Azul
8 Oito – Limiar
Notas iniciais
Oito – Limiar
Alex
Encarei o garoto a minha frente. Já tinha visto fotos suas e sabia o seu nome, mas isso era bem diferente de vê-lo ao vivo. Franzi minha testa e cruzei os braços. Sabia que ficar o encarando devia o está deixando desconfortável, o que explicava porque ele não conseguia olhar na minha direção. Estava mexendo constantemente na manga da camisa de flanela ou girando o anel no dedo mindinho. Notei que haviam pequenos riscos nos seus pulsos e nas laterais dos dedos, cortezinho finos, como se ele tivesse brincado com uma gilete, testando o quanto ela podia cortar. Era difícil de notar e acho que esse era o propósito, no fim das contas.
Mas me peguei pensando em que tipo de garoto ele era antes de tudo acontecer. Será que era extrovertido e alegre ou sempre fora tímido e isso só se acentuou com o trauma? Eu sabia que Noah tinha desenvolvido transtorno bipolar depois da sua experiência nada boa no porão de um maníaco.
— Quantos anos você tem? – acabei perguntando depois de bastante tempo em silêncio.
— Dezessete. – respondeu baixo ainda sem olhar para mim. – Will disse que vocês frequentaram o mesmo orfanato. – comentou hesitante mudando completamente de assunto, estava tirando o foco de si.
— Somo irmãos. – contei e dessa vez ele levantou o rosto para me fitar.
Tinha os olhos muito castanhos e cheios de desconfiança.
— Não se parecem em nada. – constatou e dei-lhe um sorriso.
— Você também não se parece com a sua irmã.
— Conhece Maya?
— Vi uma foto dela no jornal na época que você desapareceu. – expliquei e Noah se encolheu mais no sofá, fitou os seus tênis e ficou quieto.
Ainda era um assunto delicado, percebi. Descruzei os braços e parei de encara-lo, dei meia volta e fui até a cozinha enquanto me perguntava se Willy ia demora muito.
Tinha sido uma surpresa abrir a porta e dar de cara com esse garoto. Willy já tinha me contado sobre o que aconteceu em Santa Mônica e como ele tinha aberto a boca e dito tudo que podia para o namorado, mas constatar isso ainda me deixava desconfiado. Não que eu não confiasse em Noah, era apenas que isso tudo era perigoso e sujo demais para alguém como ele e eu sabia, acima de tudo, que Will nunca me perdoaria se algo acontecesse a ele. Mas ali estava ele, batendo à porta mais cedo do que eu queria e pedindo abrigo. Tinha ficado tentado a perguntar o porquê dele ter vindo parar ali, contudo não o fiz quando a primeira coisa que o garoto perguntou era onde estava William.
Noah não tinha vindo aqui para se esconder, ele tinha vindo aqui para se assegurar que Willy ainda estava vivo e bem.
Abri a geladeira e fitei o seu conteúdo.
— Alex. – chamou.
— Hum? – peguei uma latinha de coca e fechei a geladeira.
Ia ser uma madrugada longa de qualquer forma.
— A mulher de cabelo vermelho, quem era ela? – perguntou sem me fitar, mantinha os olhos castanhos na mesinha de centro.
— Ela se chama Victoria. – respondi superficialmente. Abri a latinha e tomei um gole enquanto pensava se não era melhor que Will respondesse a isso. –Costumava frequentar o Orfanato atrás de criancinhas para os seus desejos sujos. – acabei dizendo. – Quando a conheci, ela não passava de uma mera compradora. Mas com passar dos anos se envolveu com pessoas poderosas e acabou virando uma das sócias nesse mercado negro.
Dessa vez ele me fitou. Parecia uma criança, percebi. Os olhos castanhos grandes, as bochechas proeminentes e a camisa de flanela folgada no seu corpo. Não devia ser sua, pensei, talvez seja de algum amigo ou do seu pai. O que Will viu em você? Parecia tão frágil e suscetível ao choro, mas será que você sempre foi assim? Ou só está desconfortável por eu estar aqui?
— Will e ela...?
— É uma história complicada e nojenta, – falei – não acho que vá querer ouvir. Mas você pode imaginar, afinal você e Willy tem bastante coisa em comum nesse quesito. – o vi engoli em seco e desviar os olhos de novo.
Acho que eu não estava contribuindo para termos um bom relacionamento.
Voltei a beber da latinha de coca enquanto o silêncio se fazia presente mais uma vez, me encostei na bancada da pia e observei mais um pouco o garoto no sofá. Ele não era algo excepcionalmente bonito que se destacaria em uma multidão ou que faria as garotas virarem os rostos em sua direção quando o vissem, não, nada disso. Noah era comum, tinha o porte que maioria dos garotos teria na sua idade, tinha os traços do rosto bem definidos que faziam o seu rosto limpo de qualquer coisa e por isso fácil de ler. As unhas eram bem aparadas, o cabelo estava castanho novamente, o nariz era afilado e havia essa coisa nele, uma fragilidade implícita no castanho dos seus olhos e na forma como ele agia, que chamava atenção.
Me peguei observando as suas mãos novamente, vi a pele exposta do pulso.
— Se cortar alivia? – me escutei perguntar e apressadamente ele puxou a manga para baixo, cobrindo o corte esbranquiçado do seu pulso.
— Eu não faço mais, – disse baixo. – apesar de sentir vontade.
— Quanto tempo?
Já havia lido algo sobre isso. Automutilação. As pessoas que faziam isso sofriam de problemas psicológicos e sentiam a necessidade de externar a dor emocional através da dor física, achavam que assim estavam deixando tudo melhor.
— Vinte dias. – confessou.
Contar os dias, do jeito que um viciado faria, era a forma de tentar controlar a compulsão.
— É bastante tempo. – optei por dizer.
— É. – disse apenas e mais uma vez caímos em silêncio.
777
Maya
— Onde está o seu irmão? – vovó perguntou quando percebeu que Noah estava demorando muito para descer para o café da manhã.
Passei um pouco de manteiga na minha torrada enquanto pensava no que dizer. Tinha escutado o garoto sair de madrugada.
— Deve estar com Will. – falei por fim. – Acho que deve ter deixado um bilhete em algum lugar.
Noah nunca sairia sem avisar.
Observei enquanto minha avó andava pela cozinha, os olhos procurando algum bilhete, até que encontrou um papel pregado na geladeira com um imã. Ela o leu e torceu a boca em desaprovação, provando assim que eu estava certa quando disse que ele estaria com Will. Ela saiu da cozinha com o bilhete em mãos.
