Awakening: O Regressor Escolhido pelo Sistema
23 CAPÍTULO 22 — O CÃO DE GUARDA

A contagem começou sob um silêncio estranho demais para uma arena lotada. O professor responsável mantinha a mão erguida, observando os dois combatentes no centro do domo de mana, enquanto as runas no chão pulsavam em azul claro. De um lado, Darius segurava a arma de treino com confiança exagerada, os ombros abertos e o sorriso largo de alguém que ainda acreditava estar no controle do próprio espetáculo. Do outro, Raziel permanecia desarmado, postura relaxada, mãos vazias e olhar tão calmo que aquilo parecia ofender mais do que qualquer insulto.
Nas arquibancadas, os alunos pareciam divididos entre expectativa e incredulidade. Alguns ainda riam da escolha absurda de entrar sem arma; outros já haviam aprendido a desconfiar quando o jovem Akhium fazia algo que parecia loucura. No setor do AXION, Blaze estava inclinado para frente, cotovelos sobre os joelhos, sem esconder a ansiedade. Sakura observava em silêncio, como se procurasse o primeiro detalhe técnico antes mesmo do duelo iniciar. Alya mantinha os braços cruzados, olhos turquesa presos em Raziel, enquanto Azuki apertava o tablet contra o peito com força suficiente para marcar os dedos.
— Três — disse o professor.
Darius girou a arma uma vez, exibindo a madeira reforçada como se aquilo fosse parte da provocação. A lâmina de treino não era tão larga quanto a espada de duas mãos usada por Raziel, mas tinha peso suficiente para causar impacto e runas de amortecimento para impedir ferimentos graves. Ainda assim, nas mãos de alguém que gostava de transformar combate em humilhação, qualquer instrumento podia virar ferramenta de crueldade. O sorriso do rapaz mostrava exatamente isso.
— Dois.
Raziel não mudou de postura. A ausência de arma já havia feito sua primeira declaração, e toda a arena parecia tentar entender a segunda antes que ela fosse dita. O corpo do espadachim estava solto, mas não descuidado; os pés repousavam no chão como raízes prontas para se mover, o tronco mantinha equilíbrio natural, e a respiração vinha tão estável que parecia deslocada do caos ao redor. Quem entendia combate percebia: aquilo não era confiança vazia. Era preparação.
— Um.
A mão do professor desceu.
— Comecem!
Darius avançou no mesmo instante, sem qualquer tentativa de medir distância. A arma veio em um golpe diagonal, pesada o suficiente para arrancar um murmúrio das primeiras fileiras. Raziel deslizou meio passo para o lado, deixando a lâmina passar diante do peito por uma distância mínima. O deslocamento foi tão econômico que alguns alunos demoraram a perceber que ele havia se movido. Darius não parou; transformou o erro em uma varredura horizontal, tentando obrigar o adversário a recuar.
O jovem Akhium inclinou o corpo para trás no tempo exato. A arma cortou o ar onde sua mandíbula estaria um segundo antes, e o vento do golpe moveu alguns fios de cabelo perto da testa. Darius girou o pé, retomou base e atacou pela terceira vez, agora buscando as pernas. Raziel saltou curto, sem exagero, pousando quase no mesmo lugar. A plateia reagiu com ruído contido. Não havia contra-ataque. Não havia aura. Não havia espada. Apenas esquiva.
— Para de correr! — rosnou Darius, aumentando a força.
A resposta veio tranquila, quase preguiçosa.
— Eu ainda estou no mesmo lugar.
Alguns risos escaparam das arquibancadas. Poucos, tímidos no começo, mas suficientes para fazer o rosto de Darius perder parte da expressão teatral. O valentão da academia não suportava ser ridicularizado. Durante anos, havia usado a plateia como arma, transformando cada erro dos outros em combustível para sua própria imagem. Agora, pela primeira vez, aquela mesma plateia começava a rir dele.
A sequência seguinte veio mais rápida. Darius avançou com três golpes encadeados, tentando prender o adversário contra a lateral do campo. Raziel recuou apenas o necessário, girando o corpo entre as linhas de ataque como quem atravessa uma porta estreita sem encostar nos batentes. No quarto golpe, a arma passou rente ao ombro. No quinto, o espadachim abaixou a cabeça. No sexto, Darius tentou surpreender com uma cotovelada após encurtar distância.
Foi nesse instante que o primeiro tapa aconteceu.
O som seco atravessou a arena com clareza absurda.
Darius parou.
