Avesso

15 Capítulo 15 - Cemitério Celeste


"Skamar andava por um campo verde. Ia caminhando aos soluços de um forte choro. Seguia uma doce voz, que cantava uma antiga cantiga tibetana. Caiu de joelhos, prostando a cabeça ao chão. A voz cantava mais alto. Skamar estava ferida, sangrava nas costas. Ao levantar a cabeça, pode ver. Um cemitério celeste. Um amontoado de corvos devoravam um manto negro e cabelos verdes, apenas. Ao centro, havia um grande corvo ao qual todos os outros reverenciavam. Um corvo enorme, azul escuro, com duas cabeças e grandes olhos ameaçadores e vermelhos."

Acordou no meio da noite, ainda tentando assimilar o que era realidade e devaneio. Lá fora, uma tempestade caia impiedosa. À procura de Mu, levantou-se e seguiu sentido à grande porta. O som da tempestade, os trovões, uniam-se ao ranger da madeira sob seus pés, que compunham uma sinistra melodia. Chegou a um grande hall com quatro portas de madeira e ferro. "Qual será o quarto de Mu?", pensou. Notou uma branda luminosidade saindo das frestas de uma delas. Aproximou-se, tentando enxergar o interior do cômodo pelas frestas da porta. Assustou-se, a porta abriu como mágica assim que a tocou.

Dentro, Mu estava sentado em uma cadeira de madeira, lendo um livro iluminado por uma vela cuja chama trepidava com a brisa que adentrava pelas brechas da janela. A face angelical, os cabelos loiros, iluminados sublimemente pela tênue iluminação do fogo, Mu parecia ser uma imagem saída de um sonho bom.

— Entre, Skamar. Perdeu o sono? — disse, amigável.

— É, acho que sim. — ajoelhou no chão, ao seus pés — O que lê? Literatura grega? Estranho, me parece familiar.

— Pois será que conhece a escrita da poetisa Safo? — sorriu — Veja... "O amor, esse ser invencível, doce e sublime..."

Skamar fechou os olhos, mergulhando profundamente em sua mente. Conseguiu trazer algo à luz. E completou:

— "Que desata os membros, de novo me socorre"

Mu sorriu. Recitavam juntos:

— "Ele agita meu espírito como a avalanche. Sacode montes abaixo as encostas."

Skamar abriu os olhos. O lindo par de olhos verdes, como duas esmeraldas vivas, pousavam sobre os seus. Mu a olhava com tanta profundidade, podia sentir: não era a reprodução de um poema. Era uma declaração. Com o coração batendo rápido, retribuiu o olhar e igualmente se declarou:

— "Lutar contra o amor é impossível, pois como uma criança faz ao ver sua mãe, vôo para ele. Minha alma está dividida: algo a detêm aqui, mas algo diz a ela para no amor viver."

Os instantes seguintes seguiram-se em silêncio. Se contemplavam mutuamente, o instante vivido, a confissão disfarçada de arte. Foi Mu quem quebrou o silêncio.

— Vejo que não irá demorar a recuperar suas memórias, senhorita. — sussurrou.

— É sobre isso mesmo que vim falar, Mu. Tive um sonho, no mínimo, curioso...

Mu fechou o livro e o pôs sobre o colo. Olhou para a garota, interessado.

— Conte-me. — disse, cruzando as mãos.

Skamar contou, em detalhes. Teve a impressão de notar uma disfarçada expressão de espanto e preocupação no rosto do lemuriano.

— Apenas um pesadelo. Você recebeu muitas novas informações nesses dias, teve um trauma forte também. É natural que tenha se impressionado.

Conversaram mais um pouco e Mu a acompanhou até seu quarto. Velou a garota, até que ela dormisse.

Voltou ao seu quarto, onde passou muito tempo olhando pela janela, a tempestade caindo sobre as montanhas dos Himalayas. Realmente era um belo espetáculo. Mu pensava e o sonho da menina lhe trouxera dois temores. Dois grandes temores. "Não, não pode ser", pensou. "É muito improvável. Pare de pensar besteiras, Mu", suspirou. Por outro lado, já estava na hora mesmo de voltar ao santuário. Não havia mais nada a resolver em Jamiel.