Awakening: O Regressor Escolhido pelo Sistema

14 CAPÍTULO 13 — AS PEÇAS SE MOVEM


A academia não acordou igual no dia seguinte ao duelo. Não houve anúncio oficial, nem discurso na entrada do prédio central, nem post fixado pela direção explicando o ocorrido. Ainda assim, o campus parecia ter mudado de temperatura, como se a rotina comum tivesse sido empurrada para o lado por algo que não cabia mais dentro do “normal”.

A diferença estava nos detalhes: conversas que baixavam de volume quando alguém passava perto, passos que desaceleravam para observar por mais tempo, celulares erguidos com uma discrição calculada. O tipo de atenção que não pede permissão, apenas acontece, porque o mundo aprende a farejar mudança antes de entender o motivo.

Na tela do aplicativo interno da academia, o fórum parecia uma cidade em festa e caos ao mesmo tempo. Havia postagens novas a cada minuto, vídeos do duelo sob ângulos diferentes, discussões de análise técnica como se cada aluno tivesse se tornado especialista da noite para o dia.

Alguns comentavam como se tivessem previsto tudo, outros fingiam indiferença enquanto assistiam pela quarta vez. Entre tópicos sobre treino, builds de classe e inscrições de guilda, um assunto dominava o topo: o nome que antes passava despercebido agora era repetido como se sempre tivesse sido importante. E a ironia disso era tão óbvia que doía.

Uma thread em específico parecia sugar todo o tráfego. “Aura Azul-Dourada antes da escolha de classe???”. Abaixo, comentários se empilhavam em velocidade descontrolada. “Isso é real?”, “eu senti a pressão da arquibancada, juro”, “o professor reforçou o domo depois”, “AXION VI estava lá, eles ficaram sérios”, “ele apagou o cara sem encostar”.

Outra thread mais agressiva tentava preencher o vazio com teoria: “Ele sempre escondeu poder e enganou todo mundo”. E a terceira, mais venenosa, vinha disfarçada de humor: “Darius vai fingir que não viu?”. Não existia conclusão concreta, apenas a certeza de que algo tinha saído do lugar, e quando algo sai do lugar, todo mundo quer ser o primeiro a explicar por quê.

Raziel leu tudo sem expressar nada, sentado na última fileira da Sala 3-C. O celular repousava em sua mão, e a luz azulada da tela refletia discretamente no olhar calmo. Ele não sentia satisfação e também não sentia medo; o que existia era um tipo de confirmação amarga. O mundo não reage à justiça.

O mundo reage à força, e mais do que isso, reage à força quando ela aparece de repente, como se tivesse sido escondida de propósito. Na vida passada, ele teria se contorcido por dentro ao ser observado. Agora, a atenção era apenas um efeito colateral inevitável de finalmente ter deixado de aceitar o chão como destino.

A porta da sala se abriu e o fluxo de alunos terminou de se acomodar. Henrique entrou alguns segundos depois, visivelmente diferente de como costumava se exibir. O braço enfaixado era mais simbólico do que necessário, uma tentativa de transformar vergonha em “lesão de combate”. Mesmo assim, o que chamava atenção era a postura: cabeça mais baixa, passos mais curtos, silêncio.

Quando seus olhos quase encontraram os de Raziel, foi o lanceiro quem desviou primeiro, como se o simples contato visual pudesse reativar o peso daquela aura. Não havia mais risadas de canto de boca, nem comentários atravessados, nem aquele prazer pequeno de humilhar alguém sem resposta. Havia um vazio onde antes existia arrogância, e o vazio era mais revelador do que qualquer insulto.

Nos corredores, o padrão se repetia de forma quase incômoda. Grupos que antes se inclinavam para cochichar quando Raziel passava agora abriam espaço de maneira automática, como se o corpo fizesse isso antes da mente. Alunos que jamais o cumprimentaram faziam um aceno tímido, mais por cautela do que respeito real.

Alguns evitavam completamente o lado do corredor onde ele caminhava, como se a aura pudesse reaparecer por acidente e esmagar o orgulho deles também. A mudança mais importante, no entanto, não estava nele, estava em Azuki. Pela primeira vez desde o início do ano, ela andava sem sentir aquele círculo invisível de isolamento se fechar ao redor, como se o mundo tivesse decidido que mexer com ela era perigoso demais.

