Azul

5 Cinco - Motivo


Cinco – Motivo

Noah

— Por que não se apresenta? – a conselheira perguntou olhando pra mim.

Meu plano era ficar quieto até o fim da reunião e então ir embora e depois não voltar mais, já que isso tudo foi ideia da minha família, principalmente da minha avó. No entanto, ali estava aquela mulher com um sorriso amigável no rosto pedindo que eu me apresentasse. Isso ia totalmente contra o meu plano.

Me mexi desconfortavelmente na cadeira e peguei o olhar de um dos garotos sobre mim. Talvez fosse o boné cobrindo meu rosto e meu cabelo azul ou as mangas longas da minha camisa em um dia quente, que me fizessem parecer estranho e por isso ele estivesse tão empenhado em me encarar durante a reunião para quem sabe descobrir que tipo de ser eu era afinal.

Olhei para baixo, em parte para desviar do olhar dele e em parte por que sabia que todos estavam me encarando agora e eu bem podia sentir minhas bochechas começarem a arder.

— Me chamo Noah. – acabei dizendo enquanto encarava meus tênis, tinha deixado o habitual cadarço branco em casa hoje e estava usando o azul no seu lugar.

Gostava de azul. Era o meu jeito de ficar perto de Will sem que realmente estivesse.

— Olá, Noah. – os outros responderam juntamente da conselheira.

Ela era uma mulher alta com o cabelo cor de caramelo e as maçãs do rosto bem formadas. Era terapeuta, segundo minha avó assim como era filha de uma das amigas da minha avó. Vovó soube dela através de uma de suas amigas da igreja. Elas deviam está comentando sobre o quanto Henry, o filho da vizinha, estava conseguindo progressos desde que tentou se matar no ano passado. Então minha avó achou que era uma boa ideia me colocar nesse grupo de autoajuda, que se reunia todas as quartas ás 19hs para, não sei ao certo, acho que é conversar.

— Não consigo ver seu rosto, pode tirar o boné? – escutei e levantei o rosto apenas para encontrar uma garota me encarando.

Era bonita e estava bem maquiada assim como tinha o cabelo loiro bem penteado e liso, além de estar bem vestida e parecia ser tão educada, sentada daquele jeito com as pernas cruzadas e a postura ereta. Era o tipo de coisa que minha avó teria orgulho de ver, aposto que se ela estivesse aqui diria que aquela garota tinha um grande potencial para se tornar uma lady.

Acabei tirando meu boné, mais porque percebi que parecia um idiota o usando naquela sala do que por ela ter pedido. Peguei os olhos azuis dela sobre mim, avaliando meu rosto e a cor do meu cabelo. Mas foi o garoto ao seu lado, que sorriu minimamente para mim e em resposta a isso desviei meus olhos dos dele. Os remédios faziam isso comigo, eles me deixavam tímido. Era como se eles tivessem o poder de conter todas as minhas emoções e por isso acabava ficando retraído, tímido ou qualquer um desses sinônimos.

— Prazer, Noah. – a mesma garota disse. – Eu me chamo Ellen. – e balancei a cabeça para ela.

Olhei para o garoto a seu lado, o mesmo que estava me encarando desde o começo da reunião.

— Henry. – respondeu.

— John. – disse o garoto ao seu lado.

— Amber.

— Helena.

Todos os pacientes se apresentaram. Não era um grupo tão grande assim. Eram todos adolescentes como eu, apenas Amber parecia ser a mais velha depois da terapeuta, Melissa.

— Oi. – disse a eles e todos sorriram pra mim.

— Então, — Melissa começou. – quem quer começar? – encarou cada um deles até que Ellen ergueu a mão.

Parecia uma daquelas líderes de torcida, loiras e bonitas e perfeitas. E por isso me perguntei o que uma garota bonita como ela estaria fazendo aqui, pois até onde minha avó me contou esse era um lugar para adolescentes com problemas psicológicos.

Melissa assentiu para Ellen, que sorriu e disse:

— Eu estou forte a três dias.

— Parabéns, Ellen. – ela bateu palmas assim como todos os outros e bati palmas também meio confuso com o porquê de estarmos comemorando.

