Avesso
10 Capítulo 10 - Chá do amor
— Então... Já que findamos as buscas por informações por hoje e já que estamos aqui... o que acha de conhecer um pouco mais da cidade?
— Acho uma oferta irrecusável, ainda mais com um guia turístico que me dá morangos docinhos. — disse, limpando a boca tingida de vermelho pelos morangos.
— Tenho muitos títulos, senhorita, mas guia turístico é a primeira vez que o recebo. — sorriu.
Seguiram pela movimentada Barkhor, uma rua comercial margeada por barracas que expunham de amuletos e artesanato até blocos enormes de manteiga e postas de carne de iaque. Skamar se perdia entre os quadros de seda à venda, como os da história contada por Mu, se encantava com as roupas típicas e artesanatos folclóricos da região. Olhava maravilhada as barracas de todo tipo de alimento utilizado na culinária tibetana, tudo parecia realmente inédito para ela, por mais que não se lembrasse se já estivera ali antes. Por vezes, perdia-se de Mu por curtos períodos, de tanto que explorava as barracas da região. Foi enquanto olhava uma barraca de chás exóticos que Mu a reencontrou. Mu olhava admirando a moça. Era bom vê-la feliz, era bom ver que não sofria pela perda da memória e por não estar entre os seus. Talvez realmente estivesse sendo um bom anfitrião e se alegrava por isso. Só queria vê-la bem.
— Escolha seus preferidos. — sorriu.
— Ah Mu, não precisa...
— Por favor, Skamar. É bom variar o po cha um pouco.
O comerciante entregou um embrulho com o chá escolhido pela moça. Ao entregar o pagamento, o comerciante olha para Mu sem conseguir esconder o ar de riso, como se tivesse descoberto um segredo extremamente oculto e constrangedor.
— Não se preocupe, é normal acontecer com jovens também. Mas esse cura, viu? O moço vai durar a noite toda.
Mu, sem entender, fez menção de falar. O homem fez sinal de silêncio e disse:
— Não precisa vergonha, pode acontecer com qualquer um. Eu imagino como o senhor está sofrendo, coitado. Mas esse aqui, o moço vai virar um touro feroz, viu? Vai recuperar auto estima. Não vai mais ficar morto como está. Vida nova pro homem. Depois me conte aqui como foi. Desejo uma boa diversão ao casal! — olhou, com um olhar malicioso.
Mu, incrivelmente sem jeito, tentou formular uma frase pra se explicar, mas achou mais prático agradecer e se retirar. Skamar estranhou o rosto do lemuriano vermelho como fogo. Há poucos passos dali, disse à garota:
— Skamar. Deixe-me ver o que você comprou. — Mu parecia estar indignado.
Skamar abriu o saquinho de tecido grosseiro para que Mu pudesse ver.
— Yarsagumba. — disse, levando a mão ao rosto, estupefato.
— O quê?
— Por que comprou isso, Skamar??
— Ah... Porque eu gostei da cor, do formato de cobrinha... Eu não conhecia nenhum, então escolhi o que mais me agradou pela aparência. Algum problema?
— Isso é um chá para impotência masculina, Skamar. É um dos afrodisíacos mais potentes do planeta. — e seguiu caminhando, sem conseguir olhar no rosto da moça.
Skamar parou atônita por alguns segundos.
— Wow! — gargalhava deliciosamente — Me desculpe, Mu!! — tentava falar em meio às risadas — Eu não fazia ideia!!
Mu seguia sério, em silêncio.
— Mas pense, não é perdido, você pode guardar e usar quando for... Né?
— Eu não tenho esse tipo de problema e não preciso dessas coisas, Skamar. — disse, sério e levemente avermelhado.
Continuou a caminhar com o semblante sério, os braços unidos e ocultos sob as mangas da túnica que vestia. Skamar o deixou andar alguns passos a frente. Era uma cena quase cômica ver o calmo Mu levemente irritado. Os passos mais rápidos e firmes, os braços cruzados sob as mangas, o cabelo trançado que ia de um lado a outro por causa dos movimentos secos, como se quisesse ir pra bem longe do local da situação constrangedora, a barra da túnica bordô que levantava a poeira dos paralelepípedos por causa dos passos acelerados, todos os pequenos sinais de sua contrariedade deixavam transparecer, ao mesmo tempo, a suavidade e o bom coração do rapaz.
Fale com o autor