Avesso

8 Capítulo 8 - Morangos


Entraram pelas portas da cidade. Lhasa, a capital do Tibete, em nada se parecia com as capitais das grandes cidades. Pudera, estavam em um dos lugares de mais difícil acesso em todo o mundo.

Lhasa era singela, porém ainda assim era maior e mais desenvolvida do que os pequenos povoados das montanhas. As ruas eram feitas de paralelepípedos, misturados à terra batida e um pouco empoeirada da região. As casas, quase que totalmente feitas de pedras, com seus sombreiros de sapê, que se misturavam a poucas casas feitas de barro. Seria uma visão cinza-amarronzada, se não fosse pelo grande apreço dos tibetanos pelas cores.

Tons de diversas cores inundavam a cidade por meio de bandeirolas coloridas, das plantas e árvores espalhadas pela cidade, das barracas de frutas e flores, sem contar a próprias vestimentas típicas dos nativos, ricas em cores, sempre que possível. Ao fundo de qualquer canto da cidade, era possível ver, como o cenário de um filme épico, as grandes cordilheiras de picos nevados que se levantavam imponentes e soberanas, como uma grande muralha a esconder Shangrilá — a mítica cidade dos deuses, bem como os grandes campos verdejantes que se seguiam até elas. A brisa gelada vinda das montanhas, misturadas a visão da cidade longínqua, davam uma profunda sensação de paz e tranquilidade. Era notória também a diferença no modo de ser das pessoas daquele lugar a se comparar ao restante do mundo. Era evidente a gentileza e suavidade no tratamento, no falar, no agir, como se aquele pedaço do mundo, o teto do planeta, não tivesse sido contaminado pelo egoísmo e competitividade do mundo moderno.

Os templos, abundantes em toda a cidade, eram um espetáculo à parte. Numerosos, se sobressaíam ao aspecto da cidade devido a sua arquitetura oriental cuidadosamente trabalhada. Em sua maioria, possuíam também esculturas ao derredor que retratavam suas sacralidades. Era possível ver pessoas que caminhavam em procissões ou que rezavam curvando-se diante deles.

Andavam por entre as ruas de pedras, apreciando o dia de sol tibetano, que parecia ainda mais bonito que os dias ensolarados convencionais. O sol criava uma temperatura branda e agradável, sem tornar-se escaldante e desenhava primorosamente a paisagem em volta.

