Awkward
8 O passado presenteia o futuro
Meu passado me condena. Realmente, eu havia aprendi da pior forma possível que quando fazíamos algo ruim, o troco não era tão barato assim. Além de ter que suportar Anne no colégio, terei que suportá-la por mais alguns dias na mesma casa que eu, e também no mesmo quarto. Ela parecia diferente — talvez fosse o jeito que se comportava longe do tumulto escolar. Ela parecia mais bonita — talvez gostasse de Will, e pude perceber isso. Mas, de alguma forma, bem lá no fundo, Anne ainda era a mesma pessoa que usava suéter e jeans nos corredores do colégio.
Eu dormiria na minha cama, enquanto Will e Anne dormiriam no chão. O colchão dos dois pareciam mais próximos do que realmente estavam. Talvez eles se pegassem sem que os familiares soubessem. Caso eles quisessem privacidade, era só pedir, afinal, eu não estava afim de suportar casal apaixonado hoje.
– Como será dormir com duas mulheres no mesmo quarto? — disse Will, sorrindo — Nunca fiz isso antes. Na verdade, já dormi com minhas tias no mesmo quarto, mas elas são tipo vinte anos mais velhas que eu, então não vou contar isso.
Revirei os olhos. O garoto parecia ter sérios assuntos idiotas para tratar. Não queria me entrometer em relação a isso. Eles se conheciam a mais tempo. Provavelmente, tinham aquelas piadinhas sem graça para compartilhar.
– Will — disse Anne, cantando, ao mesmo tempo em que se sentava no colchão dele — Tradição, tradição.
– Não, Anne — disse Will, se levantando — Esse ano não poderemos fazer a tradição.
Eu estava com cara de idiota. Tradição. Eles tinham uma tradição. O que custava perguntar, afinal?
– Tradição?
– Sim — Anne disse, olhando pela janela — Will e eu contamos todo ano um para o outro quem tiramos no amigo oculto. Mas não poderemos contar esse ano, afinal, você está aqui e não faz parte da tradição.
Tapa na cara. Pausa. Silêncio. Claro, porque era muito difícil pedir para que eu saísse do quarto. Eu não mordo, e espero que ela saiba disso.
– Vou tomar banho — disse Will, caminhando em direção ao banheiro, e me deixando no quarto com Anne.
Ela não dizia nada, nem sussurrava, nem respirava de forma acelerada — coisas comuns que fazemos quando estamos em meio ao silêncio. Anne realmente não queria conversa comigo, e eu conseguia entender.
– Olha — suspirei — Se não quiser falar comigo, ótimo. Não preciso conversar com você. Tenho bons livros e boas músicas no celular. Só quero que pare de ser tão mesquinha a ponto de me envergonhar na frente do seu namorado.
– Will não é meu namorado — ela se virou, olhos redondos e cabelos caindo no ombro — Ele está apaixonado por uma ruiva da cidade dele, e saiba que respeito isso. Além do mais — ela estava com o dedo na minha cara — Tenho um amigo aqui, e não quero que você estrague isso.
Levantei os braços, fazendo cena de um criminoso. Se ela não queria assunto, não teríamos assunto.
Algum tempo depois, quando Will saiu do banho, meu celular tocou. Era Justin. Meu coração gelou, minha barriga formigou e minha respiração acelerou.
– Oi — respondi, tão baixo que quase não pude ouvir minha própria voz.
– Oi, gata — respondeu a voz rouca de Justin — As coisas estão diferentes sem você. Estou indo dormir uma hora mais cedo depois que você foi embora. Não tenho mais com quem correr depois do toque de recolher.
O toque de recolher do colégio interno era sempre as nove da noite. Após esse horário, todos deveriam estar dormindo nesse horário. Mas eu e Justin nunca estávamos. Ele sempre me levava a lugares que nunca deveríamos estar. Ele já me levou até a sala do diretor, e também já fizemos um certo 'jantar romântico' com o lanche que sobrou no refeitório. Vivíamos aventuras todas as noites, mas eu havia me cansado disso. Quando Anne entrou no colégio, Justin, por algum motivo, começou a intimida-lá. Ela sempre me olhava com um olhar de ajuda. Mas eu nunca fazia isso. Eu apenas ria — um riso forçado, sem a miníma vontade de tira-lo dali.
– Sabe, G — dizia Justin — Acho que óculos redondos não costumam combinar com sueters verde limão.
Certo, as piadas de Justin eram sempre muito mal pensadas, mas, mesmo assim, as pessoas gostavam. Eu gostava, algumas vezes, que até continuava.
– Acho que sueters não estão muito na moda por aqui — disse para Anne uma vez, apontando meu dedo em seu nariz.
Desde que comecei a estar em casa permanentemente, nunca imaginei o quão difícil isso poderia ter sido para Anne. Talvez ela não tenha contado para a família sobre o que acontecia no colégio, afinal, eles não me fuzilavam com um olhar nervoso e não diziam palavras referentes a tudo isso.
– Que tal um jogo? — propôs Will.
– Estou bem, obrigada — respondi.
– Certo... O que querem fazer, afinal? — continuou ele — Podemos conversar...
– Quero apenas dormir — disse Anne, por um acaso.
O clima não estava muito bom, e talvez ficaria pior se Anne e eu comentássemos alguma coisa sequer uma sobre a outra. Apenas deitei e comecei a encarar o teto. De relance, olhei para Will. Ele não parecia estar apaixonado por garota alguma, muito menos estar pensando em garota alguma. Talvez ele estivesse apenas encantando com a beleza de alguém. E eu? O que eu estava fazendo com Justin? Ele não era o cara certo para mim, e estava na hora de ele saber disso.
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