio idiota.
Terminei de tomar a sopa e me pus de pé. Coloquei a tigela vazia na pia e então fui para o quarto de Will, mesmo que ele não estivesse mais lá. Precisava deitar, dormir, qualquer coisa que me fizesse ficar em inatividade e me impedisse de colocar a sopa para fora. Já estava começando sentir meu estômago se revirar. Acabei dormindo mais cedo do que esperava, acordei mais tarde com Will me chamando.
— Oi. – ele falou quando me viu com os olhos abertos.
— Oi. – respondi e ergui minha mão para toca-lhe o rosto e ele sorriu em resposta beijou a palma da minha mão.
— Está se sentindo mal?
— Um pouco. – falei. – Ressaca. – resmunguei e escutei ele rir. – Você não tinha que brigar comigo sobre isso? – perguntei depois.
Fitei seus olhos. William afastou minha mão do seu rosto, arrumou os óculos e então se deitou do meu lado na cama. Me puxou para o seu lado, encostei minha cabeça no seu ombro e fiquei ali, esperando uma resposta.
— Não estou com vontade de fazer isso. – acabei rindo com essa resposta. – E além do mais não é como se fosse adiantar alguma coisa, não é? – e riu me apertando mais contra si, acompanhei.
— Não fiz por mau. – falei depois que deitei em cima de si. Ele me encarou, estava sério e desconfiado. – É sério. – acabei suspirando. – Não me olhe assim. – pedi e então rolei para o lado, me sentei sobre minhas pernas e o encarei. Ele ergueu uma sobrancelha pra mim. O cabelo loiro estava bagunçado e ele tinha acabado de ajeitar os óculos mais uma vez. – Estou falando sério. Sei que fiz besteira, mas eu só...
— O que? – perguntou quando fiquei muito tempo em silêncio. Se sentou na cama também, a minha frente e por um momento tive vontade de abraça-lo, mas não o fiz. O encarei, ainda estava sério e isso queria dizer que ele estava irritado. Extremamente irritado.
— Não sei. – meio terminei meio respondi. – Eu só não devia ter feito, mas Daniel me ofereceu e ele estava tão estranho. Só não quis deixa-lo sozinho.
O loiro franzio a testa em minha direção.
— Me desculpe. – falei por fim.
— Você é sempre tão idiota. – disse e me puxou para um abraço. – Muito idiota.
Acabei rindo e logo estávamos nos beijando, mais cedo do que esperava e mais delicado do que queria.
777
Maya
Observei vovó andar de um lado pro outro, o telefone no ouvido enquanto conversava com os pais de Bianca, mais precisamente com a mãe de Bianca. Kátia. Estávamos falando sobre Noah, quer dizer não exatamente sobre meu irmão. Elas estavam falando sobre marcar um jantar ou um dia na praia com toda a família, onde implicitamente ia se ter um encontro entre Bianca e Noah. Vovó era tão determinada quando queria alguma coisa, tentava a todo custo ter aquilo. O aquilo em questão agora era Bianca e Noah juntos, sendo que meu irmão era definitivamente gay e Bianca não parecia nenhum pouco interessada em reatar o namoro com ele.
Às vezes eu apenas queria que ela parasse de olhar sempre para si mesmo e olhasse um pouco em volta, apenas para começar a ter uma noção de que o mundo e as pessoas não se curvam aos seus desejos. No entanto, apenas me mantia quieta. Ainda não tinha reunido coragem suficiente para dizer alguma coisa a ela, então ficava quieta.
Então me limitei a observar. Observei ela andar de um lado a outro e rir de vez em quando e dizer coisas sem sentido e depois rir de novo. Acho que no fim das contas, minha avó não se importava se Noah era gay ou não, ela queria que ele ficasse com Bianca. Bianca que era a única herdeira de uma multinacional, rica demais para sequer pensar em trabalhar um dia. E minha avó já tinha sido uma bela madame no passado, cheia de dinheiro, mas isso o tempo levou assim como a sua aparência jovem. No entanto, hoje ela até mesmo pode manter o status de socialite, mas na sua conta bancaria não há nada além do suficiente para manter a aparência de que ela ainda é uma mulher rica.
