Azul
2 Capítulo 2
Acordei todo suado, num quarto escuro que certamente não era meu. Fiquei olhando para o teto por um tempo. Tentei me levantar, mas me sentia muito fraco para tal. Olhei para os lados, percebi que estava num quarto hospitalar. Vi minha mãe deitada sobre a cama, dormindo sobre minhas pernas. Queria saber que horas eram. Procurei um relógio. Logo, entrou uma enfermeira, do turno noturno, talvez. Ela percebeu que eu estava acordado:
– Volte a dormir, você precisa muito descansar. – falou baixinho, enquanto colocava mais soro.
E saiu do quarto.
Eu me revirei na cama, me sentia muito quente. Tirava a colcha e ficava com frio. Me cobria com ela e ficava com calor. Já estava muito cansado, ao fazer todo este movimento fiquei exausto. Senti minhas palpébras pesarem e adormeci.
Quando acordei de novo, com a garganta muito seca, o sol já tinha nascido. Minha mãe levantou do sofá e chegou perto de mim. Ela me fez um cafuné, sorrindo. Mas seus olhos pareciam tristes e um tanto avermelhados. Perguntei o que tinha acontecido e ela não me respondeu. Estranhei isso, parecia que algo importante havia acontecido enquanto eu estava dormindo.
Um enfermeiro entrou no meu quarto, com uma bandeja de comida. Ele colocou-a por um instante na escrivaninha, para apertar o botão da cama e fazer ela subir. Ele colocou a bandeja no meu colo e tentou puxar conversa comigo:
– Então você é senhor Antônio? – ele tinha uma feição tranquila.
Eu, que estava olhando para a bandeja, olhei para minha mãe e então para o enfermeiro. Minha mãe se aproximou mais e tentou me ajudar a comer.
– A senhora não contou pra ele, contou?
Olhei para minha mãe. Ela mexia na bandeja, enquanto negava com a cabeça.
– Quer que eu conte?
Silêncio.
– Sabe que é melhor contar logo pra ele.
Silêncio, outra vez.
– Eu vou contar, então.
Arregalei meus olhos. Irião me contar o quê? Como eu queria que minha boca não estivesse seca neste momento. Mais que tudo, queria gritar. Mas tudo que podia fazer é ir comendo, aos poucos, a comida de hospital que minha mãe dava na minha boca.
– Olha, Antônio, você esteve inconsciente por um tempo. – ele começou a contar.
Um tempo? Como assim um tempo? Sentia que se eu arreguelace mais os meus olhos, eles iriam sair de órbita. O enfermeiro pareceu perceber o que eu queria dizer com o meu olhar, então ele continuou:
– Pra ser mais exato, você esteve inconsciente por duas semanas.
Fiquei boquiaberto.
– O negócio, é: você estava com uma febre de 40º inexplicável. Logo que chegou aqui, colocamos soros e mais soros em você. A febre abaixou, mas ela retornou rapidamente. Isso aconteceu várias vezes. Foi então que o médico de plantão decidiu fazer um exame geral em você e descobrimos que estava com infecção nas amídalas. Fizemos uma cirurgia em você, onde retirámos as duas amídalas. Sua febre abaixou um pouco, mas continua alta, por isso decidimos que você ainda vai ficar aqui, em estado de observação. Não sabemos se a infecção teve relação direta com a sua febre alta, já que você ainda está febril.
Olhei para a minha mãe. Ela fechara os olhos.
– Faremos um novo exame geral em você, esta tarde, para ver se você ainda apresenta algum problema.
Minha mãe agradeceu o enfermeiro e ele se retirou, levando a bandeija. Queria muito falar com ela, mas não sabia o quê. Ela me deu um pouco de água e acariciou meu rosto. O olhar terno e triste.
– Vou sair para comer algo, ok? Breno disse que viria te visitar agora de manhã.
– Ok. – foi tudo o que eu consegui responder.
Minha mãe se retirou. Olhei para o além. Não conseguia acreditar que tinha ficado duas semanas internado e inconsciente. E como ficou a escola? Se bem que o período de férias de inverno já havia começado, pelos meus cálculos. Será que minha mãe, pelo menos, avisou que eu não ia aparecer na última semana de aula? Todo o trabalho que eu ia ter quando voltassem as aulas.
– E aaaaaí? – ouvi a voz do Breno. Virei o rosto e vi que eles estava entrando no quarto. Nem percebi como o tempo passou.
– E aí o quê?
– E aí de você tá bem?
– Não sei dizer ao certo.
– Por quê?
– Eu tô com febre e tiraram as minhas amídalas e me sinto exausto e sem muita fome e…
– Hm?
– Como foi a última semana de aula?
– Isso é lá coisa de doente perguntar?
– Pra mim, é.
– Não sei dizer se você deu sorte ou não. Como a semana de provas já foi a um tempão… Mas nada de mais aconteceu. O de sempre, sabe?
– Uns idiotas se batendo e meninas que só sabem falar de merda?
– Tipo isso.
– Mas e com você? Tá tudo bem?
– Tô. Foi tenso passar a última semana de aula sem a minha dupla de todos os trabalhos, mas deu pra aguentar.
– Quê? Teve trabalho em dupla?
– Pois é. Parece que deu a louca na maioria dos professores.
– E você teve que fazer com quem?
– Ah… eu me virei lá.
– Você fez sozinho?
– Isso não é um problema, é? – Breno sorriu.
– Não. – e eu comecei a rir.
Ele riu comigo, mas logo parou. Ele ficou com um olhar cinza.
– O que foi?
– Ah… é que não é muito divertido ficar na escola se não se tem amigos.
– Você fala isso, mas sempre tem uma mina abanando o rabo pra você.