— Eu tenho uma pergunta. – Amber se pronunciou.

— Pode fazer. – Melissa deixou.

Os olhos escuros dela se focaram em mim.

— Você é um Grace, não é? Eu conheço sua irmã. – falou. – Ela disse que tentou se matar no começo do ano. É por isso que está aqui? – ela era direta, nenhum pouco suave.

Percebi que Amber era uma daquelas pessoas sinceras que diziam o que pensavam na cara, sendo bom ou ruim. E eu bem sabia que ela não estava dizendo aquilo por mau, mas a vergonha que subiu por minha garganta me deixou com raiva. Como Maya pode ter dito algo sobre mim por aí? Estava me sentido invadido, como se alguém não convidado estivesse entrado em minha casa e não quisesse mais sair. Encarei a garota e tenho certeza que meu olhar não estava nenhum pouco amigável, o que poderia explicar o jeito envergonhado que ela me olhou em resposta.

— Não precisa ficar bravo. – Henry se pronunciou, a costa encostada no encosto da cadeira e sua pose relaxada.

Tinha cabelo preto bagunçado jogado de lado como se o vento tivesse feito isso durante o caminho e ele não tivesse se importado. A calça jeans estava rasgada nos joelhos e usava tênis de cano alto além de uma camisa com uma caveira desenhada. Era engraçado como ele conseguia parecer tão desleixado e ao mesmo tempo tão descolado com essas roupas.

— Todos aqui temos problemas, é por isso que estamos aqui afinal. – continuou. – Eu, por exemplo, também tentei me matar. – e abaixou a gola da camisa, foquei meus olhos na pele que ele expunha e encontrei uma linha horizontal em seu pescoço. Ele tinha tentado cortar o próprio pescoço. – Não deu muito certo, como pode ver. – escondeu a cicatriz de novo e colocou a mão esquerda no ombro de Ellen. – Nossa Abelha Rainha aqui, não é só esse rostinho bonito como pode ver.

— Sofro de Bulimia. – Ellen disse séria e a garota ao seu lado, Helena, falou:

— Depressão.

— Anorexia. – John falou e só então notei o quanto ele era magro.

— TOC. – Amber disse, as mãos no seu colo e os pés juntos. Parecia tão comportada e séria quanto uma professora malvada.

Todos olharam pra mim e eu engoli em seco. Tinha chegado a minha vez. Segurei a barra da minha manga esquerda e olhei para baixo. O quão vergonhoso é admitir que você está doente? O quão vergonhoso é chegar à conclusão de que você precisa de ajuda? Eu estava me sentindo bem envergonhado por isso. Tinha me recusado desde que descobrira que estava doente, a não aceitar a doença. Ficava pensando no quanto de sorte eu não tinha, no quanto alguém parecia estar rindo de mim todos os dias desde o diagnostico tinha sido feito. Era uma piada de mau gosto. Uma grande piada de mau gosto.

— Transtorno bipolar. – me escutei dizer, numa voz que não parecia minha e ao fundo quase pude escutar a risada da minha mãe.

“Somos iguais”, ela sussurrou na minha mente.

Então levantei minha cabeça e vi todos olhando pra mim, alguns sorriam e só Henry parecia sério.

— Nossa. – ele disse. – Agora temos duas coisas em comum.

— O que? – franzi a testa em confusão para ele.

— Também tenho transtorno bipolar. – e piscou pra mim e sorriu.

Balancei a cabeça e desviei o olhar dele.

Ok. – Melissa disse. – Alguém mais quer dizer alguma coisa?

Vi Amber levantar a mão de novo e então ela estava falando sobre como foi o seu dia e como ela tinha conseguido sair com os amigos depois da faculdade. Falou como não foi tão ruim ter todos eles ao seu redor, mas que ainda não se sente segura para toca-los ou deixar que eles a toquem. Amber sofre de TOC por limpeza, onde ela era obrigada a lavar as mãos a cada cinco minutos, a nunca comer fora de casa e a sempre limpar sua casa três vezes por dia. O seu transtorno tinha chegado numa fase crítica quando ela se recusou a sair de casa por um mês, com medo de ser contaminada com alguma coisa. Foram seus pais que a inscreveram nesse grupo de autoajuda, depois que a internaram em uma clínica psiquiátrica. Quando ela saiu de lá, há mais ou menos um mês, começou a frequentar as reuniões e então está aqui.

