Notas iniciais
Eu deveria me explicar. A quem interessar, eu responderei sem problemas seus reviews com o motivo por ter demorado tanto. Eu só peço que não me abandonem. Eu vou demorar. Eu sou uma pessoa extremamente bipolar, que às vezes escrever faz bem, às vezes não faz; que às vezes está satisfeita com o que escreve, às vezes tem um surto e acha que não passa de uma merda de autora. Eu sou bipolar. Mas nunca vou abandonar vocês de vez. Porque, apesar de bipolar, eu não sou filha da puta. Eu envolvi vocês na história, fiz vocês lerem, então nada mais justo do que concluí-la. Por isso, por favor, continuem aqui. Espero que gostem.

Peeta Mellark

Quando Peeta abriu os olhos novamente, passou cinco minutos para se localizar. Ele observou a copa das árvores pingarem algumas gotas e supôs que levara um grande banho de chuva. Ele sentia frio, fome, e uma enorme dor de cabeça que pontuava com muita intensidade.

Ele pôs a mão na barriga e tateou até encontrar o galho que estava espetado no pé da sua barriga, à direita, tirando-o dali em insanos cinco segundos de coragem. Soltou um berro estrondoso com a dor.

– Cacete – esbravejou, vendo o estrago na sua barriga.

Recapitulou os últimos momentos. Katniss o havia deixado duro na praia, ele ficou puto com ela, ela foi maldosa com ele, Zoë o beijou, Katniss viu, Katniss o acusou de traição, ele ficou puto de novo, ele se declarou, ela continuou dando chilique de traição, ele ficou puto e magoado, e saiu do Cou, tendo, alguns minutos depois, a queda mais patética da sua vida.

Peeta Mellark havia tropeçado com o vento, caído de barriga num arbusto e batido a cabeça com força num tronco de uma árvore próxima.

– Peeta? – ouviu seu nome sendo chamado e levantou a cabeça em tempo de ver Cormarc correndo. – Te achei.

Mark parecia aliviado quando sorriu para o louro e se aproximou, fazendo uma careta em seguida.

– Você está ferido.

– Isso eu sei – ele comentou, amargurado, com a voz pingando sarcasmo.

– Gravemente ferido – esse comentário fez Peeta se apoiar nos cotovelos e observar a própria barriga. – O que aconteceu com você?

– Aquele galho.

– Ele tava naquele arbusto?

– Estava.

Cormarc ficou em silêncio. Analisou os galhos por alguns minutos, e então murmurou:

– Você sabe que são venenosos?

– São o quê?

– Eles estão infectados. Porra, Mellark, você viu seu braço?

Era como se não estivesse machucado até ele perceber que sua pele estava em carne viva, queimada e sangrando. Peeta estava fodido.

– Sua cabeça também está rachada – disse Cormarc, divertido, embora estivesse apenas tentando aliviar o clima. Ambos sabiam que Peeta não duraria muito, e a culpa disso só podia ser de Katniss. – Você consegue se levantar?

– Não – ele foi sincero, e nem tentou mascarar sua fraqueza. Cormarc assentiu, e o ajudou a se sentar, e depois a se levantar.

Ele fazia aquilo no modo mecânico, automático, e Peeta percebeu que algo o incomodava, embora parecesse aliviado, e até mesmo feliz, por ter o encontrado.

Um tempo depois, quando Peeta começou a escutar a cachoeira do Cou caindo e despejando sua água na Lagoa, ele perguntou:

– Como estão as coisas?

– Katniss e Zoë saíram no tapa. Elas estão bem preocupadas com você.

– Eu não quis... – começou Peeta, com dificuldade e o rosto contorcido em dor. – Eu amo a Katniss.

– Acho que você se deu bem. Ela está se sentindo bem culpada.

– Não – Peeta balançou a cabeça. – A Katniss não é capaz de sentir o que eu sinto por ela. Ela... Eu não sei. Ela vai tentar corresponder, mas, na verdade, não sente nada. Eu desisti de nós dois. Ou talvez nem tente. Não tem como prever Katniss Everdeen.

– Mas você sabe que... Você pode nem sair dessa ilha, Peeta.

– Eu sei disso – ele respondeu, parecendo não se importar com esse fato. – Vocês também podem nunca sair daqui.

– Eu parei pra pensar sobre isso – contou o mais novo, parando de andar. – Acho que estão fazendo buscas pelo mar para achar os corpos. Não estamos muito longe, você sabe. Vão acabar nos encontrando.

– Você se agarrou nessa esperança – falou Peeta.

– É a única que temos – e suspirou. – Sendo honesto, morreríamos no mar. Quero dizer, se saíssemos daqui sem as autoridades. Mesmo tendo um pouco de noção geográfica por causa das estrelas, do vento e do caminho das nuvens, morreríamos no mar. Não sabemos a distância daqui para outra ilha, ou para algum país. A comida acabaria. Isso se conseguíssemos fazer o barco.

Peeta acabou assentindo, e voltaram a caminhar.

Quando chegaram na gruta presente no Cou, Zoë, que estava sentada, se levantou e correu até a entrada, saldando Peeta, mas altamente preocupada ao ver o estado que o rapaz se encontrava. Ajudou Cormarc a sentá-lo.

– O que aconteceu com você? – ela questionou. Cormarc franziu o cenho.

– Você não me respondeu sobre isso, aliás – ele falou.

– Eu caí – Peeta contou, e os dois franziram a testa. – Foi patético.

– Isso parece inflamado – observou Zoë, tocando na ferida com cuidado. – Eu posso tentar... Eu tenho...

– Zoë realmente tem o dom da cura – concordou Cormarc. Ela não olhava mais nos olhos de Peeta. – Ela pode te dar mais tempo.