Ainda não entendia por que ela implicava tanto com William. Ele era um bom garoto. Era inteligente, educado, bonito e fazia bem ao meu irmão, não era como se fosse fácil achar algum tipo de defeito no relacionamento deles. No entanto, desde a primeira vez que o viu, ela costumava fazer essa mesma expressão desagrado como se não pudesse acreditar na audácia dele em continuar aqui. Acho que no fim ela só estava ressentida com Noah.
Ele era o neto caçula, o mais parecido com sua filha. Era meio normal que ela tivesse imaginado um futuro diferente para ele, um futuro que incluía Bianca como sua nora e não Will. Elise esperava ter bisnetos com os mesmos olhos dourados do neto, que também eram os mesmos da sua filha. Mas agora, parecia que ninguém ia herdar aqueles pontinhos dourados na íris.
— Querida, — disse entrando na cozinha de novo, tomei um gole grande de café. – passe no apartamento de Will e traga Noah de volta, temos uma prova de roupas para o baile beneficente hoje.
Ah, o baile.
Lembrava que tínhamos recebido esse convite no começo do mês, assim como lembrava da cara de desgosto do meu irmãozinho. No entanto, ao que tudo indicava ela tinha conseguido convence-lo a ir.
— Will vai ser o par de Noah? – perguntei e ela lançou um olhar irritado pra mim.
— Bianca vai ser o par de Noah. – disse e voltou a sair da cozinha, enquanto eu pensava se Noah sabia disso.
777
Will
— O coloquei na sua cama quando ele dormiu no sofá. – Alex contou ao mesmo tempo que eu me aproximava da cama.
— Obrigado. – disse e me sentei ao lado de Noah, ergui minha mão e toquei no seu rosto, segurei uma mecha do seu cabelo e dei um sorriso pequeno.
Noah tinha mudado a cor do cabelo novamente, agora os tinha castanho que era a cor natural do seu cabelo.
Estava dormindo, o peito subindo e descendo devagar. Tinha o rosto muito tranquilo. Não estava coberto com o lençol, estava apenas encolhido no lado direito da cama, deitado de lado ainda usando tênis e roupas casuais.
— Bom, eu vou indo. – o garoto saiu do quarto.
E só então me inclinei e beijei os lábios do meu namorado. Ele apenas franzio o nariz e resmungou alguma coisa, mas continuou dormindo. Dei um sorriso e me inclinei novamente na sua direção e dessa vez demorei mais para descolar nossos lábios, quando me separei dele notei os seus olhos abertos.
— Oi. – falei baixo fitando seus olhos castanhos sonolentos.
Em resposta, Noah passou os braços por meu pescoço e me puxou em sua direção.
— Você chegou. – sussurrou.
— Desculpe a demora.
— Onde estava? – se afastou para poder me fitar e logo estava lançando aquele olhar castanho-claro sobre mim.
— Passei a noite na casa do Frank – respondi – tínhamos um trabalho de faculdade para terminar. – esfreguei os olhos e bocejei, não tinha dormido nada. – E você, por que está andando por aí de madrugada?
Noah riu e me puxou para perto, me beijou antes de responder. Estava me distraindo, percebi.
— Estava sem sono e pensei que passear pudesse me ajudar. – contou. – E também, estava com saudade de você.
— Sua avó sabe que está aqui? – perguntei.
— Deixei um bilhete pra ela. – e só então olhou em volta e se deu conta de que não estava mais na sala. – Como eu...?
— Alex te trouxe pra cá. – expliquei.
— Oh. – soltou e se afastou de mim, saiu da cama e se pôs de pé. Não estava olhando pra mim, estava segurando a barra da camisa e olhando-a. – Se importa se eu tomar um banho?
Neguei.
— Tem roupas suas no guarda-roupa. – falei e me deitei na cama, fitei o teto enquanto escutava Noah entrar no banheiro.
Acho que essa uma das coisas que ele não abandonaria tão cedo. Era como uma mania de limpeza. Nos primeiros dias ele costumava lavar as mãos a cada duas horas ou então tomava banho com mais frequência do que o necessário. Nos piores dias o tinha visto tomar sete banhos por dia. O seu psiquiatra tinha dito que isso era normal, era o modo que ele havia achado de se manter limpo de tudo que havia sofrido. Mas com o tratamento, Noah tinha perdido um pouco disso. Ainda o via lavando as mãos, duas ou três vezes a cada cindo horas ao passo que os banhos tinham voltado a frequência normal, no entanto tinha dias que ele demorava bastante no chuveiro.
Tirei meus tênis e depois voltei a deitar na cama, estava sonolento mas não queria dormir. Escutei a porta do banheiro se abrir e me sentei na cama, observei Noah sair do banheiro usando short e camiseta. Era difícil vê-lo usando esse tipo de roupa por isso apenas o encarei, encarei as peças de roupas no seu corpo. Estava guardando o modo como seu corpo parecia mais evidente assim do que escondido embaixo do jeans e da camisa de mangas compridas. Eu queria me aproximar e tocá-lo, mas sabia que ainda não podia.
— O que foi? – perguntou, os olhos grandes e confusos sobre mim enquanto enxugava o cabelo com a toalha. Os fios desordenados apontavam em todas as direções, parecia tão mais novo do que realmente era.
— Venha aqui. – ignorei e chamei, ele veio, quando estava perto o suficiente passei meus braços por sua cintura e o abracei.
Encostei minha cabeça na sua barriga e fiquei ali, de olhos fechados. Ele tinha cheiro de roupa limpa e sabonete, tão convidativo. Será que ele sabe a intensidade do efeito que tem sobre mim?
— Will, — chamou e eu o fitei. – o que há?
Voltei a esconder meu rosto no tecido da sua camisa.
— Estou com saudade. – sussurrei.
Noah não disse nada, mas senti o seu corpo se retesiar. Ele sabia sobre o que eu estava falando, percebi. Sabia o tanto que eu sentia falta de toca-lo e beija-lo sem pudor algum. Era uma necessidade que eu nunca tinha sentido antes, que se arrastava sobre os meus ossos e pedia contato. No começo, tinha pensado que era saudade, que passaria depois de um tempo quando minha consciência e meu corpo se dessem conta de que ele estava mesmo ali comigo, mas as coisas não tinham seguido isso. Eu continuava constantemente desejando-o, querendo toques mais profundos.
Contudo, não fiz nada. Continuei onde estava, sentido o seu cheiro fresco e de olhos fechados enquanto as minhas palavras ficavam no ar. Mas Noah fez, ele tirou os meus braços da sua cintura e se separou de mim e por um momento terrível pensei que ele fosse embora, todavia ele apenas se limitou a segurar meu rosto e me beijar, se sentou no meu colo, sobre as minhas coxas e me beijou devagar, era só um toque de lábios, sem urgência e cheio de doçura. Mas eu queria mais, não queria a doçura ou a delicadeza, queria a profundidade e a urgênciae por isso, me separei dele, descansei minha testa no seu ombro e fechei os olhos. Não podia fazer isso, se eu começasse ia acabar fazendo alguma coisa de errado e estaríamos de volta ao clima estranho de um mês atrás.