A cabeça virou levemente para o lado, não pela força do impacto, mas pela surpresa. Por um segundo, a expressão arrogante desapareceu por completo, substituída por algo quase infantil: incredulidade. A arma continuava em sua mão, o corpo ainda inclinado para o ataque, mas a mente parecia ter ficado presa no barulho daquele tapa. Nas arquibancadas, o silêncio voltou como se alguém tivesse desligado o mundo.
Raziel baixou a mão devagar.
— Cotovelo aberto demais — disse, em tom calmo. — Corrigindo postura.
Blaze perdeu a compostura primeiro.
— Não acredito que ele falou isso.
Kael, ao lado, respondeu sem alterar a expressão:
— Eu acredito.
Sakura tentou manter a seriedade, mas o canto da boca entregou o esforço. Azuki levou a mão à boca, não por choque, mas para esconder uma reação que misturava satisfação e nervosismo. Alya continuava observando com atenção absoluta, embora a frieza habitual tivesse ganhado um brilho quase divertido. O professor, por outro lado, parecia dividido entre interromper por provocação desnecessária ou permitir que o duelo seguisse dentro das regras.
Darius respirou fundo, e a mão fechou com força ao redor da empunhadura.
— Você vai se arrepender disso.
— Você sempre fala como se tivesse escolha no resultado.
A frase atingiu mais fundo do que o golpe. Darius avançou novamente, agora sem qualquer intenção de parecer elegante. A arma desceu em linha reta, carregada com mana suficiente para fazer as runas do chão vibrarem sob o impacto quando Raziel desviou. O segundo ataque veio com uma rotação do tronco, buscando acertar de lado. O terceiro tentou quebrar o ritmo pela troca de altura. Nenhum encontrou alvo.
Outro tapa veio no fim da sequência.
Dessa vez no outro lado do rosto.
O som foi ainda mais claro.
A arena inteira reagiu. Alguns alunos se levantaram sem perceber, outros levaram as mãos à cabeça, e um grupo no fundo começou a rir alto antes de ser silenciado pelo olhar de um professor. Darius recuou dois passos, não por dor, mas por humilhação. O rosto começava a ficar vermelho, tanto pelo impacto quanto pela fúria. O problema não era apanhar. O problema era apanhar daquele jeito.
— Você passou anos usando força contra quem não podia reagir — disse Raziel, andando devagar em sua direção. — Achava que isso fazia de você alguém grande.
Darius ergueu a arma.
— Cala a boca!
— Não fazia.
O ataque veio antes que a frase terminasse. Darius avançou com a arma erguida acima do ombro, despejando mana nos braços para aumentar velocidade e impacto. O golpe desceu com força suficiente para arrancar vento do campo. Raziel entrou para dentro da linha de ataque em vez de sair, passando tão perto que a madeira reforçada raspou o ar atrás de suas costas. A mão aberta encontrou o rosto do oponente no mesmo movimento.
O terceiro tapa estalou como um julgamento.
Dessa vez, Darius cambaleou.
A boca se abriu, tentando formar uma palavra, mas nada saiu. Na arquibancada, os risos já não eram pequenos. A humilhação havia ultrapassado o ponto de dúvida. Não era uma luta equilibrada com provocações; era uma desmontagem pública, feita com precisão cruel. Quem sofreu nas mãos de Darius por anos entendia o que estava acontecendo. Quem já viu o próprio medo ser usado como entretenimento reconhecia o sabor daquele momento.
A postura do valentão começou a ruir.
Primeiro foram os ombros, tensos demais. Depois o olhar, que perdeu a segurança arrogante e ganhou uma oscilação nervosa. Por fim, a respiração, cada vez mais alta, mais irregular, mais exposta. Darius tentou recuperar controle com palavras, mas o veneno que costumava funcionar agora parecia sem força.
— Você acha que isso muda alguma coisa? — gritou, cuspindo a frase como se pudesse ferir com som. — Você continua sendo o mesmo lixo que rastejava pela academia!
O campo ficou mais frio por um instante. Não por magia de Alya. Por memória.
Raziel viu, por menos de um segundo, o corredor antigo da vida passada. Viu livros espalhados, bandejas chutadas, risos escondidos atrás de mãos covardes. Viu professores fingindo não perceber, alunos fingindo neutralidade, e Darius sempre no centro do pequeno teatro, obedecendo ordens de Richard sem nunca admitir que era apenas uma coleira com dentes.
Quando a lembrança desapareceu, não restou raiva. Apenas decisão.
— Você repete isso porque precisa acreditar — disse Raziel. — Eu não.
Darius explodiu.