Olhou mais a frente e viu um pé de morango, com os frutos vermelhos e maduros, e um cavalo com a cabeça inclinada em direção a parte mais carregada do pé, quase os tocando, mas parecia não conseguir concluir a mordida.
— Pobre cavalinho... Porque não consegue morder as frutas?
— Olhe mais de perto...
Skamar se aproximou do cavalo e percebeu, era um cavalo de pedra escura, uma escultura com detalhes minuciosamente trabalhados, o que dava a impressão de realidade.
— Ah, é uma escultura...
— Mas não é uma escultura comum.
— Não?
— Vê aquela casa? — apontou a uma casa desabitada, próxima a escultura — A lenda conta que ali morava uma feiticeira. Conta a lenda que existia uma mãe idosa com três jovens filhos que viviam em uma aldeia muito pobre, próxima deste lugar. Os três filhos eram sustentados pela mãe, que vendia suas tecelagens no centro de Lhasa, logo ali.
Skamar ainda não conseguia tirar os olhos da escultura.
— Em um certo dia de trabalho, talvez pela vida muito dura, a tecelã se encantou por uma quadro de seda, à venda em um comércio. O quadro mostrava uma aldeia cheia de vida, com flores, animais, rios e natureza. Com muito esforço a comprou e todos os dias admirava o quadro. Por sugestão do filho mais novo, decidiu replicar o quadro, bordando outro ao seu gosto, pois assim teria a sensação de que aquele lugar a pertencia.
— E ela conseguiu?
— Durante anos, ela bordou com os rios com suas lágrimas, fez o sol e as flores vermelhas com o sangue que saia dos seus olhos por causa da fumaça da tenda. Quando finalmente terminou, estendeu o quadro para vê-lo, mas uma rajada de vento o levou embora.
— Ah, pobrezinha!
— Ela o procurava todos os dias e adoeceu. Os dois filhos mais velhos não se importaram em encontrá-lo. Mas o mais novo chegou até a este lugar... E conversou com a feiticeira, que morava naquela casa... Ela disse que o quadro estava em posse das fadas da montanha, que o pegaram para bordar um quadro parecido. Contou que só esse cavalo poderia levá-lo até lá, mas para isso seria necessário que a feiticeira arrancasse os dentes do rapaz e colocasse no cavalo, para que ele comesse os morangos e o levasse até o destino.
— Mas tu é exigente, hein, rapaz? — disse Skamar, batendo no lombo da escultura.
— O jovem não pensou duas vezes e pediu à feiticeira que arrancasse seus dentes. A mulher os colocou nesta escultura, que tomou vida e comeu os morangos. Levou o rapaz por um caminho de gelo e fogo, sem que este perdesse a vida, até chegar a terra das fadas.
— E deu certo?
— A lenda conta que as fadas deram a ele uma réplica pintada por elas. Ao retornar, a feiticeira ficou tão emocionada que devolveu os dentes ao garoto. Ao chegar em casa, chamou a mãe, que retornou a saúde no mesmo momento. Abriu o quadro tecido pelas fadas e, magicamente, tudo o que a mãe havia bordado, se transformou em realidade. Encontrou uma jovem belíssima na nova realidade e descobriu que era a fada que havia tecido o desenho, pois ela havia tecido a si mesma no quadro e, portanto, a partir de agora, aquela era sua realidade. Casou-se com o rapaz e os três viveram muito felizes.
Sensibilizada e pensativa com o antigo conto tibetano, Skamar ficou em silêncio por alguns momentos acariciando o focinho da escultura. Olhava encantada para o cavalo de pedra, se distraindo do lemuriano por alguns momentos.
— Pensa em pedir-lhe que a leve de volta para casa? — brincou Mu, retornando de algum lugar.
Realmente, pensou em dar-lhe os dentes a fim de que pudesse levá-la até sua casa, até o lugar de onde viera e que não tinha a menor lembrança de onde seria. Entretanto, ao olhar para o tibetano, repensou se reencontrar seu lugar era mesmo o que queria. A cada momento que se passava, tinha mais a sensação de pertencer àquele mundo, cada vez mais vontade tinha de pertencer à realidade do estranho e misterioso homem que lhe servira de anfitrião. Não queria imaginar o momento que se despediria de Mu. Talvez nunca mais o visse e, por hora, preferia não pensar nisso.
— Não... Eu gostaria mais de ser a fada que se teceu na realidade perfeita, Mu.
Notou algo em suas mãos. Lhe ofereceu uma pequena cesta de morangos grandes e apetitosos, recém comprados em um armazém próximo ao cavalo de pedra.
— Aqui no Tibete, oferecemos frutas saborosas às moças, no lugar de flores. — sorriu.
Estaria Mu a cortejando ou apenas sendo gentil?
— Aaah, obrigada!! — sorriu-lhe um tanto tocada com o singelo gesto.
Skamar aceitou o presente, provando um dos morangos.
— Aprecia este nosso costume, senhorita?
— Esse costume é muito mais proveitoso do que oferecer flores. — disse, com a boca cheia. — Huum, maravilhosos! Veja, experimente!
— É injusto eu fazer proveito do seu presente, Skamar. — riu.
— Injusto é me recusar sua companhia em algo tão prazeroso. Por favor, prove!

Seguiram pela cidade, enquanto saboreavam os morangos que jamais serviriam de moeda de troca para levá-la de volta para casa.