— Will – chamou baixinho e abri os olhos, esperei. – pode me tocar, se quiser. – parecia hesitante e ansioso ao mesmo tempo.
Deixei um beijo no seu pescoço.
— Não precisa fazer isso só porque eu quero. – falei contra a sua pele.
— Eu quero. – confessou e dessa vez ele quem procurou por meus lábios.
Segurei a sua cintura e o empurrei para cama, fiquei por cima de si ao mesmo tempo que enfiava minhas mãos por baixo a sua camisa e a tirava de si. Apreciei a visão do seu tórax nu e desci minha boca ali, queria provar o gosto da sua pele, apreciar a textura com meus lábios. Beijei a pele, deslizei minha língua por ali até que encontrei o seu mamilo, o coloquei na boca ao mesmo tempo que o sentia estremecer e soltar um gemido baixo. Parece que achei mais um ponto fraco, pensei. Suguei os seus mamilos, enquanto o via fechar os olhos e suspirar. Ainda não sabia até que ponto poderia ir antes que ele me mandasse parar. Mas continuei. Beijei a extensão da sua barriga e depois o ajudei a se livrar das últimas peças de roupa, coloquei meus lábios na sua virilha antes de chegar até o ponto central.
Apreciei o fato de Noah está tão excitado quanto eu estava.
— Will, não precisa... – ele começou, os olhos muitos castanhos na luz do meu quarto.
Mas eu precisava, eu queria. Queria provar cada parte do corpo dele, matar o desejo implantado no meu peito mas na medida que o gosto dele se fazia cada vez mais presente na minha boca, percebia também que não importava quantas vezes eu fizesse aquilo, ia sempre querer mais e mais e por isso, coloquei o seu pênis na minha boca. Queria saber o seu gosto principal, queria saciar mesmo que um pouco, esse desejo.
Eu não era nenhum garotinho inocente, as circunstancias da vida tinham me ensinado muitas coisas que iam desde a mentir como um profissional a ser um sedutor. Minha vida antes que fosse dotado tinha sido uma sucessão de aprendizados, ruins, mas que me fizeram sobreviver. Tinha aprendido muitas coisas, mas era raro quando as usava para benefício próprio, na maior parte do tempo só estava tentando me livrar de alguma coisa. Mas aqui estava Noah, me deixando tão excitado com apenas a visão do seu corpo... E havia o seu gosto inundando meu paladar.
Limpei o canto da minha boca e refiz o caminho até a sua boca, apenas para encontrar as suas bochechas rosadas.
— Seu gosto é doce. – sussurrei no seu ouvido enquanto sentia suas mãos deslizarem por baixo da minha camisa, ele puxou-a para cima e me fez tira-la assim como o resto das minhas roupas.
Segurei a sua cintura e colei o seu quadril com o meu.
— Ah. – gemeu um pouco alto demais quando nossas intimidades se chocaram.
Comecei a mexer contra si. O atrito dos nossos corpos estava me deixando suficientemente excitado para que eu não conseguisse segurar o gozo por muito tempo, mas mesmo quando sentia que ele estava próximo não queria que aquilo acabasse tão cedo. Eu queria mais do corpo de Noah, e ele ainda estava tão excitado.
— Will, — ele sussurrou contra a minha pele, tinha os braços em volta de mim como que para me impedir de me afastar. – eu quero... – mas as palavras se perderam.
Estava ofegante e tinha os olhos fechados quando o fitei, beijei-o e ele mordeu meu lábio inferior.
— Eu preciso... – sussurrou de novo enquanto eu tinha minha boca no seu pescoço e meu quadril se movimentando contra o seu.
— Quer que eu pare? – perguntei, mas ele não estava me fitando, tinha o castanho dos olhos desfocado.
— Continue... Ah. – gemeu contra a minha pele.
— O que você quer? –mordi a ponta da sua orelha. – me diga, Docinho.
— Não me chame assim. – mandou e enfiou a ponta dos dedos no meu quadril.
— Mas você é um docinho.— argumentei, queria provoca-lo.
— Cale a boca. – demandou e me beijou enquanto eu sorria contra os seus lábios. – apenas coloque dentro de mim. – foi claro dessa vez.
Era o tipo de coisa que não se podia contestar, mas não era como se eu não quisesse também.
O lubrificante estava na primeira gaveta do criado mudo. Tinha sido relativamente fácil encontra-lo e depois aplica-lo no meu pênis e na entrada dele. Parecia calmo e ansioso ao mesmo tempo quando me forcei para dentro dele, mordeu meu ombro para abafa os gemidos e escondeu o rosto na curva do meu pescoço para que eu não visse as caretas de dor. Mas logo estava me beijando e sussurrando coisas que eu não entendia contra a minha pele, tinha as mãos no meu quadril, estava ditando os movimentos. Deixei mordidas no seu pescoço e ombro ao mesmo tempo que aumentava as estocadas, estava indo cada vez mais rápido. Mas Noah me parava, ele segurava meu quadril e me obrigava a diminuir a velocidade.
— Devagar. – sussurrou contra a minha pele.
Mas estava difícil me controlar, queria ir fundo e fazê-lo gemer alto. Por isso, apenas passei meus braços por sua cintura e rolei na cama, fazendo-o ficar por cima.
— Me mostre como você quer. – disse no seu ouvido.
Colocou as palmas das mãos no meu peito e se içou, ficando sentado sobre mim. Começou a se movimentar, de olhos fechados com a cabeça jogada para trás e a boca aberta, tinha o cabelo castanho grudado na testa e na nuca de suor, e as maçãs do rosto rosadas. Era a coisa mais linda que eu já tinha visto.
Me empertiguei em sua direção, precisava dele perto, precisava do calor que a pele dele tinha, por isso colei nossos corpos de novo. Ele estava entre minhas pernas meio sobre mim, tinha colocado minha mão atrás da sua nuca e o estava beijando ao mesmo tempo que sentia seu pênis batendo contra a minha barriga. Deixei que ele ditasse a velocidade enquanto o mantia perto, sentia seu cheiro, beijava a sua pele e apreciava os sons que ele deixava escapar. Segurei no seu pênis e comecei a masturba-lo. E logo ele estava passando os braços a minha volta e procurava minha boca com uma urgência deliciosa, seu quadril estava se movendo muito rápido contra o meu e por isso, sussurrei contra os seus lábios o quanto eu não poderia segurar mais.
No entanto, quando me deixei levar pelo ápice, Noah gozou na minha mão, sujou minha barriga enquanto se agarrava em mim, como se eu fosse algum tipo de mastro de salvação em meio a um naufrágio.