Peeta fingiu não notar o olhar de negação que eles trocavam. Os três sabiam que Peeta morreria ali, se estava tão inflamado quanto diziam. Ele suspirou.

– Minha vida não tem muita emoção – ele murmurou, um pouco irritado. – Vocês não precisam fingir que eu vou sobreviver.

– Você pode.

– É, talvez ela consiga – apoiou Cormarc.

– Eu só preciso achar as plantas certas, tanto para fazer chá para você, quanto para curar as feridas. Talvez dê certo.

– Tudo o que temos aqui é esperança, Peeta – lembrou Cormarc. – Precisamos nos agarrar a ela. É mais forte que qualquer coisa, e a maneira mais fácil de enfrentar as coisas. Se você a perde, você não passa de um desperdício de tempo e espaço.

– Não deixem a Katniss sabendo disso – ele condicionou. – É minha vez de brincar com ela.

– O que você quer dizer? – indagou Cormarc.

– Esculachem com meu estado. Deixem-na pensar que ela vai me perder, e não comentem sobre o possível milagre que a Zoë é capaz de fazer.

– Isso é maldade – a mais nova disse. – Ela vai ficar desesperada.

– Que fique. Eu estou puto.

– E esperançoso – falou Cormarc, divertido. – De que a preocupação dela vire outra coisa quando você ficar bem. Internamente, você quer isso.

– Você mesmo disse que quando se perde as esperanças, você vira um desperdício de tempo e espaço. E talvez eu nem tenha tempo de me sentir culpado por isso.

– Vai ter – garantiu Zoë.

– Obrigado – o mais velho agradeceu.

– Vamos sair para procurar alguma coisa – avisou Cormarc. Peeta assentiu, e eles o deixaram sozinho.

O tempo passou voando. O medo de morrer bateu na porta de Peeta, e por mais mórbido que isso parecesse, ele não conseguiu parar de pensar nisso. Em como seria a morte, em como sua família e seus amigos ficariam. Permaneceu com as esperanças, mas sem criar muitas expectativas. Sabia que Zoë seria capaz de retardar aquilo, mas não impedir.

Peeta não viveria muito.

Ele não percebeu que havia caído no sono, só quando abriu os olhos com o barulho de passos se aproximando. Katniss.

– Eu não queria te acordar – ela falou. Ele permaneceu em silêncio. – Eu não queria... – a voz dela falhou, e ela encerrou a frase ali, incapaz de continuar. Katniss estava chorando, e Katniss raramente chorava. – Me desculpa, P.

– Meu sonho não estava tão bom assim – ele ironizou. Sabia do que ela estava falando, mas, como dito anteriormente, era a vez dele de brincar com ela.

Embora ele estivesse perturbado com as lágrimas.

– Zoë disse que foi ela que te beijou. Eu acredito nisso.

– Que bom, posso morrer em paz.

– Eu estou falando sério, droga – sua voz estava assustadoramente chorosa. – Eu amo você, P – ela pegou a mão dele.

– Você pode me chamar de Peeta. As frases vão soar menos falsas.

– Eu não-

– Sério, Katniss, está tudo bem. Eu sou o trouxa apaixonado pela prima mesmo, você sabe que nunca fico com raiva de você.

– Você está sendo irônico – ela acusou e Peeta deu de ombros. – Por favor. O que você quer que eu diga a respeito disso tudo? – ela ficou subitamente zangada. – Você está puto porque eu não sinto o mesmo que você. E, francamente, isso é ridículo – ele sabia que era. – Olhe para a minha mãe! Você realmente acha que eu sou muito diferente dela? Ela trai meu pai toda a porra de dia, ela tem a porra de uma pedra no lugar do coração. Você acha que eu sou muito diferente dela? Ou então você acha que eu quero ser como meu pai? Preso na porra de um sentimento que te impede de ter dignidade? Ele não consegue nem trair ela de volta! Me desculpe decepcionar, Peeta, mas essa é a realidade. Amar é ser vulnerável a qualquer merda que pode te acontecer. É ser tolo, é perdoar com facilidade – ela soltou uma risada irônica. – Olhe pra você.

– Eu não me importo – ele deu de ombros, embora cada palavra dela perfurasse sua pele com força. A ferida havia voltado a arder com mais intensidade.

– Relacionamentos são meras ilusões. É uma cela que vai te prender no meio de uma parque gigante. Você vai querer correr, vai querer aproveitar o dia, mas vai estar preso. Embora no chão tenha uma saída para um porão escuro e enquanto você está lá perdendo o dia, preso, a outra pessoa vai estar se divertindo no porão sem você.

– Boa metáfora – ele comentou, sorrindo. Aquele sorriso também doía.

Ela estava puta agora. Tão puta quanto ele. Bufou e saiu da gruta, dando espaço para que o rosto de Peeta se transformasse em um poço de dor, tanto física quanto emocional. Mas ele não chorou. Só quando Zoë entrou na gruta e disse:

– Eu fervi a água para lavar suas feridas. Isso está realmente muito feio.

O toque da adolescente era calmo e cuidadoso, em contraste com toda a tensão que Peeta sentia. Aos poucos o ambiente neutralizou, e ele acabou se acalmando em meio aos toques delicados daquela garota e as lágrimas que derramava.

– Seus músculos relaxaram – ela comentou. – Não querendo retomar esse assunto, mas me desculpe. Eu sei que eu fui a causadora disso tudo, e me desculpe por isso.

– Relaxa, Zoë. Eu sou irresistível – ele tentou brincar, fazendo-a rir. Ele sorriu. – Obrigado.

