Aventuras fora da janela.
1 Capítulo único.
Notas iniciais
Seu orbe de sonhos era limitada. A mórbida realidade sempre a obrigava a viver no mundo de existências efetivas, onde tudo é tediosamente real.
Sua única maneira de escapar dessa vida de dissabores era a reduzida fresta da janela do quarto.
Todas as noites, próximo das 4 da manhã, a garota deixava para trás suas angustias e anseios dependurados naquela janela. Corria em ponta de pés pelo estreito corredor e lançava-se em seu mundo de sonhos. Cada sopro de vendo noturno lhe trazia uma imensa sensação de liberdade. Os ruídos dos insetos e o primeiro piar dos pássaros do dia eram a música da noite naquele baile de sombras. Deitava-se no cimento gelado da madrugada e punha-se a contemplar a Lua e suas leais estrelas enfeitando o teto coberto de mantos negros.
Naquele momento, bem ali, ela poderia ser quem quisesse. Principalmente ela mesma.
Sem regras, restrições ou padrões. Só desfrutava da companhia da silenciosa escuridão, que lhe servia de ouvinte.
A noite acarretava sensações inexplicáveis em sua alma.
Gostaria de estender aquela sensação por infinitas noites, sem descanso.
Mas a realidade agia como um buraco negro, retraindo-a para o fundo, diretamente de volta à mediocridade da vida real.
Sempre quando o relógio marcava 4:45, sua ouvinte obscura à deixaria entregue a luminosidade indiscreta da manhã. Devia recolher-se de volta ao seu abafado quarto, envolto em paredes brancas e na falsa luz dos abajures. Mergulhava em suas cobertas, sentindo a friagem da noite em sua pele contrastar com os lençóis quentes. Com a cabeça no travesseiro, desejava pela noite seguinte, que viria acompanhada de seu mais íntimo devaneio: viver suas utopias imaginadas o dia todo, nas trevas pacíficas do anoitecer.
E sua companheira aguardaria avidamente o retorno de sua anfitriã noturna. Assim que ela despontasse do fim do corredor, deitar-se-ia novamente ao seu lado para ouvir cada segredo trazido. Sigilos que só a escuridão guardava. Palavras que as curiosas sombras não sabiam, desejos ocultos das luzes do céu.
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