Azul

1 Capítulo 1


Ela chegou junto com o inverno. Triste, pálida e indesejada. Indesejada em seu lugar de partida e em seu destino final. Indesejada, mas de uma beleza essencial. Carregada, mas leve.

Apenas acompanhava-a com o olhar. Se encurvava para frente, um pouco para trás e para frente mais uma vez. Mesmo estando do outro lado da rodoviária, podia sentir seu olhar azul. O que acabou sendo mais uma manhã fria e devagar, como o meu ônibus que nunca chegava, se tornou numa leve brisa de primavera que conseguiu aquecer, um pouco, o meu corpo.

Ela ia embora com passos firmes e eu só queria continuar olhando para ela. Queria continuar recebendo aquele calor.

Foi aí que meu ônibus chegou. Bendita lei de Murphy! Subi e fui logo procurando sentar perto da janela, para tentar suga-la um pouco mais com meus olhos. Mas já havia perdido ela de vista nesse meio tempo.

Depois disso, fiquei a viajem inteira perdido nos meus pensamentos, tentando lembrar ao máximo de cada detalhe que meus olhos gravaram na lápide que é meu cérebro.

Nem reparei que meu amigo havia sentado do meu lado, só pude senti-lo me puxar pelo pulso, para não perdermos o ponto. Nem liguei. Deixei ele continuar a me puxar até a sala de aula. Sabia que estava absorto demais parar prestar atenção no caminho, na vida. Quando voltei a mim, ele tinha me jogado na porra da carteira e eu tinha soltado um baita de um palavrão. Gritado, para variar.

- É pra ver se você acorda de uma vez, seu merda!

- Mas precisava jogar com tanta força, babaca?

- Precisava.

Esse moleque sempre foi direto comigo. Talvez tenha sido por causa disso que fiz amizade com ele. Sei lá, nem lembro. Provavelmente nem ele deve se lembrar.

- Passa aí um lápis e um papel. – precisava passar minha musa para o papel.

- Pra quê?

- Esqueci meu material em casa. – menti descaradamente.

- Cala a boca, você tá com sua mochila nas costas! – droga, detalhes. Esqueço que esse babaca tem cara de quem está pouco se fudendo para tudo, mas na verdade tem olhos de águia.

- Só me empresta a merda de um lápis e papel, pelo amor de deus.

- Tá! Não precisa ficar irritado! – ele foi abrindo a mesa e pegando os utensílhos.

- Obrigado. – arranquei as coisas da mão dele – E eu não estou irritado.

Finalmente pude voltar a minha paz interna. Com rapidez, tentei desenhar a moça de olhar azul. Os cabelos negros e sedosos dela. A roupa, mas que a cor branca dava leveza. Me sentia mais calmo do que nunca.

- Cara, que merda é esse que você está desenhando? – Breno sabia que eu não era um exímio desenhista, que só desenhava quando o professor pedia ou em extrema emergência.

- Uma mulher. – nem ligava para o fato que ele estava querendo tirar uma com a minha cara.

Silêncio. Não tirava os olhos do papel e colocava os últimos detalhes no desenho:

- Eu vi ela antes de entrar no ônibus, hoje de manhã.

- Ah... ela era tão bonita assim pra você desenhar ela?

Tá certo que meu desenho é horrível, mas graças a deus consigo fazer algo melhor do que bonequinhos de palito. Mas é, achei ela bonita mesmo. Minha bochecha deu uma leve queimada ao lembrar dela mais uma vez. Confirmei com a cabeça.

Silêncio. Levantei a cabeça para ver o que acontecera com Breno. O que ganhei foi o olhar de julgamento de meu professor. Foi aí que percebi que ele havia acabado de me chamar para responder a chamada e só viu um babacão corando e acenando para um pedaço de papel.

- Já está virando esquizofrênico, Antônio? – quis enfiar minha cabeça num buraco, mas o máximo que consegui foi enterrar o rosto na carteira. Pelo menos metade da classe se virou pra saber o que tinha acontecido.