— Eles não olham mais do mesmo jeito — ela comentou, enquanto caminhavam depois da aula prática. A voz não tinha euforia, tinha estranhamento, como alguém que não confia em mudanças rápidas demais.

Raziel respondeu sem pressa, observando a movimentação do campus como quem lê um mapa.

— Olham do jeito certo agora.

Azuki franziu o cenho, e o silêncio dela carregou a pergunta que não veio de imediato. Ele sabia qual era. Queria aquilo? Queria ser temido? Queria que as pessoas se curvassem do mesmo jeito que curvavam diante dos outros?

— É bom essa sensação — ele completou, sem que ela precisasse insistir. — Eu queria que parassem.

A resposta pareceu aliviar algo no peito dela. Não porque resolvesse tudo, mas porque colocava uma linha clara entre poder e abuso. Azuki assentiu com um movimento curto. Entendia melhor do que qualquer um o que significava ser alvo de desprezo gratuito. E entendia também que, quando o mundo muda o tom, não muda por bondade; muda por cálculo.

Naquele mesmo dia, o sistema de ranking estimado do aplicativo interno recebeu uma atualização. Não era a medição definitiva da Orbe Espiritual, mas reunia dados de treino, impacto nos obeliscos, avaliações dos professores e leituras parciais de mana durante atividades.

O nome de Raziel subira de forma ridícula, atravessando posições como se tivesse sido arremessado. Isso gerou outro tipo de reação: os “neutros” começaram a tomar partido. Uns tentavam se aproximar por oportunismo, outros criticavam por inveja, e alguns... os perigosos, apenas observavam em silêncio, como predadores que preferem esperar a presa se acostumar com o novo espaço antes de atacar.

No período livre da tarde, Raziel foi para uma área mais afastada do campus, onde o barulho do prédio central chegava abafado. Sentou-se em um banco de pedra próximo ao campo de treino vazio, e por um momento apenas respirou.

A aura não se manifestou; ela ficava quieta agora, como um animal treinado que ainda assim não perde o instinto. Ele pegou o celular, mas não abriu o fórum. Abriu o sistema. A interface surgiu com nitidez familiar, como se o mundo real tivesse uma camada oculta reservada apenas para ele.

[Sistema — Status Atual]

Força: 32

Agilidade: 31

Defesa: 30

Poder Mágico: 29

Mental: 33

Classificação Atual: Rank B — Pico Superior

Requisitos para Rank A:

• Dois atributos acima de 35

• Média geral superior a 33

Progresso: 84%

Os números eram altos o suficiente para causar medo em estudantes comuns e respeito silencioso nos que realmente entendiam progressão. O mais importante era a proximidade. Não faltava uma vida inteira de esforço. Faltava um empurrão calculado, e ele sabia como conseguir.

Fechou a janela sem pressa, e o pensamento veio claro, sem emoção desnecessária: alcançar Rank A antes da próxima grande medição não era apenas meta; era ferramenta. Se ele esmagasse Darius antes disso, seria visto como “um golpe ousado”. Se o esmagasse depois, seria visto como “inevitável”. E inevitável é mais cruel do que ousado, porque não deixa espaço para desculpas.

A ideia não era vencer Darius como quem bate em alguém mais fraco. A ideia era derrotá-lo de um jeito que atravessasse o campus inteiro e chegasse onde precisava chegar. Richard não estaria ali, mas sempre haveria alguém para contar. Sempre haveria relatórios de guilda, comentários de professores, recortes de vídeo.

E o que ele queria era simples e terrível: enviar um recado para o irmão sem dizer o nome dele. Um recado que dissesse “eu acordei”, “eu lembro”, “eu não sou mais seu cachorro”. Para isso, ele não podia agir como um jovem impulsivo; precisava agir como alguém que já entendeu que o tabuleiro é maior do que a arena.

O celular vibrou. Ele pensou que seria Azuki confirmando treino ou algum comentário do fórum. Quando viu o nome na tela, a respiração desacelerou por um instante, não por medo, mas por surpresa genuína.

