Era um dia normal como qualquer outro. Pessoas morriam, nasciam, viviam ou simplesmente não viviam mesmo. Nesse contexto uma senhora idosa ia na direção de uma loja de bolsas com um revólver que pertencera ao seu esposo, agora morto, isso chega a ser poético, mas não tire conclusões antecipadas, o dono do revólver morreu há muito tempo e não há relação direta do porte do revólver com esse fato. A velha senhora parecia manifestar um leve nervosismo, provavelmente porque tinha consciência que usaria a arma nos próximos minutos que transcorreriam. Aproximou-se a passar pelas vitrines onde vistosas e esguias modelos sem rosto exibiam roupas e acessórios adornados por frases imperativas. As modelos, mesmo sem olhos, pareciam observá-la, as frases se misturavam e indicavam outras mensagens, “pare”, “já chega”, “isso é loucura!”. Não poderia dar importância aos recados, a ideia a obstinava a continuar seu trajeto.

Podia ver o rebanho de pessoas cruzando a rua, todas levemente irritadas, todas nervosas, todas com pressa, porém ela não estava apressada. A arma podia começar a pesar em sua bolsa enquanto se aproximava da loja, como um aviso de consciência sobre o que viria, mas ela não poderia parar, nada poderia detê-la.

Cruzou mais e mais lojas, poderiam pensar que a mulher procurava uma loja em especial, entretanto isso não seria a completa verdade, ela procurava uma loja de bolsas, apenas não sabia que loja de bolsas, isso ela esperava que soubesse quando a encontrasse. Para começar, a senhora também não sabia ao certo o porquê de ir com um revólver para tal local, acordara de manhã cedo com a ideia impregnada na cabeça, como algo que devesse fazer, sem saber a razão. Podemos negar, todavia todos temos isso. Não adiantava contestar o fato, a senhora lutara com a ideia durante toda a manhã, durante toda a tarde, cedeu ao impulso logo ao anoitecer.

Foi nesse momento que parou num solavanco, do outro lado da rua avistou um pequeno bangalô de venda de bolsas, costumava ir a alguns desses quando jovem, isso lhe chamou a atenção.

Pensou. Andou um pouco. Parou de novo. Olhou para o bangalô.

Talvez esse momento não pudesse chegar e ela passaria o resto de sua vida andando a vagar como um espectro perdido a procurar seu momento, seu clímax. Não podia desperdiçar o momento, aquele era o momento. Atravessou a rua a passos trôpegos e desajeitados de alguém que já havia andado o bastante de uma vida, onde o cansaço decidiu potencializar-se no final de seus anos. Alcançou a calçada que proporcionava uma visão mais analítica da loja, era uma loja velha e pobre, se localizava quase que dentro de um beco, não perdeu tempo e entrou nela.

Logo que entrou, surgiu na porta uma sorridente vendedora que recepcionou a senhora com uma pergunta comum.

–Deseja alguma coisa? — A senhora poderia contar a verdade e dizer que queria atirar com o revólver do seu esposo, mas não poderia simplesmente chegar e atirar, necessitava de um motivo.

Decidiu mentir.

–Sim, sim. Gostaria de uma bolsa. — A vendedora ouviu como que interessada no assunto, muito feliz para estar numa loja tão pobremente triste.

–Que tipo de bolsa?

A senhora não pensara nisso, talvez não pensara realmente em nada, apenas na arma.

– Uma bolsa... Azul.

A ideia lhe viera de uma forma simples, numa cor, numa cor simples. Por que nesses últimos instantes pensara e usara o azul, não sabia dizer, era uma cor tão genérica e presente, o céu, água, tão presente cor. Era algo muito comum, muito banal.

Mas é nas horas mais improváveis que surgem as ideias banais como esperança de uma normalidade.

– Senhora, me desculpe, mas não temos bolsas azuis.

Sabia, achara um motivo.

O momento era aquele.

– Você não sabe, eu preciso da bolsa, preciso da bolsa azul. — Abriu a bolsa e puxou o revólver, apontou para a vendedora – Agora.

De repente ela percebera que precisava muito da bolsa azul, a banal bolsa azul que poderia levar-lhe ao normal da situação.

A vendedora entrou em pânico.

– Senhora, você precisa se acalmar. — Pôde identificar o movimento de olhos esboçado pela vendedora à outra, no balcão ligavam para a polícia. — Abaixe essa arma e podemos conversar e arrumar sua bolsa.

Se demorou por alguns minutos, não saberia dizer quanto tempo se passou nesse intervalo, mas a vendedora continuava a acalmar a nervosa idosa com palavras dóceis e vazias. Ouviu as sirenes se aproximando, dois homens fardados eclodiram de suas viaturas com armas em punho, gritavam palavras não tão docilmente, mas tão vazias como as outras.

Decidiu que não poderia se demorar mais, atirou.

Jorros de sangue fluíram por todos os lados, era o sangue da vendedora.

Mas também era o seu sangue, o vermelho acabou tomando o lugar do azul, a cor também era banal, também era comum. A cor reconfortou-lhe, saberia que voltara a normalidade, a agora breve normalidade. Em seus devaneios de morte poderia reconfortá-la a visão se apagando.

E o vermelho se tornara azul.

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