Acho que ela contou isso tudo por eu ser novo no grupo, achei legal da parte dela tentar amenizar tudo aquilo e tentar não me fazer parecer tão estranho quanto me sentia.

Acho que no fim, Henry, devia estar certo: éramos iguais ali, todos tinham problemas.

Helena tinha depressão desde os doze anos de idade, seus pais só perceberam que havia um problema sério com ela quando ela se trancou no quarto por dois dias se recusando a comer qualquer coisa e a apenas dormir. Tinha escutado algo sobre esse grupo na escola, um dos seus colegas de classe fazia parte do grupo e então ela resolveu vir com ele para saber sobre o que ao certo esse grupo se tratava. Tinha feito progressos desde que se tornara ativa no grupo e todos agradecíamos por isso.

Jon era anorexo. Tinha desenvolvido a doença no ensino médio depois de ser humilhado no pátio da escola por estar acima do peso e depois de escutar inúmeras vezes do seu professor de educação física que ele nunca poderia jogar lacrosse com o peso que tinha. Então ele emagreceu com a ajuda de uma dieta que encontrou na internet. Os garotos da escola pararam de implicar com ele assim como o professor de educação física, mas o medo de engordar e tudo isso voltar ainda estava presente, então ele parou de comer. Mas por mais baixo que a balança marcasse seu peso, ele ainda continuava se vendo gordo diante do espelho. Foi apenas depois de desmaiar durante uma aula de biologia que seus avós – seus pais tinham falecido – começaram a perceber os sinais. Estava nesse tratamento alternativo porque seus avós não tinham dinheiro para custear um psicólogo e ir pela rede pública demoraria muito. Então Melissa estava o ajudando com consultas de graça.

Ellen, era a garota bonita do grupo. Roupas perfeitas, maquiagem perfeita, sorriso perfeito. Sempre teve tudo que quis desde sempre. Seu pai é o dono de uma das revistas mais famosas de LA e sua mãe é uma modelo famosa e por isso sempre exigiram dela uma aparência perfeita. Mas foi apenas depois de uma briga com a mãe, onde foi chamada de gorda, que ela começou a vomitar. Primeiro ela comia tudo, desde doces a salgados e então se sentia culpada e vomitava tudo. Seus pais não sabem que ela frequenta essas reuniões. Eles acham que ela está em alguma reunião do comitê da escola ou na casa de uma das suas amigas, mas não. Ela está aqui, pois reconheceu que está doente e que precisa de ajuda. É uma garota forte.

Mas então há Henry, de sorriso fácil e com o cabelo mais escuro que já vi. Ele tem transtorno bipolar como eu e assim como eu, tinha tentado se matar no começo do ano depois de uma crise de depressão muito forte. Tinha sido diagnosticado há dois anos, quando ficou feliz demais e simplesmente comprou uma passagem para Flórida achando que estava tudo bem, que poderia voltar mais tarde. Foi Amber que o trouxera para as sessões. E atualmente ele estava tomando os remédios regularmente.

Eu não me sentia preparado para contar minha história de como tinha sido diagnostico com essa doença e por isso não disse nada. Apenas contei-lhes como minha família achava que eu estava ficando louco e que tinham me obrigado a vir nessa reunião, na esperança de que minhas emoções ficassem nos eixos de novo. Mas eu disse-lhes que estava tomando os remédios, que agora tudo estava normal e que fazia dois meses desde meu último surto.

— Que bom, Noah. – Melissa disse. – Espero que você venha mais vezes. – e eu assenti, então ela olhou para os outros. – Por hoje é só. – todos ficaram de pé, fiz o mesmo. – Até a próxima. – todos assentiram.

Enfiei o meu boné no bolso do meu moletom e então dei as costas a Melissa ao mesmo tempo que via os outros indo até a terapeuta para conversar sobre algo. A verdade era que apesar de todos terem compartilhado um pedaço do seu problema, eu não me sentia totalmente à vontade.