O professor continuou a chamada. Virei o rosto para ver o babacão do Breno, que se segurava para não rir alto.

- Psst!

Ele olhou com um olhar risonho e mordendo o lábio inferior.

- Para!

Ele negou com a cabeça.

- O quê? Não consegue?

Ele concordou.

- Aff... – virei minha cabeça para o outro lado e fiquei observando as coisas lá fora.

Fiquei nessa posição quase a aula inteira. Não me movi. Não tirei o cachecol e a mochila das costas. Não dormi. Fiquei apenas observando a neve cair. Pouco a pouco fui esquecendo detalhes do rosto da moça, mas consegui gravar apenas o necessário para reconhece-la na rua.

Queria passar o dia naquela posição, sem fazer nada, só pensando onde a moça poderia estar. Imaginando o que ela fazia da vida. Me perguntando se conseguiria encontra-la novamente. Nem lembro o que fiz o dia inteiro. É como se eu tivesse entrado numa sala de cinema dentro de minha cabeça, onde se passou a memória da mulher em looping. E quando o filme acabou, eu saí da sala e me vi voltando parar casa.

- Cara, hoje você está muito estranho.

- Oi?

- Você passou o dia inteiro mais quieto do que o normal.

- Ah... sério?

- É.

- Desculpa, eu não tinha a intenção.

- Intenção do quê?

- De te deixar sozinho.

- Sozinho?

- É.

- Eu não me senti sozinho.

Viramos a esquina.

- Então...

- Você estava pensando na mulher, não estava?

Fiz silêncio. Minhas bochechas queimaram um pouco.

- Estava. – Breno respondeu à própia pergunta. – Poxa vida...

- O quê?!

- Você nem conhece essa mulher e já não para de pensar nela... aposto que nem foi lá falar com ela.

- É claro.

- É CLARO??!

- Ah, cara… ela tava do outro lado da rodoviária…

- E você tem perna, não tem?

- Tenho, mas… logo que ela começou a ir embora, o ônibus chegou.

Breno deu um soco no meu braço e a conversa parou por ali. Fiquei esfregando a mão no braço, foi um soco um tanto forte. Não consegui abrir a boca, de vergonha. Vergonha por não ter agido como “homem” na visão de Breno. Na outra esquina, nos separamos. Eu ia pegar o ônibus e ele sempre ia por esse outro caminho, não sei por quê. Uma vez eu perguntei e ele disse que tinha arranjado um bico que ficava naquela rua, mas nunca mais abriu a boca sobre esse assunto. Eu também nunca perguntei mais.

Peguei meu ônibus, dei uma dormida e saí no ponto final, como de costume. Ando mais uma quadra e chego em casa. Já subo para meu quarto e tomo banho. Ao sair, me visto e vejo se alguém já chegou. Nada. E também não sei onde estão. Resolvo começar a fazer algo para jantar. Outra coisa no qual eu também não sou muito habilidoso, a arte da culinária. Tento fazer algo fácil e rápido: omelete de queijo e presunto.

Não é sempre que como sozinho, mas também não estou sempre jantando com a família inteira. Fico só encarando a comida, mexendo, brincando. Lembro de pegar algo para beber. Lá vou eu buscar por uma coca zero. Nada. Vou tomar água, mesmo. Volto a me sentar na mesa, com um copo d’agua. Como tudo e lavo o meu prato. Resolvo pegar mais água, para levar para meu quarto. Ao passar na frente do hall, minha mãe entra em casa com a minha irmã.

- Ah! Boa noite, querido!

- Boa noite, mãe, Léti.

- Boa noite, mano.

- Já comeu, querido?

- Já, mãe. Onde você tava?

Ela me ignorou. Entrou correndo, indo direto para a cozinha. Quem respondeu foi minha irmã:

- A mãe foi visitar a Maria. Foi ver como ela estava, se precisava de ajuda…

- E como está a Maria?