Afaguei os seus cabelos enquanto sentia a sua respiração se acalmar, ficamos ainda muito tempo naquela posição apenas sentindo a presença um do outro, incapazes de dizer qualquer palavra. Estava sentindo a ponta dos seus dedos passeares pela extensão da minha costa enquanto pensava em como tudo que envolvia Noah era fácil e leve. Ele mesmo era todo assim, apesar de ser retraído na presença de pessoas desconhecidas para si. Mas quando ele estava com seu grupo de amigos ou comigo, era fácil pegar um sorriso dele ou uma piada. Eu sabia que a maioria das pessoas pensava em como tudo o que aconteceu o tinha mudado, o próprio psiquiatra dele tinha me alertado em como ele pareceria ser outra pessoa, em como eu ia ser capaz de me assustar com as mudanças de humor ou com os novos traços da sua personalidade. Mas todas as vezes que eu olhava para si, não via nada além do Noah por quem me apaixonei.
Claro, que haviam momentos que eram realmente difíceis e que era quase impossível reconhece-lo, mas tinha alguma coisa no modo como ele me olhava ou no modo que sempre relaxava nos meus braços, que significava que aquele garoto ainda existia. E assim como amava aquele garoto, aprendi a amar esse.
Nossos pedaços quebrados se encaixavam, no fim das contas.
777
Maya
Parei o carro em frente prédio onde ficava o apartamento de Will e me preparei para tocar a buzina. Mas avistei Noah em pé, em frente ao prédio. Estava com as costas encostadas na parede e ria de alguma coisa no celular.
— Ei, moleque. – chamei e ele levantou os olhos na minha direção. – Vamos.
Observei enquanto ele se apressava até o carro, abriu a porta de trás e entrou, evitou o lugar vago ao meu lado. Ainda estava irritado comigo, percebi. Pelo espelho retrovisor frontal vi quando ele guardou o celular e colocou o cinto de segurança, então olhou para fora. Havia uma marca roxa no seu pescoço, pisquei meio confusa mas logo a resposta se arrastou sobre mim. Noah havia passado a noite com Will o que significava apenas uma coisa...
Mordi o lábio e dei partida no carro. Realmente não queria pensar no meu irmãozinho mantendo relações sexuais com alguém. Mas por um lado estava feliz, pois isso significava que Noah estava superando seus traumas.
— Mike ligou hoje. – comentei apenas para tentar acabar com o silêncio e ver se conseguia arrancar algumas palavras dele.
— Papai. – concertou.
Apertei os lábios. Não gostava de chamar Mike de pai mais porque não fui exatamente criada por ele, então não havia realmente um costume nesse ato que tornasse fácil dizer e também porque, depois do que ele fez com mamãe, não era realmente fácil olhar pra ele e ver um pai. Mas com Noah era diferente. Fora criado por ele, tinha momentos o suficiente com ele que comprovavam o quão bom pai Mike era.
— Ele disse que vai voltar na próxima semana. – terminei de dizer. – Tem uma notícia importante.
O vi piscar parecia querer dizer alguma coisa, mas não disse. Voltou a ficar quieto durante o resto do caminho. Tentei puxar assunto algumas vezes, mas ele apenas me dava respostas vagas. No entanto, percebi que ele não estava fazendo isso porque ainda estava irritado comigo e sim, porque estava distraído. Notei o jeito ansioso que ele olhava para o celular ou como parecia estar pensando em milhões de coisas quando olhava pela janela do carro.
— Vovó disse que aceitou ir com ela no baile beneficente. – falei, queria quebrar o silêncio desconfortável.
— Hunrum. – resmungou e começou a digitar alguma coisa no celular. – Pare aqui. – mandou e parei.
Noah abriu a porta e saltou do carro.
— Ei. Onde está indo? – perguntei.
Tinha ordens para leva-lo para casa e não deixa-lo em um ponto aleatório da cidade.
— Preciso falar com alguém. – explicou. – Diga a vovó que encontrarei com ela no baile.
E então se afastou, atravessou a rua correndo e entrou na lanchonete, que só agora notei, no outro lado da rua. Suspirei e dei partida no carro.
Dei de cara com Elise assim que entrei em casa.
— Onde está o seu irmão? – perguntou, tinha o telefone na mão.
Suspirei. Não tinha a menor ideia de como dizer a ela que Noah tinha simplesmente saltado do carro sem dizer o que ia fazer ou com quem. Mas acabei contando, o que rendeu olhares nada bons dela na minha direção, no entanto ela apenas apertou os lábios e voltou a falar no telefone enquanto eu aproveitava para sair dali.
777
Bianca
— Está bonita. – falou enquanto eu ajeitava a sua gravata, lhe dei um sorriso mínimo. – Acha que esse baile vai durar muito? Tenho um compromisso às dez.
Levantei olhar para Noah e ergui uma sobrancelha.
— Pode sair com Will nos outros dias da semana, sabia?
— Se você continuar me fazendo mentir por você, não vou ter não. – rebateu e baixei os olhos.
Admitia que aquilo tudo era culpa minha e da minha covardia, se eu não fosse assim não tinha metido Noah nessa grande enrascada comigo. Mas as palavras já tinham saído da minha boca, a mentira tinha sido contada e eu não podia fazer nada a não ser tentar manter isso, por isso aqui estava Noah – meu melhor amigo – na minha frente, enquanto eu o ajudava com a gravata do seu terno ao mesmo tempo que pensava em que tipo de pessoa eu tinha me tornado.
Eu tinha crescido em um mundo cheio de privilégios, meus pais sempre tiveram dinheiro e como eu era filha única, eles sempre me deram tudo que eu queria. Minha vida sempre foi cheia de conforto e bens materiais. No entanto, apesar de ter tudo isso, não havia realmente uma boa relação entre eu e os meus pais. Nunca fomos muito próximos e por isso, sempre fui muito sozinha, até o dia em que conheci Noah. Éramos do mesmo círculo social e por isso nossas famílias sempre quiseram que nos déssemos bem e nós demos, até mesmo viramos namorados, mas isso durou pouco. Pouco mais de quatro meses, antes de Noah fazer besteira e ter que mudar de cidade, e no tempo que passei sozinha em Los Angeles, percebi o quão vazia era a vida aqui. Não só porque eu sentia falta de Noah, mas porque minha vida de luxo era superficial.
Observava o jeito que minha mãe e suas amigas levavam a vida e pensava em quão idiota era aquilo e que não queria ser assim. E foi então que conheci Emma, a bela e espontânea Emma. Ela era cheia de vida e brilhava tanto, que fui imediatamente atraída por ela. A garota tinha me mostrado outra forma de ver a vida, me ensinado novas coisas, me feito sentir coisas boas e extremamente esquisitas, ela fez com que eu me sentisse viva... Mas então eu estraguei tudo com ela e estou estragando tudo com Noah, e estou estragando tudo comigo mesma.