Me encostei na parede fria do centro de ajuda, procurei meu celular no bolso do meu jeans, apenas quando não o achei foi que lembrei que esqueci meu celular em casa.

— Droga. – xinguei baixinho.

Como eu ia avisar meu pai que reunião já acabou?

— Algum problema? – Henry surgiu de lugar nenhum me fazendo pular de susto. – Opa. Foi mal. – disse, mas estava rindo por isso eu lancei um olhar irritado para ele.

— Não surja do nada. – reclamei e enfiei minhas mãos nos bolsos de trás da minha calça.

— Tudo bem. – ele olhou para frente, encostou suas costas na mesma parede que eu estava encostado. – Seus pais vem te buscar?

— Han... Não. – respondi. – Eu esqueci meu celular em casa.

— Ah. – e pelo canto de olho, o vi enfiar a mão no bolso da sua calça jeans e tira seu celular. Me estendeu. – Liga do meu.

Pisquei e peguei o celular. Disquei o número de Mike, mas deu na caixa postal. Suspirei. Ele devia estar no hospital, em algum plantão, alguma emergência. Papai tinha conseguido um emprego como médico no hospital local de Los Angeles.

Observei o celular de Henry por um tempo, sem saber ao certo para quem ligar agora. Meus avós estavam fora de questão e como eu não estava falando com Maya, ela também estava fora da lista. Kate estava no seu encontro romântico com Derek e Bianca estava em mais um dos jantares de negócios da sua família. Sobrava apenas Will e eu realmente não queria ligar para ele. Fazia duas semanas desde que aquilo tinha acontecido e não tínhamos nos falado muito desde lá. Ele parecia envergonhado por ter tentado e eu estava envergonhado por não ter conseguido ir em frente.

— Algum problema? – Henry perguntou quando fiquei tempo demais olhando para a tela desbloqueada do seu celular.

— Não, não. – respondi e tratei de digitar o número de Will. Ele atendeu depois do quarto toque. – Alô? – institivamente dei um passo para longe de Henry. – Sou eu, Noah.

Oi, docinho. — respondeu e acabei sorrindo. Estava com a voz arrastada, devia estar dormindo. – O que aconteceu? De quem é esse número?

— Estava dormindo? – perguntei ignorando suas perguntas. Não queria ter atrapalhado ele. Will estava trabalhando e estudando agora e isso sempre o deixava muito cansado. – Eu posso ligar para outra pessoa.

— Não. Está tudo bem. Eu só estava cochilando. — respondeu e eu poderia imagina-lo ficando sentado, procurando os óculos e os colocando no rosto. – O que aconteceu? — tornou a perguntar.

— Preciso de uma carona. – acabei dizendo. – A reunião com o grupo de autoajuda já terminou. Você pode... – deixei o resto da pergunta no ar.

Sim, sim. – devia está de pé agora, o cabelo loiro bagunçado. Achava engraçado o modo como ele tinha se tornado tão familiar ao ponto de que eu pudesse prever e imaginar seus movimentos. – Estou indo.

Ok. – disse por fim e então deliguei. Devolvi o celular para Henry. – Obrigado.

— De nada. – disse enquanto guardava o celular no bolso do seu jeans. – Seu amigo vem te buscar?

— Não. – respondi. – Meus amigos estão ocupados hoje. – voltei a me encostar na parede ao seu lado. – Mas meu namorado está vindo. – contei.

— Nossa. – olhei para frente enquanto ele falava. – Você tem um namorado?

— Algum problema com isso? – me defendi com medo dos possíveis comentários que ele pudesse fazer em relação a isso, quando você passa algum tempo recebendo olhares ou escutando coisas maldosas, acaba ficando um pouco na defensiva com desconhecidos.

— Não, claro que não. – se defendeu e o encarei de soslaio. – É apenas que...

— Você perdeu! – Ellen surgiu de lugar nenhum, o rosto todo contorcido em diversão. – Vai passando a grana. – ela estendeu a mão em direção a Henry, toda sorridente.

A contra gosto, vi Henry enfiar a mão no bolso de trás do seu jeans e tirar uma nota de dez dólares. Mas antes de colocar na palma de Ellen, ele disse:

— Espera! Ainda não perdi. – então olhou para mim. – Ele pode ser bixessual.