- Pergunta pra mãe. Eu só fui buscar ela, nem consegui entrar. – E minha irmã passou por mim e subiu para o seu quarto.

- Mãe! Como está a Maria? – gritei do pé da escada.

- Bem! – a voz vinha da cozinha.

- E o bebê?

- Está bem, também. – a cabeça da minha mãe apareceu na porta da cozinha – Eu já te disse que a Maria entrou no período estável da gravidez há um mês, menino!

- Verdade.

- Vai subir?

- Vou.

- Ok. Vê se vai dormir cedo! – e a cabeça dela desapareceu mais uma vez.

Balancei a cabeça. Quando minha mãe vai entender que tenho 16 anos? Sei que sou o caçula, mas também já estou grandinho. Subi e me enfurnei no meu quarto. Fiquei lendo umas revistas, estava sem saco de fazer a lição. Na verdade, nem tinha anotado ela.

Minha irmã bateu na porta:

- Ei, criatura, você me faz um favor?

- Não.

- Af, moleque, só tô pedindo um favor.

- Não. Seus favores sempre são pra me tornar no seu escravo.

- Ah, é? Então, o que é que eu vou pedir agora?

- Para acordar mais cedo e fazer o seu café.

- Af! – ela bufou e saiu da porta, que eu fechei logo em seguida.

Vesti meu pijama de flanela, liguei o aquecedor do colchão, peguei um dos meus livros favoritos de poesia, na estante, e entrei na cama. Li por uma hora e meia e apaguei.

Quando acordei de manhã, com o alarme do celular, vi que tinha dormido com o livro na cara. Me sentia muito cansado, mesmo tendo dormido o tempo suficiente para meu corpo estar descansado. Tirei o livro do meu rosto e o coloquei na escrivaninha. Apaguei o abajur, pois a luz me incomodava um pouco. Me sentia quente e com um peso no meu peito. Queria voltar a dormir. Busquei o interruptor do aquecedor do colchão, desliguei e virei meu travesseiro. Ainda me sentia quente. Tirei o edredom de cima de mim. Nada.

Minha mãe entrou no quarto, perguntando por que eu ainda não havia levantado. Respondi que me sentia muito cansado e com muito calor, que queria dormir mais. Ela se aproximou e tocou na minha testa, nas minhas bochechas.

- Você está pelando! – e ela saiu correndo do meu quarto.

Conseguia ouvir ela gritar para Léti acordar, no quarto ao lado do meu. Eu me virei e coloquei o travesseiro sobre minha orelha. Era muito barulho e estava me irritando. Me dando dor de cabeça. Minha mãe entrou de novo, me chamou e eu virei. Ela estava com um termômetro, que colocou de baixo da minha axila, depois de liga-lo.

Pude ouvir passos lentos na escada. Comecei a delirar com a escuridão. Minha visão não fazia mais sentido nenhum. A moça de olhar azul aparecia sobre o meu teto, mas dessa vez ela olhava para mim. Olhava para os meus olhos. Um olhar triste, mas ao mesmo tempo sério e duro. Ouvi uma gritaria. Passos corridos. A mulher continuava a me fitar. O cabelo dela estava sendo ondulado pelo vento. Por um momento me senti meio leve, como se minha alma estivesse se separando do meu corpo ou como se meu corpo não estivesse obedecendo a minha mente. Queria tocar na mulher, que parecia estar cada vez mais distante. Senti meu corpo tocar algo gelado, depois uma sensação gostosa de estar sendo coberto por uma seda suave e fria. Uma brisa no meu peito e uma sensação de liberdade nas minhas pernas. A seda começou a ficar gelada. Cada vez mais gelada. Mas meu corpo continuava bem quente. Minha visão turva via um fundo branco e duas salsichas rosas desfocados. As cores mudaram para um verde meio musgo e depois para um amarelo bem intenso e depois para um azul claro e dessaturado e em seguida para um branco puro. Não aguentava mais. Fechei os olhos.