Azar
8 A Namorada
Abri os olhos e me deparei com a cena mais estranha que eu já vi em toda a minha vida:
O Junior sentado no chão da minha sala, olhando atentamente para um peão que rodava a sua frente. Sim! Ele estava brincando de peão! Por quê? Sei lá! Não entendo essas coisas de maluco!
— A bela adormecida acordou! — Falou ele quando eu, com dificuldade, levantei.
— O que você tá fazendo aqui? — Começar o dia olhando para a cara feia dele? Ninguém merece!
— Sua mãe me deixou entrar...
— Minha mãe te deixou entrar, ou você arrombou a porta e entrou depois que ela saiu? — Perguntei, olhando para a maçaneta quebrada da porta da frente.
— Não importa, o que importa é que eu estou aqui para cuidar de você, meu amor!
— “Meu amor” uma ova! E pode caindo fora, que eu não tô com paciência para você!
— Credo! Quanta falta de amor no coração...
— Realmente, eu não tenho o menor amor por você, a minha única alegria é te ver ir embora, mas você estraga tudo quando volta!
— Eu sei que você fala isso, mas no fundo me ama!
— Quer me ver te amar para sempre?
— Sabia que você ia se abrir!
— Então vai embora e nunca mais volta, nem aparece na minha frente, porque se eu olhar para a sua cara feia de novo, todo o amor da sua ausência vai desaparecer, sumir!
— Ah, cara, você não é fácil, hein! — Ele parecia uma mãe mole falando com uma criança difícil e isso me irritou mais do que o normal, levantei, o fiz levantar e empurrei-o porta afora.
Não tinha como fechar a maldita porta, então corri para o meu quarto e me tranquei lá, não queria ver ninguém, me isolar de tudo e de todos. Minutos depois, bateram na porta do meu quarto.
— Que inferno, Júnior! Você não entende que eu quero ficar sozinha?! — Abri a porta para tentar expulsá-lo de novo da minha casa e me deparei com Débora.
— Com essa delicadeza toda eu saio, tudo bem.
— Debinha! Eu achei que fosse o...
— Eu sei, eu sei. Posso entrar no seu ninho? — E ele riu da própria piadinha — eu não.
— Vamos para a sala, é melhor. — Detestava gente estranha no meu quarto, especialmente porque ele estava completamente bagunçado — ainda do rato. Tudo bem que ela não era estranha, a Débora era o mais perto de melhor amiga que eu tinha, mas ainda assim me incomodava... Eu tinha sérios medos dos desastres que podiam acontecer ali.
Depois de algum tempo conversando sobre nada em particular, a mãe dela ligou, ela teve que ir e eu fiquei sozinha de novo.
Estava num momento quase depressivo então resolvi descer até a piscina do prédio e ver se o dia lindo me afetava e me alegrava.
Não deu muito certo.
Cheguei na piscina com um short simples e biquíni e me deparei com o corpo fantástico do Edu nadando tranquilamente. Perdi o folego e deixei a toalha e meus chinelos caírem, chamando atenção para mim.
— Oi, Isabel! — Disse ele, parecendo quase feliz em me ver — pelo menos era nisso que eu queria acreditar.
Mas, como sempre, eu estava errada.
— O-Oi! — Balbuciei, como uma criança boba. Ele saiu da piscina e veio até mim, me dando um beijo na bochecha e espalhando vários pingos em mim, mas nem me importei, estava completamente derretida, até...
— Vem, quero te apresentar uma pessoa! — Me segurando pela mão, ele me levou até uma mesa com a menina mais linda que eu já tinha visto, que tomava um suco rosa avermelhado — Essa é a Carol, minha namorada. Carol, essa é a Isabel, a menina que eu te falei.
— Quem? — Ela pareceu em dúvida por um segundo e, então, lembrou e sorriu. — Ah! A estabanada, claro! Muito prazer!
Meu mundo caiu, não conseguia encontrar voz pra cumprimentar a menina, eu simplesmente estava perdida, sem reação. Ele tinha dito pra ela que eu sou estabanada? Ela estava se levantando pra me dar aqueles dois beijinhos de cada lado que eu sempre achei terrivelmente bregas.
— P-Pra-Prazer. — Consegui finalmente responder — Tudo bom?
— Tudo ótimo! Você esta bem? Ficou pálida de repente...
— Não, é ooo... Sol! — Essa foi uma das piores desculpas que eu já inventei na vida!
— A sua pressão baixa no sol forte? A minha também! Que engraçado! — Edu me salvou, parecendo impressionado de verdade — Espera aí na sombra que eu vou pegar alguma coisa pra você comer, tá?
Me sentei na mesa da Carol com ela enquanto ele ia, ainda me sentindo fraca demais para recusar e voltar para casa. Assim que ele saiu de vista a namorada não parecia assim tão... Simpática:
— Ele te acha fofinha, quase como uma irmã mais nova. Não se iluda, queridinha.
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