Notas iniciais
O que sonho noite e dia, E à alma traz-me poesia E me torna a vida bela... O que num brando roçar Faz meu peito se agitar, É o teu seio, donzela! Oh! quem pintara o cetim Desses limões de marfim, Os leves cerúleos veios Na brancura deslumbrante E o tremido de teus seios? Quando os vejo... de paixão Sinto pruridos na mão De os apalpar e conter... Sorriste do meu desejo? Loucura! bastava um beijo Para neles se morrer! Minhas ternuras, donzela, Voltei-as à forma bela Daqueles frutos de neve... Ai!... duas cândidas flores Que o pressentir dos amores Faz palpitarem de leve. Mimosos seios, mimosos, Que dizem voluptuosos: "Amai, poetas, amai! Que misteriosas venturas Dormem nessas rosas puras E se acordarão num ai!" Que lírio, que nívea rosa, Ou camélia cetinosa Tem uma brancura assim? Que flor da terra ou do céu, Que valha do seio teu Esse morango ou rubim? Quantos encantos sonhados Sinto estremecer velados Por teu cândido vestido! Sem ver teu seio, donzela, Suas delícias revela O poeta embevecido! Donzela, feliz do amante que teu seio palpitante Seio d'esposa fizer! Que dessa forma tão pura Fizer com mais formosura Seio de bela mulher! Feliz de mim... porém não!... Repouse teu coração Da pureza no rosal! Tenho no peito um aroma Que valha a rosa que assoma No teu seio virginal?... (Álvares de Azevedo)

– Joshua? Tem certeza de que está bem?
– Tenho.
Já era a sexta vez consecutiva que Samira perguntava a mesma coisa e recebia a mesma resposta, gélida e superficial. Conhecia o homem a seu lado, e pôde notar que estava transtornado desde o momento em que pisaram na ilha. Claro, compreendia que aquele lugar lhe trazia más recordações e lembranças de uma vida que já não existiam mais, mas acreditava que seu lado durão e não sentimentalista de pirata falariam mais alto.
Ninguém é de bronze, Samira. Uma voz irritante zombou em sua mente. Principalmente você.
Balançou a cabeça, na tentativa de silenciar essa maldita vozinha que vinha lhe atormentando há muito.
– Sam? Está tonta? – Joshua agarrou-lhe o braço para estabilizá-la. – Quer descansar?
– Sim, uma pausa seria uma boa. Já fizemos toda a ronda no perímetro da ilha, certo? Estamos seguros. – Percebeu então as pessoas olhando atravessado e cochichando enquanto passavam – Ahn... Josh? Precisamos nos livrar dessas roupas... Urgente. Ou podemos terminar na fogueira.
– A fogueira só é uma opção se estiverem de bom humor, lembre-se disto.
Eles riram. Os nervos de seu corpo estremeceram ao ouvir aquele som. O guizo da loja de roupas foi que trouxe Samira de volta a realidade.
– Josh, não vão nos denunciar às autoridades nesta loja?
– São antigos amigos, e são de confiança. Venha, experimente.
Após um longo tempo de trajes pomposos, uma nova Samira saiu da Sala de Provas. Mas não avistou Joshua. Seus olhos percorreram toda a extensão da loja e focalizaram num ponto do outro lado da rua, onde a bandana dele estava parada. Joshua conversava com uma dama de trajes azuis, que parecia hesitar e resistir a ele, que falava empolgada e apressadamente com as mãos, gesticulando. Chegou até a tomar a mão da moça, que escandalizada a puxou de volta. Um tempo depois, a moça fez uma reverência apressada e seguiu seu caminho. Ao ver Joshua voltando, Samira adentrou novamente o provador, e certificou-se de sair apenas quando ele já estava lá lhe aguardando.
– E então? – perguntou ao acompanhante – estou muito farfalhuda?
– Pela barba do seu tio. – Ela pôde jurar que viu seus olhos cintilarem por um momento, mas se ocorreu, Joshua os domou com tanta rapidez que chegou a duvidar. Recobrando seu tom distante e controlado acrescentou – Se não fossem esses olhos travessos e esses lábios suculentos, estaria irreconhecível mesmo para mim.
Revirou os olhos, mantendo a pose. Naturalmente.
Mas... Lábios suculentos?
