Azul.
1 Azul.
XLI-Azul
Anjos cantem melodias
Pois agora já não consigo.
Nada há o que satisfaz
O que a dor no momento me trás.
Anjos cantem pois não consigo mais.
O azul do céu vem fugindo
De meus gritos vem surgindo
Um bolor de sentimentos
Envolvidos nos momentos,
Nos relentos tão aflitos.
Anjo, hoje me passou
Um caso que Deus errou
E com minha vida acabou.
Pois nem um ano passado
Da alegria de a luz ter lhe dado.
Meu pequeno anjo que a ti devolvo.
Não há mais noites sem estadas
Pois a cruz que vem estalada
Fortemente empunhou meu peito.
Sei que gritar não tem o jeito,
Mas farei sóbria todo o meu soar.
Nem o azul dos mares pode me consolar.
Meu pequeno e doce anjo,
Que tão pequeno me foi dado,
E rudemente foi tirado
Dos braços de uma pobre mãe.
Hoje, Deus enterra o meu filho,
Um de seus anjos que quis de volta.
Sei bem que minha revolta,
Nada será enquanto durar.
Digo cá o que me consola
É saber que assim não demora
O dia de aqui deixar.
Quando tal dia chegar,
Alto em bom tom,
Anjos irão cantar.
E com eles, meu pequeno anjo,
Que para o azul acabou de embarcar.
(Bate Palminha, bate. Palminha de São Tomé!
Bate palminha, bate. Pra quando papai vier!)
Nota da Autora: Queixo-me por vezes de algumas injustiças do mundo. Nítidas em nossos olhos, elas se espalham, e tomam iniciativa no inconsciente.
Este foi o caso que tomou meu coração, por alguns instantes, até mover esta carta ao livro. André, de apenas seis meses de vida, foi tirado da mãe em um acidente de carro. Completamente inocente, a criança pagou com a vida pela injustiça que cobre a face da Terra.
Por outras vezes não compreendo o fato. Destino, talvez, tenha a resposta. Se esta for positiva, nego-me friamente a acreditar, pois nenhum destino seria capaz de arrancar a vida de uma criança.
Enterrado ao som de cantigas infantis, escrevo-lhe esta humilde carta, imaginando (e somente imaginando) a dor de sua família.
Pois, na semana do dia 10/11/10, Deus resolveu tomar de volta um de seus anjos.
“Aurea Mediocritas”.
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