Pai.

Ele ficou alguns segundos apenas olhando para aquilo, como se o nome fosse uma peça estranha que não encaixava no presente. Na vida passada, não veio mensagem nenhuma. Nenhum parabéns. Nenhum “vi o que aconteceu”.

O silêncio sempre foi total. Não porque o pai fosse cruel no sentido comum, mas porque era o tipo de homem que tratava mérito como lei natural: quem é forte se destaca; quem não é, some. Ele observava todos os filhos, sim, mas raramente interferia. Não protegia. Não empurrava. Apenas assistia. Era a filosofia dele. Um mundo brutal não dá espaço para fraqueza, então a família também não deveria dar.

Raziel abriu a mensagem.

“Assisti ao vídeo. Boa execução. Continue.”

Curta. Fria. Pragmática. E, por isso mesmo, pesada.

Ele leu mais de uma vez, tentando sentir algo que não veio. Não havia alegria, não havia calor, não havia o tipo de validação que crianças buscam. O que existia era entendimento. Aquela mensagem não era carinho; era reconhecimento. O pai não estava dizendo “tenho orgulho do meu filho”, e sim “eu vi você”. E ser visto, naquela família, era o primeiro passo para ser considerado peça real no jogo. Raziel digitou com calma.

“Entendido.”

Enviou. Nada mais. Guardou o celular no bolso interno do uniforme e ficou alguns segundos olhando para as árvores do campus balançando no vento. O jogo estava mudando. Mas não porque alguém ficou mais gentil. Estava mudando porque ele deixou de ser irrelevante. E isso podia ser perigoso. Relevância atrai aliados… e atrai inimigos de verdade.

No alto de uma das passarelas do prédio central, Alya observava o campo onde ele estivera minutos antes. Blaze apoiava os braços no corrimão, e Sakura mantinha o olhar distante, como quem mede a lâmina de alguém sem nunca encostar nela.

— Ele está batendo no Rank A — Blaze comentou, mais curioso do que assustado.

— Não é só isso — Alya respondeu, com a frieza habitual. — A aura dele não é instável. Não parece “despertar acidental”.

Sakura finalmente falou, a voz baixa, mas firme.

— Ele luta como alguém que já perdeu antes… e decidiu que não perde de novo.

O silêncio que se seguiu não era casual. Era reconhecimento de que algo ali não era normal. Não era apenas um aluno treinando forte. Era alguém com “cheiro” de batalha real, e isso era o tipo de coisa que a academia tentava ensinar… mas raramente conseguia fabricar.

De volta ao alojamento, Raziel sentou-se na beira da cama e deixou o peso do dia cair sobre os ombros. Não era cansaço físico, era o peso invisível de ter virado assunto. Em sua primeira vida, ser notado significava risco. Agora, ainda significava, mas ele não podia mais se esconder.

A aura azul-dourada não se manifestou, mas ele sentia o núcleo de mana mais compacto do que nunca, como se tivesse ganhado forma. E, pela primeira vez, o pensamento sobre Darius não veio como raiva cega; veio como agenda. Como prioridade. Como passo inevitável.

Se alcançasse Rank A, pisaria em Darius sem esforço aparente. E isso não seria só sobre um inimigo escolar. Seria sobre abrir uma fenda no círculo de controle do irmão. Seria sobre fazer a guilda Nightfall ouvir. Seria sobre fazer Richard perceber que o “peão” aprendeu a mover sozinho.

Raziel apagou a luz e encarou o teto escuro por alguns segundos, ouvindo os sons distantes do dormitório: passos no corredor, água correndo em algum banheiro, notificações de celular de alguém que não conseguia dormir porque o fórum ainda estava pegando fogo.

Ele fechou os olhos com um pensamento simples e perigoso: agora que o pai falou, os outros vão falar também. E quando a família começa a falar, significa que o tabuleiro está sendo reorganizado. Pela primeira vez, ele não estava sendo empurrado para fora do jogo.

Estava avançando, tomando espaço com as próprias mãos. E, em algum lugar, alguém já devia estar planejando como pará-lo antes que ele ficasse grande demais para ser contido.