Avesso

13 Capítulo 13 - Losar


— Precisamos ir buscar Kiki na aldeia. Então podemos descansar um pouco da caminhada. Hoje é uma data comemorativa, Losar, o ano novo tibetano. Sei que está cansada, seremos breves na parada, tudo bem? — sorriu amigavelmente.

Skamar assentiu com a cabeça.

E então, chegaram à aldeia próxima. Skamar percebeu que Mu era conhecido por toda a aldeia e muito querido. Todos os cumprimentavam com largos sorrisos, trocavam breves palavras. E todos, sem exceção, olhavam curiosos para Skamar e cochichavam entre si. Um senhor idoso olhou para a garota, uniu as mãos palma com palma junto ao peito ao mesmo tempo que deitou a língua para fora. Skamar olhou interrogativa para Mu. Mu riu e uniu igualmente as mãos da menina.

— Diga para ele "tashi delek"

Ela assim o fez. O senhor sorriu e acenou de volta.

— É uma maneira simpática de saudar visitantes. E a expressão que vc usou é um desejo de boa sorte.

Mesmo sentindo-se muito bem recebida, abraçou o braço de Mu em uma tentativa inconsciente de se sentir segura. Mu olhou-a, ela sorriu de volta.

— Não se preocupe. — disse levantando carinhosamente seu rosto — todos aqui já gostam muito de você. Muitas pessoas souberam de como a encontramos e torceram pela sua recuperação. Estão felizes em vê-la bem.

Realmente, se havia algo que Skamar não teria dúvidas, é sobre como era bem vinda naquele lugar. Os aldeões se preocupavam em acomoda-la e saber se a menina estava confortável. Também se preocupavam em convidá-la para participar das orações em família, em alimentá-la com pratos e bebidas tradicionais e ajudar a acender as lamparinas feitas de manteiga, como parte da tradição da festividade. Mu, ao ver a garota tão bem enturmada, afastou-se um pouco para conversar com outros aldeões.

Logo se encontrou com Kiki, que permaneceu correndo entre as crianças da aldeia e com Skamar, que abraçou a garota calorosamente, embora não fosse um comprimento típico de sua cultura. Notou em suas mãos lindos trajes típicos femininos, usados em dias de comemorações. Após a garota se trocar, sentou com ela à beira de uma fogueira, enquanto trançava seu cabelo.

Skamar se divertia naquele lugar mágico aos seus olhos, enquanto bebia chang, uma espécie de cerveja tibetana feira de cevada e milho.

Tudo aquilo parecia fazer parte de uma realidade paralela, de um sonho cheio de paz e alegria que jamais imaginou estar. Olhava as cordilheiras do Himalaia, ao som das flautas, tambores e sinos, ao som dos dungchen, dranyen, nga e lingbu, olhava as cordilheiras sob o aroma do sândalo, cedros e incensos de nardo do Himalaia.

As cordilheiras erguiam-se como uma coroa de gelo e pedra, como um portal sagrado entre a terra e céus, com sua neve eterna, como mantos de pureza que abraçam o mundo. Em meio às canções tão antigas, podia perceber: o vento dançava entre suas encostas carregadas de histórias antigas, sussurros de orações e segredos guardados nas cavernas e vales. O Himalaia não é apenas uma cadeia de montanhas, é um coração pulsante de sabedoria, lar de deuses e heróis, um lugar onde o tempo é suspenso e reflete o silêncio ensurdecedor do eterno.

Se encantava com as tradições daquele dia, com as danças típicas, se encantava com os pobres sendo alimentados e com os animais em cativeiros sendo libertados.

Em meio aos tambores, flautas e cítaras, em meio a mais um copo de chang, o avistou diante das cordilheiras.

Você veio como o vento das montanhas,

Trazendo histórias de mundos além.