— Hum. Você é bixessual? – a loira perguntou.

Pisquei, ainda meio confuso com o que estava acontecendo.

— Eu... hã. O que? – soltei.

— Bixessual, sabe. Corta para os dois lados, gosta de garoto e garota, pega geral, é a favor do amor... – Henry disse.

— Eu sei o que é! – me irritei. – O que eu quero saber é por que estão apostando sobre minha sexualidade. – cruzei os braços.

— Ah. Isso? – Ellen pareceu envergonhada. – Não é nada demais. Só brincadeira, Noah. – semicerrei os olhos para cima dela e vi seu rosto corar.

— Mas voltando, você é ou não é? – Henry se intrometeu.

Lancei meu olhar irritado para cima dele. Como ele pode me colocar num centro de uma aposta como se eu fosse um animal exótico?

— Por que não aposta sobre isso, já que é tão bom? – soltei e me afastei deles ao mesmo tempo que avistava o carro de Will se aproximando.

Parei no meio fio e esperei.

— Noah. – escutei Henry chamar, mas não olhei. – Me desculpe, ok? – parou do meu lado com Ellen atrás de si.

— Foi só uma brincadeira. – ela disse. – Não pensamos que poderia magoar você.

Suspirei e olhei para baixo. Tentei pensar no lado deles, no que exatamente eles estavam pensando quando decidiram fazer isso. Não é como se eles tivessem feito por maldade como uma maneira de zombar de mim, talvez eu só estivesse levando isso para o lado pessoal demais.

— Tudo bem. – falei por fim e o carro de Will parou na minha frente. Peguei o sorriso de Will e não pude me impedir de sorrir de volta.

Abri a porta e entrei, me sentei no banco do carona e coloquei o cinto de segurança.

— Ei. – Henry se inclinou na janela ao meu lado. – Você não respondeu.

Sorri divertido para ele e falei enquanto Will se preparava para dá a partida.

— Totalmente gay. – respondi e Ellen sorriu.

— Vai passando a grana. – a escutei dizer ainda depois que o loiro deu a partida no carro e não pude me impedir de rir.

— O que aconteceu? – William perguntou enquanto dirigia. Seu cabelo loiro úmido e o cheiro de sabonete, denunciando que ele tinha tomado banho antes de vir me buscar e senti uma vontade imensa de me aproximar, encostar meu nariz na curva do seu pescoço e apreciar o seu cheiro de pele limpa.

— Não é nada demais. – respondi. – Apenas uma aposta boba. – olhei pela janela.

Luzes e mais luzes. A cidade estava mais viva do que nunca.

Percebi com uma pontinha de decepção que o loiro estava me levando para a minha casa, não para o seu apartamento, como eu queria. Mas talvez fosse melhor assim...

— Will. – chamei.

— Hum?

— Não quero ir para casa. – contei. Ele me encarou, parecia confuso e envergonhado. E acho que eu tinha uma parcela de culpa nisso. Desviei meus olhos dos seus, olhei para baixo. – Talvez nos possamos ir ao cinema ou uma lanchonete. Tem aquela que inaugurou um dia desses... – tentei.

Realmente não queria ir para casa agora, ainda estava cedo. Talvez fosse legal que parássemos em uma lanchonete ou pudéssemos ir ao cinema. Já faziam duas semanas desde a última vez que saímos juntos, sozinhos, desde que aquilo acontecera.

— Tenho aula amanhã cedo. – me interrompeu.

— Ah. – fiquei quieto durante o resto do caminho.

Parecia que aquilo tinha afetado mais a nossa relação do que eu podia esperar. Não tinha percebido que sexo tinha se tornado algo tão importante entre nós ao ponto de as coisas ficarem tão insuportáveis sem ele.

— Obrigado. – falei automaticamente quando o loiro parou em frente à minha casa, desafivelei o cinto de segurança e abri a porta.

— Noah. — parei. Esperei. – Boa noite.