– Eu gosto de cuidar das pessoas.

– Não por isso, por ter rido. Eu me senti melhor com isso.

– Está sendo irresistível de novo – ela murmurou em tom de brincadeira. Dessa vez, ele riu também. – Belo sorriso.

– Irresistível

– É, Peeta, bem irresistível – ela riu novamente.

– Sempre.

Incrivelmente, Zoë tinha tato. Surpreendendo Peeta, ela agiu exatamente como Peeta precisava. Foi sutil com o pedido de desculpas, e conseguiu distraí-lo completamente, fazendo-o relaxar.

Acabou pegando no sono algum tempo depois, completamente sereno e livre de pensamentos a respeito de Katniss Everdeen.

Hermione Granger

– Você é um covarde! – ela gritou, quando chegaram no jardim dos Di Ângelo.

Ela havia guardado essa explosão por muito tempo. Depois que Rony disse que havia se lembrado de tudo, e passou a explicar o que estava pensando, Hermione não conseguiu conter a raiva que sentia disso tudo.

Sabia que estava fazendo fiasco, dramatizando tudo, até porque ela também o enganara, de certa forma. Mas Rony mentiu pra ela, e ela odiava se sentir enganada.

– Hermione, para de gritar! – ele pediu, nervoso, olhando ao redor. Ela soltou uma risada escandalosa.

– Parar de gritar por quê? – e jogou um dos saltos, que ela havia arrancado dos pés no caminho pra casa, nele, que se esquivou. O segundo salto, entretanto, acertou-o em cheio enquanto ela continuava berrando: – Você se lembra que esse foi um dos motivos pra terminar comigo? Eu joguei um vaso de vidro em você, lembra-se disso?

– Você está fora de si.

– Claro que estou fora de mim! Eu estou com vontade de matar você, Ronald Weasley!

– Ajudem! – ele gritou olhando para casa, realmente com medo.

Ela avançou nele e começou a bater, com toda a força que tinha, nos braços de Rony, até que se sentiu sendo arrastada para longe. Não processou quem a havia tirado de perto do ruivo, só quando foi solta, dentro do seu quarto, que conseguiu enxergar o rosto de Draco.

Não demorou muito para o abraçar com força e desabafar, com a voz abafada, no peito dele.

– Ele nem tentou se defender! Ele só disse que se arrependeu de ter dito um não pra mim lá no navio e que queria uma chance! Ele nem tentou se explicar, ou se desculpar-

– Então ele te contou? – questionou Draco.

– Você sabia? — Hermione berrou, olhando com ódio para Draco. O abraço havia sido quebrado.

– Eu descobri hoje. O médico dele ligou para o telefone dele e eu atendi. Ele queria saber o número-

– Você sabia, seu idiota! – ela gritou. – Você sabia e não me disse! Por que você não me disse?

– Eu não achei que-

– Você escondeu isso de mim!

E, puta da vida, saiu do quarto que estava, esbarrando em Silena em seguida. Só faltava sair vapor do seu nariz, de tanta raiva que tinha. Silena a olhou assustada, e contou:

– Rony me disse o que aconteceu.

– Você também sabia?

– O quê?

– Todo mundo sabia, então? – ela gritou, rindo irônica.

– Ele acabou de me dizer – ela esclareceu, calma e confusa. Hermione respirava com dificuldade, e se acalmou aos poucos.

– Desculpa.

– Tudo bem.

– Eu preciso ficar sozinha.

Caminhou até os jardins e, ao ver os saltos jogados ali, se jogou de encontro ao chão e começou a esmurrar com força a grama, puxando-as depois. Ela estava chorando, mas chorando de ódio.

Em que pessoas ela podia confiar, afinal? Ronald havia mentido para ela, contado toda a verdade sem proferir um pedido de desculpa, ou se preocupar se ela se sentiria magoada com aquilo.

Claro, a patética Hermione Granger preocupada em estar ocultando coisas dele, enquanto ele ria e se divertia da cara dela, fingindo ter a mente apagada de memórias.

E, sem amigos, o único porto seguro que ela enxergava, Draco Malfoy, também sabia.

Então ela começou a chorar de tristeza.

Nunca, na sua vida, se Astoria, por exemplo, estivesse ocultando algo de Draco, por alguma razão, Hermione nunca esconderia isso dele. Só então ela percebeu o quanto considerava o louro.

Ela também não enganaria de tal forma, e jamais se rebaixaria a tal ponto, por mais vergonha e timidez que tivesse. Foi um ato de covardia imperdoável.

E, como último estágio, Hermione chorou de culpa.

Ela estava desacritando nas pessoas. Perguntando-se em quem poderia confiar, mas nem deixou Draco ao menos se explicar, além de ter atacado Rony com um salto alto.

Ela se sentia uma pessoa horrível.

– Ai, minha coluna – ouviu a voz doce da sua ex-sogra reclamar, e virou de lado, vendo-a se sentar ao seu lado. – Venha aqui, Hermione.

Ela não recusou o abraço de mãe da senhora Weasley, até porque sabia que ele viria cheio de conselhos. Sentiu-se, por um tempo, bem, livre para chorar à vontade por quanto tempo precisasse.

– Eu também não estou feliz pelo que o Rony fez – ela revelou, alisando os cachos recém cortados da castanha.

– Mas...?

– Mas nada. Eu sou mãe, eu perdôo. Não vou julgar você por não querer olhar na cara do Ron.

– Eu sou tão dramática, senhora Weasley. Eu odeio isso em mim. Parando agora, depois que o calor do momento passou, eu enxergo isso. Mas, ainda assim, não consigo confiar no Rony. Nem no Draco. E eu não sei o que é pior, Rony ter mentido pra mim ou o Draco ter escondido.