Dirigiu-se de volta a Sala para vestir novamente seu traje enquanto Joshua entregava um saco de moedas de ouro para a dama no balcão. Carregando seu novo traje tão espalhafatoso, saiu da loja.
– Venha, vamos. – Joshua pegou sua mão – Quero te levar em um bistrô que meus pais adoravam ir aos recessos de semana.
E, quando chegaram ao destino, era indescritivelmente lindo. Mágico. Por um segundo, Samira deixou cair suas resistências da pirataria e se deixou envolver pelo clima romântico que aquele local aconchegante exalava.
E imaginou como seria levar uma vida assim todos os dias ao lado de alguém que se preze. E permitiu-se, mesmo que só naquela refeição, seus hormônios femininos correrem por suas veias, ardendo-lhe em cada célula de seu corpo.
~~*~~
Todos haviam deixado o navio, de modo que quando Samira e Joshua adentraram-no, não ouviam mais nada além do reconfortante som das ondas indo de encontro ao casco do navio.
– Então... – Joshua começou em tom inquisitivo.
Parados no convés, não haviam tido muito contato visual.
Ela ainda não estava totalmente estabilizada devido ao jantar. Sempre foram muito próximos, afinal, haviam crescido num mundo sem difusões; a ponto de se banharem junto sem nenhuma malícia ou qualquer contato posterior. Mas o modo como se expuseram naquele restaurante, em ocasião e postura diferentes, fizera com que tudo ardesse mais intensamente.
– Eu sugeriria uma limpeza nesse convés. – ela sorriu, na esperança de disfarçar seus vestígios – Aqueles porcalhões fizeram um tremendo pandemônio aqui.
– Certo. – ele deu uma risada curta, claramente nervosa. Joshua não era o garotinho transparente e sensível que costumava ser. Com o tempo, havia tornado-se um tremendo cofre arrogante, másculo e firme. Havia tornado-se um homem. A pirataria – e Samira principalmente, com suas constantes repreensões – haviam muito colaborado para com isso, e o resultado era óbvio: um machista libertino que desprezava o amor, que considerava tal feitio ser “puro luxo de homens fracos e falhos”.
Mas apesar disso tudo, Samira o conhecia bem o suficiente para saber que mesmo ele estava um tanto transtornado pelo acontecera há pouco. Ela também não era de se apegar a emoções femininas e tolas, mas estava em um ponto que não poderia mais evitar.
Seria possível aumentar?
Joshua carregava dois baldes, dos quais um ele passou a ela.
– Obrigada. – Ao tomá-lo de suas mãos, seus olhares se cruzaram.
Samira o tinha percebido mais aéreo desde o encontro com a Dama Misteriosa. Mas também, eles ardiam de um modo mais carnal. Olhava-a de forma que nunca o fizera tão intensamente. E gostou disso. Agora, ao olhar nos olhos castanhos e profundos que estavam vidrados em si, ela notou uma chama passar pelo reflexo de seu olho, e pelo ardor em suas bochechas sabia que havia, involuntariamente, correspondido.
– Disponha – com a voz levemente mais grave que o normal, Joshua disse e então desviou o olhar. Samira pôde ouvi-lo suspirar brevemente ao se virar de costas a ela.
Um longo tempo se seguiu até quase terem finalizado a limpeza. Nenhuma palavra havia sido trocada, mas momentaneamente seus corpos se tocavam e podia-se sentir cada nervo vibrar. De ambos.
Até que em determinado momento, tudo estava pronto.
– Me dê seu balde, Josh. Vou guardá-lo. – Samira pegou e levou-os até o armazenamento.
Ao descer as escadas, Samira pisa numa grande poça de água que estava formada ali, fazendo-a escorregar e cair com os baldes em cima de si.
– Sam! – Joshua correu até ela – Você está bem?
Ela agarrou a mão estendida dele e levantou-se. Estava completamente encharcada. Seus cabelos pingavam e sua roupa estava colada no corpo. Começou a rir, e Joshua a acompanhou. Até seus olhos pousarem na camiseta dela e notar que o tecido branco, agora transparente e grudado devido à água, revelava muito mais do que deveria nesse momento.
– Está encharcada – Sua voz soava descontraída, mas vacilante. Seus olhos ainda pousados no peito de Samira ardiam e hesitavam conflitantes.
– Oh, que comentário genial. – Foi irônica, roubando de Joshua uma gargalhada.
