Raziel não se levantou de imediato.

Sentado na cama simples do alojamento da academia, deixou o silêncio se acomodar ao redor, como se estivesse testando se o mundo realmente não iria desmoronar outra vez. O quarto era o mesmo do momento anterior. A luz fraca da manhã atravessava a janela estreita. O uniforme dobrado ainda repousava na cadeira.

Nada havia alterado. O que significava que tudo havia mudado.

Passou a mão pelo rosto, sentindo a pele jovem, o corpo leve demais, quase frágil. Não havia dor, nem cansaço acumulado. Nenhuma cicatriz recente. Ainda assim, a memória do machado descendo não tinha desaparecido.

Então... é aqui. Último ano da academia.

O mesmo ponto em que na primeira vida, tinha apenas seguido o fluxo, treinado o suficiente para não reprovar, obedecido para não chamar atenção e aceitado tudo para não ser descartado cedo demais.

Dessa vez, não. Respirou fundo e deixou um pensamento surgir, claro e frio:

Daqui a um ano... eu vou encontrar o Richard de novo.

A ideia não trouxe ódio imediato. Trouxe curiosidade.

Curiosidade sobre o olhar do irmão quando percebesse que ele não abaixaria mais a cabeça. Que não aceitaria ordens disfarçadas de conselhos e se recusaria ser empurrado para a frente como escudo.

Eu não vou ser a mesma pessoa.

Mas para isso, não bastava intenção. Precisava de força. Força rea, ergueu a mão.

A janela de Status surgiu diante dele, translúcida, familiar — e, ainda assim, perturbadora.

Nome: Raziel Akhium

Idade: 17

Condição: Despertado

Classe: Sword Saint (pré-definida — não ativada)

Atributos:

Força: 2

Agilidade: 1

Defesa: 1

Poder Mágico: 1

Mental: 1

Ficou em silêncio por alguns segundos. Deus ele era... patético.

Agora, vendo os números com a clareza que nunca tentou entender antes, sentiu algo mas nunca soube explicar: na primeira vida, realmente começara fraco, não apenas socialmente.

Fisicamente. Mentalmente. Magicamente.

Não é que eu não evoluía... Eu começava muito atrás.

A classe Sword Saint ainda estava ali, esmaecida, quase transparente, acompanhada da mensagem que já tinha visto.

Classe não ativada — requisitos pendentes

Treinamento diário contínuo necessário

Corrida | Calistenia/Academia | Meditação

Raziel fechou a janela de status e olhou para o relógio.

06:07.

As aulas começavam às nove.

Do lado de fora, já escutava o campus acordando: passos apressados, vozes jovens, portas se abrindo. Alunos que treinavam cedo. Outros que apenas seguiam rotina.

Ele não hesitou. Vestiu roupas simples de treino, amarrou os tênis e saiu.

O ar da manhã estava frio, limpo. Assim que colocou os pés no chão do campus, começou a correr.

No início, o corpo reclamou quase imediatamente. O fôlego curto demais e as pernas pareciam leves demais, não no bom sentido. Apenas um corpo que ainda não tinha sido forjado.

Mas manteve o ritmo. Enquanto corria, o mundo se movia ao redor.

Os alojamentos se alinhavam atrás dele, prédios simples, funcionais, separados por desempenho. Os melhores ficavam mais próximos do centro da academia. Os "medianos", como ele, mais afastados.

À esquerda, o Setor de Treinamento Físico já estava ativo. Alunos faziam circuitos de força, alguns supervisionados por instrutores, outros por conta própria. O som de impactos secos, respirações pesadas e gritos de incentivo preenchia o ar.

Mais adiante, o Campo de Combate ganhava vida. Espadachins treinavam formas básicas. Lâminas de madeira se chocavam em duelos controlados. Um grupo de magos praticava conjurações simples, lançando projéteis de mana contra alvos fixos.

Um mundo inteiro se preparando para ser escolhido. Passou por todos sem diminuir o ritmo.

No começo, sua respiração era irregular. O peito ardia, mas pouco a pouco, algo foi se alterando. O corpo começou a se ajustar. A passada encontrou cadência. O ar entrou e saiu em ritmo constante.

No canto de sua visão, a janela de status piscou.

Treinamento ativo — Corrida

Resistência em desenvolvimento

Força +0,05

Agilidade +0,05

Arregalou levemente os olhos, mas não parou.

Então é assim.

Não era um salto absurdo, muito menos poder gratuito. Gostou da ideia de progresso.

Manteve o ritmo por mais alguns minutos, sentindo o suor escorrer pela testa, o coração bater firme. Quando reduziu a corrida para uma caminhada, a respiração estava pesada, mas controlada.

Sem perder tempo, seguiu para uma área aberta do setor físico e começou a calistenia.

Flexões. Agachamentos. Abdominais.

Nada sofisticado, tudo essencial.

O corpo tremia. Os músculos queimavam. Em outra época, teria parado cedo, satisfeito por "ter feito o suficiente". Agora, continuou até o limite.

A janela piscou novamente.

Treinamento ativo — Calistenia

Força +0,05

Defesa +0,05

Quando terminou, sentou-se no chão por alguns segundos, respirando fundo, sentindo o corpo reclamar... e responder.

Por fim, se afastou para o Setor de Meditação, próximo ao bosque artificial da academia. Um lugar silencioso, ignorado pela maioria dos combatentes mais agressivos.

Sentou-se de pernas cruzadas fechando os olhos. E, pela primeira vez, meditou de verdade. Não tentando "sentir algo", deixou sua mente organizando aquele momento.

Pensamentos vinham... Richard, a dungeon, a traição... e iam. Não os segurava, mas era impossível não deixar alimentar suas frustrações e vontade de justiça.

Quando abriu os olhos, o mundo parecia... mais nítido.

Treinamento ativo — Meditação

Mental +0,05

Poder Mágico +0,05

Então, a mensagem final surgiu.

Treinamento diário concluído

Bônus de consistência aplicado

Todos os atributos +1

Raziel abriu o status novamente.

Atributos atualizados:

Força: 3,05

Agilidade: 2,05

Defesa: 2,05

Poder Mágico: 2,05

Mental: 2,05

O peito de Raziel se apertou levemente.

Finalizar... é o que importa.

Não era o ganho fracionado que mudava tudo. Mas sim o bônus completo. Elevaria sua disciplina até que virasse rotina... constância.

Respirou fundo e se levantou.

Rank C exige, no mínimo, atributos acima de 15. Rank B... acima de 25 em pelo menos dois.

Fechou a janela de status.

— Então é isso... — murmurou.

Para sair da academia como alguém relevante, precisaria ultrapassar limites que, na primeira vida, nunca sequer tentou alcançar. Mas agora, possuía algo que não tinha antes.

Tempo, consciência e um sistema que respondia à justiça do esforço.

Olhou para o céu, onde o sol já começava a subir entre os prédios da academia.

O último ano tinha começado.

E não sairia dali como um peão.