– Você ouviu a explicação do Draco para ter escondido?

– Não – ela encolheu os ombros.

– Eu acho que você deveria ouvir – ela falou.

– Eu sei disso. O pior é que o Rony nem tentou se explicar.

– Rony é medroso, você sabe. Mas ele ama você.

– A senhora está me confundindo.

– Não vou julgar você por não querer olhar na cara do Ron, porque você está certa. Se você não falar mais com ele, não quiser mais nada com meu filho, você está com a razão. Não é mais um drama seu. Mas o perdão é uma virtude, Hermione, e você a tem. Se não quiser perdoar, não perdoe. Só que eu conheço você e sei que você não é uma pessoa rancorosa. Tenha seu tempo e, quando se sentir pronta, vá atrás dos dois e escute suas explicações.

– Eu não sei se vou conseguir confiar neles de novo.

– Isso só o tempo dirá – e, com dificuldade, ela se levantou. – O Draco estava perturbado lá na sala, acho que você poderia falar com ele.

Hermione também se levantou.

– Obrigada, Molly – agradeceu, sorrindo.

– Por nada, Mione. Vou ficar por aqui um tempo, para vocês terem tempo de conversar, sim?

– A senhora não vai ficar com frio?

– Que nada! Vá, querida.

Remexendo os dedos e evitando olhar nos olhos de Draco, Hermione entrou na casa novamente e se sentou ao lado dele.

– Desculpa, Hermione – ele foi o primeiro a falar. – Isso está me transtornando, porque eu raramente peço desculpa para as pessoas, mas eu acabo de perceber que eu te amo pra caralho – declarou, olhando-a. – Você é a primeira amiga que eu tive em anos, amiga de verdade. Desculpa por ter escondido isso de você. Eu sei que deveria ter contado, eu só não sabia como. Por isso estava estranho durante o dia.

– Não era nada com a Astoria?

– Não. Digo, também. Mas tinha isso. Eu não tive tempo de ficar feliz, porque estava em um conflito entre te contar ou não. Você estava tão feliz. Mas agora eu vejo que deveria ter contado, desculpa. Eu entendo se você não-

– Eu também te amo pra caralho – ela repetiu, sentindo a bochecha corar pela vergonha de ter falado um palavrão. Soltou uma risadinha. – Que o Percy não escute isso, porque ele é um amigo bem ciumento, mas talvez você tenha que dividir o posto de um dos melhores amigos que eu já tive com ele.

– Está tudo bem?

– Está tudo mais que bem – ela sorriu. – Desculpe pelos gritos.

– Você não tem que se desculpar.

– Draco, você está tão fofo.

– É, isso está me enojando. Já posso voltar a ser um cara arrogante, egoísta, rancoroso, ambicioso e sangue frio?

Hermione gargalhou deliciosamente ao ouvir a descrição de si mesmo que o louro havia feito.

– Pode – ela ainda ria quando o abraçou. – Posso me esgueirar silenciosamente para sua cama hoje?

– Pode.

No caminho para o quarto, Draco sussurrou a pergunta:

– Você não vai conversar com o Rony?

– Não vou atrás dele. Ele não pediu desculpas, nem tentou justificar seus atos. Se ele pedir, perdoarei. Mas não vou atrás dele.

– E vocês vão voltar a ser um casal?

– Aí já é outra história. Uma relação precisa de confiança, Malfoy.

Draco suspirrou e assentiu, arrastando-a para o quarto e alisando os cabelos da garota até que ela, abraçada a ele, pegasse no sono.

O dia demorou a amanhecer, na humilde opinião de Hermione, que sentia ter dormido bem mais que o necessário. Apertou-se mais a Draco, querendo voltar a dormir, mas acabou abrindo os olhos ao ouvir a voz dele:

– Uma hora da tarde. Você hibernou, docinho.

– Já? – ela se espantou.

– E você estava gemendo enquanto dormia – ele contou. As bochechas dela ficaram roxas. – Brincadeira.

Ela deu uma tapinha no peito dele.

– Retardado – xingou afetivamente.

– Vamos almoçar – ele convidou, levantando-se. – Neville acabou de vim aqui dizer que o almoço estava quase pronto. Há uns... Vinte minutos.

– Eu estou faminta – ela concordou. – Mas preciso tomar um banho antes, ainda estou com a mesma roupa do jantar de ontem.

– Posso ir junto? – ele brincou.

– Fica na tua, cara, fica na tua – ela aconselhou, levantando-se e marchando até o próprio quarto.

Encontrou uma carta em cima da sua cama e, cuidadosamente, pegou-a.

Mione,

Eu sou covarde, um medroso. Você sabe disso. Já vi muita coisa na minha vida passar por medo, já deixei muita coisa acontecer por medo.

Mas eu não quero perder você por medo. Não pela segunda vez.

Eu tentei dizer isso cara a cara, mas acontece que meu momento de coragem passou rápido e quando eu vi seu olhar magoado e raivoso, não consegui continuar. Tentei muitas e muitas vezes ir falar com você durante a noite, te acordar e te chamar em um canto, mas não consegui. E, quando consegui, não te encontrei.

É pedir demais três atos de coragem em menos de 24h.

Escrever isso foi o que consegui pensar. Depois é só comentar com a Silena que escrevi isso, mas que estou com medo de entregar, que ela vai dar um jeito de, secretamente, furtar o papel e te entregar.

Se você está lendo isso, saiba que, mesmo intrometida, Silena entende de casos amorosos e poderia dar uma excelente cupido.