Ainda fiquei um tempo a observando até o momento que ela simplesmente disse um tchau leve e depois desligou. Lançou um sorrisinho simples para mim, que me fez pensar em muitas coisas então simplesmente subiu para o seu quarto ao mesmo tempo que a porta se abria e Mike entrava. Olhei para o teto.
Mike estava morando aqui por enquanto, por causa de Noah e de tudo que aconteceu. Eu não sabia se ele ia se mudar para Los Angeles de novo ou se ia continuar em Dickson, mas preferia que ele voltasse para Dickson, para junto da sua namoradinha, a tal médica ruiva. Não era segredo para ninguém que Mike não se dava bem com meus avôs e nem comigo, mas tínhamos entrado em um tipo estranho de trégua onde ignorávamos a existência um do outro. Causava um certo incomodo, mas não era o tipo de coisa que me faria perdoa-lo de uma hora para a outra.
— Onde está seu irmão? – perguntou.
— Com Will. – respondi simplesmente, peguei o controle da tevê e liguei a mesma.
Estavam todos esperando por Noah, para o sermão épico que ele receberia. Mas por enquanto o garoto ainda não tinha aparecido. Pelo menos Will teve a decência de avisar que Noah estava na sua casa, enquanto o moreno não teve nem coragem de retornar as ligações da sua família.
Sempre tão impulsivo, sempre fazendo as coisas que davam na sua cabeça.
— Hum. – disse apenas.
Eu conhecia aquela expressão no rosto dele, era mesma que eu fazia quando também escutava essa resposta. Mas claro, as razões eram diferentes. Então ele me deu as costas e subiu para o seu quarto. Suspirei. Talvez, algum dia resolvêssemos as nossas diferenças, mas por enquanto, não. Primeiro eu precisava parar de querer o corpo nu do namorado do meu irmão.
Suspirei mais um pouco enquanto zapeava pelos canais da tevê, o que me fez parar foi o meu celular vibrando. Li o nome no visor e dei um sorriso. Nada melhor do que esquecer alguém estando com outro alguém.
777
Bianca
Acordei com o meu celular tocando, o som abafado pelo travesseiro já que ele estava embaixo do mesmo. Enfiei minha mão ali embaixo e tateei de olhos fechados atrás do celular. O encontrei e atendi.
— Alô?
— Bom dia flor do dia! - a voz alegre de Emma me fez sorrir involuntariamente, era o tipo de coisa que ela sempre fazia. Tinha pegado a mania de me ligar assim que acordava e em geral, a loira sempre acordava antes das oito. Que para os meus padrões, era muito cedo. Ainda mais nos fins de semana, como era o caso.
— Bom dia. – respondi, mas gostava de saber que a primeira coisa que ela pensava ao acordar era em mim. De um jeito fofo e delicado isso me fazia sorrir e não ficar tão irritada por ser tão cedo.
— Acordei você? — perguntou.
— Tudo bem, gosto que a sua voz seja a primeira coisa que eu escuto pela manhã.
— Awn. Que fofo! – disse e riu e eu quase pude imaginar as suas bochechas rosadas. Não era fácil deixa-la sem graça, mas eu gostava quando conseguia. – Tenho uma novidade para te contar! – riu mais um pouco.
— O que é? – rolei na cama ficando de barriga para baixo, ainda estava como um pouco de sono. Tinha passado a noite anterior trocando mensagens com ela.
Nunca tinha achado possível que existissem tantos assuntos no mundo, tantas coisas para se falar e saber sobre alguém. Era como estar perto dela, mesmo que estivéssemos tão longe.
— Tam tam tam. – fez suspense e dei um sorrisinho. Ela era sempre cheia de energia, que as vezes me pegava pensando se conseguiria acompanha-la. – Meus pais estão me devendo um presente de dezoito anos, então advinha o que eles me deram? – nem ao menos deixou eu responder. – Isso mesmo! Ganhei uma passagem para Los Angeles!
Me pus sentada num rompante.
