Aventuras de Meryenn Crolw
3 Quando coelhos fofinhos atacam.
Após o sumiço repentino do Sr. Mistério ambulante, desci do galho.
Eu havia ouvido algo. Percorri meus olhos por toda a extensão daquele lugar, observando atentamente ouvi um farfalhar de folhas ao lado direito em relação à posição que me encontrava. Virei a cabeça em direção ao barulho. As folhas realmente se movimentavam, como se algo viesse em minha direção. Senti-me nervosa, receosa. Agarrei um galho grosso que se encontrava no chão e preparei-me para algo ruim. O barulho parou e dois coelhos, um de pelagem negra e olhinhos vermelhos saltados, no formato de pérolas, e outro com pelagem vermelha e olhinhos castanhos, igualmente saltados e em forma de pérolas, pularam para fora do arbusto e me observaram atentamente com seus olhos arredondados. Eles fizeram um barulho estranho e pularam para dentro de outro arbusto.
Respirei profundamente e larguei o galho no chão.
“Que susto.” Falei enquanto me acalmava.
“Tomou susto?” Perguntou uma voz conhecida atrás de mim.
Sobressaltei-me e vir-me-ei para a pessoa. Não dava para ver direito. Só entendi que era uma silhueta masculina.
“Quem é você?” Balbuciei nervosa. Sentia que o reconhecia de algum lugar.
“Não me reconhece, Lolly?” O homem falou e eu arregalei os olhos. Tentava avidamente me lembrar de aquela pessoa. Veio-me a cabeça vários nomes. Rafael Khant. Marcelo Cambridge. Jimmy Hwornt. Todos eram amigos que me chamavam assim. Mas esta não era a voz de nenhum deles.
Ele deu um passo à frente e pude ver seu rosto. Não era possível. Era ele! Os mesmos lábios repuxados num sorriso de escárnio, olhos, levemente puxados, indicando algum parentesco asiático, de cor misturada entre lilás-escuro e castanho-avermelhado, cabelos vermelhos repicados, bagunçadamente arrumados, no estilo surfista, roupas comuns, jeans surrados e camisa branca, ressaltando seus músculos bem-trabalhados, jeito de andar desleixado. Ele mexia no cabelo, bagunçando mais ainda os seus fios rebeldes.
“M-marcos?” Eu observei seus traços. “Marcos Longbottom?”
“Não. Márcia,prazer.” Ele sorriu mais, me fazendo rir. Era uma brincadeira que havíamos feito no tempo do colegial. Ele me dissera que queria entrar no basketball feminino, para ver as meninas jogando. Lembro-me que havia o dito: “É só se autodenominar Márcia, colocar uma peruca loira e uma mini-saia cor-de-rosa que ficará igual a aquelas vadias.”. Ele me deu seu clássico sorriso de canto de boca, imitou uma voz fininha e disse: “Prazer, sou Márcia. Qual o seu nome?” e nós rimos.
Corri em direção a ele e o abracei com força, pelo pescoço. Ele segurou minha cintura e falou no pé de minha orelha:
“Sentiu falta de mim, Lolita?” Seu bafo quente no meu pescoço me fez arrepiar.
“Senti, Márcinha.” Ele riu pelo nariz. “Como me encontrou, depois de todos esses anos?” Soltei um pouco o abraço para fitá-lo.
“Moro por aqui, Candy.” Ele me observava com seus olhos mesclados.
“Sério?” Surpreendi-me.
“Sim. Moro aqui desde aquele dia. Lembra?” Ele puxou minha mão. “Depois do último dia de aula.”
“Lembro.” Mordi o lábio inferior. “O dia em que me contou sobre Daniel.” Abaixei minha cabeça e observei o minúsculo bordado da letra M em sua camisa, lembrando-me de quando me dissera que odiava camisas muito estampadas (Conversa no fundo: Biah: Letra “M” na blusa? “M” de Meryenn? Ou de Marcos? Meryenn: Não, era da Mahalo, mas poderia ter esses sentidos. É mais um trocadilho ele ter usado aquela blusa. Biah: Ahn tá.).
“É. No tempo em que você usava roupas com pano numa medida mais normal.” Ele deu uma tapa de leve em minhas costas e eu sorri.
“São apenas para irritar a sargenta.” Ele deu mais um de seus clássicos sorrisos de canto de boca.
“Sargenta Melissa?” Soltei-me de seu abraço e fiz uma posição de soldado, esticando minha coluna e pondo a mão em sobre a testa.
“Afirmativo, senhor, sim, senhor!” Eu fiz uma pose de quem iria marchar e ele me observou com interesse. Marchei em círculos.
“Quer girar soldada?” Marcos me puxou pela cintura e rodou junto comigo por um bom tempo enquanto eu ria.
“Ficando tonta?” Perguntou quando meus olhos reviraram.
“Um... Pouco.” Respondi para depois vê-lo escorregar e me puxar para cair comigo por cima.
“Seu cabelo tá no meu olho.” Declarou ele estendendo uma mão para pô-lo por traz da orelha.