Nunca pensei que o meu desejo de não ser como minha mãe, acabasse me tornando como ela.
— Me desculpe por isso, Noah. – acabei falando. – Vou consertar as coisas.
O garoto me fitou e logo estava passando os braços a minha volta e me trazendo para perto, ele tinha cheiro de canela e terno novo.
— Tudo bem, Bi. – sussurrou contra o meu cabelo.
Mas não estava tudo bem.
Escutei um bip e Noah se afastou de mim, era o seu celular anunciando uma mensagem. Observei enquanto ele digitava alguma coisa em resposta e logo depois dizia:
— Compromisso das dez já era. Hoje sou só seu, querida. – riu e eu acompanhei.
777
Maya
O vestido tinha ficado apertado no busto então parecia que meus peitos eram bem maiores do que realmente eram, o que me deixou com um misto de vergonha e animação. Mas os saltos tinham ficados bons apesar de eu preferir o velho e bom tênis ou as minhas botas confortáveis, contudo isso estava fora de cogitação quando a festa era toda a caráter e pedia ternos ou vestidos elegantes.
O baile já tinha começado quando cheguei. Todos já estavam dançando em pares no salão ou sentados às mesas conversando. Avistei meus avós em uma mesa juntos com outras pessoas, que depois reconheci como os pais de Bianca. Eles riam e bebiam como velhos conhecidos, notei que lançavam olhares para a pista de dança, desviei meus olhos para lá e encontrei Bianca e Noah dançando e logo o porquê de eles parecerem tão felizes naquele papo me veio à mente.
Balancei a cabeça, pensando em como eles não mudavam mesmo.
Tinha tentado ter esse tipo de conversa com Elise, minha avó, mas ela tinha se esquivado bem, dizendo que Noah estava apenas passando por uma fase e que logo ia se cansar dessa “esquisitice”. Mas eu sabia que não, principalmente porque o jeito como Noah olhava para Will entregava que aquilo não era nenhum pouco passageiro. Todavia, minha avó não queria ver isso, ela queria netos bonitos com olhos dourados.
Era uma velha teimosa.
Suspirei e fui até eles, me sentei em uma cadeira vazia e escutei a mais nova novidade: Noah estava namorando com Bianca. Estava um pouco cética quanto a isso e só me limitei a fixar o olhar no casal na pista, não pareciam namorados, pareciam irmãos.
Eles pararam de dançar e quando estavam voltando para a mesa, Noah acabou segurando na mão de Bianca e a levando em direção a um casal perto da mesa de comida. Reconheci Ellen das fotos na coluna social, mas não sabia quem era o garoto de cabelo escuro que estava com ela, mas meu irmão parecia saber porque cumprimentou os dois avidamente enquanto Bianca permanecia quieta. Mantive meus olhos neles quatro, em parte porque não conhecia tantas pessoas naquela festa e em parte porque não estava interessada nas fofocas da minha avó e a mãe de Bianca ou os assuntos sobre a bolsa de valores com o meu avô e o pai de Bianca.
Eles ainda ficaram muito tempo conversando até que as garotas foram no banheiro. Observei os trejeitos do meu irmão enquanto conversava com o garoto, estavam rindo de alguma coisa, pareciam confortáveis um com o outro. O garoto de cabelo preto puxou a manga da camisa e mostrou o pulso esquerdo para Noah e só então percebi que o conhecia, sabia quem era aquele garoto. Era Henry, o primo de Ellen. O garoto que tinha tentado se matar há algum tempo.
Eu lembrava da comoção que foi esse dia, o dia em que encontraram o seu corpo desacordado.
Noah se inclinou para olhar o pulso do garoto enquanto ele lhe dizia algumas coisas e foi então que tudo aconteceu. Em um segundo Henry estava dizendo alguma coisa e segurando o rosto do meu irmão e no outro, o estava beijando. Então Bianca estava os separando e dizendo coisas que eu não podia ouvir para Noah, parecia irritada, ao passo que Ellen segurava no braço de Henry e o tirava dali, seu rosto bonito contorcido em desaprovação.
Me pus de pé e fui até lá, meus avôs seguiram o meu exemplo assim como os pais de Bianca e praticamente todas pessoas no baile.
— O que está acontecendo aqui?! – o pai da garota perguntou.
— Noah estragou tudo! – a loira gritou como uma criança mimada.
— Não vem com essa, Bianca! – meu irmão gritou de volta e eu quis me aproximar e tira-lo dali antes que falasse besteiras, mas pelo modo como ele estava irritado já era tarde demais. – Você estragou tudo quando começou com isso.
Vi Bianca balançar a cabeça em negação, parecia está dizendo “não diga, não diga, não diga”. Mas as palavras já tinham sido lançadas.
— Não estamos namorando. – ele disse para a plateia a sua volta.
— O que? – a mãe de Bianca a encarou. – Mas, querida, você disse que...
— É mentira. – o garoto respondeu por sua amiga. – Bianca só falou isso porque estava com medo.
— Medo? Mas medo de que? – agora era o pai encarando a garota.
— Eu não... – ela tentou dizer, mas as lágrimas estavam inundando seus olhos. – Me desculpem. – disse escondendo o rosto entre as mãos e seus pais se aproximaram dela.
Noah estava se preparando para sair dali quando percebeu o olhar matador de Elise sobre si.
— Volte aqui. – mandou.
Mas em vez de voltar, ele disse bem alto:
— Sei que não gosta do fato de eu ser gay, mas eu sou. – eu engoli em seco. Em todo esse tempo nunca tinha visto ninguém enfrentar minha avó, quer dizer, ninguém além da mamãe. – Sei que acha que é uma fase, que estou confuso, mas eu não estou. – e dessa vez ele se aproximou da nossa avó. –Sou seu neto e isso não vai mudar mesmo se eu gostar de garotas ou garotos, e se a senhora não pode aceitar isso, então ao menos pare de tentar me juntar com Bianca ou outra garota qualquer, e me deixe em paz.
Elise não disse coisa alguma, apenas continuou encarando Noah como se não pudesse reconhece-lo ao mesmo tempo que meu avô erguia a mão e colocava sobre o ombro dele.
— Tudo bem. – ele disse apenas e Noah assentiu e só então se afastou, saiu do salão e eu fui atrás.
777
Will
1... 2... 3... 4... 5... — estava contando mentalmente enquanto esperava Alex. Já era noite e eu estava nervoso, era uma loucura o que íamos fazer mas não era como se houvesse alguma outra saída. Tínhamos pensado juntos em modos de nos livrarmos daquilo, mas não havia realmente uma alternativa.