— O que?!
— Isso. Isso mesmo! Estou indo para Los Angeles na semana que vem! Tam-ram! – exclamou, riu e a imaginei dando pulinhos, o cabelo loiro balançando em volta do seu rosto e os olhos azuis brilhantes.
— Meu Deus! – exclamei e comecei a rir.
Íamos nos ver. Depois de tanto tempo íamos nos ver, íamos estar frente a frente. Íamos poder nos tocar, beijar... Meu Deus! Era tão surreal que eu nem ao menos conseguia acreditar. Mas não conseguia parar de sorrir nem conter o tanto de energia e felicidade que parecia ter se infiltrado no meu sistema nervoso. Era a melhor notícia que eu tinha recebido.
777
Noah
Estavam todos na sala quando cheguei. Sentados, com expressões sérias e muito quietos. Pelo modo como minha avó evitava olhar para o lado onde meu pai se encontrava, supus que eles tinham tido uma discussão. Engoli em seco apesar do olhar compreensivo do meu avô. Ele parecia ser o único que não se importava e até mesmo encorajava minhas saídas e maneiras de se divertir, contanto que eu tomasse os remédios direito e não fizesse coisas ilegais. Eu gostava dele por causa disso, pois ele ao menos reconhecia que já tinha sido adolescente e que também já fez coisas erradas.
— Oi? – optei por dizer, parecia ser o tipo certo de começar algo já que nenhum dos quatro se manifestou.
Maya me lançou um olhar descrente e eu ergui uma sobrancelha em sua direção.
— Onde você estava? – minha avó perguntou e eu olhei para baixo.
— No apartamento de Will. – respondi e a escutei suspirar.
Elise não gostava muito de Will, em parte porque meu pai gostava de Will e em parte porque Will não era Bianca.
— Ajudou Bianca no apartamento de Will? – Maya soltou. A encarei, franzi minha testa em sua direção.
De que lado ela estava?
— Não, eu... – comecei e me atrapalhei com a resposta quando percebi que para dizer o que tinha ido fazer no apartamento de Will, eu ia ter que dizer onde estava e o que fiz. – Ele só estava me ajudando. – acabei dizendo, o que não ajudava em nada a minha situação.
— Estava bêbado? – meu pai perguntou. Dentre os quatro, ele parecia o único que estava conseguindo ler a culpa enorme estampada no meu rosto. E ele já tinha me pegado bêbado vezes o suficiente para saber o que tinha me feito ir para o apartamento de Will.
Elise me encarou, os olhos muito dourados. Baixei os olhos e não respondi, mas não precisava. O silêncio que se impôs entre nós respondeu por si mesmo. Sim, eu tinha bebido e feito algumas besteiras e então ido parar no apartamento do loiro. A escutei suspirar mais uma vez.
— Onde acha que vai chegar com esse comportamento? – perguntou. – Bebendo, não tomando os remédios, mentido para mim... – olhei para Maya.
Ela realmente tinha contado sobre os dias que passei sem tomar o remédio, senti uma pontinha de raiva começando a se formar no meu interior.
— Se você continuar nesse ritmo teremos que interna-lo. – terminou e desviei meus olhos, apressado, para encarar Elise.
Ela não podia estar falando sério.
Eu não estava louco, não precisava ser internado.
— Estou me sentindo bem. – falei, o que era bem verdade. – Não precisa que..
Não estava triste, não estava eufórico, não sentia vontade fazer qualquer coisa. Estava me sentindo normal. Mas ao fitar a expressão de cada um, notei que eles realmente achavam que não estava tudo bem. Eles não viam o quanto eu estava bem, não viam a estabilidade do meu ser. Viam apenas o garoto bipolar que não sabia se controlar e que a qualquer deslize podia cair do precipício e fazer uma besteira muito grande. E isso me encheu de tanta raiva, que não pude mais me controlar. Por que não podiam mais me ver? Não viam que eu ainda era o mesmo Noah? Por que tinham que me tratar como se eu fosse um maldito louco?
— Não podem me internar. Não estou louco. – me defendi.