De qualquer forma, me desculpe. No momento em que eu terminei com você, eu quis voltar. Eu quis pedir desculpas, mas não seria justo. Naquela época, eu mal desconfiava o quanto eu te amava. Foi só graças a Lilá. Os beijos dela não eram nada comparados aos seus, nem as palavras delas. A Lilá não é você, Mione.

Eu também não consegui terminar com ela.

Não consegui te dizer que todos os dias eu pensava na gente, eu e você, juntos de novo.

Não consigo fazer metade das coisas que eu quero. Provavelmente, quem teria que me pedir em casamento seria você. E quem sabe se eu conseguiria aceitar.

O ponto é que eu sou um covarde, como você disse. Eu realmente não lembrei de você, nem de nada, nas primeiras vinte e quatro horas do acidente. Foi só dormir, que as memórias começaram a voltar e, no fim do dia, eu já havia lembrado de quase tudo.

Mas pensei que esconder isso nos daria uma segunda chance sem que eu precisasse falar com você.

E nos deu.

Eu não pretendia contar, mas também não podia esconder isso de você. Foram cinco segundos de coragem insana.

Mas já que estou aqui falando tudo, eu vou aproveitar e dizer uma coisa. Algumas coisas.

Você é dramática, do tipo que não faz tempestade em copo de água, mas sim um dilúvio em tampinha de xarope. Não estou falando dos gritos de ontem. Você teve toda razão naquilo. Eu escondi isso de você. Estou constatando alguns fatos seus. Você é dramática, é chorona, é escandalosa, é ciumenta, tem problemas em controlar o emocional. Você é tudo isso.

E eu devo ser maluco, porque eu amo isso.

Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe.

Eu sei que eu menti. Eu sei que eu escondi isso. Eu sei que eu cometi 30 erros ortográficos, e que o certo era “desculpe-me”. Mas a idéia de ter você furiosa comigo, e de ter perdido você pra sempre, está acabando comigo.

Hermione Granger, me dê uma segunda chance, e sou eu que estou pedindo agora. Eu preciso de você comigo, aqui, agora, para sempre.

Isso pode ser considerado um pedido de casamento.

Já somos adultos, de qualquer forma.

Tá, parei, isso é insano.

Você quer voltar a ser minha namorada?

Com muita vergonha,

Ronald Weasley.

E tinha, além das lágrimas que Hermione havia derramado, uma mancha de chocolate no canto da folha. Rony sendo Rony.

Ela correu para o banheiro e tomou seu banho com rapidez. Sentia-se nervosa, mas sabia o que tinha e o que queria fazer. Foi um banho rápido, e logo ela estava com um macacão jeans por cima de uma blusa vermelha, procurando Rony pelos cômodos da casa.

– Oi – ela falou timidamente quando o encontrou nos jardins.

– Oi.

– Por que eu deveria acreditar em você, Rony? Em todas aquelas palavras?

– Não deveria.

– Isso pode ser mais uma mentira, não pode?

– Você não acredita em mim?

– Não consigo. Você faz tanta merda – ela comentou, tocando o rosto dele. – Eu ainda me pergunto por que continuo apaixonada por você.

– Porque nós somos como bunda. Nem a merda é capaz de separar.

Ela gargalhou alto.

– Só sujar um pouquinho?

– É, sujar um pouquinho, talvez – ele comentou, segurando sua cintura. – Nada que um bom papel higiênico não resolva.

– Um rosinha com aroma artificial.

– Exatamente – ele concordou.

– Você é tão romântico, Ron – ela riu. – Mas isso não é o suficiente.

– O que isso quer dizer?

– Quer dizer que eu não confio mais em você. Quem mente uma vez, mente duas. Eu perdoei, Ron, mas não voltei a confiar. Nós podemos ser amigos. Voltar a ser melhores amigos como antes de toda essa confusão. Mas não namorados.

– Eu amo você mais do que amo Nutella – ele falou, desviando o olhar. – Será que um dia você vai voltar a acreditar nisso?

Rony sendo Rony.

– Isso só o tempo dirá – ela repetiu as sábias palavras da senhora Weasley, beijando-lhe o rosto e se levantando, deixando para trás um Rony entristecido, embora conformado com aquela nova realidade.

– Só espero que não demore muito – ele murmurou para o vento, embora soubesse que esperaria o quanto fosse necessário.

Ele sempre esperaria.

Annabeth Chase

Era contraditório.

Annabeth percebeu que as palavras e ações de Percy Jackson eram completamente contraditórias. Algumas indicavam sentimento, outras indicavam indiferença. E, depois de muito pensar, ela chegou à conclusão que ou ele estava tão confuso quanto ela, ou havia mentido.

Era provável ser a primeira opção. Não é fácil digerir, muito menos aceitar, que o cara que sempre foi repugnado pelo seu ser, na verdade exerce sobre ela um poder que Annabeth jamais havia imaginado que alguém poderia exercer. O mesmo, ela imaginava, cabia a Percy.

Sentada no sofá, com as pernas cruzadas, e o tédio pairando no ambiente, Annabeth pensou no que Percy poderia estar pensando naquele momento, em posição parecida com aquela e os olhos verde-mar concentrados no piso do apartamento abandonado e empoeirado.

Não faz sentido. Isso não faz nenhum sentido. Mesmo depois de diversas cartas e juramentos de amor para mim, de quase todas as meninas da escola, subentende-se que eu já tenha me acostumado psicologicamente para lidar com isso, mas pelo visto não. O que mais me perturba é não saber se o efeito da declaração de Annabeth em mim, tem ou não haver com o fato de ter sido ela a dona dos sentimentos amorosos para comigo.