A mana ao redor do corpo se expandiu de forma brusca, arrancando um vento forte dentro do domo. As runas da arena brilharam com intensidade maior, e a pressão alcançou até as primeiras fileiras da arquibancada. Alguns alunos levaram os braços ao rosto, outros recuaram instintivamente nos assentos. O cabelo de Azuki se moveu com a rajada, e Blaze parou de rir no mesmo instante. Até os professores se endireitaram, atentos à possibilidade de intervenção.
— Agora você vai cair! — Darius gritou.
A aura parcial envolveu seu corpo de forma instável, agressiva, espalhando energia em todas as direções. Não era refinada como a de Raziel, nem controlada como a de Alya. Parecia uma fogueira recebendo óleo demais: brilhante, intensa e perigosa para quem estivesse perto. Darius avançou com a arma coberta por mana, e o chão vibrou sob seus pés. A plateia sentiu o peso daquele movimento.
Raziel não usou aura, nem mana visível ou reforço. Apenas deu um passo. O golpe passou vazio.
Darius atacou de novo, mais rápido. A arma veio em arco, depois em estocada, depois em sequência curta tentando encurralar. A aura tornava cada movimento mais pesado e mais violento, mas também mais previsível. O corpo do valentão gritava intenção antes de executar. Ombro direito subindo antes do golpe diagonal. Pé esquerdo abrindo demais antes da investida. Mandíbula travando antes da explosão frontal. Para quem lia combate de verdade, era quase uma confissão.
Na arquibancada, Sakura percebeu antes dos outros.
— Ele não está resistindo à pressão.
Blaze franziu o cenho.
— Como assim? Todo mundo sentiu.
Alya respondeu, sem desviar o olhar:
— Sentir não é o mesmo que ser afetado.
Kael completou, seco:
— Darius está gritando. Raziel está ouvindo baixo.
A frase caiu sobre o grupo como uma constatação incômoda. Azuki olhou para o centro da arena, e naquele momento entendeu por que a ausência de aura era mais assustadora do que qualquer explosão azul-dourada. Raziel não estava se segurando por falta de poder. Estava recusando a necessidade de usar algo maior contra alguém que, para ele, já não ocupava esse espaço.
Darius atacou mais uma vez. Raziel desviou por dentro, segurou o pulso armado e girou o corpo do adversário usando a própria força dele contra si. O movimento foi limpo, técnico, quase simples demais. Darius perdeu o eixo e caiu de joelhos. Antes que pudesse se levantar, a mão aberta de Raziel acertou o rosto outra vez. Não foi um golpe devastador. Foi pior. Foi controlado.
O som ecoou.
Darius tentou erguer a arma.
Outro tapa interrompeu.
Tentou levantar.
Mais um.
A cada tentativa, a humilhação se tornava mais completa. O rosto do valentão já mostrava marcas vermelhas, e um pequeno corte no canto da boca denunciava que a força dos golpes havia aumentado. Nada brutal o bastante para encerrar por lesão grave; tudo preciso o suficiente para manter consciência, vergonha e plateia. Raziel não estava buscando destruir o corpo. Estava desmontando a imagem.
O professor deu um passo à frente, preocupado, mas parou ao perceber que Darius ainda tentava lutar e que nenhum golpe ultrapassava o limite de segurança do domo. As regras permitiam continuar. Talvez, no fundo, até quem deveria interromper entendesse que aquela luta carregava um peso que nenhuma planilha disciplinar conseguiria medir.
Darius tentou rastejar para trás, respirando alto. A aura instável ainda tremulava ao redor do corpo, mas já parecia menor. Mais fraca. O orgulho consumia mana pior do que qualquer técnica. Quando Raziel se aproximou, o valentão ergueu o olhar, e pela primeira vez não havia desprezo ali. Havia desespero.
— Para… — a palavra saiu baixa, quase engolida.
Raziel segurou a gola do uniforme de treino e puxou Darius para cima o suficiente para que ficasse ajoelhado diante dele. A arena inteira prendeu a respiração. Não havia risos agora. Nem murmúrios. Apenas aquele silêncio pesado de quando todos percebem que estão diante de algo que será lembrado por anos.
O jovem Akhium aproximou o rosto.
Não gritou.
Não precisava.
— Avisa meu irmão.
Darius congelou.
O nome não foi dito, mas a sombra dele atravessou o campo. Richard. A verdadeira origem daquela perseguição. O dono da coleira. O motivo pelo qual Darius sempre se sentira autorizado a transformar a vida acadêmica de Raziel em um inferno.
— Avisa que o cão dele não é capaz de me afetar.
O rosto de Darius perdeu cor. A aura se desfez quase por completo, como se a frase tivesse cortado a fonte de mana. Aquele desespero não vinha apenas da dor ou da vergonha. Vinha da percepção de que algo muito pior havia acontecido: Raziel saíra da sombra de Richard. E se o cão não conseguia mais morder, o dono precisaria aparecer.