Suas mãos se tocaram. Suas mãos iam subindo, acariciando toda a extensão de seus braços. Sua pele estremeceu. As mãos dele correram então até a camiseta encharcada, puxando-a para desgrudar do corpo. Quando Joshua levantou seu olhar até o de Samira, não pode mais resistir.
Jogou-se em seus braços, tomando seus lábios num beijo ardente e cheio de desejo. Joshua correspondeu, agarrando com uma mão os cabelos em sua nuca e com a outra puxando sua coxa e encaixando-a no próprio corpo. Suas línguas mexiam-se num frenesi insuficiente para satisfazê-los. Lutavam para manter seus pulmões cheios de oxigênio, mas sem ter de afastar muito os lábios.
Após um longo período – que pareceu insuficiente e curto demais para Samira – naquele beijo sensual, eles se afastaram, e quando seus olhares se cruzaram mais uma vez, era claro que ambos estavam queimando de desejo. Por dentro e por fora.
Mas Joshua não a tomou mais uma vez. Ao contrário, elevou sua postura ereta e disse numa voz rouca e desestabilizada:
– Vá se enxugar, ou poderá acabar pegando uma hipotermia. Eu a espero aqui.
Lutando fortemente contra o desejo de permanecer naqueles braços firmes e másculos, Samira levantou-se e dirigiu até seu compartimento para trocar as vestimentas. Havia tirado as botas, a calça e estava prestes a tirar a camiseta quando ouviu uma respiração. Seus pelos se eriçaram ao virar e dar de cara com Joshua ofegante, já sem os sapatos e a camiseta em sua frente.
– Josh...
Ele a interrompeu, andando em sua direção com passos largos e apressados.
– Não foi possível lhe esperar. – Com a chama queimando novamente entre eles, ele a agarrou e começou a beijá-la outra vez, com uma luxúria nunca vista antes por nenhum dos dois.
Samira passou seus braços ao redor do pescoço dele, para assim puxá-lo mais junto a si. A mão de Joshua descia de suas costas até sua cintura, acariciando com as pontas dos dedos toda a extensão de seu quadril. Enquanto sua outra mão agarrava firmemente a coxa de Samira e levantando-a para enlaçar seu quadril.
Joshua agarrou a bainha da camiseta de Samira e arrancou-a em um único puxão, ao passo que Samira já se agachava para despí-lo de suas calças. Agora completamente nus, deitaram-se no chão sem desolar seus corpos que tremiam freneticamente não suportando mais a sensualidade que enchia aquela sala. Joshua iniciou então uma carreira de beijos quentes desde a orelha esquerda de Samira, descendo até sua nuca, pescoço, clavícula. Samira pôde sentir a ereção de Joshua latejar entre suas coxas.
– Estás pronta pra mim.
– Ah,Joshua — ele a beijou, silenciando seu gemido.
O primeiro de muitos que escaparam de seus lábios, irradiando prazer.
~~*~~
Samira estava esparramada no chão ainda nua quando despertou. Joshua não estava a seu lado. Não levantou de imediato, seu corpo quente e formigante a fazia recordar os momentos antes. Se existia mesmo algum Paraíso, ela estava certa de que havia acabado de ser levada até lá por Joshua. Tocou seus braços, abdomen e seios e sorriu ao lembrar-se do quanto incendiara mais cedo. Após apreciar a recordação, finalmente levantou-se e vestiu-se. Enquanto subia para o convés,ouviu vozes. Uma lhe era familiar, com seu tom aveludado e firme. A outra era suave, delicada e... Feminina.
– O que quer dizer com isso?
A Dama Misteriosa que Samira vira Joshua conversando mais cedo em frente a loja. Ainda vestia seu traje azul, que realçava sua pele alva e seu cachos ébanos. Sua postura impecável e seu olhar recatado entegavam sua origem: o reino nobre.
– Achei que sua sabedoria tão lúcida e seu conhecimento de nobreza fossem capaz de entender as entrelinhas. — sua voz era impassível e indiferente. Toda aquela empolgação que vira nele mais cedo sumira sem deixar rastros — não vamos mais nos ver, Lady Buckingham.
– Eu vim até aqui. Para vê- lo. Desrespeitei as normas do reino e as ordens de meu marido!
