Avesso
5 Capítulo 5 - Pastoreio
Os dias se passavam, em perfeita paz. Mu e Kiki se afeiçoaram muito à moça, como se ela estivesse ali há muito tempo. Skamar se recuperava rapidamente, em um ritmo espantosamente acelerado. Ao recuperar sua boa condição física, decidiram ir até Lhasa para buscar informações sobre sua origem, já que nada encontraram pela região.
Seguiram por uma bela trilha cheia de coloridas flores. Mu se divertia com Skamar. Engraçada e com um ótimo humor, deixava o dia de verão ainda mais agradável. Corria e brincava muito com Kiki e algumas vezes teve que chamar a atenção de ambos. Ora paravam para ver uma borboleta, ora adentravam na mata seguindo um caminho de formigas, ora se escondiam propositadamente do próprio Mu.
Ao final da trilha, um Tibete mítico. As plantações de cevada sumiam no horizonte cerceadas por grandes pastagens de iaques e carneiros. Era uma manhã de sol, o céu sem uma nuvem sequer. Os ramos de cevada se curvavam com a brisa gelada da manhã, formando uma dança bonita de se ver. Os homens pastoreavam os animais, vestindo pesados casacos longos e marrons. Mulheres ordenhavam iaques para a preparação do leite, manteiga e queijo vendido na cidade. Andavam pelo pasto, os pastores acenavam amigáveis. Kiki mal ouviu as sérias recomendações de Mu tamanha a ansiedade e disparou na frente entre os animais, ansioso por encontrar as crianças, filhos dos pastores locais. Estava em uma alegria contagiante, afinal, apenas o início de seus dias de folga.
Logo se aproximou um jovem pastor, aparentando por volta de trinta anos de idade, cabelos longos negros, possuía traços quase indígenas. Vestia uma túnica de lã grossa e trazia na mão um cajado marrom.
— Mu!
— Koga.
Trocavam reverências.
— Que bom que chegou. Vejo que está melhor. — disse amigável, olhando para a menina
— Sim, está. Skamar se recuperou muito rápido, por incrível que pareça.
— Skamar? Esse é o nome dela?
— Por hora sim, amigo. Veja, Kiki já encontrou o que tanto esperava. — disse, olhando Kiki brincando feliz entre os filhos de Koga.
Koga riu.
Kiki feliz, finalmente ficou a brincar com as crianças da aldeia. Mal percebia a presença dos adultos, tamanho desejo em se juntar às outras crianças.
— Kiki é um bom garoto. É um prazer para mim e para meus filhos tê-lo conosco. Retorna em dois dias, então?
— Sim, Koga. Irei até Lhasa agora, mas volto logo. Se precisar de algo, sabe onde me encontrar.
— Cuidado no caminho, Mu. Os aldeões disseram que o exército chinês estiveram em Gyalam ontem.
— Tomarei cuidado sim, companheiro. Até mais.
Skamar se sentia apreensiva por estar em um lugar desconhecido, conhecendo pessoas de cultura tão peculiar. Aproveitou a irregularidade da trilha que saia do campo de pastoreio até a pequena aldeia e agarrou o braço do lemuriano. Se sentia mais segura assim.
Mu pensou em desvencilhar o braço da menina. Mas precisava admitir que estava gostando da situação. Era bom tê-la assim, tão perto. Até porque não sabia até quando estariam juntos. Não deve demorar até que ela recupere a memória. Estremeceu em pensar que não ia vê-la mais, talvez nunca mais. Sentiu vontade de abraçá-la, de pedir que nunca partisse. Sentiu vontade de aninhá-la em seu colo e beijar aquela boca tão linda.
"Mu, por Atena, que pensamentos são esses? Céus, o cavaleiro mais centrado de toda a elite de Atena, se deixando se levar assim, tão facilmente por sentimentos frívolos? — suspirou desanimado — Calma Mu, não vá se apaixonar."
Foi então que viu um casal de idosos vindo em sua direção. Ambos tinham os mesmos pontos na testa no lugar das sobrancelhas, como Mu. O homem, por volta de seus setenta anos, trocou um longo e respeitoso cumprimento com Mu, curvando-se. A senhora o abraçou sorrindo, como quem se abraça a um filho. Em seguida, abraçou a menina da mesma maneira. Mu se afastou alguns metros, conversando com o senhor. Skamar logo percebeu que a senhora não falava quaisquer idioma que conhecesse.
— Eu... Skamar! — sinalizou
— Ngah... Kanda!
Abriu um sorrisão! "Ai, que alegria! Ela é Kanda!", rindo. Tentavam se comunicar o tempo todo por sinais, era divertido! Skamar tentava agradecer-lhe por tudo demonstrando carinho sempre que podia. No final, Kanda ofereceu-se para trançar-lhe os cabelos.
Mu conversava com Sonen.
— Como ela está?
— Bem, muito bem. Estranhamente se recuperou bem mais rápido que o normal.
— Descobriu alguma coisa sobre ela?
— Muito pouco. Perdeu a memória, sequer se lembra de seu nome... Acho que elas se deram bem — disse, olhando para as duas.
Sonen riu, contente.
— É verdade, fico feliz que... — ao se virar para Mu, este ainda olhava para as duas, apreciando encantado.
Sonen sorriu.
— É bom vê-lo contente, filho.
Mu despertou do "transe".
— Skamar traz ventos novos, Sonen. É bom tê-la por perto. — disse, desconversando. Mas Sonen insistiu.
— Passar a vida na solidão é muito triste, meu filho. Talvez devesse pensar em ter uma companhia.
— Já, tenho, meu amigo. Tenho Kiki, mestre Shion e bons amigos como o senhor e Kanda... Sou grato por tê-los. A vida que o destino me reservou não me permite ir além. — suspirou.
— Talvez devesse repensar. Passe em minha casa para conversarmos depois, meu amigo. Sua felicidade sempre será a minha felicidade também.
Mu sorriu.
Despediram-se e seguiram caminho.
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