Sob as estrelas brilhantes do Tibete,

Meu coração pertence a você para sempre — bradava o cantor

"Um sonho... Mu não parece real... Tão... onírico!", pensou. Ele era ainda mais encantador sob as cordilheiras ao fundo e ao trepidar da fogueira. Skamar olhava Mu absorta nos mais profundos pensamentos. O exotismo de Mu a absorvia completamente. Definitivamente, era um homem hipnótico. Tinha certeza de que nunca vira outro mais belo, mais instigante e nem tão paradoxo! Com traços de uma etnia desconhecida, o anjo de cabelos longos possuía o físico de um guerreiro, incompatível para um pastor de ovelhas, as mãos não pareciam ser calejadas pelo cajado do pastoreio, mas eram grossas como se um ferreiro fosse. Ao mesmo tempo, Mu tinha uma voz serena, constante, movia-se de modo que parecia levitar, tal como um monge ou uma criatura celestial. Não parecia ser deste mundo. Mas havia algo... Algo no seu olhar... Uma força, uma impetuosidade, camuflada, dormente, que não sabia de onde vinha. O sereno Mu era como a calmaria que antecede uma tempestade. "Quais segredos você guarda, Mu?"

Seria bom não estar sozinha ali. Seria bom não estar sozinha na vida. Seria bom ter com quem compartilhar a confusão de sentimentos que tinha por Mu e por tudo que vinha passando. O que raios poderia ter lhe acontecido? E de repente, lhe veio uma tristeza profunda.

— Eu sei que é difícil. Perdi minha família, perdi amigos. Perdi um filho e uma filha. Você está usando as roupas dela. — sorriu, solidária — Sua trança está pronta, espero que goste, é um presente de uma velha que não tem muito o que oferecer. — continuou Kanda, falando com muita dificuldade no mesmo idioma de Skamar — Seja feliz enquanto a vida nos permite ser, menina! — e sorriu.

Skamar, agradecida, toca a mão de Kanda, de modo a compartilhar a dor da senhora.

Nas montanhas onde o vento dança,

Seu olhar é como o céu azul,

Mesmo no silêncio da neve,

Meu coração chama pelo seu amor eterno — as canções continuavam.

— Oh, doce senhorita. Creio que eu te deixei tempo demais sem minha companhia. — sorriu Mu, dizendo com a voz suave, se aproximando — Me concede a honra dessa dança? — sorriu

Skamar levantou divertida. Seria, na pior das hipóteses, divertido tentar acompanhar os movimentos da dança típica da aldeia, Yum-chen. Os casais não dançavam todo o tempo juntos, mas quase sempre separados, fazendo elegantes e delicados movimentos com os braços e mãos, criando formas que representam orações, agradecimentos e celebração das bençãos.

Como uma flor de lótus na neve,

Você floresce em silêncio e força,

Guardando segredos do tempo,

Sob o céu eterno do Tibete

Sob o vasto céu e estrelado do Tibete, o vento parecia sussurrar segredos antigos e as montanhas guardar memórias dos séculos, os dois corpos se encontravam na mais perfeita harmonia.

O espaço iluminado pelas chamas douradas da fogueira, brisa fresca brincando com os fios de cabelo de Mu, enquanto as montanhas os observavam em silêncio. Mu a segurava com a suavidade de um mestre, mas havia uma ternura de como se a dança fosse uma promessa de algo ainda indecifrável. Skamar tenta seguir seus movimentos e ele sorri gentilmente, ensinando-a com paciência e a cada movimento Skamar se aproxima mais, como se a dança fosse um elo invisível entre seus mundos, duas culturas se encontrando na doçura do gesto.

E então se faz um conexão entre eles, onde os movimentos são mais seguros e as palavras não são necessárias. Ele a observa e vê um sorriso travesso em seu rosto, não por ter aprendido os movimentos, mas por compartilhar esse instante único e eterno sob o céu tibetano.

Minha terra natal nas montanhas distantes,

Onde a neve repousa em silêncio,

Meu coração sempre voltará

Ao calor do meu povo.

A música termina, mas a sensação de leveza encantamento permanece entre os dois, algo que vai além das fronteiras do movimento. Sentaram-se nas pedras que rodeavam a fogueira. Mu a olha nos olhos e por um momento o Tibete inteiro parece se calar. E então, ele nota a trança feita por Kanda.

— Oh, Kanda te fez uma trança única! — sorriu, divertido.

— Existe algum problema nisso? — disse Skamar, bebendo mais um copo de chang.

— Trança única é um indicador civil de uma mulher tibetana casada, Skamar. Você será minha esposa por essa noite, senhorita — disse, divertido.

— E eu serei sua esposa essa noite, meu amado. — disse, feliz, deitando a cabeça em seu ombro.