– Sinto muitíssimo por isso, nobreza. Tenho um grande pesar em lhe dizer que sua travessura foi em vão.
Embora sua voz soasse controlada, Samira notou em seu rosto um traço de satisfação. E até certo tom de vingança em sua voz. Um reprimo de sorriso apareceu no canto dos lábios de Joshua.
A tal Lady não pareceu aceitar muito bem. Seu olhar recatado foi substituído pelo olhar que um predador lança á sua refeição antes de dar o bote. Estava caminhando em diração a ele, ficando tão próxima que Samira pode ver Joshua enrijecer sua postura, defensivamente. E não gostou disso.
– Ah, Joshua. — A voz da Lady era doce e sedutora, e mesmo Joshua vacilou diante de sua insinuação — você não pode tentar esconder a atração entre nós. Eu sei que sempre foi assim — enquanto falava ao pé da orelha de Joshua, suas mãos percorriam todo o peitoral dele. O peitoral que Samira havia beijado há pouco.
– Você é uma dama casada, Lilian. Não deveria ficar insinuando-se para um libertino pirata. Não há leis e normas contra isso?
– Que vão para o Inferno as normas e leis. — a voz de Lilian ardia — E você e seu charme também.
Joshua pareceu vacilar em sua armadura máscula e gélida. Lilian, firme e sem hesitar avançou até ele e tomou os lábios dele nos seus.
Um nó se formou na boca do estômago de Samira. Teve que controlar-se para não vomitar. Ou gritar de dor. As mãos de Joshua a envolviam enquanto seus lábios eram selados num beijo doce e há muito aguardado.
Todo aquele sentimento que Samira sentira arder mais cedo, foi sepultado em seu coração, dando lugar ao ódio e a raiva. Não podia acreditar como fora fraca.
Estúpida. a voz interior apareceu mais uma vez para inferná-la. Achou mesmo que o modelo perfeito de libertino. Não poderia querer outra coisa senão seu corpo de mulher ainda com traços virginais.
Sentiu o peso da verdade cair sobre si. Mas seus olhos não marejaram como achou que fariam. Ao contrário, seu coração congelou, e seus olhos esmeraldas foram possuídos por um olhar de desprezo fulminante.
– Lilian... — Joshua suspirou afastando-se.
– Eu o amo.- ela pousou a testa em seu peitoral — Mas não podemos ficar juntos, Lorde Patterson.
Assim que ouviu o nome, Joshua pareceu despertar de seu sonho entorpecente. Agarrou firmemente os braços de Lilian — forte o bastante para Samira ouvir um gemido de dor escapar dos lábios dela — e a afastou, ficando face a face com a dama.
– Não. — soou grosso e decidido- Você não me ama, Lilian. Você ama o pequeno Lorde Patterson que cresceu a barra de seu vestido, paparicando-a. E aquele garoto
foi sepultado junto a seus pais. Eu sou Joshua, Imediato do navio pirata Caveira Azul.E esse homem não tem espaço pra você com sua vidinha real e superficial. — Ele fez uma pausa significativa antes de continuar — Adeus, Lilian. Você deve deixar meu navio agora. Antes que a tripulação retorne.
Com um olhar perdido e uma expressão de desolação no rosto, Lilian ergueu seu olhar e saiu do navio sem ao menos despedir-se de Joshua. A essa altura, Samira não sabia mais como se sentia. Apenas subiu os degraus até o convés e encarou Joshua.
– Sam.-ele tinha certo tom de pesar na voz.
– Quem era a Dama Pomposa? — Seu tom irritado era indisfarçável. Joshua notou-o e suavizou seu tom de voz.
– Um amor antigo — refletiu um pouco antes de prosseguir — Aquela é a Lady Lilian. Eu a amava quando ainda costumava ser Campbell. Na noite que deixei Losterwood ela havia se tornado Buckingham.
Soltou um suspiro, e um longo silêncio seguiu.
– Josh, eu... — Samira estava preparada para cuspir tudo que entalara em sua garganta no momento em que Joshua havia tocado os lábios de Lilian. Mas ele tomou o rosto dela em suas mãos e colocou um dos dedos selando as palavras de Samira.
– Sam... Lilian é passado. O que aconteceu hoje... — ele mordeu o lóbulo da orelha
dela — Eu só me importo com você agora.