Raziel apertou a gola com firmeza suficiente para manter o recado preso ali.
— E fala também que no final do ano eu vou mostrar para todo mundo, na frente da família inteira, quem é o irmão dele de verdade.
Darius tentou responder, mas a voz falhou.
Apenas os olhos se moveram.
Medo.
Puro.
Não do tapa seguinte, nem da arena, nem das risadas que certamente viriam depois. Medo do que aconteceria quando Richard descobrisse que sua ferramenta falhou diante de toda a academia. Medo de voltar ao dono sem ter conseguido cumprir a função mais básica de um cão de guarda: manter o alvo no chão.
Raziel soltou a gola.
Darius caiu sentado, sem força para sustentar postura, arma esquecida ao lado, aura apagada, rosto marcado pela vergonha. O professor finalmente ergueu a mão, e a voz saiu firme o bastante para atravessar o campo.
— Vitória por incapacidade de continuar. Duelo encerrado!
Por um segundo, ninguém reagiu. A arena precisava entender o que havia acabado de assistir. Então o som veio como tempestade. Gritos, murmúrios, celulares levantados, nomes sendo repetidos. Alguns gritavam por Raziel. Outros apenas olhavam para Darius caído, talvez lembrando momentos em que estiveram em seu lugar, de cabeça baixa, enquanto o valentão ria.
No setor do AXION, Blaze soltou o ar devagar.
— Eu retiro o que disse sobre loucura.
Kael olhou de lado.
— Agora é outra palavra?
— Justiça poética.
Sakura guardou a tensão dos ombros, mas o olhar permaneceu no centro da arena.
— Ele não precisou vencer Darius. Precisou apagar o palco dele.
Alya assentiu de forma quase imperceptível.
— E conseguiu.
Azuki não disse nada. Os olhos acompanhavam Raziel com uma mistura de alívio, orgulho e algo mais difícil de nomear. Ela sabia que aquilo não tinha sido apenas uma luta. Algumas vitórias não servem para subir ranking. Servem para devolver o ar a quem passou tempo demais respirando pouco.
Raziel caminhou alguns passos para longe de Darius e só então a janela do sistema surgiu diante de sua visão. Diferente das anteriores, a interface apareceu com um brilho mais intenso, como se reconhecesse o peso simbólico daquele momento. A recompensa não vinha apenas pela vitória. Vinha pela quebra de uma corrente antiga.
[Sistema — Missão Concluída]
Título: Corrente Quebrada
Objetivo Cumprido:
Derrotar Darius Vhal em duelo oficial.
Condições Extras Atendidas:
Vitória sem utilização de arma.
Vitória sem liberação de aura.
Humilhação pública diante da academia.
Superação do bloqueio psicológico relacionado à vida anterior.
Recado enviado ao verdadeiro alvo.
Bônus Especial:
Humilhar Darius diante de toda a academia.
Recompensa Aplicada:
Força +5
Agilidade +5
Defesa +5
Poder Mágico +5
Mental +5
[Status Atualizado]
Força: 47,6
Agilidade: 46,8
Defesa: 44,2
Poder Mágico: 43,5
Mental: 48,1
Classificação Atual: Rank A — Pico Superior
Aura: Intermediária — 51%
Progresso para Rank S: 46%
Observação:
A libertação de uma limitação emocional elevou a eficiência geral do usuário.
Caminho para evolução superior parcialmente desbloqueado.
Raziel fechou a janela lentamente. O ganho era absurdo, mesmo para os padrões do sistema, mas fazia sentido. Não era apenas atributo. Era espaço interno recuperado. Darius nunca fora importante como pessoa. Nunca esteve no centro de sua vida. Ainda assim, os traumas deixados por ele, alimentados pela mão invisível de Richard, haviam ocupado corredores demais dentro da memória. Agora, esses corredores estavam vazios.
O jovem Akhium olhou uma última vez para o adversário caído. Não havia prazer exagerado, nem compaixão, nem necessidade de dizer mais alguma coisa. O recado já havia sido entregue. A arena inteira serviria como mensageira.
Então caminhou até a saída.
Sem espada.
Sem aura.
Sem pressa.
E, pela primeira vez desde que retornou àquele ano, Raziel sentiu algo simples e raro: uma parte do passado havia ficado para trás.
Atrás dele, Darius permaneceu no chão, cercado pelo barulho da própria queda.
À frente, o verdadeiro inimigo finalmente teria que olhar em sua direção.
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