— Você vai dirigir? – ele perguntou quando me viu sentado no banco do motorista.
— Meu carro. – falei e ele revirou os olhos.
Dei partida no carro e nossa viagem começou. Permanecemos em silêncio durante o caminho inteiro até Santa Mônica. Parecia até irônico que Victoria estivesse tão perto assim de nós.
Das informações que tínhamos reunido dela, só tinha conseguido reunir poucas coisas. Casou com um milionário há dois anos, mas ele morreu em um acidente de carro e ela herdou tudo, comprou uma casa em Santa Mônica e vivia ali desde então, sempre muito exemplar saia em algumas revistas de moda e colunas sociais como a viúva mais cobiçada do momento. Mas ela não parecia interessada nos homens locais, afinal não aparecia com ninguém nas fotos.
Estava tentando me preparar para nosso encontro, enquanto dirigia até lá ao mesmo tempo que pensava em Noah e no que ele devia estar fazendo. Era engraçado como ele tinha se tornado tão presente na minha vida em tão pouco tempo, não era incomum que eu pensasse nele várias vezes ao dia ou que mandasse mensagem a ele várias vezes ao dia, era um tipo estranho de mania.
Não tinha contado a ele o que ia fazer, tive que mentir, dizer algo sobre a faculdade, usa o nome de Frank e mantê-lo longe disso. O que íamos fazer hoje, eu e Alex, era algo nosso e era melhor que ninguém mais se metesse nisso.
— Está bem? – Alex perguntou.
— Não. – respondi simplesmente.
Estou indo consertar as coisas, pensei.
Ficamos em silêncio de novo. E quando chegamos na casa dela, ainda ficamos um tempo apenas encarando a fachada da casa sem realmente querer entrar. Pedi que Alex ficasse no carro, afinal não havia nada que ele pudesse fazer além de irrita-la. Eu iria conversar com Victoria e não sei... não tinha realmente um plano. Encostei minha testa no volante e fiquei um tempo ali, respirei fundo antes de finalmente abrir a porta do carro e sair dali.
Enquanto caminhava até a porta da casa dela, podia sentir o pendrive pesando no meu bolso. E quando bati na porta, não sentia como se fosse realmente eu a fazer aquilo, era como se eu pudesse ver tudo aquilo como num filme. Em um momento eu estava batendo na porta e em outro, ela estava na minha frente, segurando minha mão e me puxando para dentro da sua casa. Sorria, tinha o cabelo vermelho solto sobre seus ombros, mas eu só conseguia pensar no quanto preferia castanho.
— Você veio. – ela disse ainda mostrando os dentes perfeitos, estava tão perto que eu conseguia sentir o cheiro do seu perfume, dei um passo para trás.
Eu vim, pensei, eu realmente vim, do jeito como tinha dito a ela que faria. Mas não disse coisa alguma, apenas deixei que ela segurasse na minha mão e me levasse escada acima.
— Eu dispensei os empregados. – estava dizendo. – estamos sozinhos, a casa inteira para nós dois.
Engoli em seco, mas não fui capaz de contesta-la. Apenas deixei, assim, como se não fosse eu, como se não fosse meu corpo, como se eu fosse algum tipo de marionete tendo os movimentos conduzidos pelo manipulador. Era como ter oito anos de idade de novo, quando aquelas pessoas vinham e me pediam coisas que me deixavam confuso. Mas, aqui, junto dela, eu tinha dez anos novamente.
Victoria me fez sentar na cama e então sentou no meu colo, sobre minhas coxas, passou os braços em volta do meu pescoço e me beijou. Estava sorrindo contra meus lábios e tinha cheiro de gardênia... Gardênia... E mais uma vez fui transportado no passado.
As lembranças eram mais fortes do que o objetivo que me trouxe aqui, elas vinham sobre mim como um cobertor num dia quente fazendo os beijos de Victoria terem gosto de areia na minha boca. Eu tinha de novo dez anos e estavapreso nos seus braços, a sua boca deslizando por meu corpo contra a minha vontade enquanto me sentia tremer. Queria poder afasta-la e dizer que não podia fazer isso, que sentia nojo e que queria gritar, mas eu estava paralisado. Estava fazendo o que tinha me sido ensinado a fazer: estava aceitando. Cedendo, deixando acontecer. Sem reclamar, sem gritar, sem fazer um som. Apenas desviando meus pensamentos para outra coisa, focando em outros momentos, desligando minhas sensações... Mas ela tinha cheiro de gardênia.
Podia sentir o seu cheiro se infiltrando nas minhas roupas, colando na minha pele e apagando o cheiro de canela e almíscar, que era o odor que tinha me acostumado a sentir. Sabia que havia alguma coisa errada nesse ato, sabia que isso não deveria acontecer. Gardênia não parecia ser o cheiro certo, não era o que eu queria sentir nas minhas roupas, não o que eu queria na minha pele. E o gosto do beijo também era diferente. Onde está o gosto doce de menta ou morango das balas que ele costuma comer? Onde está o encaixe natural dos seus lábios nos meus? Onde estão os suspiros que ele sempre solta contra os meus lábios? Cadê o receio em me tocar e ser tocado? Cadê as bochechas rosadas de desejo e os olhos castanhos profundos?
Está tudo errado, me dei conta. Estou fazendo tudo errado.
A afastei. Segurei-a pelos ombros e descolei sua boca da minha. Fitei o seu rosto surpreso e confuso, o cabelo vermelho meio jogado sobre os ombros emoldurando o seu rosto fino.
— Não posso fazer isso. – me escutei dizer com a voz rouca.
— Por causa do seu namoradinho? – perguntou ácida.
— Por minha causa. – respondi, porque realmente era por mim.
Não podia fazer isso comigo de novo. Tinha batalhado tanto para me livrar de todas essas lembranças ruins, tinha me esforçado para seguir em frente com um adolescente normal e tinha conseguido construir uma coisa tão legal com Noah. Eu não podia fazer isso comigo mesmo, não podia me destruir assim. Não podia me intoxicar de novo com esse mundo sombrio.
Victoria me fitou mais um pouco e uma compreensão tomou conta do seu rosto, então ela saiu do meu colo, ficou de frente pra mim.
— Você é meu, querido. – demandou. – Sempre vai ser e não há nada que você diga que possa mudar isso. – voltou a se aproximar segurou o meu rosto e me beijou.
Eu a empurrei e em resposta, me deu um tapa. Forte.
— O que acha que está fazendo?! – se descontrolou. Fitei a colcha da cama, amarela. – Por que acha que aceitei que viesse aqui?!
Levantei o rosto para olha-la. Ainda era muito bonita com o cabelo vermelho brilhante e os olhos escuros maliciosos.