E marcando aquela declaração, tomou os lábios dela num beijo ardente, apaixonado e carregando de emoção.
Um beijo que Lilian não experimentara.
E jamais o faria.
~~*~~
Samira estava transtornada. Sua vida estava tomando um rumo desconhecido e completamente inesperado. Sentia a cabeça rodar. O simples som da maresia lhe enjoava. Tudo que desejava era deitar e dormir. Excessivamente.
– Parece que Losterwood tem feito bem a você, Sam — Joshua beijou-lhe a face- Quatro meses nesse reino lhe fizeram bem como anos no mar não lhe fizeram.
Samira sorriu, apreensiva.
– Veja — percorreu o dedo pela bochecha dela — está mais corada. Mais nutrida. Até mais farta.
Seu sangue gelou.
– Vou até a cidade, querido. Vem comigo?
Samira saiu e Joshua foi logo atrás. Já sabia para onde iria, mas o principal era sair dali. Sentia saudade do navio. Estava escondido e guardado, enquanto a tripulação hospedava-se num casebre no campo. Ao menos ali, com seus trajes ''comuns'' ninguém os incomodaria por serem criminosos. Dirigiram-se até o centro da cidade, e passaram em frente uma casa rodeada por uma multidão de pessoas sussurrando num coro descrente. A porta estava escancarada e a multidão era tão intensa que adentrava a casa. Então, ao aproximar-se do centro do pandemônio, Samira entendeu o motivo.
Ali no chão, nos braços de um homem de cabelos claros e porte nobre, estava um corpo azul e desfalecido.

~~*~~
Nicholas estava transtornado, a morte tão próxima do mesmo o fez pensar em Deus, talvez a culpa de tudo, fosse Dele.
O rei soube através de informantes que havia um navio pirata aportado em um local a leste do reino, os guardas conseguiram vasculhar o navio e não encontraram quase nada, porém foram capazes de achar um tecido azul, que era igual ao da vítima.
– Neste dia, eu ofereço uma recompensa pela cabeça do culpado por tal crime, e o punirei devidamente. – Disse o rei severamente, sua expressão fora tomada por ódio e rancor, somente quando parou de falar foi quando puderam ver a verdade dor que o mesmo sentia.
Samira ouviu o pronunciamento real, seu corpo estremeceu, aquilo fugia de todo o seu controle, não sabia como diria aquilo a Joshua, seu coração batia em desordem e mesmo estando cansada ficou até o fim do discurso, para em seguida ir diretamente ao casebre onde sabia que Joshua iria estar.
Andou por entre as sombras para evitar que a seguissem, caso tentassem; Não demorou muito para que a pirata chegasse ao casebre, ele era em um lugar isolado de todos e quase ninguém desconfiaria de que eles eram piratas.
– Joshua. – Bateu na porta e o chamou antes de entrar, mesmo estando em um lugar isolado eles tinham que ter certa precaução, o reino estava em crise e o coração de Samira, por mais que mais aliviado por saber que Joshua não tinha algum envolvimento com a Lilian, se apertou, a morte lhe causou uma sensação estranha entre as entranhas.
O mesmo abriu a porta cuidadosamente dando lhe um beijo um pouco mais selvagem que o normal, a necessidade de preencher o espaço dos dois corpos era muito maior do que alguma razão em sua mente.
No castelo as coisas estavam progredindo; Nicholas havia pedido para um guarda real para que seguisse uma mulher com uma atitude muito suspeita, ela havia ouvido todo o pronunciamento do rei e sua expressão se tornou tão exacerbada que o pesar pesou em sua mente.
– Vossa majestade. – O guarda disse ao rei. – Eu segui a dama como o seu conselheiro me pediu e vi a dama entrando em um casebre, e antes de entrar a mesma disse Joshua, conclui ser um homem, pelo fato do mesmo abrir a porta e a beijar a moça nos lábios.
O rei dirigiu seu olhar a Nicholas.
– Pedi ao guarda para que seguisse a moça, por a mesma ter reagido de forma apreensiva durante o vosso pronunciamento. – Nicholas explicou antes que o rei perguntasse, queria estar certo antes mesmo de o rei saber que ele tivesse tomado alguma providencia.
– Fez bem em mandar o guarda segui-la. – Começou. – Tu sabes quem é Joshua? – Edward perguntou como se já soubesse a resposta.