Fechei os olhos por breves segundos, estava esperando que ele dissesse outra coisa e não um mísero boa noite. Sai do carro sem dizer nada em resposta. Não sabia que estava tão chateado com o que tinha acontecido até que encontrei minha avó na sala, parecia estar me esperando. Ela fez as perguntas de praxe e quando respondi todas sem pestanejar e depois subir para o meu quarto por livre e espontânea vontade, foi que me dei conta do quanto estava chateado com Will e com a sua atitude. Era isso afinal, ele não podia me esperar mais um pouco, apenas um pouco, para que eu me acostumasse com a ideia?

— Idiota egoísta. – resmunguei enquanto socava o travesseiro ao mesmo que sentia um peso no peito.

777

Will

— Trouxe pizza? – perguntou assim que entrei no apartamento.

Joguei a chave do molho sobre a mesinha perto da porta e me dirigi até a cozinha. Abri a geladeira, observei seu conteúdo sem realmente está observando. Estava pensando em Noah e no modo como ele parecia decepcionado pelo meu comportamento.

— Ah. Você não trouxe nada. – lamentou ao mesmo tempo que eu desistia de procurar seja lá o que for na geladeira e a fechava.

Encarei-o, meio irritado com ele e com minha atitude.

— Se queria pizza, devia ter ido comprar. – falei e ele apenas revirou os olhos em resposta.

— Sabe que não posso sair.

— Que pena. – ironizei e Alex me fuzilou com os olhos.

— Por que está sendo tão mal comigo? – perguntou, os cotovelos sobre a bancada da cozinha e os olhos escuros sobre mim.

— Por que está aqui, afinal? – soltei depois de suspirar e ignorar sua pergunta.

— Já expliquei isso. – e dessa vez foi ele quem suspirou. – Está de mau humor por causa do seu namorado?

Me limitei a ignorar a sua pergunta e lhe dá as costas.

— Poderia responder minhas perguntas, sabe. – reclamou.

— E você podia responder as minhas. – rebati e entrei no meu quarto.

Me joguei na minha cama e fechei os olhos. Alex era tão irritante e estava realmente me tirando do sério nos últimos dias com essa sua repentina aparição. Ele tinha simplesmente surgido na sala do meu apartamento quando cheguei do trabalho à noite. Lembro de ficar surpreso e depois bastante irritado quando ele começou a explicar o porquê de estar ali e por mais sincero que ele tivesse parecendo ao contar aquilo, eu não conseguia entender porque ele tinha justamente me escolhido. Ou melhor, escolhido o meu apartamento para se esconder.

Rolei na cama ainda de olhos fechados.

“Eles estão atrás de mim, Willy. Então por isso preciso sumir do mapa por algum tempo.”

Era isso o que ele sempre dizia, nunca contava a história toda. Sempre pulava partes e destacava o fato de que ninguém além de mim podia saber que ele estava escondido no meu apartamento. E nesse ninguém estava incluído Noah.

— Por que não me conta o que está acontecendo? – perguntei baixinho para mim mesmo.

Queria tanto poder contar ao Noah o que estava acontecendo, que eu não o estava evitando por causa do que aconteceu entre nós da última vez. Mas Alex me impedia, o porquê que Alex escondia parecia perigoso o suficiente para que eu pudesse envolver Noah nisso, principalmente porque eu não sabia que tipo de pessoas estavam atrás de Alex assim como não sabia quanto tempo ia demorar para que chegassem em mim e começassem a investigar minha vida. Mas a pior parte era que eu tinha uma leve ideia do porquê de Alex ter vindo justamente se esconder no meu apartamento e do porquê de ele não me contar a história toda. Era apenas um pensamento, contudo era ruim o suficiente para que eu quisesse Noah perto.

— Me perdoe por te proteger. – resmunguei lembrando do olhar triste dele.

Notas finais
E eu prometo e prometo e não cumpro... eu sei. Estou tão triste comigo mesma quanto vcs. Juro que vou tentar responder os comentários e não atrasar tanto nos capítulos. é apenas que as coisas tem se tornado complicadas ultimamente, minha cabeça anda tão cheia de coisas que as vezes não sei o que fazer. Mas, bom, eu voltei e postei e ainda continuo escrevendo. Espero que estejam gostando da fic, tenho algumas ideias para ela. E vcs viram que entraram personagens novos assim como vai ter a volta de alguns antigos como o Alex e o Matt. I... é isso. Bjs e até.