— Não vim aqui pra isso. – falei e coloquei a mão no bolso, procurei o pendrive e mostrei a ela. – Vim te dá isso.
— O que é isso? – franziu a testa e pegou o pendrive.
— Tudo o que Alex pegou.
Esse era o plano, afinal. Devolver tudo. Fazê-la acreditar que não havia cópias, que estava tudo contido naquele pendrive e acreditar que ela ia nos deixar em paz. Era um plano bobo, falho em diversas partes. Mas era o nosso último grito de liberdade. Eu queria minha vida de volta e Alex queria a sua liberdade de volta.
— Acha mesmo que vou acreditar que não há cópias por aí?
— Não. Mas pode acreditar em mim quando digo que não há.
Andou pra lá e pra cá com o pendrive na mão, então parou. Voltou a me encarar, os olhos muito escuros sobre mim.
— Posso?
— Pode. – concordei.
E ela sorriu. Mas era o mesmo sorriso da bruxa má.
777
Noah
Me sentei sobre a grama, as pernas cruzadas como se fosse fazer alguma meditação. Mas não ia fazer nenhuma, em vez disso apoiei meu queixo na palma da minha mão e tentei ler a frase escrita na superfície lisa do mármore do tumulo da minha mãe com a pouca luz do poste. Já passava da meia-noite e eu não deveria estar no cemitério, principalmente porque o horário de visita já havia acabado há muito tempo. No entanto, não era como se alguém tivesse me impedido de entrar. Na verdade parecia que eu tinha sido convidado a entrar.
O portão estava destrancado e as luzes dos postes estava forte o suficiente para guiar meus passos até ali. Tudo tinha cheiro de grama e saudade, talvez um quê de tristeza aqui e ali. E tirando os mortos e eu, não havia ninguém mais naquele lugar.
Não sabia ao certo porque estava ali e nem sabia dizer como tinha ido parar ali. Lembrava de gritar com Bianca e sair daquele baile idiota, pegar o primeiro ônibus que vi e então chegar aqui. Tudo parecia um sonho na minha mente, não parecia como se eu tivesse feito aquilo. Acho que era mais um dos surtos, afinal, eu não havia tomado meu remédio hoje.
Encarei mais um pouco a frase na lápide, até que ela começou a ganhar forma.
“Erika Grace.
Mãe, esposa e filha dedicada.”
Bufei.
Erika nunca foi uma boa filha. Sabia disso pelas histórias que meu avô contava, os resquícios de lembranças que ele deixava escapar. Era através disso que comecei a conhecer uma nova Erika, a Erika adolescente que achava que podia mudar o mundo.
“Ela gostava de fazer protestos contra a matança de baleias na praça da cidade. Saia nos fins de semana para acampar com os amigos e no fim do ano, reunia donativos para os necessitados.”
Na minha mente havia a imagem de uma Erika adolescente, com os cabelos longos como de Maya e de sorriso fácil, com sardas no rosto e olhar felino. Meu avô dizia que ela nunca tinha se dado muito bem com a mãe, minha avó, e que era frequente que as duas estivessem brigando e que tudo piorou quando ela conheceu Mike e piorou mais quando ela morreu. Era difícil juntar essa Erika adolescente, que queria mudar o mundo, com essa Erika que eu conheci, a mãe ausente e doente. E agora, olhando para essa frase no seu tumulo, eu só consigo pensar que as pessoas são mesmo hipócritas.
Não é engraçado como a pessoa depois de morta é transformada num mártir? Uma exemplo de vida?
É como se todas as coisas ruins que ela fez ou as coisas nada boas que disse, tivessem sido apagadas da memória das pessoas, transformando-a nessa coisa boa, que todos parecem amar.
— Sabia que ia te encontrar aqui. – uma voz familiar disse e virei o rosto e avistei a figura castanha de Maya por sobre meu ombro.
Voltei a encarar a lápide ao mesmo tempo que escutava ela vir na minha direção, sentou-se ao meu lado, do mesmo jeito que eu estava sentado.
— Vovó está com muita raiva? – me escutei perguntar.
— Ela supera. – respondeu. – O que está fazendo?
— Só pensando. – respondi vago, observei a grama e segurei um pedaço de folha verde entre os dedos. – Você nunca pensou no quão hipócrita é essa frase?
Talvez fosse a falta de remédio que me deixava falar na presença de Maya de novo ou talvez eu já estivesse cansado de ficar calado na presença dela. Eu tinha ficado com raiva pelo modo como ela tinha agido, mas aquilo tinha sido uma coisa de momento. A raiva tinha passado cedo. No entanto, eu tinha condenado ela ao tratamento de silêncio porque achava que ela merecia alguma punição. Acho que no fim das contas, eu só estava com ciúmes.
— Ela era uma boa mãe. – comentou e eu torci a boca.
— Fale por você. – acabei dizendo e me surpreendi com o tanto de ressentimento que havia ali.
— Noah, — começou e esperei. – sei que Erika não foi uma boa mãe pra você, mas ela te amava. Sabia? De um jeito torto, mas te amava.
— Amava? – soltei e a encarei. – Está se escutando? Erika não me amava. E eu sei disso porque ela disse, ok? Ela olhou bem nos meus olhos e disse que não me amava. – confessei com uma ferocidade na voz.
Vi uma expressão de surpresa tomar conta do rosto de Maya, mas depois adquiriu uma expressão triste. Estava triste por mim, talvez até sentisse pena. Mas eu não queria a pena dela ou a compreensão, não precisava de nada disso. Precisava, para meu alivio, que as pessoas a minha volta parassem de dizer o quanto Erika estava doente e por isso era incapaz de me aceitar como filho, precisava que parassem de tentar justificar as suas faltas com a sua doença. Erika nunca me amou e nunca me amaria independente da sua doença, essa era a verdade. A terrível verdade que eles todos tinham medo de dizer. Mas eu não era idiota, não do jeito que era quando criança. Eu tinha crescido e aprendido do pior jeito, que aquilo que eles diziam não era nenhum pouco verdade.
— Ela... ela disse isso a você? – acabou perguntando, fitei o poste de luz ali perto.
Estava ficando frio, notei, pois estava sentindo meus lábios ressecados.
— Noah. – chamou, impaciente.
— Ela disse, ok? Um dia antes de morrer. – falei. – Papai tinha nos levado para uma visita, você lembra? Eu tinha acabado de completar doze anos. Nós entramos separados na sala de visita, tínhamos uma hora com ela à sós.
A lembrança foi se formando na medida que eu a invocava diante dos olhos de Maya. Lembrei do modo como Erika tinha os lábios ressecados e o cabelo curto, o jeito como ela olhou em volta, o dourado dos olhos desfocado. Lembro das unhas quebradas e do modo como ela parecia não me reconhecer no primeiro momento. Já estava completamente louca.