Minhas mãos estavam espalmadas em seu peito e minhas pernas entre as dele. Aquela posição estava estranha. Estranha não, erótica. Eu vi os dois coelhinhos de antes olhando curiosamente para mim, e me dando medo. Subitamente, ele girou, invertendo nossos lugares. Suas mãos encontravam-se uma de cada lado de meus ombros, seus joelhos "abraçavam" minhas pernas, minha respiração era ofegante e descompassada. Ele inclinou o corpo, aproximou-se do lóbulo da minha orelha e sussurrou.
“Gosto de ficar por cima.”
Com este comentário, senti meu rosto queimar, e descobri que estava corando. Virei meu rosto para a direita, com vergonha e subitamente lembrei-me de quando o chamava de “Bundão” por causa de seu sobrenome.
“Você era tão tarado assim desde aquele tempo?” Perguntei mais para mim mesma do que para ele e virei meu rosto para apenas constatar que sorria de canto mais uma vez.
“Só um pouco.” Ele respondeu e pôs-se a beijar meu pescoço.
“Marcos... Você não...” Ele me deu uma mordida. “Hey!”
“Uhm.” Ele murmurou dando mais mordidas bem distribuídas, me fazendo suspirar.
“Eu...” Não completei a frase, pois ele ainda beijava meu pescoço, me deixando ofegante.
“Hum... Morango.” Ele repuxou os lábios num esboço de sorriso e levantou-se me puxando com ele. “Você ainda tem gosto de morango. O que tem feito?” Perguntou como se nada tivesse acontecido e ele comentasse o tempo.
“Eu... Quer dizer... Hã?” Tentei me recuperar. Minha mente é um pouco lerda depois de um ataque surpresa de um ex-namorado gostosão.
“O. Que. Tem. Feito?” Ele repetiu passando as mãos na frente do meu rosto como se eu tivesse algum tipo de deficiência mental ou estivesse desligada do mundo.
“Ah sim.” Suspirei recompondo-me. “Fui deportada.”
Ele arregalou os olhos e riu.
“Sério?”
“Acho que sim. É algo parecido. Tenho que viver por aqui.” Respondi franzindo o cenho.
“Tem coisas que não mudam.” Ele comentou. “Lembra da vez em que foi expulsa da escola e implorou para minha mãe que me deixasse mudar de escola com você?” Eu ri
“Lembro. Ela falou que só deixaria se você afastasse o máximo possível aquela louca, vulgo eu, de sua casa” Ele me fitou.
“Ela me disse, após sua saída, que não queria que eu me envolvesse com gente deste tipo.”
“Deste... Tipo?” Inclinei um pouco a cabeça.
“É. Você sabe. Louca, descontrolada, sem compromisso com nada... Você.” Soltei uma exclamação e pus as mãos na cintura.
“Obrigada. Mulher adora saber que é descentrada e sem moral.” Ele sorriu.
“Mas você é. E é por isso que é a pessoa mais perfeita no mundo” Meu queixo caiu.
“Perfeita? Eu?” Ri com descrença. “Se fosse perfeita não seria louca. Eu acho.”
“Por isso que és perfeita.” O observei curiosa. “Não tenta agradar a nada. Só a si mesma.” Ele sorriu. Desta vez abertamente, mostrando todos os dentes perfeitos, brancos e alinhados para mim. “E sendo perfeita para si mesma, você é perfeita para todos.” Terminou antes de me dar um singelo beijo no rosto e sumir pela mata.
Aquilo sim estava estranho. Lembro-me de que as únicas palavras bonitas que ele teria me dito um dia, foi quando namorávamos. No resto do tempo ele era sempre sarcástico e comediante. Nunca romântico. Será que alguém teria amarrado o coraçãozinho de pedra do meu fogoso? Não... Acho que se ele estivesse namorando não teria me agarrado em meio à floresta.
Confusa com meus próprios pensamentos, voltei para o “bangalô”. Fui diretamente para o meu quarto.
“Mery.” Meu pai encontrava-se sentado na minha cama.
“Eu.” Ironizei.
“Sua mãe me contou sobre o seu quarto e eu resolvi ver pessoalmente.” Ele riu. “Ficou um tanto... Extravagante” Ele observou tudo em volta. “O que aconteceu com as cortinas?” Ele apontou para a janela.
“Nada, ainda” Respondi contraindo os ombros para demonstrar meu descaso.
“Você tem uma língua solta não é pequena?” Ele riu.
“Culpada.” Disse eu, levantando a mão direita.
“Tente não enlouquecer sem o seu celular.” Ele finalizou a conversa com este comentário, depositou um beijo em minha testa e saiu.
“Eu não irei, senhor Crolw!” Gritei para ele.
Entrei em meu closet e percebi que meu pai havia arrumado tudo, ainda por cima, ordenou pela cor. Ri. Peguei uma roupa limpa. Short branco, Blusa preta e minhas roupas íntimas. Joguei tudo em cima da cama e fui tomar meu banho. Entrei no Box, me ensaboei e cantarolei alguma música aleatória enquanto colocava shampoo no cabelo. [...] Terminei meu banho com uma música chamada Lucky, da Colbie.
Assim que saí do banheiro, enrolada numa toalha, encontrei com o quê?
Os coelhos.
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