Avesso

7 Capítulo 7 - Chá e Cavalos


— A caminhada até Lhasa é um pouco tortuosa, senhorita. Mas necessária. Muito possivelmente podemos conseguir alguma informação ao seu respeito na cidade. Podemos levantar algumas informações sobre grupos que subiram os Himalaias ou ainda encontrar alguém que esteja a sua procura. Veja... Seguiremos pela Rota do Chá e dos Cavalos. É o caminho mais curto e seguro até a cidade.
— Rota do Chá e dos Cavalos? Parece interessante...
— É uma antiga rota de comércio entre a China e o Tibete — sorriu. Vendemos cavalos, compramos chá... O chá, po cha, é um elemento essencial na vida por aqui. Nós o misturamos com sal, cevada torrada moída, e manteiga de leite de iaque. Se tornou um alimento básico na região, por ajudar no aquecimento do corpo e evitar problemas ligados ao frio excessivo e também para balancear uma dieta constituída em carne e leite, basicamente. O problema é que não é possível o cultivo do chá por aqui, devido às baixas temperaturas.
A menina ouvia com atenção.
— Isso tornou o chá chinês uma excelente moeda de troca para cavalos tibetanos. Nossos cavalos são bem valorizados, por causa da musculatura forte pela criação em terrenos montanhosos. Entretanto, durante muito tempo, foi um caminho extremamente perigoso de se fazer. Precipícios, animais ferozes, saqueadores, torrentes de degelo, avalanches e deslizamentos sempre foram ameaças constantes.


Desciam uma trilha cravada em um cânion, o que a deixava um pouco apreensiva. Apesar disso, a paisagem era simplesmente de tirar o fôlego. Do alto da trilha, podia ver que a rota seguia entre montanhas nevadas, traiçoeiros penhascos e desfiladeiros, e florestas selvagens. Um caminho deslumbrante e ameaçador, na região conhecida como “teto do mundo”, dos mais inóspitos lugares da Terra.
— Mu... Quando você disse que durante muito tempo foi um caminho perigoso... Quer dizer que agora não é mais, né?
Mu riu divertido diante de sua falha em tentar tranquilizar a garota.
— Enquanto nós estivermos juntos, nenhum lugar é perigoso demais, certo?
— Certo.

Chegaram ao final da trilha, que dava à beira de um precipício, transposto ao outro lado apenas através de uma ponte extremamente estreita. Abaixo, se via um abismo de uma profundidade jamais vista, onde a menina não sabia se estava mentalmente confusa por conta da tensão pelo caminho, mas teve a impressão de ver ao fundo várias pedras em forma de lanças, prontas a atravessar qualquer um que falhasse o equilíbrio na travessia.

Percebendo a hesitação da moça, Mu alertou:

— Skamar, não olhe para baixo. Olhe apenas para mim. Entendeu?

A garota, visivelmente assustada, movimentou a cabeça positivamente.

— Eu vou proteger você. Você confia em mim? — sorriu Mu, estendendo a mão à garota.

— Eu confio. — respondeu, segurando a mão do lemuriano.

Iniciaram a travessia. Mu seguia na frente.

— Isso... Um passo de cada vez... Um pé na frente do outro... Viu como é simples? — dizia serenamente, em um tom quase carinhoso.

— Sabe Skamar, pontes assim são muito comuns por aqui... Tudo aqui é feito pelos poucos habitantes e deteriorado facilmente pelo tempo e pela natureza. Os cavalos também passavam por aqui, juntamente com os comerciantes, acredita? — Mu tentava distrair a garota — Os cavalos mais experientes atravessavam sozinhos. Mas os cavalos novatos tinham de ser acalmados, com palavras e massagens relaxantes. Cuidava-se para evitar que eles enxergassem o precipício e o caravaneiro que fizera o shiatsu atravessava junto, abraçado ao animal. Qualquer nervosismo ou agitação, poderiam levar os dois a uma queda de quilômetros e nunca mais seriam vistos. Então, tudo tinha que ser feito em um sereno zen, cavalo e caravaneiro.

— Então... Era algo do tipo que você está fazendo com o animal que vos fala.

Mu riu divertido:

— É, realmente é uma técnica parecida, animalzinho.

— Mas então, só não entendi porque eu não ganhei a massagem.

— Tem razão... Prometo fazer em um momento mais agradável, então. — Mu arriscou uma brincadeira que poderia soar paqueradora.

— Você sabe shiatsu??

— Eu sou tibetano, Skamar.

— Ah céus, eu não perderia isso por nada. — disse Skamar, terminando a ponte e colocando os pés em terra firme.

Prosseguiram pela rota por mais algum tempo. Nesta estação do ano era possível observar a natureza exótica, bem menos inóspita do que o habitual, onde rios abas­­­tecidos por água do degelo cor­riam pelas encostas das monta­nhas, flores­tas e pas­tagens, que cres­ciam alimen­­ta­das por essa irrigação ­con­s­tante.

Era possível notar também que postos fiscais por onde passavam caravanas deram origem a vilas e povoados na região. Pontilhados de templos, estátuas e locais de oração por todo o trajeto, impregnava uma aura de religiosidade e fé, demonstrando também o constante estado de tensão dos peregrinos, que acentuava a procura pela ajuda espiritual em busca de proteção e segurança.

— Estamos quase chegando... Você está bem? Quer descansar?

— Estou ótima. Prefiro não parar, pois assim chegamos mais rápid... Mu... Que cheiro é esse?

Mu sentindo o conhecido cheiro de incenso de zimbro, olhou para o lado e constatou:

— Um cemitério celeste.

— Cemitério celeste??

Um grupo de pessoas estavam, ao ar livre, ao redor de uma mesa feita de pedras. Ao entorno, haviam monges entoando mantras e queimando incensos. No céu, formava-se uma aglomeração de corvos, que tinham às atenções voltadas ao centro da mesa. Skamar olhou e viu um cadáver, sendo rapidamente cortado por três ou quatro homens.

— Skamar, nós, tibetanos, não vemos necessidade de preservar os corpos dos mortos... Essa é a nossa forma de tratá-los após a partida da alma. Nós cremos que a alma já foi direcionada a outro lugar e que o corpo é apenas um invólucro vazio. Então, acendemos incenso para chamar os corvos e eles se encarregarão de consumir os restos mortais. Para nós, oferecer carne humana para os abutres é justo pois poupa a vida de outros animais que poderiam ser caçados pelas aves famintas.

— Mas é um ritual... Impressionante! Um pouco macabro, até.

— Skamar, todos os fenômenos da vida são puros e impermanentes. A morte faz parte da vida natural e todos nós passaremos por ela... Então, é mais fácil olhar com naturalidade e nos preparamos para lidar com ela. — sorriu.

— Mas não entendo como outras pessoas podem querer acompanhar um ritual desses...

— Para nós, presenciar um funeral nos ajuda a enfrentar e entender a morte e, acima de tudo, sentir a impermanência da vida.

Skamar meneou a cabeça, como que não achasse aquilo plausível.

— É melhor ir a uma casa que há luto do que ir a uma casa que está em festa, porque ali se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração. Se encontra sabedoria no luto, mas o coração dos tolos permanece nas alegrias passageiras. — sorriu Mu. — Veja, chegamos em Lhasa!