—--
— Você tem quantos anos agora? – tinha perguntado, até mesmo parecia curiosa.
— Doze. – respondi com orgulho, na minha ignorância achava que já era um adulto.
— Eu tinha doze quando dei meu primeiro beijo. – riu baixinho. – Ela se chamava Nina e a sua avó nos pegou no ato. – riu mais um pouco ao mesmo tempo que eu me mantia surpreso. – Por que essa cara? Nunca beijou um garoto? – eu corei. – Ou uma garota? – e corei mais um pouco enquanto pensava em Bianca e ela riu mais.
Baixei os olhos para a mesa que nos separava, escondi minhas mãos embaixo dela e apesar de não poder vê-las, sabia que estavam tremendo e suando. Eu estava nervoso por estar aqui, com ela, depois de tanto tempo. Sentia saudade, apesar de não lembrar da maioria das coisas que a envolviam.
— Você se parece com seu pai. – comentou e levantei o olhar para fita-la. – Tem até mesmo a mesma pintinha aqui. – e colocou a ponta do indicador embaixo do seu olho direito, bem onde começa a maçã do rosto. – Mas você tem os meus olhos. – constatou.
Eu tinha passado algum tempo pensando em como falaria com ela, nas coisas que diria. Tinha tantas novidades para contar e queria pedir conselhos à ela sobre Bianca, queria dizer como estava gostando da loira e queria namora-la, mas estava inseguro com a ideia de pedi-la em namoro. Também queria dizer como me sentia confuso as vezes e que tinha pesadelos consigo, mas que estava disposto a esquecer tudo se ela, pelo menos um pouco, mostrasse que queria tentar também.
Mas ali estava ela, minha mãe, falando sobre mim como se eu não estivesse lá. Soltando risadinhas sem sentido aparente e com os olhos bonitos desfocados, como se estivesse pensando em milhões de coisas ao mesmo tempo e todas elas fossem mil vezes mais interessantes do que eu, o seu filho.
— Por que veio aqui? – disse por fim, me pegando de surpresa e me tirando dos meus pensamentos.
— Precisava falar com você. – mexi minhas mãos nervosamente, batucando o indicador contra o meu joelho.
Seus olhos dourados estavam sobre mim, muito desconfiados e muito grandes. De repente, ela não parecia mais tão louca. Estava séria, como se só agora tivesse se dado conta de que eu realmente estava ali e que aquilo não era fruto da sua cabeça bipolar.
— Diga logo, então. Estou com pouco tempo.
A fitei, meio confuso com o que ela tinha dito. Mas quando ficou claro que ela não ia explicar nada. Apenas suspirei e comecei a falar.
— Eu... Papai disse que queria me ver. – me embolei com as palavras. – Ele disse que sente minha falta e que pergunta sobre mim, então eu pensei que poderia vir aqui e que nós... nós poderíamos conversar, como mãe e filho. – não estava realmente olhando pra ela, estava fitando a madeira da mesa e suando frio. Me sentia tão idiota dizendo isso.
— Mike disse isso?
Assenti ainda com os olhos baixos, mas notei a confusão misturada com desconfiança na sua voz.
— Acho que há algum engano. – fitei-a. – Não disse nada como isso para o seu pai.
— Não disse? – falei inutilmente sentindo a boca do meu estômago vibrar, era como um pressentimento ruim. – Mas...
— Mike gosta de mentir. – e deu de ombros. – Sinto muito por isso.
— Meu pai não mentiu. – defendi.
— Claro que ele está mentindo. Em nenhum momento eu disse que queria ver você. Pedi que ele trouxesse Maya. Ela está aí?
— Não quis? – ainda guinchei, um pouco ferido com o modo como ela disse tudo isso.
— Não.
— Mas... mas...
— Seu pai mentiu, como sempre faz. Aposto que ele disse a você o quanto eu sentia a sua falta, que queria te ver e que te amava.
— E não ama? – meio sussurrei.
Cada palavra dela estava me acertando como agulhas, cada uma sendo enfiada sob minha pele.
— Sinto muito por isso, querido. Mas não. – a fitei em busca de algum traço de mentira, mas estava tudo ali, a verdade estampada nos seus olhos bonitos.
Por mais louca que ela fosse, havia alguma coisa no modo como ela agia e falava que mostrava o quão verdadeira ela era. Talvez os remédios tivessem roubado a sua delicadeza e personalidade real, e substituído por essa torrente de verdade e agressividade. Foi nesse momento que me dei conta de que não a conhecia, eu não sabia quem era essa mulher na minha frente. Tinha o rosto da minha mãe, mas estava tudo errado. As mães não deviam ser assim, elas deviam amar os filhos e não abandona-los ou traumatiza-los.
— Por que? – me escutei perguntar, a minha voz carregada de raiva.
O nervosismo tinha ido embora e eu tinha espalmado minhas mãos sobre a mesa e a encarava com demasiada intensidade.
— Olha pra você, é tão parecido comigo que me dá ânsias. – tinha os dentes amarelados por causa dos remédios, notei, diferente da mulher nas fotos no álbum de família. –Eu me odeio o suficiente para odiar você também.
—--
— Não quero falar sobre isso. – disse por fim e Maya ficou em silêncio.
Era uma das coisas que eu não gostava de lembrar. Era o pequeno fragmento na minha memória que eu mais odiava.
Levantei o rosto e encarei as poucas estrelas no céu, depois fitei a lápide da minha progenitora. Teria sido diferente se você não estivesse louca e se eu não fosse parecido com você? Teria sido diferente se apenas Maya tivesse nascido? Será que você teria vivido bem e não teria enlouquecido?
Eram resposta que eu não teria. Me coloquei de pé, limpei a sujeira dos meus joelhos.
— Preciso de uma carona. – acabei dizendo depois de muito tempo em silêncio.
Maya me fitou e na meia luz do poste, seus olhos eram como prata derretida.
777
Alex
Willy bateu no vidro da janela ao meu lado, estava ofegante e sem os óculos, o cabelo loiro bagunçado. Abaixei o vidro apenas para escuta-lo me mandar sentar no banco do motorista enquanto ele ficava no meu lugar.
— O que aconteceu com você? – perguntei e só então notei a camisa amassada e o ferimento na cabeça, o fio de sangue descendo por seu rosto pálido e sujando o colarinho da camisa.
— Dirija. – mandou em vez de responder e notei alguma coisa brilhar na minha visão periférica.
Foquei meus olhos na casa de Victoria e notei a janela mais alta da casa brilhar e um fio de fumaça escapar por ela, estava pegando fogo.
— O que você fez? – ofeguei, voltando a fitar Willy ao meu lado.
— Eu nos salvei. – confessou colocando o pen drive sujo de sangue sobre o painel do carro.
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