– Não vossa majestade. – Disse o conselheiro.
– Ele é o homem cujo os pais morreram durante uma navegação, e pouco tempo depois virou um libertino junto ao tio, mais conhecido como Capitão Bart. – Disse decididamente. – Ele era Joshua Patterson.
– Espere; Patterson? – Nicholas parece sem reação diante do nome que lhe assombrou durante a adolescência. – Este é o nome do menino que era apaixonado por Lilian em sua infância. – concluiu.
– Mandem-no o pegarem. – O rei ordenou. – Traga-o vivo. – Gritou a ultima parte.
Reuniram alguns, muitos, guardas reais e partiram em direção ao casebre em uma parte que julgavam ser segura para piratas.

~~*~~

– Vamos Joshua, confesse que matou a Lilian, isso seria somente mais uma acusação, já que receberás a acusação de pirataria. – Nicholas falava olhando em seus olhos, o ódio transbordava do azul intenso, a tensão de perder seu amor não lhe fizera bem de nenhuma forma, até o seu relacionamento com o seu bem mais precioso foi desfeita, a menina lembrava a mãe em todos os aspectos e o fato da mãe ter morrido e ter o traído não ajuda nada em um bom relacionamento.
– Eu nunca lhe direi nada conde Buckingham. – Joshua praticamente cospe as palavras na face do conde.
– Apelarei para outros métodos. – Sorriu malignamente ao dizer a última palavra. – Tragam a cadeira. – ordenou.
– Aqui senhor. – Disse um cervo e posicionou a cadeira ao lado de Joshua.
– Coloquem-no lá. – Praticamente gritou.
– Você é um sádico. – Joshua disse entre dentes e reprimindo um gemido de dor, trincou os dentes e reprimiu um grito ao ser sentado na cadeira que possuía pregos virados para cima na parte plana da cadeira e onde se apoia os pés, o sangue escorre durante muitos minutos, as suas forças podem ter se esvaído, mas o orgulho ainda estava presente.
– Agora confessas o atentado a vida da minha esposa? – Disse o conselheiro enquanto soltava um sorriso.
– Eu não lhe digo nada. – respirou enquanto falava, a dor era dilacerante e o suor escorria de sua testa e se misturava ao sangue que escorria pelas costas.
– Então te deixarei neste estado até amanhã de amanhã. – Começou. – Já que retirou de mim o meu maior amor eu lhe arrancarei tudo. – Disse baixo o suficiente somente para que Joshua ouvisse.
– O que você fará? – Ódio, era o que havia em sua voz e em seus olhos.
O conselheiro se retirou daquela masmorra para se direcionar ao lado oposto, onde estava presa Samira, a mulher cujo Joshua amava.
– Olá. – Disse Nicholas fingindo simpatia. – Estás bem? – Falou calmamente.
– Porque estou presa neste local? – Perguntou diretamente, tentando manter a pose de durona mesmo quase diante a morte.
– Você está sendo acusada de pirataria e de ser cumplice no assassinato da Condessa Lilian Elizabeth Buckingham. – Disse formalmente, porém seu tom com a mulher a sua frente era algo bem mais tranquilo, bem diferente de como era com o companheiro da mulher.
– Eu não matei aquela dama. – Disse rapidamente.
– Então confessa a arte de pirataria? – Indagou sorrindo, com ela a coisa não seria física, o pior tido de tortura que poderia existir para aquela moça seria a tortura psicológica.
– Não. – Samira falou ríspida, não iria confessar nada aquele ser horrível.
– Já lhe contei que seu amado está quase morrendo? – Nicholas disse tranquilamente, como se aquilo fosse uma conversa formal na hora do chá.
– Eu te desprezo. – começou. – Você não o machucou, porque você é fraco. – mas na verdade seu coração dizia ao contrário, seu coração estava pulsando mais rápido que o normal, e começou a ter um ataque asmático.
– Acredite, daqui a cerca de três horas ele deve morrer, porque todo o seu sangue deixará o corpo, mas você pode impedir este fato lastimável. – Deu uma risada maligna, quase maluca.
– Como? – Disse em voz baixa.
– Confesse os dois crimes e eu deixarei lorde Patterson sair deste castelo ileso, pegar seu navio e partir daqui para nunca mais voltar. – parou de falar quando viu a expressão da mulher não ficar incerta.