Outra coisa que me perturba foi a rapidez com que neguei as coisas e o modo como me preocupei em fazê-la negar também. Posso enganar a ela, e fazê-la se enganar, mas não posso enganar a mim mesmo.

O que tínhamos não era o tipo de ódio que mascarava uma tensão amorosa ou sexual grande. O ódio mascarava a amizade, na verdade. Mas o que a amizade mascarava? Esse era o ponto. Não, de maneira nenhuma Annabeth era o tipo de gente que eu me envolveria. Tinha medo da sua amizade, é verdade, mas não do seu amor. Seu amor foi algo que nunca quis, nem pensei em ter.

Um naufrágio é o necessário para mudar um pensamento?

Um naufrágio é o necessário para mudar um pensamento?

Annabeth passou bons vinte minutos martelando esse questionamento em sua cabeça, olhando para o mesmo ponto fixo que Percy olhava. Ela queria fazer sexo com ele novamente, seu corpo vibrava de anseio por isso, mas sabia que não era hora para aquilo; além do medo escondido que ela tinha. Os medos.

Medo de se tornar alguém que ela não era, uma tarada e viciada em sexo, que procurava diversas maneiras de inovar seu prazer. Ninfomaníaca. Ou medo de se tornar submissa a Percy Jackson, principalmente depois de ele ter garantido que não sentia nada a mais por ela. Ou o medo de não estar fazendo a coisa certa, de não estar garantido tanto prazer a ele quanto gostaria.

Ela se sentia uma covarde.

Em dezoito anos de sagacidade e inteligência, Annabeth nunca havia tido tempo para covardia, até envolver sentimentos. Que tola ela se sentia.

– Quando... – ela começou.

Percy cravou seus olhos nela, franzindo as sobrancelhas, e logo ela percebeu que o assunto que queria discutir resultaria em uma DR. Ela não tinha o direito de fazer isso, então apenas assistiu sua frase morrer entre os ventos incomumente frios do verão da adorada Londres.

– Estamos pensando na mesma coisa – constatou Percy. – Sobre o mesmo assunto.

– Eu não quero falar sobre isso – falou Annabeth. – Não precisamos falar.

– Vamos dar uma volta? – convidou o moreno. – Estamos em Londres, e agora vestindo roupas decentes; não precisamos ficar reclusos aqui.

Annabeth assentiu e andou até a pequena janela, pulando-a e sendo seguida por Percy. Vagou em pensamentos enquanto descia cautelosamente as escadas de incêndio e sentia o vento cada vez mais frio atingir sua pele exposta, arrepiando os pelos do seu braço e fazendo-a ter uma tremedeira repentina.

– Com frio, Chase? – caçoou Percy, pondo uma mão no ombro dela.

Ela soltou os cabelos, antes preso em um coque, tentando aquecer pelo menos o seu pescoço com aquele ato, mas não foi algo que deu muito certo. Era quase fim de tarde, o movimento na rua parecia maior, e Dionísio, o senhor barrigudo da banca de revistas, fechava seu comércio e se preparava para ir para casa.

Quando avistou o quase casal, Dionísio abriu um sorriso e os chamou com a mão, logo depois a passou pela barriga para coçar sua enorme pança.

– Vamos lá? – convidou Annabeth e Percy deu de ombros, então eles se aproximaram.

Dionísio apenas terminou de fechar toda sua banca de revista, protegendo-a de furtos, e fechou o seu casaco até o pescoço. Foi esse o tempo para que Annabeth e Percy chegassem até o senhor.

– Olá, Sr. D – cumprimentou Annabeth, ao passo que Percy apenas acenou a cabeça.

– Olá, crianças – ele sorriu. – Tenho ótimas notícias.

– Quais? – perguntou Percy monotonamente e com pouco interesse.

– Quais? – questionou Annabeth, com verdadeiro interesse e entusiasmo.

– Vão ter comida e conforto, pelo tempo que precisarem ficar aqui.

– Como? – Annabeth sorria e tocou involuntariamente o braço de Percy, animada. – Acho que só ficaremos mais dois dias sem avisar às autoridades que estamos aqui. O senhor sabe, o Percy se livrou de tudo ruim.

– Aposto que sim – o senhor sorriu de canto. – Falei com meu sobrinho, ele pode abrigar vocês. Depois que minha cunhada e meu irmão morreram, um quarto por lá fica desocupado. Eles ficariam felizes em ocupar temporariamente.

– Eles? – indagou Percy, curioso, embora com um sorriso alargado.

– O sobrinho com o qual falei é o mais velho, mas ele mora com dois irmãos, um da idade de vocês e outro dois anos mais novo – explicou Dionísio. – Então... O que me dizem?

– Nós nem sabemos como agradecer! – confessou Annabeth.

– Não vai ser incômodo? – perguntou Percy.

– Óbvio que não! – retrucou o Sr. D. – Que horas digo a eles para virem buscar vocês aqui?

Percy e Annabeth se olharam.

– Nove parece legal – Percy disse, contendo a timidez. Dionísio assentiu.

– Vou avisar a eles.

– Obrigada, senhor D – Annabeth agradeceu, dando um abraço nele, que retribuiu rindo.

– Deem notícias – ele pediu.

Annabeth viu Percy e ele trocarem um aperto de mãos, e logo caminharam em direções opostas. Foram em silêncio pelas ruas, até Annabeth tremer novamente. Percy passou os braços pelos ombros dela tentando esquentar a garota, mas ela logo ficou tensa com o ato.

Mesmo assim, nada comentou.

– Isso é tão bom – ela acabou dizendo um tempo depois. – Quero dizer, ter um lugar para ir. Eu estou realmente faminta.

– Eu também, não tinha percebido o quanto até agora.