– É… mas a diferença é que elas são umas babacas e você é com quem eu tenho algo que eu posso chamar de “intimidade”. Na verdade, nem sei de onde aquelas meninas surgem.
Eu ri.
– O quê? Desde o ano passado! A diferença é que esse ano a quantidade se dobrou.
Continuei a rir.
– Fala por qual merda de razão você tá rindo! Isso tá irritando!
– É que… — ri – é engraçado a sua situação.
– Como assim engraçado?
– É que você não faz nada. Não é de nenhum clube, time ou coisa assim. E elas ficam te estalqueando a distância e pá. Você deve ser o conceito de “bonito” delas. – ria com vontade.
Breno fechou a cara e ficou quieto.
– E ainda por cima, você nem abre a boca. Tipo, a única pessoa com quem conversa sou eu, então elas nunca devem ter ouvido a sua voz…
Ele me olhou pelo canto do olho, bufou e começou a rir um pouquinho.
– Viu? É tão verdade que chega a ser engraçado!
Rachávamos o bico por um motivo besta. Essa era a minha relação com o Breno. Não éramos totalmente íntimos. Não tínhamos nada em comum, nem gostos parecidos. Nem sabíamos do que conversar. Mas foi daí que começou a surgir um tipo de amizade. Sabemos que podemos contar um com o outro e sabemos que um não vai julgar o outro, então fazemos e dizemos o que bem quisermos.
– Já tá melhor? – minha mãe tinha entrado no quarto, sem percebemos.
– O meu espírito tá.
– Olá, Breno. Como vai?
– Bem. E a senhora?
– Melhor. – minha mãe sorriu.
Passei o resto da manhã conversando com o Breno, na presença da minha mãe. Na hora do almoço, o mesmo enfermeiro da manhã entrou com uma nova bandeija, que deixou no meu colo. Minha mãe me ajudou a comer e Breno zombou da minha cara. Depois que comi tudo, de má vontade, Breno se despediu. Disse que tinha coisas para fazer de tarde e que ainda tinha que almoçar. Passado uns cinco minutos, o enfermeiro veio buscar minha bandeija. Minha mãe conversou com ele e me disse que ia voltar para casa, para fazer o almoço e tomar um banho. O enfermeiro acompanhou ela até a saída e eu adormeci.
Acordei novamente, com o enfermeiro me avisando que os exames irião começar. Perguntou se eu podia ficar de pé sozinho e eu disse que sim. Sentia que estava exausto, mas achava que conseguia me virar sozinho. Fiz força para levantar o tronco. Tive que me apoiar na barra da cama. O enfermeiro se aproximou, para qualquer descuido. Eu ia me movendo devagar. Não estava só exausto mentalmente, como também sentia meu corpo muito fraco. Para descer da cama, pedi ajuda do enfermeiro. Ele me segurou e me pôs com todo o cuidado no chão.
– Aaaaiii! – senti uma dor forte na perna direita.
– O quê foi? Sentiu dor em algum lugar? – o enfermeiro ficou alerta.
– Uma dor muito forte na perna. Ai ai ai… — tentei segurar minha perna.
– Qual das duas? – ele me segurava na cintura, com firmeza.
– Na direita.
A dor era absurda. Sentia que ia perder o equilíbrio em qualquer instante. O enfermeiro me sentou na cama novamente:
– Espere aí que vou pegar uma cadeira de rodas.
Ele voltou com o aparelho e me sentou nele. Junto com ele veio um médico. Nem tinha percebido que ele tinha vindo junto, estava ficando tonto e com um pouco de falta de ar. Fechei os olhos e tentei respirar com calma. Sentia que me examinavam, no pulso, na testa, no pescoço. Depois comecei a sentir uma leve brisa. Estavam correndo para me socorrer. Não consegui resistir e desliguei.
Tive um sonho leve, mas não acordava. Mas sentia que pegavam no meu corpo, por um breve momento, pude sentir que os toques se focavam na minha perna. Quando acordei, estava no meu quarto. O enfermeiro apareceu na minha visão. Ele sorriu.
– Quer que eu levante a cama?
Acenei que sim com a cabeça. Ele saiu do meu campo de visão e pude ir vendo que o quarto estava banhado pela luz laranja do pôr-do-sol.
– O que aconteceu?
Eu olhei para o enfermeiro. Meus olhos um tanto arregalados.
– Tivemos que interná-lo com extrema urgência. – ele tentava me manter calmo, com um sorriso no rosto. – Vai ficar tudo bem.
Ele saiu de perto da máquina que ficava do lado da minha cama e me disse calmamente:
– Agora que eu já arrumei tudo, a doutora vai vir falar com você.
Ele sorriu e saiu do quarto. Ao mesmo tempo, minha mãe entrou e veio correndo me abraçar. Não conseguia ver o rosto da médica, entre os braços da minha mãe, mas sabia que ela também tinha entrado.
– Senhora, não quer se sentar um pouco? – era um voz calma, mas dura.
Minha mãe saiu de cima de mim e a segui com o olhar, até se sentar num banquinho ao lado da minha cama.
– Antônio, não é? – A voz da média fez com que eu olhasse para ela.
Meu mundo desabou, junto com a minha mandíbula. A médica era a mulher que tinha visto na rodoviária, há duas semanas atrás. Não imaginava que ela era médica, mas agora entendia porque roupas brancas combinam tão bem com ela. Alguma coisa tinha mudado nela. Seu olhar não estava mais triste. Estava sério e determinado. Era como se o tom de azul tivesse mudado de tom cinzento para índigo. Era como uma chama azul acesa e determinada a não se deixar apagar.
Fale com o autor