Avesso

12 Capítulo 12 - O Furioso Monstro Vermelho


No banheiro, Skamar lava as mãos na pia de pedra. Olha no espelho e vê o rosto vermelho como fogo. Molha as mãos e passa pelo rosto, na expectativa de minimizar o aspecto rubro.

Neste momento, três belíssimas moças tibetanas entram no banheiro e conversam entre si:

— Genteeeee, vocês viram quem está em Lhasa hoje??? Ai, meu coração!!

— O pastor de Jamiel! — suspirou uma delas.

— Ele é tão lindo e tão forte!

— Eu queria tanto que ele olhasse pra mim...

— Olha, se você conseguir, vai ser um grande feito. Mu de Jamiel é homem muito sério e respeitoso, não tenho notícias de que tenha se dirigido à alguma moça em Lhasa com essas intenções.

Skamar pensou no estrago que essa informação poderia fazer ao se unir com o boato do yarsagumba e riu por dentro.

— Acha que não consigo? — desafiou, a mais bonita.

Skamar olhou, indignada.

— Ah, eu duvido muito. — respondeu a amiga.

— Pois apenas me observe... — disse, piscando para a amiga.

A tibetana pegou o cesto de pêras que uma de suas companheiras carregava e saíram para fora.

Skamar largou tudo o que estava fazendo e saiu para fora, para ver o que iria acontecer.

Ao sair, viu as duas amigas observando há alguns metros de distância, discretamente.

A tibetana mais bonita estava conversando carinhosamente com Mu, enquanto este a ajudava a recolher as frutas que, "acidentalmente", se espalharam pelo chão quando todo o cesto caiu das mãos da moça.

— PODE DEIXAR QUE EU RECOLHO! — esbravejou Skamar.

Surpresos e intimidados com a aparição inesperada da menina, os dois pararam de conversar e de recolher as frutas.

Skamar invadiu o pátio totalmente descabelada, mais vermelha do que nunca e com o rosto pingando a água que não teve tempo de secar no banheiro. Passa a recolher as frutas com notória raiva, pegando cada uma e colocando no cesto com força.

— TOMA! — entregou o cesto de frutas para a tibetana, o empurrando contra seu peito. — AGORA PODE IR.

— Ahn... Certo... — olhou para o tibetano — Muito obrigada, Mu...

— ELE ESTÁ AGRADECIDO TAMBÉM. AGORA VÁ!

A tibetana se uniu às duas amigas e foram embora, assustadas. Skamar permaneceu olhando afrontosamente para as moças, de braços cruzados, até que sumissem da vista deles.

Quando não era mais possível vê-las, Skamar percebeu Mu a olhando com um ar interrogativo.

— EU QUERO IR EMBORA!

— Tudo bem. Vamos por ali. — respondeu, serenamente.

Seguiam sem nada falar, com a moça emburrada.

— Só é uma pena que não vou poder te levar no meu restaurante preferido de shogo momo. Ah Skamar, se você gostou tanto dos momos tradicionais, precisava experimentar os shogos, feitos com purê de batata. Ainda mais para fazer a caminhada até Jamiel, que não tem muitas opções de alimentação pelo caminho. Vai passar muitas horas em jejum, senhorita. Mas sem problemas, seguimos em frente. — Mu a observou de rabo de olho.

Skamar, morta de fome, "desamarrou" a expressão por um momento.

— É mesmo?

— É mesmo. — disfarçou um sorriso.

— Então vamos, vai... — olhou para Mu, suplicante.

— Entre. — apontou o lugar bem a frente. Mu já sabia que Skamar cederia ao convite e já a tinha guiado ao destino apropriado.

Acomodaram-se nos tatames em torno da mesa. Já com a refeição entregue, Mu comia uma tigela de arroz utilizando hashis:

— Eu já enfrentei muitos inimigos perigosos ao longo da minha vida, Skamar. Mas o que vi hoje mais cedo foi a única coisa que realmente me deu medo. — disse, de forma despretensiosa, sem interromper a refeição.

Skamar desviou os olhos do rapaz.

— Aquela coisa vermelha, descabelada, com os cabelos grudando no rosto molhado que pingava água, gritando "deixa que eu recolho!!" — o lemuriano riu divertido.

A menina não riu com a brincadeira do rapaz, apenas permaneceu com os olhos baixos.

— O que aconteceu hoje mais cedo, Skamar? — disse, serenamente, sem interromper a refeição.

— Lamento por ter sido um empecilho para seu flerte.

— Eu aceitaria suas desculpas se eu estivesse flertando.

— Mas você tinha acabado de dizer que ia arrumar uma namorada tibetana! E aquela mulher não estava bem intencionada. — respirou fundo — Olha Mu, me perdoe mais uma vez. Eu não tenho nenhum tipo de ligação contigo que me dê o direito de te cobrar algo. Ao contrário, me entristece muito atrapalhar o curso natural da sua vida.

Mu parou de comer e olhou para a menina.

— Eu vou procurar um trabalho por aqui e um lugar pra viver. Com toda certeza eu seria um problema para uma possível namorada sua. Só me dê mais alguns poucos dias.

— Skamar, não tem motivos para você ir. Você não atrapalha em nada, muito pelo contrário. Tem sido uma excelente companhia. Uma companhia maravilhosa. Além de me ajudar com os serviços domésticos e com as tarefas do dia a dia. Não há absolutamente nenhum aspecto que você atrapalhe.

Skamar nada respondeu.

Mu colocou a mão sobre a mão da moça, que estava sobre a mesa, e a olhou nos olhos.

— Não haverá outra. — disse, suavemente — Você será a única. Nunca haverá outra a tomar o seu lugar. Eu prometo isso a você.

Se olharam profundamente por alguns instantes. Estavam apaixonados. Instintivamente, Mu acariciou os cabelos da moça, que correspondeu o gesto, inclinando-se a ele para ser beijada.

— Thukpa? — a atendente do restaurante chega com duas sopas de massa e carne em tigelas de pedra, para entregar à mesa.

— Isso, é aqui. — diz Mu, com ar decepcionado.

A atendente sai constrangida, percebendo ter atrapalhado um momento entre o casal.

"Melhor assim", pensou. Não havia nada que desejasse mais do que beijar Skamar. Mas não queria fazê-lo com a moça sem memória, vulnerável, sem saber se pertencia a outro homem. Também sabia que ter um relacionamento não lhe era adequado, devido às obrigações como guerreiro de Atena. Enfim, o acaso sabe o que faz.

Embora tivessem o momento interrompido pela garçonete, aquela conversa serviu para trazer de volta a harmonia aos dois e tudo voltou a ser leve, como de costume.

Ao regressar à Jamiel, Mu olhou pela última vez ao Khang Rinpoche, se lembrando da promessa feita. E em seu coração, reafirmou o que tinha ali prometido.