– Sim – ela concordou. – Eu estava distraída com... – ela parou de falar por um tempo, envergonhada. Estava distraída com ele. – Com toda a situação.

Com o canto do olho, Annabeth percebeu que Percy havia concordado com a cabeça.

– Não precisamos do resto do dinheiro das drogas para nos alimentar – ele falou. – Digo, não por dias. Podemos gastar tudo em uma noite.

– O que você está sugerindo? – Annabeth perguntou.

– Vamos comer um cachorro-quente – quando ele disse isso, Annabeth sentiu que ele a apertava ainda mais forte para perto de si.

– Aqui não é os Estados Unidos, não é como se fossemos encontrar um carrinho de... – ela deixou a frase morrer, já que exatamente o que tinha mais à frente naquela rua era um carrinho de cachorro-quente.

– O que você dizia? – ele brincou, andando até o vendedor de cachorro-quente. Percy comprou dois, e um refrigerante, para então eles se sentarem em um banco.

– Então o dinheiro acabou? – perguntou Annabeth dando a primeira mordida. Ela não reprimiu o gemido de prazer.

– Eu prefiro quando você faz esse som por outros motivos – Percy flertou com ela, ao passo que ela tinha suas bochechas atingindo um tom levemente escarlate. – Não, o dinheiro não acabou. Ainda tem o suficiente para ir ao London Eye.

– O quê? – ela perguntou, quase engasgando, sabendo que tinha os olhos brilhando.

– O London Eye. Sabe, a roda gigante que é gigante e dá pra ver Londres por inteiro.

– Por inteiro é exagero – ela comentou, ainda meio entorpecida com a ideia.

– Você quer ir? – ele perguntou tímido, dando um gole no refrigerante.

– Quero... – ela respondeu vagamente, igualmente envergonhada. – Ah, meu Deus, como comer é bom!

– Eu sei – Percy concordou. – Senti falta disso. De uma comida boa, tipo, mesmo.

– Me sinto o Rony – brincou Annabeth.

– Ficar feliz com comida é a cara dele – ele concordou, soltando uma risada nasal. – Vamos no London Eye, então?

– Devem ser sete horas. Dá tempo de ir e voltar para a banca do Sr. D até nove?

– É claro que dá – o moreno revirou os olhos. – Vamos logo, ainda quero conversar com você.

– Podemos conversar aqui – ela disse, como se fosse a coisa mais óbvia a se fazer.

– Vamos lá em cima.

Se Annabeth não conhecesse Percy, poderia dizer que ele queria um pouco de romantismo, mas é claro que não era isso.

Eles terminaram de comer e de tomar o refrigerante, e começaram a caminhar do mesmo jeito que antes: ela encolhida pelo frio e ele com os braços ao seu redor, tentando a todo custo esquentar sua pele macia. Ela, com o tempo, abandonou a tensão e o abraçou de volta, fazendo-os parecer, a quem quer que os olhassem, um casal apaixonado.

Talvez fossem isso.

A fila estava extensa, como era de se esperar que estivesse, e Annabeth passou todo o tempo de espera encolhida nos braços de Percy.

Em um momento que ela achou que não aguentaria mais de frio, ele tirou a própria blusa e estendeu para ela. Annabeth olhou confusa para aquele gesto, mas mesmo assim não tardou a aceitar a gentileza.

– Obrigada – agradeceu, e depois olhou para o seu abdômen à mostra. Murmurou: — Duplamente obrigada.

– Eu ouvi isso – ele riu e ela sorriu.

– Isso tá ficando muito comum – disse Annabeth, alguns segundos depois.

– O quê? – ele indagou, agora ele mesmo se encolhendo pelo frio.

– Não quer sua camisa? – Annabeth ofereceu, mesmo que internamente rezasse para que ele dissesse não.

– Pode ficar – ele rejeitou. – O que está ficando comum?

– Bem, nós dois estamos brigando menos – Annabeth disse o óbvio. – Nós não estamos brigamos, para falar a verdade.

– Eu sei – ele sorriu. – Isso é bom.

– É? – ela perguntou hesitante.

– Deve ser – ele deu de ombros.

– Então eu não sinto ódio por você – ela chegou à conclusão. Percy suspirou.

– Vamos ter essa conversa lá em cima – ele sugeriu, por mais que parecesse uma ordem. Annabeth apenas assentiu.

A loira devolveu a ele sua camisa, que vestiu quando estavam na vez. Ele pagou a entrada e não muito tempo depois, entraram na cabine da roda gigante, com mais ou menos vinte e três pessoas a mais. Por terem sido os primeiros a chegar, eles conseguiram grudar no vidro da cabine e ter uma visão privilegiada, sem ninguém na frente, da vista de Londres.

Quando todos já estavam dentro da cabine e prontos para saírem do piso, Percy abraçou Annabeth por trás e tirou o cabelo dela do ombro direito, para ter espaço para colocar sua cabeça repousada. Ele beijou a pele exposta da loira quando sentiu que estavam em movimento.

Aos poucos, a visão completa – era essa a impressão que ela tinha – de Londres lhes atingiam a vista. Annabeth sentia-se maravilhada com tudo aquilo, e extremamente confortável com os braços de Percy ao seu redor ou então sua boca molhada em seu pescoço gelado.

– É lindo – ela comentou.

– É maravilhoso – ele concordou. – Eu sempre sonhei com isso. E preciso aproveitar o momento para falar com você.

– O quê?

– Não temos exatamente o exemplo de privacidade, mas... – ele sussurrou no pé do ouvido da loira, arrepiando-a. – Tem coisas que preciso falar.

– Fale – ela disse de volta, realmente ignorando o barulho e aglomerado de gente ao seu redor.