– Nunca farei isto, irei morrer se fizer e estou grávida, nem com mulheres você tem compaixão? – Gritou em fúria.
– Não, as mulheres são pessoas muito falsas, mesmo eu amando incondicionalmente a Lilian ela ainda me traiu e você não é diferente. – Cuspiu as palavras. – E você e seu filho iriam morrer de qualquer jeito, sabemos quem você é, parece haver um traidor, e sabemos de seus atos de pirataria. – continuou. – Então senhorita eu sugiro um acordo.
– Que acordo? Já irei morrer. – Falou com os dentes trincados, sua vontade era gritar, bater, matar e correr dali, e nunca mais olhar para trás, porém trancada naquele lugar nada adiantaria, a morte lhe chamou e o seu chamado era impossível não atender.
– Eu dou minha palavra de que irei libertar o seu amado Joshua, mas em troca, confessará que matou a minha esposa e que és uma pirata libertina. – Contou todo o seu acordo.
– Como saberei que irá libertá-lo? – Já estava ficando disposta a aceitar, não teria mais escolha, e estava tentando pensar que se fosse de encontro à morte salvando o seu amor era algo digno e corajoso.
– Eu quero que ele seja livre, mas alguém tem que pagar. – Seu olhar era mentiroso e rancoroso.
– Você mente muito mal. – Ela disse como se fosse algo formal.
– Se não confessar os dois morrerão. – continuou – ou preferes morrer sem nem ao menos tentar salvar seu amado? Eu lhe disse que mulheres sempre traem os homens.
– Eu concordo com o seus termos. – ela disse olhando para baixo, se encarasse por muito tempo o rosto de Nicholas, talvez ela mataria ele e os dois morreriam, mas o amor estava lhe chamando mais alto.
– Que bom que concordaste comigo; Eu virei te chamar daqui a três horas para a sua confissão e execução.
– Só lhe peço para que conte algo ao Joshua depois de minha execução.
– Tudo vem, eu farei este favor.
~~*~~
– Hoje estamos aqui nesta noite para anunciarmos a execução da pirata e assassina Samira Bellamy. – Anunciou ao rei em plena praça publica, em uma noite onde as estrelas sumiram do céu, porém a lua estava iluminada como nunca.
Naquela praça haviam muitas pessoas, mas aquela noticia pegou principalmente Joshua Patterson de surpresa, os seus batimentos cardíacos quase pararam, o sangue praticamente se esvaio de sua veia, não conseguiu pensar em mais nada, seu corpo ficou em estado de torpor, ficou sem expressão como se aquilo fosse somente um sonho, olhou para si mesmo e viu as vestimentas de pirata, as mãos amarras atrás das costas e ao seu lado estava Nicholas com toda a ponta e postura, com um leve sorrido nos lábios.
– Como se sente perdendo tudo o que ama? – Perguntou Nicholas a ele, como se tudo aquilo fosse uma apresentação teatral e que no final todos iriam embora felizes.
– Você é um covarde. – Gritou.
– Eu não sei do que está falando. – Fala tranquilamente.
Samira é colocada em uma estava de madeira, somente com os braços amarrados a ele e em sua volta estava cheio de palha e toras de madeira, Joshua já estava entendendo o que estava acontecendo, em seu peito a dor aumentava e em sua feição nada havia, a vida estava lhe tomando a felicidade, assim como sempre fora em sua vida, Joshua já estava chegando a conclusão de que a vida negaria a sua felicidade quantas vezes fosse necessário.
– Agora assista a sua amada ser queimada viva. – Disse com um sorriso nos lábios.
O carrasco acendeu a tocha com a permissão do rei, Joshua tentou fechar os olhos, porém as mãos de Nicholas o impediu.
– Você assistira. – Completou o conselheiro, que naquele momento estava parecendo um psicopata.
Joshua se esforçou para não gritar, por mais forte que ele tenha se tornado ver as duas mulheres por quem ele fora apaixonado estava lhe consumindo a vida, nada mais importava, sua vida fora feita de desgraças.
Não ouviu-se gritos, Samira havia morrido como havia nascido, com orgulho em suas veias e sempre seria forte, provara naquele momento em que deixara a vida, os lábios de Joshua sangravam por ele ter mordido com tamanha força que os cortara e havia lágrimas em seus olhos, o mais doloroso foi estar olhando em seus olhos quando a mesma parou de sofrer.