— Ninguém vai internar você. – meu avô tentou me acalmar quando percebeu que minha paciência tinha ido para os ares.
— Vamos sim, se você continuar se comportando desse jeito. – Maya disse.
— Maya tem razão. – meu pai falou quando o fitei em busca de apoio.
— Mas... mas eu só...
— Não há mas Noah. – Elise disse, o rosto muito sério. – Considere-se avisado. Agora suba para o seu quarto. – mandou.
Ainda encarei meu pai e depois Maya. Achei que tínhamos um trato, realmente achei que ela não ia dizer nada, que poderíamos deixar isso para trás e que eu poderia consertar tudo. Mas não, na primeira oportunidade ela contou. E o meu pai, ele devia ficar do meu lado. Ele entendia metade das coisas que estavam acontecendo comigo, então porque não entendia essa minha confusão, essa minha recusa em ter transtorno bipolar? Eles estavam tão errados, tão imensamente errados.
— Não estou louco. – falei ignorando completamente o que minha avó tinha dito sobre ir para meu quarto. – Não podem em tratar assim como se eu fosse uma criança, não podem me trancar no meu quarto e achar que está tudo bem. Não podem me obrigar a tomar aqueles remédios e achar que eles vão resolver tudo. Odeio aqueles remédios, odeio as suas ordens idiotas – me dirigi para Elise. -, odeio o seu jeito hipócrita de ser. – falei para Maya. – Acha que não sei? – encarei seus olhos, para que ela soubesse do que eu estava falando. – Acha que não vejo o jeito que olha pra ele? – seu rosto ficou pálido. Sim, eu sabia sobre sua imensa queda pelo meu namorado. — Você não pode achar que vou ficar como ela. – falei para meu pai.
Era isso o que ele via, afinal. Todas as vezes que Mike olhava para mim depois que recebi o diagnostico era assim, como se ele estivesse vendo algo que já aconteceu. Ele via Erika toda vez que olhava para mim, sabia disso. Conseguia notar a nostalgia estampada em cada parte do seu ser.
— Não podem me internar. – declarei.
— Noah, se você continuar não tomando os seus remédios a doença vai progredir e então... – meu avô tentou.
— Não! – exclamei. Estava com tanta raiva de todos eles. Sempre me segurando, me obrigando a fazer coisas que eu não queria, me dizendo o que fazer, me fazendo seguir a merda de um roteiro todo os dias.
“Não coma isso, Noah”.
“Coma as folhas escuras, elas vão ajudar no seu humor”.
“Não coma muitos doces, Noah”.
“Não fique na rua depois das sete”.
“Já tomou os seus remédios?”
“Não esqueça das aulas de piano as quatro”.
“Diga a Will que você não pode ir”.
— Eu não aguento mais. – falei e todos estavam me encarando, surpresos demais por eu ter gritado antes. – Odeio todos vocês sempre controlando meus passos, me tratando como uma criança pequena. Eu posso cuidar de mim mesmo.
— Como? Não tomando os remédios? Bebendo? – Elise falou.
— Eu... Isso foi besteira, admito. Mas eu posso melhorar. Eu posso tentar. – a fitei. Era pequena e tinha o rosto muito sério, que fazia qualquer um pensar duas vezes antes de dizer qualquer gracinha perto de si. – Posso tentar, se vocês deixarem. – olhei para cada um.
Eles ficaram quietos e aos poucos desviaram os olhos dos meus. Ninguém olhou pra mim, apenas ficaram parados deixando que o silêncio dissesse não. Eles não iam me deixar tentar, eles não iam confiar em mim. Iam apenas me prender cada vez mais, me forçar a uma rotina que não me agradava e que me deixava entediado. E se nada disso desse certo, iam em internar para tentar solucionar o problema.
— Ótimo. – falei com raiva, mas meus olhos estavam úmidos. Não ia chorar na frente deles, estava com raiva demais para isso. – Façam a merda que quiserem. – e dei-lhe as costas.
— Noah! – ainda escutei, mas eu já tinha saído porta a fora pisando duro e desejando que o mundo se explodisse.
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