– Eu menti mais cedo – ele confessou. – E você sabe disso. Eu sempre transei com garotas, mas nenhuma ficou na minha cabeça por tanto tempo depois e...

– Isso é alguma espécie de declaração sexual? – brincou a loura.

– Não, é uma declaração de verdade – Percy falou. – Quer dizer... Eu gosto de você. Ficar mentindo dizendo que não significou nada pra mim não é como se fosse fazer isso mudar.

– Eu sei – ela sussurrou. – Também sinto isso.

– Obrigado por interromper meu monólogo ensaiado repetidas vezes na minha cabeça do caminho do prédio até aqui.

– Você estava ensaiando? – ela indagou, com um sorriso nos lábios.

– Sim – ele soltou uma risada. – E putamente nervoso com isso.

Ela riu.

– Desculpe.

– Você já parou pra pensar por que a gente se odiava? – ele perguntou e ela ficou em silêncio, esperando que ele respondesse. Notou o passado no verbo. – Por sua culpa. Não estou acusando, apenas constatando. Foi sem querer, naquele primeiro dia de aula, que eu derramei a bebida no seu livro. E depois você não me deixou pedir desculpas, você nem quis me ouvir. Eu odiei você por isso, e eu sou uma pessoa que vai com primeiras impressões. Depois eu odiei mais você porque você tinha a pior imagem de mim, sem nem querer olhar o verdadeiro Percy. Eu sou um homem, Annabeth, e vou aproveitar a vida. Não é muito justo você viver me julgando por querer traçar várias meninas. Ser assim não me faz menos humano, ou me faz pior que o Rony ou o Peeta. Eu só gosto de transar, e acho muito ridículo que você se ache superior a mim por não pensar só nisso. Aliás, eu não penso só nisso. Isso deveria ser uma declaração, mas acho que estou te acusando mais do que tudo porque eu guardei isso por um bom tempo. Ninguém nunca parou pra pensar no meu lado. Então, é, eu te odiava por nunca ter me dado a chance de ter virado seu amigo, porque, sinceramente, você é incrível. Mas só comecei a pensar em você depois que nós transamos. Não por causa da transa, mas porque eu disse que gostava de você. Porque eu fiquei mexido com o fato de você ter dito que gostava de mim. Porque a ficha meio que caiu ali, e eu vi o quanto... Isso seria perfeito. Eu sempre pensei em qual garota me faria ter vontade de largar todas as outras por ela, e eu acho que ela pode ser você. Se você também quiser.

Annabeth ficou em silêncio. Não pretendia ficar em silêncio, mas simplesmente não conseguia emitir nenhum som. Ela estava chorando, e se sentindo altamente patética por estar chorando. Mas também se sentia bem, porque se sentir daquele jeito era bom.

Não era como se alguma coisa na cabeça dele estivesse fazendo sentido.

– Não que eu esteja convencido de que você queira – ele falou, depois de um tempo, rápido. Havia começado a tagarelar. – Se você não quiser, eu vou fazer de tudo para-

– Você tirou minha virgindade, Perseu – ela o cortou, sussurrando. – Isso é alguma coisa.

Ele girou a cintura dela para que ficassem frente a frente. Com uma perfeita sincronia, ela sentia a língua de Percy movimentando em sua boca, e se sentia eufórica com aquilo. Era como se aquele beijo fosse o primeiro beijo deles, porque ela não o reconhecia. Percy estava diferente. Percy estava tímido, e passou pela cabeça dela que isso era novo pra ele.

Ela fechou os olhos, completamente relaxada.

Retornou a abrí-los quando, ofegante, afastou seus lábios do de Percy.

– A ponta do seu nariz está vermelho – ele contou, sorrindo. Ela riu.

– A culpa é sua. Desculpe por ter sido uma megera na época da escola. Eu sou orgulhosa.

– Conte uma novidade – ele brincou, sorrindo.

– Você me faz agir por impulso. Eu te beijei sem pensar e estou falando sem pensar. Eu não planejei. Odeio não planejar as coisas – ela contou, angustiada. – Eu não planejei sentir isso – completou, desviando o olhar. – Coisas assim me assustam.

– Você é tão complicada, Chase.

– A maior pedra no meu caminho sou eu mesma, muitas vezes. Eu me impeço de ser verdadeira comigo mesma. A verdade é que eu sinto algo por você, mas estou constantemente brigando contra isso.

– Você não pode controlar tudo, Annie. Você não pode controlar essas coisas. Eu estou perdidamente apaixonado por você. Eu não posso controlar isso. Nem você. Por que está tão relutante? – Medo. Ela morria de medo. Mas não disse nada. – Eu não tive uma chance de mostrar quem eu sou. Meu caráter, pra você, é formado de impressões. Me dê só uma chance, e eu posso te provar que eu posso ser o cara perfeito pra você.

– Você é bom com as palavras.

– Uma chance – ele pediu, com as sobrancelhas franzidas. Ele parecia desesperado.

Annabeth se forçou a pensar agilmente. Mas seu coração batia forte, e foi ele que impulsionou ela a aceitar aquilo.

– Eu dou até duas – ela falou, abraçando-o. – Provavelmente você vai precisar de duas.

Ele riu alegre, e a abraçou forte, de volta, tomando, em seguida, seus lábios para si.

Finalmente, Percy e Annabeth estavam oficialmente juntos.

Notas finais
Rony na friendzone lol adorei fazer isso spakpskapskapks #TeamDraco Eu fui a única a achar a Katniss extremamente imbecil? E quem vocês acham que são os três irmãos sobrinhos de Dionísio? pakspakspaks Até capítulo que vem!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.