– Você é um monstro. – Disse para que Nicholas ouvisse. – Agora irá me matar e sua vida voltará ao normal?
– Não irei te matar, você viverá com a imagem dela morrendo em quanto olhava em seus olhos. – falou. – Machuca quando perdemos alguém não é?
– Você não sabe o que é perder alguém, você nunca foi capaz de amar. – Cuspiu, literalmente, sangue em seu rosto.
Nicholas limpou o sangue e cada vez mais se parecia com um maníaco.
– Eu amei a Lilian com todas as minhas forças, e você a matou, você arrancou-a de mim, ela sempre fora a minha dama intocável e ela se mostrou vulgar e traidora, mas eu ainda a amava. – Nicholas disse mais para si mesmo.
– Eu a amava antes de se tornar uma Bukingham. – Falou alto o suficiente para que alguns ao redor o ouvissem, ou talvez só para lhe mostrar a verdade.
– Não lhe escutarei, mas vou te libertar agora. – Completou já retirando as amarras de Joshua, mas o mesmo continuou na mesma posição, ele estava ferido e se mover seria algo doloroso, mas se levantou rapidamente e deu um passo de cada vez, não quis olhar para trás, pôde ouvir as palmas que deveriam ser para a morte de sua amada.
– Espere pirata. – Gritou Nicholas. – A sua amada pediu para lhe contar que ela estava grávida, ah e pediu para lhe dizer que era pra você ser feliz sem uma família. – Joshua não se virou, mas seu coração deu um salto e uma lágrima solitária escorreu de seus olhos, o mesmo continuou andando, quando na verdade o que mais queria fazer era arrancar a própria vida como muitos já haviam feito, iria se juntar a todos que amou ou que ama, o coração não pertencia mais a ele.
Caminhou de volta ao navio, pôde ver a sua tripulação a sua espera, eles já sabiam que ele iria ser solto, alguém os avisou, logo a ajuda necessário veio em sua direção para lhe socorrer, mais alguns passos e sentia que não iria mais conseguir se mexer, tentou ser forte ao máximo, mas somente a morte lhe seria confortável.
Samira eu te amo, me desculpe por tudo. Pensou Joshua ao ser carregado para a cabine onde ainda estava o cheiro dela e as lembranças estavam o consumindo, porém adormeceu antes mesmo que pudesse sentir mais dor do que havia sentido, os ferimentos haviam sugado toda a sua disposição e vivacidade.

~~*~~

Passaram-se uma semana desde que Joshua foi liberto e Samira morta, a pedido do próprio Joshua ele resolveu ficar em Losterwood até completar uma semana da morte de Samira e seu futuro filho, não suportaria sair daquele local sem levar algo consigo, e havia decidido o que seria; Soube a alguns dias que o conselheiro Conde Nicholas Bukingham havia se suicidado, a loucura da morte o consumiu até que retirou a própria vida, talvez ele tenha feito a escolha certa e optou por ficar com Lilian em um mundo que pode não existir, mas que para o Nicholas que viu a mulher morta em meio a multidão, aquilo foi demais para ele, ele era fraco, e os fracos nunca sobrevivem.
– Tio eu preciso sair esta noite. – Joshua disse ao seu capitão Bart.
– Por qual motivo? Não está totalmente recuperado. – Alertou.
– Eu preciso fazer algo, e ainda durante a noite partimos, não quero ficar aqui por muito mais tempo. – Concluiu e sem esperar alguma resposta se retirou do local e foi para o cais do navio.
Quando já era tarde da noite ele saiu, evitou fazer barulho para não ter que justificar os seus atos, pegou um cavalo que já havia amarrado perto do navio, porque já sabia a um tempo o que iria fazer.
Cavalgou com dificuldade devido aos machucados em direção ao castelo, e ao chegar ao castelo entrou por entre as sombras, como aquele reino era pequeno e os guardas acabavam dormindo enquanto patrulhavam o local entediados, ele entrou com certa facilidade, mas o mais difícil foi achar o que iria levar.
Só achou o que procurava cerca de duas horas depois, e só achou pois na porta de madeira tinha entalhado o nome e em baixo os nomes dos pais. Arabela Buckingham.

Notas finais
Espero que tenham gostado :3